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SEÇÃO 1 PODER POLÍTICO: ELEMENTOS DE INTRODUÇÃO

1.2 Classificações Tradicionais do Poder: o “Poder Para” e o “Poder Sobre”

1.2.3 Concepção de “Tridimensionalidade” do Poder em Lukes

O debate em torno do poder concentrava-se na ênfase ao “poder sobre”, e, de forma mais tênue, no seu contraste com o “poder para”, até o lançamento da polêmica tese de Steven Lukes. Na sua obra, ele introduz uma categorização diferente da questão do poder (LUKES, 1974), ainda centrada basicamente no “poder sobre” e que passou a exercer significativa influência nos estudos que se seguiram, embora sua tese tenha sido parcialmente revista em obra posterior (LUKES, 2004), a qual serve de fio condutor para a análise.

Segundo este autor, pode-se resumir o conjunto de concepções sobre o poder em três grupos: visão unidimensional, visão bidimensional e visão tridimensional.

Com o propósito de sistematizar a abordagem da teoria introduzida por ele e seus fundamentos, serão analisados, a seguir, os três grupos de concepções referidos pelo autor.

(a) visão “unidimensional”

O primeiro grupo referido por Steven Lukes é o da denominada visão unidimensional. Neste elenco, o autor inclui as chamadas considerações “pluralistas” ou “liberais” sobre o

poder, que desenvolvem uma teoria “behaviorista” sobre o tema. Diz ele que a visão unidimensional do poder, como primeira perspectiva que se apresenta para sua compreensão, “[...] envolve um olhar no comportamento na tomada de decisões de questões sobre as quais há um observável conflito de interesses (subjetivos), vistos como preferências políticas expressas, reveladas por participação poltítica” (LUKES, 2004, p. 19, grifos do original).

De forma mais específica, essa concepção é desenvolvida, dentre outros, por Nelson W. Polsby e Robert Dahl.

Nelson W. Polsby, inicialmente, fundamenta a necessidade de desenvolver uma concepção mais abrangente de poder na insuficiência teórica da denominada “teoria da estratificação” que domina a compreensão da sociedade e, por decorrência, do próprio poder. Diz este estudioso que: “nós podemos considerar a teoria da estratificação, nessa expressão mais ampla, como um perspectiva intelectual que vê a sociedade com um organismo análogo na sua estrutura a um bolo de camadas”. Nessa mesma trilha, os teóricos da estratificação social “[...] discutem questões como quem pertence a qual camada e porque, o que acontece em cada camada, e quais as relações entre pessoas de camadas diferentes. A estratificação em si refere-se à distribuição de valores na sociedade”. O poder, na concepção, é um dos valores em jogo: “Nós podemos pensar em valores como coisas ou eventos desejados por indivíduos ou grupos na sociedade. Os valores mais comumente empregados nas análises da moderna estratificação são variantes de uma das três seguintes: chances da vida, prestígio e poder”. Prossegue ele, esclarecendo que os três valores citados são reconhecidos implicita ou expressamente na doutrina como distribuídos sem isonomia no campo social, e que igualmente “[...] podem ser quantificados pelo menos em termos gerais pelo observador e que os indivíduos, ou pelo menos ‘classes’ de indivíduos, estão ordenados transitivamente com respeito a sua posse de cada valor […]”. O conceito de poder, na teoria da estratificação, é a “[...] capacidade de realizar a vontade de alguém, mesmo sob objeções” (POLSBY, 1980, p. 98-99 e 108, grifo do original).

Este teórico aponta, porém, as diversas limitações da concepção de sociedade, que, em última instância, também restringem a compreensão do poder. Por exemplo, e dentre outras questões, observa ele que esses valores não podem ser exatamente quantificados, nos seus montantes. O caso do poder é emblemático, seja pelo problema de sua nem sempre observável empiria, seja pela dificuldade de estabelecer comparação com os demais valores. Além disso, aponta ele, ainda quanto ao poder, que, embora possa ser percebido que há distribuição desigual de poder na sociedade, pouco se pode dizer sobre a forma ou permanência dessa

desigualdade ao longo do tempo, e, muito menos, sobre a dominância de uma determinada classe ou estrato sobre as demais.

Para superar essas limitações, Nelson W. Polsby arrola as pressuposições básicas da denominada concepção pluralista.

Aponta ele que “[a] primeira e talvez mais básica pressuposição da abordagem pluralista é que nada categórico pode ser afirmado sobre poder em alguma comunidade. Isso rejeita a tese da estratificação de que algum grupo necessariamente domina a comunidade” (POLSBY, 1980, p. 113, grifo do original). Por isso, a questão fundamental não é “quem domina” uma comunidade, mas sim, se, de fato, “alguém” domina a comunidade.

O autor também observa que “[o]utra pressuposição da abordagem pluralista vai diretamente contra a pressuposição da teoria da estratificação de que as distribuições de poder são mais ou menos um aspecto da estrutura social”. Ele explica que, ao contrário dos outros, os “[p]luralistas dizem que o poder pode estar vinculado a questões, e questões podem ser volúveis ou persistentes, provocando coalizões entre grupos de interesse e cidadãos, variando na sua duração do momentâneo ao semipermanente”. Por isso, complementa-se a idéia anterior, no sentido de que, de um lado, os padrões de tomada de decisão são mais temporários do que permanentes, e que, de outro lado, “o comportamento humano é governado em grande parte pela inércia” (POLSBY, 1980, p. 115-116). Logo, e nessa visão, não há um grupo necessariamente dominando a comunidade.

Um outro ponto de superação da teoria da estratificação reside no conceito em si mesmo de poder. Diz ele: “[c]omo nós vimos, os teóricos da estratificação enfatizam a catalogação das bases do poder, ou recursos avaliáveis aos atores pelo exercício do poder. Pluralistas, de outro lado, concentram-se no exercício em si do poder” (POLSBY, 1980, p. 119). Nelson W. Polsby mostra que a enumeração dessas fontes é expressiva e que, por isso, seria mais importante atentar para a maior ou menor habilidade no exercício do poder na sua prática. Cabe aqui relembrar que este teórico ainda traz à tona o problema da falácia do exercício e da falácia do veículo, já analisadas (MORRISS, 1987, p. 15-19).

Concluindo, elenca o autor como “recomendações práticas” para o estudo do poder, como guia do seu conceito: (a) “selecionar áreas de questões como foco do seu estudo de poder da comunidade”; (b) “defender essas áreas de questões como muito importantes na vida da comunidade”; (c) “estudar o comportamento real”; e (d) “estudar os resultados de decisões reais dentro da comunidade”, observando que saber as “intenções” é importante também, mas isso não assegura o resultado por si só (POLSBY, 1980, p. 120-121).

Robert Dahl é outro teórico que desenvolve um conceito em pressupostos similares. Ele, inicialmente, observa que há inúmeras implicações relativas à compreensão do poder, como seu significado, sua intensidade, seu papel, seu objetivo, sua distribuição e sua motivação, por exemplo. Entretanto, e como atentamente explica adiante, a relevância do estudo do poder ao longo do tempo está diretamente relacionada com a moral e com o seu significado prático em cada época própria, porque seria muito difícil justificar a intensidade do debate sobre o poder “[...] e a extensão até a qual teóricos políticos nos últimos vinte e cinco séculos preocuparam- se com as relações de poder e autoridade, se não fosse o significado moral e prático do poder para qualquer pessoa ligada na vida política, seja como observador ou ativista” (DAHL, 1986, p. 38).

Na concepção de Robert Dahl, os “termos de poder” envolvem conjuntos de relacionamentos “[...] entre unidades sociais de tal forma que os comportamentos de uma ou

mais unidades (as unidades de resposta, R) dependam em alguma circunstância do comportamento de outras unidades (as unidades de controle, C)”. “Termos de poder”, na sua

concepção, são “poder”, “influência”, “autoridade” e “regra” (“power, influence, authority e

rule”) (DAHL, 1986, p. 39-40, grifos do original). Em outra obra, o estudioso refere-se a eles

como “termos de influência” (“influence-terms”) (DAHL, 1970, p. 15). Percebe-se na obra dele e também na de Nelson W. Polsby uma certa sinonímia de todos esses termos utilizados de forma intercambiável.

Na sua definição, o autor ressalva que “termos de poder nas ciências sociais excluem relações com objetos inanimados ou mesmo não-humanos”, como coisas ou animais, por exemplo. Assim sendo, e como ele próprio exemplifica mais adiante, esse conceito inclui o “poder de uma nação” (DAHL, 1986, p. 40).

Além disso, para Robert Dahl, também é fundamental identificar a presença de “manifesta intenção”. Diz ele que é importante distinguir “ter e exercer poder”, porque “[e]sta distinção é também envolvida na forma como reações antecipadas funcionam com uma base para influência e poder”. Explica o autor que a distinção entre o ter e o exercer poder “poderia se basear na presença ou ausência de intenção manifesta”, porque, se for considerada essa variável, “[...] ao estudar o exercício do poder, teria que ser examinado não apenas as percepções e respostas de R [a unidade de resposta] mas também as intenções e ações de C [a

unidade de controle]” (DAHL, 1986, p. 51-53, grifos do original).

Está bastante claro, na sua idéia, que o poder relaciona-se diretamente com o comportamento de um determinado ator. Ademais, a compreensão do poder, segundo esse teórico, pressupõe a análise de situações concretas e específicas, notadamente das decisões

tomadas pelos atores na realidade. Explica ele que “[a]lgumas das conexões que um analista do poder pode considerar como ‘efeitos’ a serem explicados pela busca de causas são os resultados de decisões específicas”, citando: (a) “os valores, atitudes e expectativas reais dos tomadores de decisão”; (b) “os seus valores ou atitudes anteriores ou mais fundamentais”; e (c) “as atitudes e valores de outros participantes – ou não-participantes – cuja participação é de alguma forma significativa”. Resume o autor, por fim, que “[n]ão há dúvida de que uma ‘completa’ explicação das relações de poder em um sistema político tentará considerar todos esses efeitos e outros” (DAHL, 1986, p. 50).

A visão unidimensional do poder significa, então, que o seu estudo está centrado no “tomar decisão” (“decision-making”). Este, por sua vez, e complementarmente, é considerado à vista da realidade concreta e pela intenção do agente, o que configura a sua concepção dita comportamental ou “behaviorista”.

De acordo com Steven Lukes, essa concepção, entretanto, mostra-se de alguma forma limitada, na medida em que é hábil para compreender o comportamento de tomada de decisão dos atores políticos, mas não consegue abarcar a amplitude do sistema político e não é competente para explicar o controle da agenda política, notadamente pelos processos relativos à sua formação e gerenciamento (LUKES, 2004). Essas limitações serão o ponto de partida da visão “bidimensional”.

(b) visão “bidimensional”

O segundo grupo teórico referido por Steven Lukes é o da denominada visão “bidimensional”. Neste elenco, o estudioso arrola o conjunto dos críticos às concepções “pluralistas”, ou “reformistas”, que desenvolvem a denominada “crítica qualificada do behaviorismo”. Na visão desses críticos, o poder tem duas faces, não suficientemente exploradas pelos “pluralistas”.

Peter Bachrach e Morton S. Baratz retratam com propriedade essa visão de poder. Ao analisar as concepções políticas e sociológicas sobre o poder, os autores resumem sua idéia: “[n]osso argumento está enquadrado dentro da moldura da nossa tese central: há duas faces do poder, das quais nenhuma é vista pelos sociólogos, e apenas uma delas é vista pelos cientistas políticos” (BACHRACH; BARATZ, 1970, p. 4). Essa afirmação, em verdade, fundamenta e serve de mote para a classificação adotada por Steven Lukes de três dimensões do poder.

A crítica de Peter Bachrach e Morton S. Baratz à concepção unidimensional do poder basicamente tem dois alvos. Explicam eles que um “[...] é que o modelo [unidimensional] não leva em conta o fato de que o poder pode ser, e freqüentemente é, exercido pela redução do âmbito de tomada de decisão para apenas questões ‘seguras’”, e o outro “[...] é que o modelo [unidimensional] não oferece qualquer critério objetivo para distinguir entre questões ‘importantes’ e ‘não-importantes’ emergindo na arena política”. Dirigindo sua análise também aos estudos de Nelson W. Polsby, mas essencialmente aos de Robert Dahl, sintetizam Peter Bachrach e Morton S. Baratz que, ao não identificar nenhuma das faces do poder político, “[...] Dahl não está em posição de avaliar a relativa influência ou poder do iniciador ou tomador de decisão, de um lado, e de outras pessoas, de outro lado, que podem ser direta ou indiretamente instrumentais ao impedir o surgimento de questões potencialmente perigosas” (BACHRACH; BARATZ, 1970, p. 6 e 16, grifo do original).

Na construção da sua concepção de poder, os autores partem da idéia unidimensional, mas, de início, é introduzida uma tipologia específica, distinguindo o poder de outros conceitos correlatos (coerção, influência, autoridade, força e manipulação), o que estava pouco claro na visão unidimensional. Na sua obra, Peter Bachrach e Morton S. Baratz, de forma sintética, definem “poder” como relacional, com “demanda racionalmente percebida”, envolve conflito de valores e configura “ameaça de sanções severas”; “autoridade” é tratada como relacional, com “demanda racionalmente percebida e considerada razoável”, envolve possível conflito de valores e dispõe de sanções não-severas; “influência” é entendida como relacional, com “demanda racionalmente percebida”, conflito de valores e sem sanção severa; “manipulação” é tratada como não-relacional, não-racional e sem conflito de valores ou sanções; e “força” é entendida desde relacional a não-relacional, não-racional e com aplicação de sanções severas (BACHRACH; BARATZ, 1970, p. 17-38).

Por fim, “decisão”, na acepção que eles utilizam, significa “uma escolha entre modos alternativos de ação” (BACHRACH; BARATZ, 1970, p. 39), e não apenas um exercício de poder, como na visão unidimensional.

Segundo a concepção bidimensional em análise, fundamentar o poder tão-somente em “tomada de decisão” confere uma perspectiva muito limitada ao fenômeno. Os autores explicam: “[...] por conta de que a nossa [teoria] oferece uma moldura conceitual mais ampla para dentro da qual analisar tomada de decisão, ela torna mais fácil o estudo comparativo dos fatores subjacentes a diferentes decisões em diversas circunstâncias”. E, por isso, “[u]ma estrada é então aberta ao longo do desenvolvimento de um corpo de teoria geral com respeito ao processo de tomada de decisão” (BACHRACH; BARATZ, 1970, p. 42).

Após delimitados esses conceitos específicos, a crítica de Peter Bachrach e Morton S. Baratz à concepção unidimensional do poder, no aspecto do “tomar decisão”, torna-se mais clara e dirige-se fundamentalmente a dois pontos.

O primeiro é explicitar a inadequação parcial de associar toda decisão a exercício de poder. Assim como uma decisão pode ser fundada em poder, ela também pode ter como base autoridade, ou influência ou mesmo força. Afirmam os dois estudiosos que uma decisão não pode ser considerada como resultante de uma dessas categorias (poder, autoridade, influência ou força) em uma determinada situação “[...] a menos e até que isso seja especificado a partir de qual ponto de vista a decisão está sendo examinada, isto é, a partir daquele que busca obediência ou daquele que a oferece”. Em outras palavras, dizem eles: “[...] nós colocamos o fenômeno do poder na perspectiva adequada: nós reconhecemos que, enquanto tomada de decisão freqüentemente envolve relações de poder, ela em muitos casos não envolve” (BACHRACH; BARATZ, 1970, p. 40-42).

O segundo ponto é incorporar o “não-tomar decisão” como exercício de poder. Afirmam os autores que o sistema político desenvolve na sociedade uma “mobilização de preconceitos”, isto é, “um conjunto de valores, crenças, rituais e procedimentos institucionais predominantes (‘regras do jogo’) que operam sistemática e consistentemente para o benefício de certas pessoas ou grupos às expensas de outros”. Eles afirmam que o procedimento padrão para garantir “[...] uma dada mobilização de preconceitos é a não-tomada de decisão. Uma não-decisão, como nós a definimos, é uma decisão que resulta na supressão ou dificuldade de um desafio latente ou manifesto para valores ou interesses do tomador de decisão”. O “não- tomar decisão”, assim, pode adotar diversas formas, como mecanismos “indiretos”, mas também mecanismos “diretos”, especificamente a simples força, como a prisão ou agressão aos que desejam mudar a ordem, ou o exercício de poder. Dizem eles, referindo-se ao último: “[a] ameaça de sanções contra o provocador de uma demanda potencialmente ameaçadora pode ser negativa ou positiva, variando da intimidação (potencial privação de coisas ou eventos valiosos) ou cooptação (recompensas potenciais)” (BACHRACH; BARATZ, 1970, p. 43-44).

Para identificar empiricamente as situações de “não-tomar decisão”, reconhecem Peter Bachrach e Morton S. Baratz algumas dificuldades. Argumentam eles, entretanto, que a análise deve-se centrar nas “questões-chave”: “[u]ma questão-chave, em nossos termos, é uma que envolve um autêntico desafio para as fontes de poder ou autoridade daqueles que atualmente dominam o processo pelo qual são determinadas as emissões de política” (BACHRACH; BARATZ, 1970, p. 47-48).

A visão bidimensional do poder significa, então, que ele está fundado não apenas em “tomada de decisão”, mas também em “não-tomada de decisão”. Além disso, e superando a problemática concepção de questões concretas, admitem-se também “questões potenciais”, em conflito observável de maneira aberta ou oculta, e fundado em interesses (entendidos como subjetivos), vistos como preferências ou objeções políticas.

Destaca Steven Lukes que a visão bidimensional constitui um grande avanço, porque “incorpora na análise das relações de poder a questão do controle sobre a agenda da política e das formas mediante as quais questões potenciais são mantidas fora do processo político”. E prossegue: “eu concluo que a visão bidimensional do poder envolve uma crítica qualificada

do foco behaviorista da primeira visão (eu digo qualificada porque ainda é afirmado que não-

tomada de decisão é uma forma de tomada de decisão)[...]”. Mais além, essa visão oportuniza “[...] considerar as formas nas quais as decisões são impedidas de serem tomadas em questões

potenciais sobre as quais há algum conflito de interesses (subjetivos) observável, visto como

incorporado em preferências políticas expressas e objeções subpolíticas” (LUKES, 2004, p. 20, grifos do original).

Ressalva Steven Lukes, todavia, que a concepção bidimensional pode sofrer críticas em pelo menos três aspectos.

O primeiro é o fato de que, quando pretende assimilar a totalidade das hipótese de exclusão de questões potenciais ao modelo de decisão, a visão bidimensional “[...] oferece uma figura confusa dos caminhos nos quais indivíduos e, acima de tudo, grupos e instituições são bem-sucedidos em excluir questões potenciais do processo político”. Observa Steven Lukes que, ao passo que as decisões são opções conscientes e intencionais feitas pelos atores dentre um elenco de possibilidades, “[...] o preconceito do sistema pode ser mobilizado, recriado e reforçado de maneira que nem é conscientemente escolhido e nem o resultado pretendido de escolhas individuais particulares” (LUKES, 2004, p. 25).

O segundo aspecto é a limitação teórica ao associar poder com conflito real. Em verdade, e como assevera Steven Lukes, o conflito real não é essencial na categoria do poder. De um lado, o poder relativo à “manipulação” e à “autoridade” não pressupõe conflito, e, de outro, é insatisfatório admitir que o poder seja exercido apenas em situações de conflito, porque isso significaria ignorar “[...] o ponto crucial que o mais efetivo e insidioso uso do poder é impedir tal conflito de emergir em primeiro lugar” (LUKES, 2004, p. 26-27).

O terceiro é o fato de Peter Bachrach e Morton S. Baratz insistirem na existência do poder de não tomar decisões apenas quando estão presentes “demandas” cuja entrada no processo político foi barrada. Por decorrência, isso permitiria supor que, na ausência dessas

demandas, existiria um “consenso genuíno”. Ressalva Steven Lukes que “[...] assumir que a ausência de demandas significa consenso genuíno é simplesmente excluir a possibilidade de consenso falso ou manipulado por estreiteza definicional” (LUKES, 2004, p. 28).

As críticas formuladas por Steven Lukes sobre a visão bidimensional do poder constituem a base para a visão tridimensional. A complexidade do processo de tomada de decisão, a amplitude do uso do poder fora de situações de conflito real e o reconhecimento das vicissitudes do processo de construção do consenso pretendem ser o centro da concepção que agora se segue.

(c) visão “tridimensional”

O terceiro grupo referido por Steven Lukes é o da denominada visão “tridimensional”. Neste grupo, o autor desenvolve uma terceira concepção, que entende ser mais adequada à compreensão do poder, que chama de “crítica do behaviorismo”.

Ao introduzir a sua denominada concepção de poder tridimensional, este estudioso enfatiza de início que seu diferencial consiste precisamente em “assegurar o consentimento para a dominação de sujeitos que o desejem” (LUKES, 2004, p. 109).

Ao sintetizar a visão tridimensional do poder, diz Steven Lukes que ela incorpora a aguda “[...] crítica do foco behaviorista das duas primeiras visões como excessivamente individualistas e permite trazer à consideração as muitas formas nas quais questões potenciais são mantidas fora da política [...]”, seja mediante ação de forças sociais ou institucionais, seja por meio de ações puramente individuais. Além disso, o autor destaca que isso surge não apenas em situações de conflito real e externalizado, mas também de um conflito potencial. O último tipo, porém, “[...] pode de fato nunca ser concretizado. O que alguém pode ter aqui é um conflito latente, que consiste na contradição entre os interesses daqueles exercendo o poder e os interesses reais daqueles que ele exclui” (LUKES, 2004, p. 28, grifos do original).