Carvalho (2008) argumenta que visões “naturalistas” de natureza influenciam as concepções de meio ambiente. Defender uma visão socioambiental significa um esforço de superação da dicotomia entre natureza e sociedade, para que se possa compreender que as interações entre a vida humana social e a vida biológica da natureza ocorrem de forma permanente. Esta visão assume uma
racionalidade complexa e ao mesmo tempo interdisciplinar e não entende o meio ambiente como sendo a “natureza intocada”, mas como um campo onde se constroem diversas interações entre a sociedade, a cultura e os aspectos biológicos e físicos dos processos vitais, considerando-se que todos esses elementos atuam uns sobre os outros. A partir dessas ideias o meio ambiente é tido como espaço de relações, onde a presença do homem não é percebida como algo externo e que gera rupturas, mas como pertencente à uma teia onde este interage com o natural, o cultural e o social.
Tamaio (2002, p. 41) ao referir-se à construção de conceito de natureza na escola também usa o termo visão socioambiental definindo-a como algo que “incorpora os aspectos socioeconômicos e históricos, fazendo uma análise das inter-relações entre sociedade e natureza”.
Para Amaral (1998, p.212) “diferentes alternativas de abordagem e compreensão do ambiente terrestre são, em parte, reflexo da própria concepção que temos da ciência, da sociedade, do ser humano e do próprio significado atribuído ao conhecimento”. Isto gera variadas formas de se trabalhar o ambiente nos currículos escolares.
A colocação de Sauvé (1997, p.2) reafirma essas ideias, pois para ela a influência das diferentes concepções “pode ser observada na abordagem pedagógica e nas estratégias sugeridas pelos diferentes autores ou educadores”. Jickling25 (1995) e Hart26 (1990) citados por Sauvé (1997) defendem que a diversidade de concepções sobre a educação e o ambiente deve ser entendida como fonte para reflexões e discussões. Além disso, no mesmo texto, Sauvé considerando a tipologia de concepções sobre o ambiente por ela elaborada em 1992 (como natureza, como recurso, como problema, como lugar para viver, como biosfera e como projeto comunitário), expõe que essas visões do ambiente são complementares e poderiam ser consideradas de maneira cumulativa, e utilizando-se um enfoque pedagógico que fosse integrado. Lamenta o fato das
25 JICKLING, B. Sheep, shepherds, or lost? In Environmental Communicator, December, 12-13, 1995, citado por SAUVÉ, L. Educação ambiental e desenvolvimento sustentável: uma análise complexa. Revista de Educação Pública [MT]. Cuiabá, v. 6, n. 10, p. 72-103, 1997.
26 HART, P. Rethinking teacher education environmentally. In ENGLESON, D. C. & DESINGER, J. F. (Eds). Preparing Classroom teachers to be environmental educators (p. 7-17), Monographs in Environmental Education and Environmental Studies, 7. Troy, Ohio: North American Association for Environmental Education, 1990, citado por SAUVÉ, L. 1997 (ver referência acima).
propostas de educação ambiental restringirem-se a uma dessas concepções, o que impossibilita uma visão global, pois dessa forma percebem-se em parte as correlações entre o indivíduo a sociedade e a natureza. Já em 2003 a autora ao identificar a existência de diversas correntes em educação ambiental citou como um dos parâmetros utilizados a concepção de meio ambiente acrescentando dessa forma as categorias “sistema”, “objeto de estudos”, “objeto de valores”, “total- todo-ser”, “cadinho de ação-reflexão”, “objeto de transformação/lugar de emancipação”, “objeto de solicitude”, “território-lugar de identidade- natureza/cultura”, “polo de interação para a formação pessoal”, “recursos compartilhados”.
A classificação que identifica concepções paradigmáticas sobre o ambiente (SAUVÉ, 1997) recebeu destaque no trabalho de Sato (1997) da mesma forma que as encontradas nos Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC, do ano de 1996.
Buscando imbricar o natural ao social, os Parâmetros Curriculares Nacionais – Tema Transversal Meio Ambiente (BRASIL, 1998, p, 201) defendem que “o ambiente é também uma construção humana, sujeito a determinações de ordem não apenas naturais, mas também sociais”. Ou seja, “por ‘ambiente’ entende-se não apenas o entorno físico, mas também os aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos inter-relacionados27 (Ibid, p.229). O documento apoia a ideia de que:
O termo “meio ambiente” tem sido utilizado para indicar um “espaço” (com seus componentes bióticos e abióticos e suas interações) em que um ser vive e se desenvolve, trocando energia e interagindo com ele, sendo transformado e transformando-o. No caso dos seres humanos, ao espaço físico e biológico soma-se o “espaço” sociocultural. Interagindo com os elementos do seu ambiente, a humanidade provoca tipos de modificação que se transformam com o passar da história. E, ao transformar o ambiente, os seres humanos também mudam sua própria visão a respeito da natureza e do meio em que vive (BRASIL, 1998, p. 233). No entanto, é necessário lembrar que os PCNs constituem um extenso documento composto de 10 volumes e que parece não ser possível dizer que o documento explicite apenas uma concepção de meio ambiente. Maknamara (2007), por exemplo, entende que trecho presente no PCN de Ciências dos anos finais do ensino fundamental que fala em dinâmica da natureza ao afirmar que há
muitas conexões entre Ciências Naturais e Meio Ambiente traz um reducionismo, pois confunde meio ambiente e natureza.
Toledo (2005) registra críticas aos PCNs do Ensino Médio por considerar que apesar de haver no mesmo, objetivos positivos quanto a formar cidadãos que possam emitir juízos de valor sobre o ambiente esses se encontram prejudicados, pois não há o reconhecimento do papel das Ciências da Terra quanto à produção de um aprendizado integrado. Considera ser necessário que as Geociências sejam incorporadas de maneira efetiva, abrangente e como um todo íntegro, e não de forma fragmentada como ocorre atualmente.
Silva et al. (2009, p.58) consideram que o fato de ser característica dos conhecimentos geocientíficos realizar uma abordagem sistêmica do planeta onde a noosfera e a biosfera enquanto parte desse sistema o moldam e são por ele moldadas, “conduz a uma certa concepção de ambiente e das relações entre homem e natureza, em que atividades culturais, sociais e tecnológicas fazem parte da dinâmica histórica terrestre”.