2.1 Teoria sobre conflitos e conflitos socioambientais
2.1.1 Conflitos em múltiplas escalas socioespaciais
Em seguida ao mapeamento da literatura sobre conflitos, discorre-se sobre as suas escalas de análise.
A análise das disputas sociopolíticas em que estão envolvidos diferentes atores, agentes e sujeitos sociais, pode ser enriquecida quando se recorre a uma perspectiva a partir das variadas escalas socioespaciais em que se determinam e se estruturam tais disputas. É possível apreender que disputas de natureza diversa ocorrem em escalas espaciais diferentes (local, regional, nacional, internacional) e por vezes simultaneamente em mais de uma escala.
Deste modo, considera-se importante demonstrar como os instrumentos simbólicos, materiais ou discursivos de que dispõem os contendores, assim como suas narrativas, são constituídos em (ou acionam) diversas escalas. Um caso para exemplificar pode ser o da redelimitação de uma dada Unidade de Conservação de proteção integral ou de uso sustentável a fim de que as terras de grandes fazendeiros em situação irregular, que têm ligações com deputados federais e senadores (ou são os próprios), fiquem fora de seus limites. Este, que é um caso similar ao ocorrido de fato na formação do mosaico da Terra do Meio (EL SAIFI, 2011), trata-se de um exemplo em que há conexão entre a escala local com a
nacional. Portanto, os conflitos e as questões que os desencadeiam, bem como seus desdobramentos, estão associados às diferentes escalas e instâncias de poder e escalas geográficas, podendo existir ou não conexões entre eles e suas escalas. Nesse sentido, muito relevante é a afirmação de Milton Santos (2006, p. 51) de que:
As ações são cada vez mais estranhas aos fins próprios do homem e do lugar. Daí a necessidade de operar distinção entre a escala da realização das ações e a escala de seu comando. Essa distinção se torna fundamental no mundo de hoje: muitas das ações que se exercem num lugar são o produto de necessidades alheias, de funções cuja geração é distante e das quais apenas a resposta é localizada naquele ponto preciso da superfície da Terra. Isso que estamos vivendo no presente momento histórico, em virtude desse distanciamento e dessa esquizofrenia no processo criador dos eventos, é o que se poderia chamar de alienação regional ou alienação local, uma denominação talvez mais adequada para aquilo que Anthony Giddens (1991) apelidou de "lugar fantasmagórico".
De acordo com Brandão (2008, p. 13), as escalas espaciais devem ser encaradas simultaneamente como categoria analítica e como categoria da práxis política. Sobre a última, vista como práticas organizacionais sociopolíticas, ele afirma:
A escala demarca o campo das lutas sociais, dá concretude a bandeiras e ações políticas, delimita e cria a ancoragem identitária, a partir da qual se logra erguer/estruturar um contencioso em relação a imposições (por vezes ameaçadoras) provenientes de outras escalas, ou da mesma. Construído coletiva e politicamente, esse lócus de embates e enfrentamentos não pode ser definido em si, mas apenas em relação com o outro. Assim, a escala delimita, desenha e recorta, em processo constante de confrontos e por interação/oposição, compromissos sociopolíticos em movimento conflituoso e contingente.
Esse autor alega que tais movimentos conflituosos se expressam recorrentemente enquanto relações e mecanismos de empoderamento e desempoderamento (empowering-disempowering) dos atores em conflito. Ganhar ou perder poder envolve transformações nas relações sociais, culturais, econômicas e políticas. Brandão (2008), avalia que esses movimentos também podem se expressar em escalas maiores ou escalas menores (tomando emprestada a expressão utilizada por Swyngedouw (2004) para analisar os “upscaling-downscaling processes”), dependendo dos rumos que um determinado conflito pode assumir, o que também depende do contexto mais geral e das estratégias de ação utilizadas pelos contendores.
A discussão da escala espacial dos processos sociais é fundamental para assimilar as determinações territorializadas dos fenômenos sociais. Para Brandão
(2008), a escala espacial reflete, expressa e concretiza espacialmente as respostas e contraposições dos sujeitos sociais aos desafios e conflitos postos em cada momento e circunstâncias histórica e geográfica. Em outra passagem, o autor revela mais especificamente sua percepção sobre escala espacial. Menciona que:
Em suma, a escala espacial, socialmente produzida, deve ser vista como um recorte para a apreensão das determinações e condicionantes dos fenômenos sociais referidos no território. A escala pode ser tomada como um prisma que permite desvendar processos sociais, econômicos e territoriais singulares. Mas escala também é arena política. Escala enquanto categoria analítica e escala enquanto categoria da práxis política não estão apartadas. Selecionar analiticamente a escala mais conveniente dos problemas observados faculta melhor diagnosticá-los e possibilita sugerir coalizões de poder e decisões estratégicas sobre como enfrentá-los. O desafio (simultaneamente) científico e político é, portanto, procurar definir o que e com que meios cada escala pode revelar, mobilizar, contestar, acionar, regular, comandar e controlar. (BRANDÃO, 2008, p.14).
Depreende-se, então, que um determinado plano escalar pode revelar a natureza dos processos socioespaciais de forma mais adequada, na medida em que um nível escalar possibilita apreender dimensões do real, que de outra perspectiva não seriam assimilados. Portanto, para cada questão ou fenômeno que se pretende analisar é necessário definir em qual escala ele será melhor enxergado e compreendido. Escala também define arena12 política e os atores que nela atuam. É
12
O conceito de arena não será desenvolvido aqui, mas é bastante utilizado por John A. Hannigan, Ortwin Renn, Elinor Ostrom e também pelo Grupo de Pesquisa de Conflitos Socioambientais, do Núcleo de Estudos de Pesquisas Ambientais (NEPAM/UNICAMP), liderado pela Profa. Dra. Lúcia Ferreira. De acordo com Hannigan, Arena é o estabelecimento político no qual os atores dirigem as suas exigências para os responsáveis pela tomada de decisão, na esperança de influenciar o resultado do processo político (HANNIGAN, 1995). Renn (1992), esclarece que a arena social é uma metáfora para descrever o local simbólico das ações políticas que influenciam as decisões coletivas ou o processo político, diz respeito a um local simbólico, não a um espaço geográfico necessariamente. Arenas descrevem as ações políticas de todos os atores sociais envolvidos em um tema. Para Ostrom (1996),. arena é um conceito que representa um contexto no qual os atores estão envolvidos em processos decisórios. Esses atores podem ser analisados em interação nas situações de ação ou na produção das ações que fazem refência ao sistema de interação social entre indivíduos. O conceito de arena tem sido utilizado por Ostrom nos processos que envolvem o uso de recursos comuns ou commons, para análise de estruturas institucionais. O contexto da arena é tratado como um jogo dinâmico em que o grau de informação é o determinante, pois quanto mais informados mais capazes os integrantes da arena são de interpretar a situação e de posicionarem-se no cenário. Renn (1992), afirma que o resultado do processo de arena é sempre indeterminado, nele diferentes atores se utilizam de diversas estratégias que interagem e podem mudar as regras da arena. Para Renn, a obtenção de sucesso na arena social depende da capacidade dos atores maximizarem suas oportunidades de influenciar os resultados do processo de decisão pela mobilização de recursos sociais. Ele faz referência a cinco recursos: 1) dinheiro para estimular o apoio recebido; 2) poder para impor uma decisão; 3) influência social para obter confiança e prestígio; 4) compromisso/valor para obter solidariedade; e 5) evidência para convencer as pessoas.
mais provável que instituições de grande porte tenham mais condições de ter peso político numa arena que envolva uma questão de macroescala, tal como a arena que definiu as diretrizes da política ambiental nacional ou de grandes regiões como a Amazônia.
Neste mesmo sentido, Castro entende que
“todo fenômeno tem uma dimensão de ocorrência, de observação e de análise mais apropriada. A escala é também uma medida, mas não necessariamente do fenômeno, mas aquela escolhida para melhor observá- lo, dimensioná-lo e mensurá-lo”. (1995, p. 120).
Logo, privilegiar uma determinada escala significa a escolha de uma estratégia para apreensão da realidade, sendo que “cada escala só faz indicar o campo da referência no qual existe a pertinência de um fenômeno (...), constituindo um modo de aproximação do real (...) à medida que confere visibilidade ao fenômeno (...).” (CASTRO, 1995, p.120).
Em acréscimo às afirmações acima, os autores esclarecem que as escalas são inerentemente dinâmicas e móveis, sendo necessário partir de uma abordagem territorial que leve em consideração as escalas espaciais em seu movimento de transformação, na medida em que não são estáticas, muito menos imutáveis.
Ações em uma escala podem não guardar correspondência ou conexão em outras, em uma espécie de desencaixe institucional. Neste sentido, Giddens (1991, p. 28) chama a atenção para a questão do desencaixe das instituições sociais como sendo “o deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço”. Afirma que desencaixe permite que a atividade social saia dos contextos localizados e que as relações sociais sejam reorganizadas através de grandes distâncias tempo- espaciais.
À medida que as questões socioambientais tornam-se temas mais recorrentes no cenário nacional e internacional, aumenta a dimensão sociopolítica que algumas questões relacionadas à Amazônia assumem. Becker (2005a), entende
que, a partir dos últimos anos do século XX, a Amazônia ganha um novo significado geopolítico em âmbito global como a grande fronteira do capital natural, tendo em vista a sobrevivência do planeta, devido aos efeitos do desmatamento sobre o clima e a biodiversidade, assumindo também um novo lugar no cenário nacional. Para a autora, essa percepção é favorecida em boa medida pela tecnologia dos satélites, pois a partir dela consegue-se, pela primeira vez, “uma visão de conjunto da superfície da Terra e da sua unidade trazendo o sentimento da responsabilidade comum, assim como a percepção do esgotamento da natureza, que se tornou um recurso escasso” (BECKER, 2005, p.74). Então, a natureza teria sido reavaliada e revalorizada por duas lógicas, que apesar de muito diferentes, convergem, segundo a autora, para o mesmo projeto de preservação da Amazônia.
A primeira lógica é a civilizatória ou cultural, que possui uma preocupação legítima com a natureza pela questão da vida, o que dá origem aos movimentos ambientalistas. A outra lógica é a da acumulação, que vê a natureza como recurso escasso e como reserva de valor para a realização de capital futuro, fundamentalmente no que tange ao uso da biodiversidade condicionada ao avanço da tecnologia. (BECKER, 2005, p.74).
Uma vez que se amplia a escala, amplia-se também o escopo de atores que se envolve nas questões relativas à Amazônia. Entre outros, no âmbito interno, os atores que possuem capacidade de ação em grande escala são as grandes ONGs e os órgãos estatais federais subordinados às diferentes pastas ministeriais e secretarias de Estado. Um exemplo de conflito de macro escala envolvendo atores governamentais é esboçado na Figura 2 entre os projetos de alguns ministérios, tais como Ministério dos Transportes, na figura do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), responsável pelo planejamento e construção de rodovias federais; Ministério do Meio Ambiente (IBAMA, ICMBio); FUNAI, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (com interesses focados na promoção da agronegócio e pecuária); Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA); Ministério de Minas e Energia cujo foco é o aproveitamento dos recursos minerais e energéticos do país e as empresas estatais Eletrobrás e Eletronorte.
Figura 2- Esquema de conflitos de uma macro-arena entre órgãos estatais federais.
Essa arena acima pode ser aplicada na região específica da Terra do Meio às negociações e controvérsias que giram em torno de diferentes projetos, tais como a construção da UHE de Belo Monte, a pavimentação das rodovias federais Cuiabá-Santarém e Tranzamazônica ou mesmo ao proceso de implantação do Mosaico da Terra do Meio. Essas agências governamentais possuem ligação direta ou indireta com questões envolvidas em todos esses projetos.
Em seu primeiro grande trabalho sobre a Amazônia, Becker (1982) explora a complexa rede de conectividade entre as distintas escalas territoriais e de poder para demonstrar como se dá o processo de incorporação da Região ao sistema mundial. Ela afirma que o modelo de desenvolvimento nacional é induzido ou determinado internacionalmente, e nesta escala o Brasil foi consagrado como uma fronteira de recursos. Segundo afirma:
As forças que operam na escala internacional determinam, em grande parte, o estilo de desenvolvimento nacional, marcando os períodos de transformação econômica e política, e as formas de apropriação do espaço. A análise nessa escala é, pois, fundamental para compreender-se que se trata de uma fronteira mundial num país cujo modelo de desenvolvimento é induzido do exterior. Na escala mundial, o Brasil, como os demais países da América Latina, é uma fronteira de recursos,tendo sua história vinculada à sua inserção na divisão internacional do trabalho. (BECKER, 1982, p. 213).
Ministério dos Transportes Ministério de Minas e Energia (Eletrobrás e Eletronorte) Ministério do Desenvolvimento Agrário/INCRA Ministério da Agricultura e Pecuária e Abastecimento Ministério do Meio Ambiente (ICMBIO e IBAMA) FUNAI
Nessa questão do estilo de desenvolvimento, passa-se da escala internacional ao nível nacional quando o Estado concebe estrategicamente a viabilização da fronteira, e elabora as estratégias específicas para a apropriação dos recursos territoriais nas diversas regiões. Afirma Becker (1982) que a estratégia global do Estado no Brasil tem sido no sentido de garantir o monopólio da propriedade da terra representada pelo latifúndio voltado para a exportação de recursos. Em relação ao nível regional, Becker expõe as estratégias de apoderamento da Amazônia Oriental e a estruturação daquele espaço pelo Estado e faz referência à articulação da fronteira de recursos com a “bacia de mão-de-obra nordestina” (p. 218).
Por último, chega ao nível local. Becker caracteriza este nível como o espaço vivido, aquele em que vai ocorrer o confronto entre dominadores e dominados na disputa pela terra. É nesta escala que se processam os conflitos entre as diversas formas de produzir e a disputa pelo domínio do espaço entre os vários agentes. Os agentes dominadores da construção do espaço, para a autora, são identificados como o Estado e a empresa, uma vez que determinam as formas de operacionalização na escala local. Por outro lado, os agentes dominados são identificados como pequenos produtores e assalariados.
Becker conclui com a idéia de que o estudo geopolítico da Fronteira Amazônica deve ser feito com a articulação de diferentes escalas de análise, pois se trata de uma fronteira de recursos mundial, espaço de expansão territorial do modo de produção capitalista.