4 NOS ENTREMEIOS DA TEORIA E DO MÉTODO

4.1 DESCRIÇÃO DA COLETA E CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO

4.1.2 O que se espera para cada ano do fundamental I e II?

A fim de olhar para além do próprio discurso que compõe o corpus, busquei tomar conhecimento de outros discursos que possam estar no funcionamento interdiscursivo das falas dos professores. Além disso, é preciso compreender o que, nos documentos oficiais, espera-se da escrita da criança, pois isso auxilia na compreensão do que se manifesta como “esperado” para cada ano do ensino fundamental. Em outras palavras, nos perguntamos: o que basta para que o sujeito-aluno seja considerado como apto na atividade de escrever? É preciso estar em conformidade com quais aspectos?

Segundo consta no Currículo do Ensino Fundamental (2016)58, disponível no site da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, no que se refere à Língua Portuguesa, para cada ano do ensino fundamental existem objetivos, conteúdos e critérios de ensino-aprendizagem a serem alcançados. Já para os ciclos, existem

objetivos mais gerais. Os ciclos estão divididos em ciclo I (1º, 2º e 3º anos), ciclo II (4º e 5º anos), ciclo III (6º e 7º anos) e ciclo IV (8º e 9º anos)59. Este currículo é um norteador da prática das Escolas Municipais de Curitiba e, por isso, acredito ser importante apresentá-lo aqui, afinal, trata-se do discurso considerado “oficial”, do ponto de vista político-pedagógico.

Para o ciclo I, o objetivo geral consiste em “compreender o sistema de escrita alfabética, dominando as relações grafofônicas, a fim de ler, produzir textos e perceber a função deles nas práticas sociais” (CURITIBA, 2016, p. 20). No ciclo II, o objetivo geral é “ler, produzir e analisar textos de diferentes gêneros, das diversas esferas sociais, considerando os interlocutores, a finalidade comunicativa, a estrutura textual, bem como o suporte em que é veiculado”60. É no ciclo I e II que a questão da alfabetização aparece com maior intensidade. Os professores entrevistados nesta pesquisa lecionam nestes dois ciclos. Neste sentido, os demais ciclos não serão mencionados aqui, visando a construção de um quadro teórico mais interessante e alinhado ao objeto de pesquisa. Vejamos, então, quais objetivos devem ser alcançados em cada ano dos ciclos I e II.

Para o 1º ano, alguns dos objetivos61 a serem alcançados são: “Compreender a palavra escrita como uma sequência de sons pronunciados quando falamos”; “Compreender diferentes sistemas convencionais, atribuindo-lhes significação, reconhecendo a intencionalidade e o processo de interlocução”; “Conhecer o sistema gráfico da língua, reconhecendo sua organização alfabético-silábica e as possíveis relações grafofônicas”; “Identificar as letras do alfabeto, compreendendo-as como um conjunto finito de símbolos a serem utilizados na escrita”; “Compreender o sistema de escrita alfabética, estabelecendo as relações entre fonemas e grafemas”; “Reconhecer que grupos de letras, separados por espaços em branco, correspondem

59 Recentemente (01/08/2018) houve modificações relacionadas à idade necessária para que a criança seja matriculada no primeiro ano do ensino fundamental. O STF deliberou por manter o que recomenda a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, ou seja, para ser matriculada no primeiro ano a criança deve completar seis anos de idade no máximo até 31 de março do ano vigente. Esta modificação não atinge as crianças já matriculadas na escola. Temos, portanto, que os alunos da escola em que a coleta de dados foi realizada apresentam as seguintes idades: cinco, seis e sete anos no primeiro ano, seis e sete anos no segundo ano, sete e oito anos no terceiro ano, oito e nove anos no quarto ano e nove e dez anos no quinto ano.

60 Ibidem, p. 53.

61 Além dos objetivos, o documento apresenta uma tabela mais detalhada com os conteúdos e critérios de ensino-aprendizagem referentes a cada objetivo. O leitor que tiver interesse em acessar o

documento completo pode fazê-lo através do link: http://multimidia.cidadedoconhecimento.org.br/CidadeDoConhecimento/lateral_esquerda/menu/downl

a cada uma das palavras emitidas”; “Ler gêneros textuais previstos para o ano, atribuindo-lhes significação e reconhecendo a intencionalidade e o processo de interlocução”; “Produzir gêneros textuais de curta extensão com unidade temática”; “Perceber, com a ajuda do(a) professor(a), a importância da sequência das ideias colocadas em textos lidos e nas produções coletivas”; “Participar das produções de textos coletivos, sugerindo elementos de coesão para marcar relações de tempo, espaço e causalidade”; “Perceber que as palavras podem ser formadas por diferentes padrões silábicos”.

De modo geral, percebe-se que as relações da escrita com a oralidade, a função comunicativa da linguagem escrita e compreender importância dos aspectos técnicos da escrita são fatores que protagonizam os objetivos para o primeiro ano. Para o 2º ano, o documento repete os objetivos do 1º ano, dando uma ideia de continuidade entre os anos, e acrescenta alguns novos, como por exemplo: “Utilizar sistema gráfico da língua de forma adequada, reconhecendo sua organização alfabético-silábica e as possíveis relações grafofônicas”; “Identificar as unidades sonoras e gráficas, apropriando-se da escrita alfabética”; “Reconhecer que há diferentes formas de falar e escrever de acordo com cada situação”; “Utilizar argumentos, de forma coerente, em suas exposições orais e escritas em sala de aula, defendendo seus pontos de vista”; “Produzir frases e gêneros textuais de curta extensão, de forma individual, coesos e coerentes”; “Realizar, corretamente, a separação silábica no momento da translineação”; “Utilizar sinais de pontuação, demonstrando compreender sua necessidade para melhor veicular as ideias pretendidas”. Vemos que no 2º ano a questão da relação fala/escrita continua presente, porém a ênfase agora parece incidir sobre o aperfeiçoamento das tecnologias da escrita. A questão da coerência também aparece de forma mais marcante.

No terceiro ano há, novamente, a repetição dos objetivos anteriores e o acréscimo de alguns, como por exemplo: “Produzir textos com unidade temática”; “Produzir textos orais e escritos, organizando as ideias seguindo uma sequência lógica, ainda que com a mediação do(a) professor(a)”; “Produzir textos organizando-os em parágrafo, estrofe, tópico ou item de acordo com o gênero textual sistematizado”; “Produzir textos organizados em discurso direto e indireto, conforme o gênero sistematizado”; “Utilizar o sistema gráfico da língua, reconhecendo a necessidade de uso das convenções ortográficas”. Os objetivos vão se somando de

forma que a interpretação possível é de que a escrita “evolui” em quantidade e qualidade na mesma proporção. Em outras palavras, espera-se que o aluno do 2º ano produza frases ou textos pequenos de forma “correta”, já os do 3º devem escrever textos mais longos e com maior domínio de aspectos gramaticais, como se os conhecimentos fossem acumulados e aplicados ano após ano. O que mais se aproxima do trabalho com os sentidos do texto é a menção à “coerência”.

No 4º e 5º ano os objetivos incidem principalmente sobre aspectos de leitura, interpretação, utilização de diferentes gêneros e suas especificidades, argumentação, coerência e coesão, concordância, acentuação etc., além da repetição dos objetivos dos anos anteriores, porém de forma mais elaborada e com maior autonomia por parte do aluno. De acordo com as diretrizes apresentadas no documento, neste contínuo, do 1º ao 3º ano as crianças devem ser alfabetizadas e ter esta capacidade expressivamente aperfeiçoada.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ ROSYANE MAYRE PIMENTA NATAL ESCRITA E SUJEITO NA ESCOLA: PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO A PARTIR DO DISCURSO PEDAGÓGICO (páginas 110-113)