2 MOBILIZANDO NOÇÕES EM ANÁLISE DE DISCURSO

2.4 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DO DISCURSO, MEMÓRIA

Podemos, agora, trabalhar com outras noções constituintes da AD, noções estas que ajudam a compreender não só o quadro geral da AD, como a própria noção de FD já introduzida anteriormente. Uma noção muito importante é a de condições de

produção. Ao analisar uma SD, buscamos fazer uma correlação entre o sujeito que enunciou e a situação em que ocorreu tal enunciação. Isso significa que o tempo (passado, presente e futuro), o lugar e a circunstância são fatores a ser considerados. Na presente pesquisa, por exemplo, iremos considerar as condições de produção típicas do ambiente escolar, que envolvem sujeitos (professor e aluno), correlacionando com o espaço ocupado pela escola no contexto urbano.

A condição de produção pode se referir ao contexto imediato ou ao contexto amplo em que se insere o enunciado. O contexto imediato refere-se à circunstância em que o enunciado foi proferido. Já o contexto amplo refere-se às condições sócio-históricas e ideológicas. Temos, portanto, que o sujeito que profere um enunciado ocupa um determinado lugar na sociedade, e estes lugares podem ser definidos, por exemplo, através das relações de poder7. A memória tem um papel importante quando se pensa este contexto amplo da condição de produção (ORLANDI, 2001).

“Memória” aqui tem um sentido diferente daquele ligado à memória cognitiva, como veremos adiante. Antes, é preciso observar que, conforme mencionamos anteriormente, as noções que compõem o quadro teórico da AD se sobrepõem e se complementam. As noções de memória discursiva e interdiscurso são exemplos disso. Alguns autores, como Orlandi (2001), tendem a equivaler as duas noções, enquanto alguns trabalham assegurando a aproximação e a diferença (Courtine, 2009). Vejamos, portanto, como estas noções podem ser pensadas.

O intradiscurso é definido por Pêcheux como a relação interna que se estabelece em um discurso, ou seja, o que eu digo em relação ao que eu já disse ou ao que ainda vou dizer. É no intradiscurso que se garante o “fio do discurso”. Temos também o interdiscurso que é o “lugar onde se constituem os objetos do saber” (CAZARIN, 1995, p.18), e ele está fora da FD até ser incorporado pelo sujeito em seus discursos. O interdiscurso, lugar do pré-construído, é trabalhado no intradiscurso.

De acordo com Orlandi (2001), interdiscurso e memória discursiva são noções que se imbricam na teorização em AD. Nas palavras da autora, o interdiscurso é

aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra (ORLANDI, 2001, p. 31).

Em outras palavras, os saberes de uma FD incorporam elementos do pré-construído e se reconfiguram. O que emerge do interdiscurso no momento da enunciação estaria ligado à noção de memória discursiva.

A memória discursiva constitui as possibilidades do dizer no momento da enunciação. Há sempre uma memória discursiva ligada a um processo histórico. Courtine (2009), trabalha com sequências discursivas a partir da temporalidade, formulando a ideia de que um texto é uma dispersão de sequências discursivas organizadas a partir de alguns domínios: o domínio da memória, o domínio da atualidade e o domínio da antecipação. No domínio de memória, identificam-se sequências discursivas que são anteriores a uma “sequência discursiva de referência”, e é possível verificar quais efeitos de memória ocorrem na atualização do enunciado, efeitos estes que podem ser de lembrança, transformação, ruptura, esquecimento, etc. Vemos que este domínio está ligado à memória discursiva e, portanto, refere-se ao que, em uma determinada conjuntura histórica, pode emergir. O domínio de atualidade tem como efeito a atualização de um acontecimento passado. Ele é constituído pelo conjunto de sequências discursivas que estão em relação no momento do acontecimento linguístico, como se no instante em que o discurso se atualiza, outros discursos se atualizassem. Estes discursos que se atualizam podem se aproximar ou refutar a sequência discursiva de referência. O domínio de antecipação é o efeito de que, da mesma forma que há sempre um já dito, há sempre um “ainda a ser dito”, sendo impossível estabelecer um fim a um processo discursivo, mas sendo possível antecipar efeitos de sentido a partir do trabalho de análise8.

De acordo com Courtine (2009, p. 104), “toda produção discursiva que se efetua nas condições determinadas de uma conjuntura movimenta – faz circular – formulações anteriores, já enunciadas”. Isso significa que os discursos se atualizam através da memória. Vale observar que não se trata da memória em termos psicológicos, cognitivos, mas sim da memória discursiva, noção esta ligada ao domínio de formulações discursivas preexistentes. Neste sentido, os discursos são

8 O domínio de antecipação tem relação com a noção de efeito-leitor, que ocorre no momento mesmo em que o texto se formula e que vai determinar o lugar discursivo ocupado pelo texto através da mobilização de pré-construídos. Os pré-construídos são mobilizados pelo sujeito que está ocupando a função-autor e de acordo com o que imagina ser compartilhável com outros sujeitos. Assim, o efeito-leitor tem ligação com o trabalho desempenhado pelo sujeito em sua função-autor (GALLO, 2019). A noção de função-autor será mobilizada mais adiante.

acontecimentos que podem remeter a outros discursos através do efeito de memória. A noção de memória discursiva diz respeito, portanto, “à existência histórica do enunciado no interior de práticas discursivas regradas por aparelhos ideológicos” (COURTINE, 2009, p. 105). Neste sentido, a memória discursiva está ligada à noção de ideologia, pois é no embate ideológico que se define o “dizer” e o “não dizer”, o esquecimento e a lembrança, a refutação e a aproximação. Os efeitos de memória que remetem a uma FD ocorrem em dois tempos históricos, conforme Courtine. Os enunciados ocorrem no “tempo longo de uma memória”, constituindo os saberes de uma formação discursiva. Já a formulação de um enunciado ocorre no “tempo curto da atualidade de uma enunciação”. O efeito do funcionamento destes tempos históricos é representado pelo interdiscurso e intradiscurso, proporcionando a atualização de discursos passados através do efeito de memória. Vemos, portanto, que para Courtine, memória discursiva e interdiscurso são noções que se imbricam por serem causa/efeito do modo de funcionamento discursivo. Em outras palavras, o efeito de memória é decorrente da atualização de um discurso através do interdiscurso e do intradiscurso. Isso é possível, de acordo com Courtine, através do domínio de memória.

O domínio de memória é composto por várias sequências discursivas que fazem parte das redes de formulações que levaram à formulação de determinada sequência discursiva. É através do domínio de memória que poderemos dizer sobre o funcionamento do pré-construído na SD a ser analisada. Com isso, a noção de domínio de memória é o que possibilita trabalhar a noção de interdiscurso, em conjunto com a noção de condições de produção. O domínio de memória também é o que possibilita chegar às formulações-origem. Estas, por sua vez, não se referem à gênese do enunciado, mas sim ao ponto de partida possível para determinar os processos discursivos.

A partir disso, outra noção surge como determinante: a noção de formações imaginárias. Trata-se do imaginário construído a respeito de si mesmo e do outro, dos papéis que eu acredito desempenhar e que acredito serem desempenhados pelo outro, do que eu imagino que devo dizer e do que imagino que o outro espera que eu diga. Um discurso existe sempre em relação a outro discurso e em relação aos sujeitos da interlocução. Neste sentido, o imaginário é ideologicamente constituído nas diversas relações (de poder) exercidas pelos sujeitos. Assim, as condições de produção, a memória discursiva e as formações imaginárias, são noções que, juntas,

proporcionam uma articulação com a exterioridade, indo além da materialidade linguística.

Todo sujeito pode colocar-se no lugar de seu interlocutor e isso afeta seu dizer, à medida que estabelece estratégias para alcançar os efeitos desejados. A imagem que os sujeitos produzem não se refere ao sujeito empírico, mas sim à imagem da posição discursiva que ele ocupa. Desvincular o sujeito empírico de sua posição discursiva é importante para entender que “lugar social” não coincide necessariamente com “lugar discursivo”. Temos, por exemplo, a possibilidade de o indivíduo de classe baixa falar a partir da posição discursiva do indivíduo de classe alta (ORLANDI, 2001). Esta desvinculação do sujeito empírico do sujeito do discurso é fundamental em AD.

De acordo com Grigoletto (2008), os sujeitos ocupam lugares sociais, que têm a ver com a interpelação ideológica realizada a partir de uma formação social. Este lugar é empírico. Trata-se do lugar social ocupado pelo sujeito e que, através da forma-sujeito que se realiza no interior de uma FD, vai determinar seu lugar discursivo. Além disso, a própria estrutura da língua vai funcionar de forma a possibilitar que o sujeito ocupe determinado lugar discursivo9. Assim, temos um jogo de afetações múltiplas, em que o lugar social determina o lugar discursivo ao mesmo tempo em que a prática discursiva constitui os diversos lugares sociais. Um se constitui em relação ao outro. Nas palavras da autora,

os lugares discursivos são construídos pelo sujeito na sua relação com a língua e a história. Mas essa discursivização só acontece porque há uma determinação da formação social que institui determinados lugares, os quais podem e devem ser ocupados por sujeitos autorizados para tal. Por isso, este duplo efeito de determinação. O lugar social é efeito da prática discursiva, mas, ao mesmo tempo, o lugar discursivo também é efeito da prática social (GRIGOLETTO, 2008, p. 56).

Se pensarmos o objeto desta pesquisa, o discurso pedagógico, a partir das noções de condição de produção, memória discursiva e formações imaginárias, temos que o professor, ao formular seu discurso, é colocado em relação ao sujeito-aluno, em relação à sua própria prática e também em relação ao sujeito-pesquisador,

9 Grigoletto (2005), citando o trabalho de Thomas Herbert (pseudônimo utilizado por Pêcheux em suas primeiras publicações), explica que os significantes, em sua cadeia sintática, determinam a identificação do sujeito a certo ponto na cadeia e que isso ocorre como efeito de sociedade. Assim, a própria estrutura da língua, materializada no intradiscurso, determina o lugar discursivo ocupado pelo sujeito.

que está diante dele no momento em que profere suas falas. As formações imaginárias irão se constituir a partir desta situação que coloca frente a frente um profissional da área da saúde e um professor, falando sobre o aluno, a língua escrita e a alfabetização. Como dissemos, é preciso desvincular o sujeito empírico de sua posição discursiva. Neste sentido, os enunciados são tomados a partir do maior número possível de elementos externos. As condições de produção imediatas ao discurso colocam em relação os sujeitos, de modo a evocar discursos relacionados a uma rede de formulações. Isso significa que a temática do fracasso escolar, por exemplo, surge por fazer parte da memória ligada a um processo histórico que relaciona dificuldades do trabalho do professor, dificuldades metodológicas, condições socioeconômicas, etc. Tudo isso relaciona-se, através da memória, a discursos outros. Estas noções serão retomadas posteriormente para que seja possível delinear com maior clareza as formas de constituição dos discursos a serem analisados. Antes é preciso prosseguir com noções fundamentais à AD.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ ROSYANE MAYRE PIMENTA NATAL ESCRITA E SUJEITO NA ESCOLA: PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO A PARTIR DO DISCURSO PEDAGÓGICO (páginas 33-38)