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Violência, desmatamento e pecuária: atividades complementares?

3.2 Conflitos na Região da TDM

3.2.1 Violência, desmatamento e pecuária: atividades complementares?

No início da primeira década deste século, houve intensificação dos conflitos decorrentes do desflorestamento com a chegada de fazendeiros apoiados por grupos de pistoleiros. Em contrapartida ao declínio da exploração do mogno, cujas reservas estavam se esgotando, aumentaram as áreas de pastagens. A região, comprovadamente por pesquisas como uma das mais violentas do país49, tornou-se

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recordista em desmatamento e também nos números relativos ao maior rebanho bovino do Brasil. A pecuária é particularmente responsável pela ocupação de novos desmatamentos, e há evidências de que já se enunciava no início dos anos 2000 uma relação de retroalimentação entre violência, atividades ligadas à criação de gado e desflorestamento.

Os casos de corrupção de fiscais ambientais e membros do executivo local tornaram-se corriqueiros nessa porção do Pará, bem como os assassinatos e os casos de trabalhadores escravizados. Parte dessa perspectiva de violência pode ser percebida pelos dados na Figura 10. A violência abrange os casos de mortes no campo e de utilização de trabalho escravo entre 2003 e 2007. Em destaque os municípios da Região da Terra do Meio.

Pelo quadro – que apresenta uma relação de 17 dentre os 50 municípios que compõem a lista completa – nota-se que dentre os 50 municípios que mais registraram violência no campo, assassinatos e escravização de trabalhadores, e maiores índices de desmatamento, encabeçam a lista os dois em que se concentra a maior parte da área da TdM, São Félix do Xingu e Altamira. Além desses, outros quatro municípios localizados no entorno da mesma região também constam da lista dos 50 municípios com maiores índices de violência no campo e desmatamento, este último associado à atividade pecuária.

Posição no ranking das cidades que mais desmatam

Cidades que mais

desmataram (1) UF Área desmat ada em km² (1) Variação em cabeças de gado (2) Mortes no campo motivadas por conflitos fundiários (1) Trabalhador es resgatados em situação de escravidão (1)

1 São Félix do Xingu PA 2812 331420 4 291

2 Cumaru do Norte PA 1042 337594 4 73 3 Novo Repartimento PA 1028 145046 6 59 4 Colniza MT 982 115958 2 0 5 Altamira PA 914 73973 3 120 6 Santana do Araguaia PA 796 122719 0 218 7 Porto Velho RO 778 179800 0 0 8 Juara MT 708 19714 0 28 9 Pacajá PA 661 83952 1 521 10 Nova Bandeirantes MT 549 124302 0 16 11 Lábrea AM 528 265 3 26 12 Novo Progresso PA 523 329887 1 0 13 Marabá PA 510 270700 4 194 24 Anapu PA 353 77307 5 20 33 Uruará PA 277 101622 0 94 35 Brasil Novo PA 271 46492 0 85 39 Itaituba PA 269 102057 0 28

Figura 10 – Quadro: Relação entre municípios que mais desmataram, pecuária e violência entre 2003 a 2007.

Notas: (1) Baseado nos dados de 2004 a 2007; (2) Baseado em dados de 2003 a 2006.

Fontes: Base de Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Comissão Pastoral da Terra e Ministério do Trabalho. Elaborado por NEPO/Unicamp a partir de SCOLESE (2008).

Girardi (2008) constrói um índice de violência contra a pessoa no campo que leva em consideração o número de assassinatos, tentativas de assassinatos, ameaças de morte e a média entre o número de trabalhadores escravizados libertados pelo Ministério do Trabalho e as denúncias à Comissão Pastoral da Terra . A Figura 11 identifica espacialmente em quais municípios este índice é mais alto, e revela que estes se concentram em alguns municípios da região, com destaque para São Félix do Xingu.

Figura 11 - Mapa do índice de violência contra a pessoa no campo, com a identificação espacial da Terra do Meio. Fonte: Adaptado de Girardi (2008, p.308).

Os dados que constam no Atlas do Trabalho Escravo no Brasil (Théry et al., 2012) caracterizam pela primeira vez a distribuição, os fluxos, as modalidades e os usos do trabalho escravo no país, nas múltiplas escalas: municipal, estadual e regional. Segundo o Atlas50, o perfil típico do escravo brasileiro do século XXI é um migrante do Maranhão, do Norte do Tocantins ou do Oeste do Piauí. Tipicamente são homens e analfabetos funcionais. Esses trabalhadores costumam ser levados para as fronteiras móveis da Amazônia, ser utilizados principalmente em atividades vinculadas ao desmatamento e, em geral, em municípios pouco consolidados, de

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O Atlas utiliza fontes oficiais do Ministério do Trabalho e da Comissão Pastoral da Terra. Procura detalhar as ocorrências por setores da economia em todo o país.

criação recente. As atividades ligadas à pecuária em algumas partes da Amazônia é um exemplo de risco muito alto de existência de trabalho escravo.

Além do diagnóstico inédito, o Atlas oferece dois produtos novos: o Índice de Probabilidade de Trabalho Escravo e o Índice de Vulnerabilidade ao Aliciamento. De acordo com os autores, essas são ferramentas inovadoras e essenciais para gestores de políticas públicas e que podem contribuir expressivamente para o planejamento governamental no combate a essa prática criminosa que ainda é adotada no Brasil. Ele destaca também que, com esses dados, financiadores e empresas podem evitar associações com empresários ligados ao trabalho escravo.

Entre os anos de 1996 e 2006, El Saifi (2008) demonstrou que a criação de gado bovino tem se concentrado espacialmente em áreas específicas do estado do Pará, sendo que dois dos quatro municípios onde mais cresceu o número de cabeças situam-se na área do Mosaico da Terra do Meio, e os outros dois são municípios que ficam no seu entorno (Figura 12). A concentração da produção pecuária está em São Félix do Xingu e entorno, sendo que o aumento em São Félix foi da ordem extraordinária de 1.476.599 a mais de cabeças de gado bovino entre 1996 e 2006, passando neste ano a contar com nada menos do que 1.624.425 cabeças. Já o município de Altamira passa a contar com a terceira maior marca no número de cabeças em 2006, 394.842, com o terceiro maior aumento total no período, de 278.971 cabeças. Destacam-se, ainda, os municípios de Cumaru do Norte e Santa Maria das Barreiras. O município de Cumaru do Norte, fronteiriço com São Félix - situado bem ao sudoeste dele -, é o que tem o segundo maior aumento neste período de dez anos, sendo este da ordem de 285.639 cabeças de gado bovino, ficando com o quarto posto do Pará com relação à quantidade total de cabeças, ao todo de 387.922 cabeças em 2006. Por sua vez, Santa Maria das Barreiras, fronteiriço com Cumaru do Norte, teve o quarto maior crescimento no número de cabeças (261.215), ficando com o segundo maior posto neste quesito em 2006, 435.208 de cabeças. Com relação a esses últimos dois municípios o que chama a atenção é o fato de que seus territórios são bem pequenos comparativamente a Altamira e São Félix, de forma que, em termos relativos, são municípios ainda mais pecuaristas.

Figura 12 - Variação total do número de cabeças de gado bovino. Pará, 1996 e 2006.

Fonte: IBGE. Elaborado por Samira El Saifi.

Percebe-se que a tendência para a concentração da atividade pecuária em determinados municípios não está distribuída de forma aleatória no território paraense. Os municípios que concentram essa atividade encontram-se principalmente na região da Terra do Meio. Tal concentração pode ser associada a

alguns fatores, e, talvez, principalmente ao fato de ser uma região de fronteira agrícola, área em que atuação do Estado é rarefeita, e que apenas muito recentemente, está passando por processos de tentativas de regularização fundiária e de controle do desmatamento florestal por parte da União e do estado. Muitos dos grandes pecuaristas têm histórico de grilagem na região, destruindo ilegalmente as áreas de florestas para criação de áreas de pasto.

Em conformidade com os dados e argumentação acima, Escada et al. (2005, p.14) afirmam, ao se referirem ao papel da pecuária na evolução da fronteira, que São Félix do Xingu se constituiu em palco de um grande número de conflitos e mortes no campo e de uma das mais elevadas taxas de desflorestamento anual, sendo que apenas entre 1997 e 2004 este município aumentou o seu rebanho bovino em nada menos do que 780%. Segundo afirma, “o processo de desmatamento da região leva, direta ou indiretamente, à implantação de pastagens para a formação de fazendas, principalmente, de gado de corte.”.

A concentração de fazendas de gado e áreas de pastagens nessa região são facilitadas pelo livre acesso (sem presença do Estado) e apropriação ilegal de extensas áreas de terras públicas, perpetuando a debilidade da regulamentação fundiária nas novas frentes de ocupação na área de São Felix do Xingu e Iriri. Trata- se de um processo de apropriação fundiária em que há intensificação do desmatamento, e cujo o tom dominante é sobretudo o de assegurar a posse da terra, e não é nem “a produção, e nem mesmo a exploração predatória de recursos naturais, e sim assegurar a posse da terra, base para futuras atividades produtivas e também de especulação com seu valor” (ESCADA et al., 2005).

É importante compreender que a apropriação fundiária é uma atividade economicamente rentável em si, e faz parte desse processo a influência de capitais provenientes de atividades ilícitas. Escada et al. (2005) citam que as rendas de origem ilícita estão diretamente vinculadas a esse processo de apropriação fundiária, seja pelo agenciamento de pistoleiros e mão de obra escrava, seja pela corrupção cartorária e de órgãos e funcionários públicos. Fontes relevantes de rendimentos ilegais na região são o contrabando de armas e o tráfico de drogas, dentre outras.

come floresta51” trata-se de uma “lógica típica do processo de acumulação primitiva relatada historicamente em pleno século XXI” (p.8). Prosseguindo na sua linha de raciocínio, o autor explica:

Faz parte do patrimonialismo fundante da cultura das elites brasileiras dando ensejo a uma prática que se inicia pela ação das madeireiras que abrem trilhas na floresta para retirarem as melhores árvores. Essas trilhas ampliam-se com a “abertura das fazendas” cuja realização foi facilitada pela agressividade da braquiária, (...). Uma queimada, mais outra queimada e se forma um paliteiro de árvores retorcidas que apodrecem a céu aberto quando os primeiros bois já habitam os espaços ocupados. Os bois crescem e com eles as trilhas viram estradas vicinais, depois estradas estaduais, depois federais, depois rodovias asfaltadas com recursos públicos Desse modo o “boi come floresta” e as terras antes sem valor monetário, com as rodovias passam a valer muito pela magnitude das extensões (p.8).

O autor insiste na afirmação de que a materialização dos ganhos dessa “acumulação primitiva” são garantidos com os investimentos em infraestrutura rodoviária, sendo eles fundamentais. Assim, o patrimônio gerado pelo valor da terra torna-se maior do que a própria renda que a terra gera com suas atividades produtivas. Portanto, não é a produção que justifica a ocupação, mas sim o ganho patrimonial, sendo o boi apenas um subterfúgio, um “abridor de espaço”. Conforme Gonçalvez (2011), na Amazônia existem cerca de 36 organizações (quase empresas) que só trabalham com a abertura de novas terras. Elas possuem tratores e todo maquinário necessário para isso e estariam ligadas a esquemas ilegais com representantes do próprio INCRA e dos Parlamentos. Gonçalves (2011) ainda afirma que dificilmente o ordenamento territorial será vitorioso na Amazônia enquanto esse processo de valorização patrimonial da terra existir tão fortemente.

Sobre a presença e os mecanismos da acumulação primitiva (ou por espoliação), Harvey (2005, p. 121) apresenta uma descrição dos mecanismos da acumulação por espoliação, que refere-se diretamente à acumulação primitiva. O autor sustenta que continuam fortemente presentes as práticas relacionadas à acumulação que Marx tratou como primitivas ou originárias no momento da ascensão do capitalismo. Segundo Harvey (2005), incluem-se entre essas práticas e

51 Expressão em alusão àquela utilizada por Thomas More que desscrevia o processo de Cercamenro

de terras do campesinato, no Sudoeste da Inglaterra, nos primódios da produção capitalista. Mor e (1508) referiu-se à intensidade que tais cercamentos assumiram como aquela realidade “onde as ovelhas devoram os seres humanos” (GONÇALVES, 2011).

mecanismos as que seguem – e que em boa medida dizem respeito aos fenômenos relatados no contexto da Terra do Meio:

a) mercantilização e a privatização da terra, bem como a expulsão pela força de populações camponesas;

b) conversão de várias formas de direitos de propriedade (comuns, coletivas, estatais etc.) em direitos de propriedade privada;

c) supressão dos direitos aos bens comuns;

d) mercantilização da força de trabalho e a supressão de formas alternativas (nativas) de produção e consumo;

e) processos coloniais, neocoloniais e imperialistas de apropriação privada de ativos (incluindo recursos naturais);

f) monetização do câmbio e a taxação, principalmente da terra;

g) persistência de formas de trabalho escravo (que continua de modo especial nas relações de trabalho dos contextos de fronteiras e na indústria do sexo); e

h) uso do sistema de crédito como meio radical de acumulação por espoliação.

De acordo com Harvey (2005, p. 121 e seguintes) algumas dessas práticas têm se proliferado nas últimas três décadas, tais como: expulsão de populações camponesas em alguns países (México e Índia); recursos naturais como a água têm sido privatizados, frequentemente por insistência do Banco Mundial, e inseridos na lógica de acumulação capitalista; formas alternativas de produção e consumo têm sido suprimidas (sendo este o caso de algumas populações no contexto da Terra do Meio); agronegócio tem eliminado a produção agrícola familiar; indústrias nacionalizadas estão sendo crescentemente privatizadas; e a escravidão continua sendo realidade em muitos contextos.

capital financeiro para desempenhar um papel mais forte ainda do que no passado, configurando um trampolim para a usurpação de recursos públicos; bem como a invenção de mecanismos inteiramente novos de acumulação por espoliação, tais como o patenteamento e licenciamento de material genético. Harvey (2005, p. 123) afirma que:

A biopirataria campeia e a pilhagem do estoque mundial de recursos genéticos caminha muito bem em benefício de umas poucas grandes companhias farmacêuticas. A escalada de destruição dos recursos ambientais globais (terra, ar, água) e degradações proliferantes de habitats que impedem tudo exceto formas capital-intensivas de produção agrícola, também resultam na mercantilização por atacado da natureza em todas as suas formas.

Para Harvey (2005, p.121), é fundamental a partipação do Estado nesse processo e nos mecanismos de espoliação. O autor afirma que:

O Estado, com seu monopólio da violência e das definições de legalidade, desempenha um papel vital tanto no apoio como na promoção desses processos (...). O papel desenvolvimentista do Estado começou há muito tempo, e vem mantendo as lógicas territorial e capitalista do poder sempre interligadas, ainda que não necessariamente convergentes. (HARVEY, 2005, p. 121).

O Estado para o autor, portanto, tal qual no passado, emprega com frequência seu poder para impor esses processos, mesmo que para isso contrarie a vontade popular. Neste ponto, Harvey aproxima-se da hipótese levantada por Scott (1998) de que muitos projetos estatais além de gerarem destruição ambiental, não obtêm êxito porque são desconexos dos valores e modo de vida das populações por eles atingidas.

Isso pode occorrer mesmo em se tratando da criação de áreas protegidas. Essa perspectiva poderia ser adaptada para aqueles casos em que não há participação dos grupos de moradores dessas áreas em relação à decisão de estarem sujeitas a regras, cuja formulação não passam por elas. Nestes casos, podem considerar tais regras não legítimas ou desconexas em relação ao seu modo de vida, desnecessárias para manutenção da sustentabilidade e limitadoras de atividades consideradas necessárias para uma sobrevivência digna.