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SEÇÃO 1 PODER POLÍTICO: ELEMENTOS DE INTRODUÇÃO

1.1 Poder como Categoria Conceitual

1.1.3 Problemas Centrais do Poder: o Modus e o Locus

A complexidade do poder, decorrente da sua variedade de manifestações e de suas origens, torna o seu estudo uma tarefa bastante difícil, como se observa da multiplicidade de abordagens na teorização em torno do tema.

Há, entretanto, dois eixos temáticos relativamente claros na identificação das controvérsias em torno do poder, que se poderiam resumir no problema do modus do poder e no problema do locus do poder.

De início, é importante esclarecer que a seleção dessas duas palavras latinas para retratar esses dois eixos temáticos do debate tem o propósito exclusivo de sistematizar a exposição e de introduzir um vocabulário até agora não comprometido com qualquer das muitas concepções antagônicas em torno da conceituação do poder. Não se pretende com elas, pois, introduzir uma nova categoria ou estabelecer um modelo estritamente semântico da problemática, e tampouco se ignora que a construção desse saber não é de maneira alguma neutra.

O problema do modus do poder pretende retratar a controvérsia existente sobre o modo de operação do conceito, que se divide entre concepções causais e concepções disposicionais do poder. Já o problema do locus do poder tenciona referir a controvérsia que existe sobre o local onde está centrado o poder, que se separa entre concepções individualistas e concepções estruturalistas.

(a) problema do locus do poder

A existência dessas duas linhas de problematização é reconhecida por Keith M. Dowding, embora este autor não utilize a terminologia aqui proposta. Além disso, a sua abordagem não é tão complexa quanto a que se pretende aqui desenvolver, embora, do ponto de vista metodológico da exposição, pode ser um ponto de partida que será progressivamente ampliado ao longo da narrativa.

Segundo ele, há duas principais divisões envolvendo o estudo do poder: uma diz respeito à manutenção do poder por indivíduos ou estruturas, e outra relaciona-se às definições causais e disposicionais.

O problema do locus do poder deve ser o primeiro a merecer atenção, considerando que a definição do local onde está situado atribui uma operacionalidade diferente para o conceito. No tocante à primeira divisão, explica o autor que existem basicamente concepções estruturalistas e individualistas.

De início, ele observa a necessidade de definir propriamente o que vem a ser “estrutura”. Embora este estudioso reconheça a limitação desse conceito, notadamente à vista da grande controvérsia sobre o assunto, ele indica a interpretação que entende “mais clara”: “[a] estrutura de alguma coisa é o relacionamento que suas partes constitutivas têm umas com as outras. A estrutura não existe acima ou além de suas partes constitutivas – se não houvesse partes não haveria estrutura – mas a estrutura é logicamente independente das partes” (DOWDING, 1991, p. 5). No âmbito da sociedade, por exemplo, os indivíduos são parte da estrutura social.

Essa interpretação é complementada por outro autor, ao explicar que “[a] teoria da estruturação foi desenvolvida em resposta ao dualismo que existe na teoria social. O dualismo a que se refere é a divisão entre teorias centradas no sujeito e centradas no objeto [...]” (HAUGAARD, 1997, p. 98).

No tocante à teoria individualista, o poder é um atributo ou qualidade do sujeito, e não da estrutura, que, assim, se diferencia por ele e com ele. Nesse entendimento, o poder está

associado a um indivíduo que, por interesse ou outro fundamento, exerce o poder para obter um resultado específico ou fazer uma “diferença”, por exemplo, conforme as diversas apreciações teóricas desse fenômeno que serão desenvolvidas mais adiante.

Na perspectiva do dualismo da teoria social, deve-se observar que o poder está centrado no sujeito. A propósito, e ainda nesse âmbito da abordagem sociológica, pode-se destacar a associação que o pensamento marxista faz entre o poder e a “luta de classes”, que não apenas constitui a história, mas o próprio Estado como aparelho de dominação de uma classe sobre outra, o que não pode ser enquadrado com perfeição nesse dualismo entre sujeito e objeto.

No tocante à teoria estruturalista, é importante notar que o poder é associado à estrutura da ordem social e somente pode ser pensado no seu campo de ação.

Ao explicar sua concepção de poder, Anthony Giddens caminha nessa direção. A sua tese é no sentido de que o poder, em primeiro lugar, não está vinculado necessariamente a algum tipo de conflito (como uma resposta às teorias marxistas) ou interesse (como uma resposta às teorias utilitaristas), e, em segundo lugar, decorre de estruturas de reprodução social, de onde “flui”: “[p]oder não é necessariamente conectado com conflito no sentido de divisão de interesse nem de conflito ativo, e poder não é por essência opressivo [...]”. Prossegue o autor: “[p]oder é a capacidade de obter resultados; se eles estão ou não conectados a interesses puramente setoriais não é essencial à sua definição [...]”, porque a emergência do poder exige “[...] estruturas de dominação mediante as quais opera o poder que ‘flui suavemente’ em processos de reprodução social (e é, como se fosse, ‘não-visto’). [...] O poder [...] é gerado na reprodução de estruturas de dominação e através delas” (GIDDENS, 1984, p. 257-258; ver também: GIDDENS, 1987, p. 73-108).

Explicitando essa concepção citada, complementam Henri Goverde et al. que as estruturas existem no âmbito de práticas sociais, e as estruturas sociais simultaneamente limitam e possibilitam a ação social: “[a]ssim como os discursos, as estruturas constituem parte das condições de possibilidade das práticas sociais. Para usar a terminologia de Giddens, estruturas são simultaneamente possibilitadoras e constritivas”. Prosseguem os autores ainda para dizer que “[o] aspecto possibilitador da estrutura social é ‘poder para’, como capacidade de ação (a imagem consensual do poder). Esta capacidade para ação, ‘poder para’, pode também ser exercida para dominar outros e, então, pode ser exercida ‘sobre’ outros” (GOVERDE et al., 2000, p. 37).

Esse mesmo nexo direto com a concepção estrutural também é estabelecido por Keith M. Dowding, embora se enfatize que ele admite o caráter disposicional do poder. Expõe ele: “[c]omo o poder é uma propriedade disposicional de um objeto, é também estrutural no

sentido de que sua natureza deriva do relacionamento entre certas propriedades daquele objeto e propriedades do meio externo”. Ressalva, porém, que isso corresponde a uma qualidade do objeto em si porque o poder “[...] é ao mesmo tempo uma propriedade dos objetos e uma relação entre eles. Nós normalmente nos referimos a ‘poder político’ como uma propriedade de indivíduos e organizações (ou algumas vezes grupos não-organizados de pessoas)” (DOWDING, 1991, p. 6). Nesse sentido, argumenta ele, não se pode sustentar que o poder esteja na estrutura, mas apenas se realiza ou se exercita no interior de uma determinada moldura social.

A interpretação desse estudioso é no sentido de que alguns teóricos tendem a atribuir o poder à estrutura pelo fato de que as oportunidades oferecidas aos indivíduos decorrem dela, mas isso, expõe o autor, não lhe transfere o poder que é dos indivíduos, porque estes atuam “[...] da forma como eles o fazem não apenas por causa de suas vontades e desejos, mas também por causa das oportunidades que eles percebem estar abertas para eles. Esta percepção está diretamente relacionada com a posição deles na estrutura social”. Esse problema de interpretação, segundo o autor, é “[...] o que leva alguns analistas a acreditar que poder é uma propriedade da estrutura social”, embora em nada altere a natureza do poder (DOWDING, 1991, p. 7).

Em síntese, e seguindo a distinção proposta por esse último autor, a literatura sobre o tema retrata vários exemplos de abordagens individualistas (LUKES, 2004; DYRBERG, 1997) e de abordagens estruturalistas (WARD, 1984; GIDDENS, 1984).

Avançando para além dessa abordagem e ao tratar da origem do poder, Torben Bech Dyrberg acresce outras subdivisões a esta última, entre individualistas e estruturalistas. Segundo o autor, a origem do poder deve ser compreendida em duas perspectivas distintas: a primeira envolve a denominada concepção derivativa, e a segunda, a concepção não- derivativa.

A primeira concepção (derivativa) está fundada no dualismo entre agente e estrutura. O poder, aqui, é compreendido como um resultado ou concessão da estrutura na qual o agente se insere. Nesse sentido, e na perspectiva política, por exemplo, o indivíduo recebe o poder da própria estrutura do poder político. Tomando-se a tradição política que se inicia com Thomas Hobbes como referência, pode-se afirmar que o poder do indivíduo deriva da concessão do poder político da estrutura na qual se firma o contrato social. Por isso, diz Torben Bech Dyrberg que: “[a] faculdade de vontade do indivíduo é, de um lado, admitida sem questionar, o que significa dizer que é prévia ao contrato e, então, pressuposta por ele”, ou que “[...] o contrato como contrato pressupõe que seja voluntariamente aderido por vontades autônomas e

racionais, ou ele não poderia ser legal e moralmente vinculante”. Resume o pensador em questão: “[...] sujeito constitutivo ainda somente pode existir, de outro lado, dentro da moldura criada pelo contrato (a ordem social), e implica que o contrato não apenas pressupõe o sujeito constitutivo, mas que também tem um papel ativo em realmente o constituir”. Essa concepção derivativa, por sua vez, revela-se problemática pelo seu caráter circular, na medida em que o sujeito é tido como pressuposto para a formação do pacto, mas ao mesmo tempo só se realiza “[...] quando o poder político afirma o sujeito ‘como ele é’. O poder político retroativamente constrói o sujeito como um ser cuja autonomia e racionalidade antecedem o evento político de entrar no contrato” (DYRBERG, 1997, p. 5).

Essa concepção derivativa, ademais, especialmente quando fundada no modelo hobbesiano de “poder sobre”, implica o reconhecimento de que o poder político, como tal, encerra um caráter absoluto e geral. Nessa linha, e ao passar do estado de natureza para o Leviatã, o indivíduo concorda em sujeitar-se ao absoluto poder do Estado. Isso significa, em contrapartida, admitir que, em uma situação-limite, o indivíduo seria privado de toda a liberdade por encontrar-se sempre sob o exercício do poder do Estado, mas que os direitos individuais limitam o exercício do poder do Estado, e, assim, abrem espaço para uma certa quantidade de liberdade frente àquele poder.

Prossegue o autor citado, esclarecendo que essa relação paradoxal entre o agente e a estrutura abala a assertiva de que o poder político deve estar situado no Estado como seu reduto de exercício legítimo para proteger a sociedade civil: “[e]sta afirmação – como sustentada, por exemplo, por Habermas, Held e Keane – inevitavelmente atribui um papel esquizofrênico ao poder político, especificamente que ele é um ‘mal necessário’”. Explica o teórico que o poder “[...] é necessário porque ele subjetiva o sujeito ‘como ele é’ e, por extensão, garante a ordem; e ele é um mal naquilo que ele sujeita, no sentido de enclausurar, a autonomia e a racionalidade do sujeito” (DYRBERG, 1997, p. 6).

A segunda concepção (não-derivativa) entende o poder como um atributo imanente. Para o mesmo estudioso, “poder é uma relação ou processo irredutível; irredutível no sentido de que ele não pode ser derivado de nada acima, além ou pré-existente às próprias relações que constituem esse processo”. Por isso, o poder não pode ser originado “[...] de alguma forma de objetividade social, como livre vontade ou determinação estrutural” (DYRBERG, 1997, p. 7). Ele afirma, assim, a natureza imanente do poder, na acepção já empregada por Michel Foucault, e que deve ser compreendida em termos de sua negatividade. Note-se que, na sua concepção, Torben Bech Dyrberg simultaneamente exclui a possibilidade de o poder estar centrado no indivíduo (“livre vontade”) ou na estrutura (“determinação estrutural”).

Como afirma Torben Bech Dyrberg, a negatividade, aqui, é uma conceitualização de limite ou “uma lógica política de inclusão e exclusão, de presença e ausência; uma que constitua e subverta a outra reciprocamente”. Nesse sentido, “negatividade, como o obstáculo inerente dentro da identidade, é constitutiva para a identidade ao ponto em que ela induz processos de identificação e significação no sujeito”. Este teórico resume a idéia de que o “[p]oder é este limite, o momento político de indecidibilidade que, em confronto com o sujeito, constitui sua identidade. Ele sujeita e sujeitifica através de objetivação. O poder como negatividade não significa que ele é uma ‘força negativa’, um mero mecanismo repressor”. Em verdade, o poder é um mecanismo simultaneamente produtor e repressor, porque expõe “[...] o sujeito para possibilidades de significação que ele simplesmente não consegue dominar, mas, exatamente por essas possibilidades, e a despeito delas, oferece novas condições para a emergência, institucionalização, reprodução ou inclusive destruição delas”. Após analisar essas concepções, conclui Torben Bech Dyrberg que o poder constitui verdadeiramente uma “situação estratégica complexa” (DYRBERG, 1997, p. 17).

A concepção de Thomas Hobbes, nesse aspecto, também se filia à corrente “não- derivativa”. Ele identificava o poder como diretamente associado à natureza humana: “[e]u considero, por tendência geral de todo ser humano, o desejo perpétuo e incessante de poder depois de poder, o qual cessa apenas na morte” (HOBBES, 1957, p. 64).

É interessante observar que a concepção “derivativa” sobre a origem do poder, de Torben Bech Dyrberg, envolve, ao mesmo tempo, as teorias “individualistas” e “estruturalistas” do poder expostas por Keith M. Dowding. O primeiro, contudo, vai mais adiante que o último. Considerando que admite a possibilidade de uma origem “não- derivativa” do poder, ele está igualmente admitindo a existência de concepções sobre o poder que não se fundamentem no indivíduo ou na estrutura.

A análise conjugada das concepções sobre a “origem” do poder, exposta por Torben Bech Dyrberg, e das concepções sobre as teorias “individualistas” e “estruturalistas” do poder, expostas por Keith M. Dowding, permite estender o panorama de sua compreensão teórica e situar o debate que se segue sobre o modus do poder.

(b) problema do modus do poder

O problema do modus do poder pode agora merecer atenção, inclusive pelas implicações que decorrem da adoção de uma ou outra concepção. No tocante a essa

problemática, observa Keith M. Dowding que existem duas abordagens usuais em torno do poder: as causais e as disposicionais.

A definição causal imputa ao conceito de poder uma ação que produz um resultado sobre a conduta de outrem. Todavia, observa esse pesquisador desde o início que “o simples problema com a definição causal é que ela é falsa”. Usando o conceito mais antigo de Robert Dahl sobre poder, ele exemplifica esse argumento: “’C tem poder sobre R’ não significa que ‘o comportamento de C causa o comportamento de R’, assim como ‘esta xícara é frágil’ não significa ‘esta xícara está quebrando’” (DOWDING, 1991, p. 4). A definição puramente causal do poder é de difícil sustentação teórica, como já exposto, porque se funda em um resultado ou inferência necessária sobre o poder, o que é desmentido prontamente por uma análise lógica mais atenta. Como se explicitará mais adiante, esse problema da definição causal será retomado como a “falácia de exercício”.

A definição disposicional, por sua vez, considera um atributo do objeto como ponto de partida para a análise. No caso do poder, ainda segundo Keith M. Dowding, trata-se de uma disponibilidade ou capacidade, porque o poder encontra-se em uma faculdade de ser exercido ou não. Assegura ele: “propriedades disposicionais são, então, sempre teoréticas como padrão, e, quando nós atribuímos uma propriedade disposicional a um objeto, nós estamos atribuindo alguma coisa que pode nunca vir a ser provada”. Nesse sentido, atribuir a um governante a qualidade de “forte” é uma definição disposicional, porque ele pode nunca vir a exteriorizar esse atributo (a “força”) e, assim, nunca ser concretizada ou mesmo provada essa atribuição. O próprio autor observa que associar poder à capacidade implica pressupor a existência de determinadas condições ou propriedades para o exercício, ou “nós olhamos para os recursos que eles têm”. Observa, não obstante, que: “[...] olhar para aqueles recursos não é suficiente para medir suas capacidades, porque aqueles recursos irão apenas permitir que os atores produzam resultados sob certas condições”. Embora ele deixe claro que o poder de um determinado agente é “difícil de quantificar”, Keith M. Dowding adverte que essa “[…] dificuldade de quantificar o poder não deve nos levar a ignorar isso nem a alterar conceitualizações ou definições por causa disso” (DOWDING, 1991, p. 4-5, grifo do original).

Os teóricos dividem-se em torno dessas abordagens. Alguns, como Nelson W. Polsby, por exemplo, adotam definição causal (POLSBY, 1980, p. 102). Outros, como Peter Morriss, seguem definições disposicionais (MORRISS, 1987, p. 19). Um terceiro grupo, ainda, como Steven Lukes, por exemplo, adotou inicialmente uma concepção causal (LUKES, 1974, p. 26- 33), e, depois, adotou uma concepção disposicional (LUKES, 2004, p. 65).

Essa abordagem de Keith M. Dowding é complementada pela concepção de Peter Morriss. Em primeiro lugar, este autor desenvolve uma idéia análoga para distinguir conceitos “disposicionais” de conceitos “episódicos”; em seguida, ele aponta o problema das falácias em torno da compreensão do poder; e, por fim, identifica os conceitos de “habilidade” (“ability”) e “aptidão” (“ableness”).

O primeiro ponto enfatizado por ele é que, ao tratar do “poder”, encontra o estudo diante de um conceito “disposicional”, que, por sua vez, não pode ser confundido com um conceito “episódico”. O primeiro aponta para uma propriedade do objeto, e o segundo para a sua concretização ou ocorrência. Destaca ainda que se trata de categorias bem distintas: “[...] conceitos episódicos indicam acontecimentos ou eventos, ao passo que disposicionais referem a capacidades relativamente duradouras de objetos” (MORRISS, 1987, p. 14).

O segundo ponto enfatizado pelo autor é que a não-compreensão da peculiaridade dos conceitos disposicionais pode levar o pesquisador a incorrer em equívoco, notadamente a cair na armadilha da “falácia de exercício” (“the exercise fallacy”) e da “falácia de veículo” (“the vehicle fallacy”).

A “falácia de exercício” decorre da suposição de que o poder seja o seu próprio exercício. Essa concepção reduzida do poder ignora a distinção entre a disposição em si e a sua manifestação ou exteriorização. Como uma capacidade, o poder não precisa ser exercido para existir. E, ainda, seu exercício pode não ser visível ou fisicamente perceptível. Nesse tipo de falácia, como adverte Peter Morriss, parecem ter incorrido Thomas Hobbes e outros (MORRISS, 1987, p. 15). Nesse sentido, por exemplo, a existência de um poder militar de um determinado Estado pode alterar a conduta de outro Estado sem, todavia, movimentar qualquer unidade militar ou mesmo sequer tentar isso.

A “falácia de veículo” origina-se da suposição de que um conceito disposicional tem essa característica por conta de uma estrutura interna. Essa falácia leva a afirmar que o poder seja identificado com a própria fonte ou meio de origem do poder, como inadvertidamente se pode concluir ao tentar compreender o poder apenas com base nos recursos ou meios que oferecem ou atribuem poder. O poder em si de obter um determinado resultado mediante a conduta de outra pessoa (obter o voto dela em favor de determinada proposição) não se confunde com a fonte desse poder (o medo de sofrer uma violência física, se o outro for mais forte; ou o receio de perder o emprego, se o outro for o empregador, por exemplo). O poder, em si, é único, mas as suas origens ou “veículos” são os mais diversos possíveis. Como adverte Peter Morriss, todavia, “perguntar porque uma substância tem uma propriedade (em virtude do quê) é diferente de, e também não é pressuposto para, afirmar que ela tem essa

propriedade”. Por essa razão, argumenta o autor que essa falácia “tende a ser cometida mais por filósofos do que por cientistas políticos” (MORRISS, 1987, p. 18, grifos do original).

Resumindo o ponto em análise, esclarece este estudioso que o poder, entendido como “[...] um conceito disposicional, não é uma coisa (um recurso ou veículo) nem um evento (um exercício de poder); é uma capacidade. [...] Nós não precisamos nos envergonhar que ‘poder’ é um tipo de conceito disposicional” (MORRISS, 1987, p. 19, grifo do original).

O terceiro ponto enfatizado por Peter Morriss é a idéia de que o poder deve ser entendido no sentido bem geral “como um tipo de habilidade”. Todavia, como ele próprio observa, há um grande elenco de conceitos que tratam do poder em vista da sua habilidade ou capacidade, mas que apresentam certas características em comum que permitem reuni-los em determinados grupos. Esclarece o autor, assim, que há “famílias” de conceitos de habilidade, e, na sua teoria, agrupa-os em três grandes “famílias” (MORRISS, 1987, p. 48).

A primeira família de conceitos de habilidade envolve “habilidades epistêmicas”, “habilidades não-epistêmicas” e “habilidades latentes” (MORRISS, 1987, p. 52-59).

“Habilidades não-epistêmicas” são aquelas que se executam sem considerar (ou a despeito de) o conhecimento do agente sobre a forma de agir. Explica o autor que as habilidades não-epistêmicas dos agentes “[...] incluem todas as ações básicas que você pode realizar, todas as ações realizadas em decorrência dessas ações, todas as ações produzidas em níveis por elas, e todas as conseqüências dessas ações que irão ocorrer no tempo permitido” (MORRISS, 1987, p. 53). Um exemplo, aqui, pode ser o caso em que determinado governante de um Estado detecta que as importações são superiores às exportações, gerando déficit na balança comercial, e considera tomar uma decisão para terminar com o déficit e equilibrar a balança. Uma ação não-epistêmica é simplesmente aumentar o imposto de importação de todos os produtos importados. Essa medida pode eventualmente diminuir as importações, mas isso não é um resultado necessário. O volume das importações, por exemplo, pode não estar