SEÇÃO 1 PODER POLÍTICO: ELEMENTOS DE INTRODUÇÃO
1.1 Poder como Categoria Conceitual
1.1.2 Elementos para uma “Arqueologia” do Poder
O estudo do poder constitui um debate aberto ao longo do tempo.
Inicialmente, e por razões metodológicas, registre-se que esta investigação restringe o estudo do poder. Este trabalho não pretende uma recapitulação histórica ou uma análise exaustiva do poder como uma categoria conceitual. Embora não seja adotada como uma metodologia expressa, pode-se interpretar a presente exposição mais como uma “arqueologia” do poder (FOUCAULT, 1997), buscando identificar e analisar as origens e as condições de possibilidade do poder, do que propriamente como uma historiografia do instituto. Aquela, embora descompromissada com a linearidade cronológica da narrativa, centra sua atenção no essencial: nas associações entre as concepções sobre o poder, como os elos, identidades e diversidades na construção deste como um saber.
O poder assume grande importância para a compreensão da Política, em um sentido mais estreito, e da própria vida em sociedade, em uma visão mais ampla. Além disso, o poder encontra-se desde sempre em uma posição de evidência como objeto de estudo.
A importância do poder decorre do fato de ser uma categoria fundamental para o estudo da Política. O poder, mais além, constitui instrumento importante para a compreensão das relações humanas nos mais diversos campos do conhecimento, seja considerando os indivíduos, seja considerando as coletividades, seja considerando aqueles nas suas relações com estas. Por isso, torna-se indispensável estudar o poder também no âmbito, por exemplo, da Sociologia Política, da Política Internacional e das Relações Internacionais.
No âmbito da Política, a sua importância vincula-se à compreensão das relações sociais como um todo e independe do modelo analítico que se adote: “no centro está a questão se o relacionamento entre o indivíduo e a sociedade (e, logo, também entre esses grupos e estruturas) é de um tipo essencialmente harmonioso ou conflitivo[...]” (GOVERDE et al., 2000, p. 3, grifos do original). Mais do que isso, trata-se de uma problemática “[...] que é ao mesmo tempo normativa (isto é, concernente ao que é bom ou ruim, falso ou verdadeiro, ou desejado ou indesejado) e empírica (isto é, sobre examinar da forma mais objetivamente possível o que realmente ‘é’ e não o que ‘deve ser’)”, como apontam os autores (GOVERDE
et al., 2000, p. 3, grifos do original). Nesse sentido, o debate do poder integra necessariamente
o debate sobre as relações entre indivíduos e entre estes e a sociedade, e, acresça-se ainda, entre sociedades distintas entre si, na perspectiva de seus recortes estatais diferenciados.
A vida em sociedade sugere o compartilhamento e mesmo o embate de concepções e práticas diferentes sobre o papel das estruturas (nos diversos níveis e funções reais ou imaginárias), sobre a divisão do mundo da vida (o “social”, o econômico” e o “político”, por exemplo, vinculados respectivamente com a “sociedade”, “mercado” e o “Estado”), sobre as possibilidades de realização das expectativas individuais e coletivas, e tantas outras questões pertinentes ao modo de ser da realização do homem como um “animal político” (ARISTÓTELES, 1996, p. 13). Henri Goverde et al. observam que evidentemente todas essas concepções e enfoques em questão relacionam-se a posturas mais ou menos idealistas, e “[t]ais teorias e práticas são unidas em discursos – a forma como idéias e compreensões são representadas e reproduzidas através da linguagem (ou como as pessoas explicita ou implicitamente percebem os seus próprios mundos e o ‘mundo real’ em geral)”. Os discursos, no contexto, representam para seus interlocutores fragmentos de sua própria noção de realidade, valores e mesmo do seu referencial de verdade. Concluindo, dizem os autores que: “[...] no centro tanto da análise empírica quanto da normativa da política e da sociedade está a questão de qual tipo de harmonia ou desarmonia essencial e básica tem o poder de caracterizar ou não o relacionamento mais fundamental entre indivíduos e sociedade” (GOVERDE et al., 2000, p. 4, grifo do original).
Assim, o conceito de poder desempenha um papel muito importante porque, de um lado, integra mesmo de forma implícita a base de conceitos que forma o conjunto de teorias e práticas de uma determinada sociedade, e, de outro, constitui em si mesmo um discurso que reflete e legitima as práticas sociais.
No primeiro aspecto, o poder é freqüentemente tido como pressuposto. As pessoas agem no seu cotidiano segundo idéias e conceitos que são tidos por pressupostos e considerados em termos abstratos e de forma pouco aprofundada, mas relacionados a uma idéia de diferença no ambiente social que se realiza na prática cotidiana comum. Ademais, dizem os autores citados: “em comparação, o significado do poder como um conceito ordenador para o estudo da política – como um discurso da própria política – reside nas suas implicações que existe um nível muito grande de desarmonia subjacente entre indivíduos e sociedade” (GOVERDE
et al., 2000, p. 5, grifo do original). Em verdade, isso quer dizer que a sociedade como tal, em
plena extensão, “[...] – sua infra-estrutura, sua estabilidade, seus mecanismos de continuidade e adaptação, sua cultura – depende primeiro e principalmente no fato presumido […] que algumas pessoas são sistematicamente dominadas por outras” (GOVERDE et al., 2000, p. 5, grifo do original). Os autores destacam que esse fato presumido é exatamente o que Michel Foucault chama de sua verdade.
No segundo aspecto, observam Henri Goverde et al. que o estudo do poder tem na sua essência a idéia de que esse conceito é um valor e seu emprego pressupõe um ato de valoração. Essa idéia comprende uma carga de reflexividade, como o resultado do constante e permanente processo de reflexão em torno dos nossos atos, no sentido da sua coerência com atos anteriores e da coerência da práxis com os postulados ou pressupostos normativos que nos informam. Dizem os autores citados, em complemento, que: “[n]esse sentido, finalmente, o poder e seu papel central nas estruturas e processos sociais não é apenas um preconceito, mas uma hipótese (ou, em termos de consciência prática, uma hipótese virtual) [...]”. Mais especificamente, trata-se de “[...] uma hipótese que as pessoas estão continuamente testando de uma forma reflexiva quando elas são forçadas a tomar decisões e a agir no mundo real […]” (GOVERDE et al., 2000, p. 7-8, grifo do original).
Resumindo a importância do poder tanto no nível normativo quanto empírico, esses estudiosos observam que os seus desdobramentos alcançam a política como um todo, existindo relações cruzadas em todos os âmbitos. Apenas como exemplo, os autores apontam que as quatro questões mais complexas que envolvem o poder atingem as “pessoas”, as “instituições”, o “saber” e a “força” (GOVERDE et al., 2000, p. 8), o que, mesmo de forma sucinta, abrange praticamente todos os âmbitos da Política na sua concepção contemporânea, e alastra-se pelo objeto da Política Internacional, da Filosofia Política, da Sociologia Política e das Relações Internacionais. Algumas dessas implicações serão analisadas ao longo do presente trabalho.
A evidência do poder como alvo do interesse dos estudiosos é um fato que pode ser confirmado pela incontável quantidade de obras que abordam o assunto. Além disso, é também comprovado pela variedade de enfoques que lhe são atribuídos e ainda pela sua perenidade ao longo do tempo como um tema que não se delimita a algum momento histórico específico.
A quantidade de estudos em torno do “poder” torna difícil, senão intelectualmente impossível, a apreensão de todas as concepções em torno dele. Apenas como exemplo, uma simples busca pela palavra-chave “poder” na base de dados catalográfica do Instituto Universitário Europeu aponta para mais de três mil obras no seu acervo, e com ênfase apenas nas áreas do Direito, da História e das Ciências Sociais e Políticas. Assim sendo, e considerando a multiplicidade de relações e inferências indiretas em torno do poder, esse número pode ser percebido como insignificante, mesmo para o universo relativamente limitado de apenas uma biblioteca universitária.
A variedade de enfoques sobre o poder está retratada no seu livre trânsito ao longo de praticamente todos os ramos da Ciência. Na Economia, pode ser estudado, dentre outros âmbitos, nos mecanismos de (auto-)regulação do mercado e nas relações do mercado com o Estado. Nas Ciências Sociais, pode emergir relacionado a instrumentos de dominação, ou formação de opinião pública, ou de constituição e tessitura societal, por exemplo. Na Psicologia, pode ser encontrado nos debates sobre a constituição do sujeito (“eu”), na relação com o “outro” e nas modalidades de repressão, apenas para citar algumas hipóteses. No Direito, pode aparecer na produção, legitimidade, instituição, efetividade e garantia das normas jurídicas e na instrumentação dos mecanismos de restauração de paz social pelo sistema judiciário, por exemplo. Na Filosofia, o poder transita nos mais variados ramos, como na gnoseologia (ao demarcar a possibilidade do próprio conhecimento), na ontologia (como um dos elementos da ordenação das empirias), na epistemologia (como um fator eventual de hierarquia dos saberes e até de justificação da ciência como prática discursiva), tudo apenas como exemplo. Na Política, por fim, o poder exerce um papel ainda mais central, e constitui o núcleo dos debates em torno da constituição, da representação, da legitimidade e da autoridade de todos os processos que envolvem o manejo dos interesses e expectativas da vida social. Essa diversidade pode ser interpretada como uma demonstração da complexidade do tema, mas também como de sua importância, pelo fato de despertar o interesse de praticamente todas as áreas do saber.
A sua perenidade é observada com facilidade em um breve panorama do aparecimento desse tema dentro das expressões do pensamento humano. Sobre o poder, debruçaram-se – de forma direta ou indireta, com propósitos diferentes e variadas profundidades – importantes filósofos, sociólogos, juristas e cientistas políticos ao longo da História. Mesmo em um pequeno apanhado de autores, já se identifica o grande interesse despertado pelo tema.
Aristóteles trata de questões relacionadas ao poder em vários pontos de sua obra, notadamente ao qualificar o homem como “animal político” para justificar a formação do Estado como ordem política e ao lhe reconhecer o “poder da fala”, por exemplo. Diz ele: “Quando várias vilas se unem em uma única completa comunidade, grande o suficiente para ser quase ou totalmente auto-suficiente, o Estado vem à existência, originando-se nas necessidades básicas da vida e prosseguindo sua existência para a graça de uma vida boa”. Por conseguinte, “[...] se formas primitivas de sociedade são naturais, assim também o é o Estado, por ser o fim delas, e a natureza de uma coisa é o seu fim [...]”. Mais do que isso, “[a]gora é evidente que o Estado é uma criação da natureza, e que o homem é um animal político. E aquele que, por natureza ou por mero acidente, está sem um Estado, é um homem
mau ou está acima da humanidade”; e que, “[a]gora, que o homem é mais um animal político do que abelhas ou outros animais gregários é evidente. A natureza, como nós comumente dizemos, não faz nada em vão, e o homem é o único animal que tem o dom da fala”. A fala, logo, encerra um poder: “[...] enquanto a simples voz é entretanto uma indicação de prazer e dor, e, por isso, encontrada em outros animais, […] o poder da palavra é suposto a levar adiante o experiente e o inexperiente, e, por conseguinte, assim como o justo e o injusto” (ARISTÓTELES, 1996, p. 13)
Tomás de Aquino também dedicou várias passagens de sua obra para tratar do poder, mormente centrando sua atenção na possibilidade de um homem exercer “domínio” sobre outro. Diz o autor, por exemplo, que o “domínio” (poder) tem dois sentidos. Primeiro, “[...] ele é comparado com servidão; e um mestre [senhor], neste sentido, é aquele para quem alguém é sujeito como escravo”. Segundo, “[...] é entendido como se referindo em um sentido geral ao comando de qualquer tipo de sujeito de qualquer forma; e, neste sentido, mesmo aquele que tem a tarefa de governar e dirigir homens livres pode ser chamado de mestre” (AQUINAS, 2002, p. 3-4).
Nicolau Maquiavel deteve-se mais em analisar o poder em uma perspectiva prática, e, por conta disso, tem seu nome associado diretamente ao poder político (ou a alguma expressão dele), mesmo no senso comum. Nos seus estudos, ele tece diversas considerações sobre a realidade das formas dos Estados então existentes, sobre as qualidades e virtudes de governantes e sobre os mecanismos para adquirir e manter o poder, embora não se detenha em elaborar exatamente um conceito, como se ele fosse pressuposto e dispensasse explicitações. As suas obras, contudo, revelam uma notável e inconfessada análise empírica do poder no seu exercício efetivo, como ele próprio descreve na abertura de sua obra mais famosa – “O Príncipe” – com uma dedicatória na qual dá o tom dessa abordagem até então incomum do poder: “Eu não embelezei esta obra ao enchê-la com sentenças floreadas, com palavras impactantes ou frases sofisticadas, ou com qualquer dos outros artifícios de encantamento de aparente beleza que a maioria [...] emprega para descrever e embelezar seu objeto de estudo” (MAQUIAVEL, 1988, p. 3).
Thomas Hobbes, a seu tempo, tratou do poder e sua associação com a natureza humana. Afirmou ele a íntima relação da sua existência com o poder: “[e]u considero, por tendência geral de todo ser humano, o desejo perpétuo e incessante de poder depois de poder, o qual cessa apenas na morte” (HOBBES, 1957, p. 64) 1. Essa concepção conduz ao Leviatã, como
1A idéia é desenvolvida no Capítulo XI – “Of the Difference of Manners”, no tópico “A restless desire of power in all men”.
instrumento de salvação de todos dos perigos do “estado de natureza”, e como mecanismo de contenção do próprio homem e seus desejos diante do poder.
Espinosa igualmente qualificou o poder e tratou de algumas de suas modalidades. Ao definir o estado de sujeição do poder, esclarece: “Tem outro sob seu poder aquele que o mantém vinculado a si, ou que suas armas ou meios de se defender ou de fugir retirou, ou que com medo inculcou, ou que o mantém ligado por um débito anterior [...]”, de tal forma que “[...] ele prefere antes satistazer a vontade do outro, e viver segundo ele, do que de acordo com a sua própria vontade”. Resume o autor citado seu pensamento para sistematizar que: “[a]quele que tem o outro na primeira e na segunda formas tem o seu corpo, mas não sua mente”, e, porém, “[...] aquele que tem o outro na terceira e na quarta formas, tem sob seu jugo tanto a mente quanto o corpo, mas apenas enquanto perdurar o medo ou a expectativa; até este momento, verdadeiramente, aquele que domina mantém o outro sob seu jugo” (SPINOZA, 1972, III, p. 280).
John Locke também se interessou pelo poder. Nos seus “Tratados”, por exemplo, associou poder a um “direito”: “[p]oder político, então, eu considero ser um direito de fazer leis, com pena de morte, e conseqüentemente todo o tipo de penalidade menos severa” (LOCKE, 1967, p. 74). O poder político, para ele, corresponde a um estado de sujeição regulado por mecanismos institucionalizados que conferem a legitimidade a seu exercício.
Max Weber, abrindo sua obra mais conhecida, arrola o “poder” nos seus conceitos fundamentais. Explica o autor: “[p]oder é a possibilidade, dentro de um relacionamento social, de realizar a vontade de alguém mesmo contra resistência, independentemente da base na qual essa possibilidade se funda” (WEBER, 1980, p. 28). Embora sua abordagem seja fundamentalmente sociológica, seu conceito exerce muita influência sobre a compreensão do poder, como se analisará mais adiante.
Ademais, muitos autores contemporâneos, tendo em vista distintos enfoques e abordagens, também revelam a importância do tema do poder. Dentre eles, podem ser citados, como exemplo: Steven Lukes (2004, p. 65), Bertrand Russell (1938, p. 35), Torben Bech Dyrberg (1997, p. 7), Michel Foucault (1994, p. 27), Hannah Arendt (1970, p. 44), Heinrich Popitz (1992, p. 48), Talcott Parsons (1967, p. 308) e Pierre Bourdieu (1991, p. 166). Muitas das concepções desses autores sobre o poder serão aprofundadas no desenvolvimento da presente pesquisa.
De forma mais específica, a análise do poder ao longo do tempo permite identificar pelo menos dois momentos fundamentais para a sua compreensão no período moderno, que
influenciaram de forma intensa todas as análises posteriores e repercutem nas formulações contemporâneas hoje em discussão.
O primeiro momento é Thomas Hobbes, como teorizador do Estado de modelo nacional que inaugura a fase moderna de compreensão da política, e, assim, do próprio poder. Diz Robert Dahl que “[d]e Aristóteles a Hobbes, teóricos da política estavam principalmente interessados com as relações de poder em uma dada comunidade. Mas relações externas, muito mais que as internas, levam a atenção para questões do poder relativo”. Mais do que apenas isso: “[a] emergência do moderno Estado-nação, por conseguinte, compeliu os teóricos da política a reconhecer a importância do poder na política, e particularmente, é claro, na política internacional” (DAHL, 1986, p. 39).
O segundo é Max Weber, que dedica sua atenção aos aspectos relativos à legitimidade do exercício do poder na sociedade, notadamente em relação ao Estado, como seu depositário. O Estado, nessa perspectiva, passa a se justificar e se externalizar ao deter em suas mãos a exclusividade do exercício da violência legítima, o que significa, em última instância, que a expressão mais visível e extrema do poder só se justifica pelo Estado. Para este autor, o poder passa a ter um alcance maior, na medida em que se dissocia entre os campos do econômico, do normativo e do político e passa a fundar a base dos mecanismos de dominação correlatos.
A influência direta ou indireta dessas duas concepções, cuja complexidade foi se tornando crescente pela acumulação de estudos e análises sobre as mais diversas questões concernentes ao poder, estende-se às interpretações que se seguiram. Todos esses postulados vão desembocar em inúmeras concepções sobre o funcionamento da sociedade moderna, entendida não apenas na perspectiva interna (“nacional”), mas também na externa (“internacional”). A idéia de “ordem” no período moderno, por exemplo, internamente funda- se nesse pensador, pelo menos em parte, pela dominação racional-legal, sistematizada do ponto de vista metodológico e maximizada como instrumento da dominação. Externamente, e como sua perspectiva inicial, no mesmo sentido, a sociedade dita “internacional” nada mais é do que a transposição da lógica nacional para um ambiente em que não há um “Leviatã” dos “Leviatãs”, e, assim, ninguém pode deter o monopólio da violência legítima. Logo, por não haver instância legítima de dominação (pelo menos no sentido weberiano), não se observa uma clara “ordem” internacional, embora essa idéia venha sendo objeto de muita controvérsia nas últimas décadas, como se analisará com profundidade mais adiante.
É interessante notar, já com base nesses dois últimos autores citados, que o estudo do poder sofre uma alteração profunda que repercute em todo o modelo de pensar que desemboca nas formas contemporâneas do século XX. Robert Dahl ressalta, nesse sentido,
que os aspectos do poder que interessam aos estudiosos a partir do século XX são, em geral, bem diferentes dos anteriores. Diz ele: “[c]om poucas exceções (mais notadamente Thomas Hobbes), teóricos da política não aprofundavam suas investigações muito longe em certos aspectos do poder que têm parecido importantes para os cientistas sociais no século vinte”. Como exemplo, refere que grande parte dos pensadores tem por preconcebido, desde Aristóteles, “[...] que termos centrais como poder, influência, autoridade e regra (vamos chamar eles de ‘termos de poder’) não precisavam de maior elaboração, presumivelmente porque o significado dessas palavras fosse claro para os homens no senso comum”. Na mesma linha, “[...] mesmo Maquiavel, que constituiu uma importante guinada da teoria clássico- normativa para a moderno-empírica, não considerava termos políticos em geral como particularmente técnicos” (DAHL, 1986, p. 38-39, grifos do original).
O conjunto de teorias e práticas que configura a construção do poder como um saber, como exposto, já revela algumas linhas de identidade e de diferença entre as diversas concepções. Em seguimento, deve-se desenvolver a reunião sistematizada, ainda que provisória, dos problemas centrais que têm conduzido o debate ao longo do tempo: o modus e o locus do poder.