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O presente capítulo buscou descrever e analisar as causas dos custos de transação, os mecanismos de governança utilizados e as características do arranjo institucional no qual estão inseridas as empresas pesquisadas.

A situação da ação da produção e distribuição do soro do queijo possui algumas características que podem ser consideradas cruciais para a determinação dos custos de transação neste setor de negócios.

A primeira delas é a incompletude de informações relativas aos processos produtivos e aspectos mercadológicos do soro do queijo. Os laticínios geradores de soro se ressentem dessa lacuna no acesso a informações relevantes, e reagem se mantendo afastados dos negócios com o soro, exceto quando os volumes aumentam e dificultam a escolha pela alternativa de menor investimento e menor risco, que é a doação a produtores rurais. Além disso, há uma assimetria de informações evidente em relação aos compradores de soro, que detêm as principais informações relevantes e não as compartilham com os fornecedores de soro.

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racionalidade limitada decorrente dessa ausência de informações. Todas as empresas participantes deste estudo apontaram que desconhecem as atividades executadas pelos clientes que compram soro do queijo para beneficiar, independente se vendem, doam ou beneficiam o próprio soro. Dessa forma, há uma percepção de que as potencialidades do soro como item comercial não foi apropriada pelos laticínios da aglomeração, o que aumenta o risco da realização de investimentos voltados para o beneficiamento do soro do queijo nos laticínios.

Como consequência, os laticínios maiores comercializam seu soro a valores abaixo do custo de resfriamento, armazenamento e transporte. Os laticínios de médio e pequeno volume têm como tendência se manter afastados do mercado de venda de soro, uma vez que essa opção demandaria investimentos em estrutura de resfriamento e armazenagem para alguns, e representaria um custo de oportunidade frente à produção de ricota para outros. Portanto, os benefícios ainda não são claros, mas os custos são significativos para a entrada nesse mercado de venda de soro do queijo. A priori, o único beneficiado comprovado percebido de modo generalizado é o atendimento aos requisitos legais de destinação ambientalmente adequada ao soro do queijo. Rentabilidades positivas desse mercado são pouco comprovadas no caso empírico, e há desconfiança de boa parte dos laticínios que tais rentabilidades positivas não ocorrem de fato, o que inibe investimentos e a cooperação.

Além da incompletude no acesso às informações, a descrição da situação da ação revelou o baixo grau de controle que possuem sobre as ações de comercialização ou beneficiamento do soro. As empresas que comercializam soro relatam que frequentemente são comunicados da impossibilidade do cliente em cumprir o acordo de recebimento contínuo do produto. Essa quebra de acordos provoca incertezas, pois representam eventos fora do controle do laticínio.

Outra característica importante revelada pela descrição da situação da ação é o fato dos laticínios não saberem como conseguir viabilizar a exploração do soro como item comercial, o que implicaria na incorporação de diferentes ações para vários deles – de doador para vendedor, de vendedor para concentrador e vendedor, de beneficiador para processador e vendedor de soro, dentre outras possibilidades. O principal temor é o do comportamento oportunista por parte dos concorrentes e por

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parte dos clientes compradores de soro. Quanto aos primeiros, apesar do temor ser apontado por alguns, prevalece uma atmosfera de confiança entre os laticínios, o que favorece o aumento da cooperação entre eles em um arranjo coletivo. No segundo caso, os laticínios cujos relacionamentos com clientes se estendem no tempo relatam haver uma atmosfera de confiança mútua, sensação não compartilhada pelos demais laticínios que comercializam soro.

As regras das relações foram úteis para revelar algumas características do arranjo institucional que contribuem para este cenário de desconfiança e incerteza em relação ao mercado de venda do soro do queijo. Os laticínios percebem os governos como sendo um entrave para o desenvolvimento dos negócios ligados ao soro do queijo, e não se sentem apoiados pelo sistema legal no caso de conflitos com outros membros da cadeia de suprimentos ou do arranjo coletivo. Dessa forma, há uma sensação de desamparo e de descontentamento com relação à esfera pública, incluindo suas políticas de apoio ao setor. Ainda, os laticínios percebem um excessivo rigor no papel fiscalizador dos órgãos de regulação ambiental, com poucas iniciativas de apoio por parte dos mesmos. Essa constatação adiciona o componente “temor” na presença do poder público, aumentando a sensação de desconfiança quanto a possíveis movimentos relacionados a investimentos para entrada nesse mercado.

A contrapartida para tais desconfianças estaria na presença continuada de agências de apoio ao desenvolvimento dos negócios. Tais agências poderiam funcionar como elementos alavancadores de iniciativas que favorecessem a cooperação interorganizacional e estimulassem e viabilizassem o acesso a informações, contribuindo assim para alterar a qualidade da atmosfera de ausência de coordenação de esforços conjuntos que predomina entre os agentes estudados. No entanto, a única agência que desempenha um papel relevante neste arranjo institucional é o SEBRAE-MG, e o apoio dado foi extinto há cerca de dois anos. Apesar de ter disseminado a semente da cooperação entre os laticínios, não foi suficiente para permitir com que a associação de laticínios pudesse prosperar, levando os empresários novamente a apostar em iniciativas individuais e isoladas de investimento.

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institucional é que existe uma atmosfera de confiança entre os laticínios, propícia ao aumento da cooperação entre eles. Ainda, acreditam que a formação de uma associação de laticínios da mesorregião em estudo seria uma estratégia efetiva para a coordenação dos seus esforços conjuntos. Por fim, entendem que o acesso a informações relevantes sobre o negócio apoiaria a iniciativa de formação da associação de laticínios ou qualquer outro esforço coletivo de organização das empresas geradoras de soro. Ou seja, os laticínios entendem que o acesso a informações sobre o mercado de soro servirá como elemento motivador para a cooperação e, por sua vez, que o caminho da cooperação e formação de um arranjo coletivo deverá ser a estratégia mais efetiva para que consigam suplantar as restrições apontadas e reduzir os custos de transação da assimetria de informações, das incertezas e do comportamento oportunista por parte de clientes. Ou seja, o acesso a informações encontrará terreno fértil para a cooperação e os guiará à formação de um arranjo coletivo, e esse permitirá reduzir os custos de transação no mercado do soro do leite.

O efeito provocado pela baixa inserção do conjunto de empresas no mercado do soro se reflete na baixa diversidade de mecanismos de governança utilizados por elas. Como reflexo dessas características, poucas empresas utilizam de mecanismos transacionais na governança das relações, tais como contratos, acordos formais ou estabelecimentos de padrões e parâmetros para monitoramento dos resultados.

Tudo indica haver uma relação entre o volume e maturidade do laticínio no que se refere à comercialização do soro e a adoção de mecanismos de governança. As empresas de maior volume tendem a reconhecer a importância de estabelecer relacionamentos cooperativos ou que desempenhem um papel estratégico na sua habilidade em gerar valor a partir do soro do queijo. Em função das economias de escala, as empresas de maior volume de soro investiram em plantas de concentração, o que as coloca em uma posição diferenciada na cadeia de suprimentos do soro. Nesse sentido, são estas as empresas com interesses explícitos em aprimorar os relacionamentos com outros laticínios da aglomeração, como forma de consolidar suas posições de elos consolidadores de volume na referida cadeia de suprimentos.

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O padrão atual neste aglomerado é a escassa troca de informações e ausência de mecanismos de coordenação e de fomento de esforços de cooperação entre as empresas, o que prejudica a formação de laços efetivos e o reforço daqueles já existentes.

O levantamento das características do arranjo institucional funciona como mapa indicativo das potencialidades de reforço dos relacionamentos interorganizacionais. Ao demonstrar que há por parte dos laticínios uma predisposição para a cooperação, e que há uma crença que a troca de informações é um dos elementos que poderá fomentar essa cooperação, abre-se um importante caminho para que as empresas possam se estruturar em torno de uma associação que terá que ressurgir de seus próprios esforços. Afinal, como pôde ser demonstrado, há desconfiança quanto ao papel desempenhado pelos governos e respectivos órgãos governamentais, e há uma lacuna quanto à permanência do apoio por parte de agências capazes de coordenar os esforços de cooperação. Ou seja, a iniciativa da cooperação aparentemente terá que ser de caráter endógeno, apesar de ter sido plantada a semente da cooperação por parte do SEBRAE-MG.

180 5. RELAÇÕES ENTRE AS CARACTERÍSTICAS DO ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA NOS RELACIONAMENTOS ENTRE AGENTES DA AGLOMERAÇÃO

O capítulo anterior apresentou a análise temática dos dados da pesquisa, revelando algumas informações importantes sobre a situação da ação, sobre as causas dos custos de transação, sobre os mecanismos de governança adotados pelas empresas e sobre as características do arranjo institucional do negócio do soro do queijo. Dessa forma, foi possível atender aos três primeiros objetivos da pesquisa. De posse destas análises, o próximo passo é buscar formas de responder ao problema de pesquisa:

Como as características do arranjo institucional influenciam a diversidade de mecanismos de governança utilizados para estimular a colaboração nos relacionamentos interorganizacionais em aglomerações?