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Capítulo 5 – De casa até à Igreja: como era o cortejo fúnebre?

5.2. Os acompanhamentos dos defuntos

5.2.2. Acompanhantes solicitados e recebidos

5.2.2.2. Confrarias

As confrarias (sociedades de leigos voluntários, presididas e administradas por leigos, ainda que eclesiásticos possam fazer parte mas a título pessoal), surgidas já na Idade Média, desenvolveram ao longo do período moderno uma especial atenção à função da oração pelos mortos e, por isso, a sua participação nos velórios e nos acompanhamentos dos irmãos falecidos tornaram-se algumas das suas funções principais. Uma vez que os confrades deveriam participar nos funerais dos irmãos defuntos, os fiéis, ao juntarem-se a estas associações, procuravam garantir que após a sua morte teriam quem orasse pela sua alma, como o faziam em vida pelos irmãos que iam falecendo.240 No fundo, seria uma troca, como muito bem sintetiza Maria de Fátima Gomes “o confrade ao participar nos rituais funerários de outro, assegurava, assim, a sua intervenção junto de Deus, aquando da sua própria morte”.241

Apenas treze outorgantes solicitaram a presença de confrarias no seu cortejo fúnebre (ver Gráfico 7 e Anexo 9), sendo que somente cinco pretendiam a presença de mais do que uma. Micaela de Pinho, moradora no lugar da Lomba, freguesia de Arões, pediu, simplesmente, no seu testamento, em 13 de Junho de 1819 que o seu corpo fosse “acompanhado a sepultura das Irmandades de que hé Irmã”.242

Este pedido é uma

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ARIÈS, Philippe – Essais sur l’histoire de la mort…p. 101; ARIÈS, Philippe – O Homem perante a morte – I, p. 217-219.

241

GOMES, Maria de Fátima – Temendo a Morte…p. 53, 102.

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exceção na medida em que todos os outros outorgantes enumeram as confrarias pretendidas, mas também porque todos eles exigiram a presença de confrarias mediante uma esmola que deixavam definida para tal. Este facto leva-nos a pensar que nenhum deles seria membro das confrarias cuja presença solicitaram, pois, se assim fosse, seria uma obrigação a sua comparência no acompanhamento do irmão defunto, não seria necessário dar-lhes esmola para que o fizessem.243 Talvez até este aspeto explique o motivo pelo qual não se encontraram mais referências a confrarias nos acompanhamentos, pois aqueles que pertenciam a alguma destas associações confraternais certamente não necessitavam de pedir a sua comparência, confiantes que eram nos seus irmãos.244

No caso daquele pedido anterior, não sabemos quais as confrarias a que a outorgante se referia, mas, na freguesia de Cepelos, as confrarias que os outorgantes fizeram questão de ver presentes foram a das Almas, pedida por cinco pessoas, a do Santíssimo Sacramento, solicitada por três indivíduos, a de Nossa Senhora das Neves, pedida por dois outorgantes e a de Nossa Senhora do Rosário solicitada por igual número. Na paróquia de Codal os dois pedidos existentes são relativos à Confraria de Nossa Senhora do Carmo. Na freguesia de São Pedro de Castelões esta foi também a Confraria mais solicitada, três dos cinco indivíduos que fizeram pedidos pretendiam a sua presença, sendo que os outros fizeram recair a sua preferência na Confraria das Almas e do Santíssimo Sacramento.

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Também na cidade de Braga, no século XVIII, apenas uma pequena percentagem de testadores pediu a presença de confrarias a que não pertencia (em alguns casos não pertencia a nenhuma) mediante pagamento de uma esmola, e na segunda metade daquele século a solicitação destes acompanhamentos pagos registou uma quebra assinalável (talvez devido ao pensamento iluminista que condenava os rituais e pompas religiosas, à falta de comparência de muitos confrades que descredibilizava as confrarias ou o facto dos cadáveres irem de imediato para a igreja dispensar a sua presença): FERRAZ, Norberto Tiago Gonçalves – A Morte e a Salvação da Alma…p. 166, 187, 199; No século XIX, em algumas freguesias de Gondomar, vários indivíduos solicitaram a participação de confrarias de que não eram irmãos nos seus cortejos fúnebres pagando também por esse serviço prestado, ao contrário dos testadores que pediam a presença das confrarias a que pertenciam: GOMES, Maria de Fátima – Temendo a Morte…p. 148-149.

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Na paróquia de Cervães (Braga), no século XVIII, a grande maioria dos testadores também não fez referência à presença de confrarias, o que Angélica Moreira Rodrigues interpretou da mesma forma: RODRIGUES, Angélica Moreira – As últimas vontades…p. 39; Também entre os camponeses bracarenses nos séculos XVIII e XIX muitos testadores diziam pertencer a uma ou várias confrarias enquanto outros nada diziam, o que Margarida Durães também não entendeu como não serem irmãos de nenhuma confraria, mas que podiam considerar desnecessário referi-lo: DURÃES, Margarida – Porque a morte é certa…p. 306; Já para a cidade de Braga, em testamentos do século XVIII, era comum os testadores pedirem as confrarias ou irmandades a que pertenciam, apesar de serem obrigadas pelos seus estatutos a acompanhar de forma gratuita os seus membros à sepultura: FERRAZ, Norberto Tiago Gonçalves – A Morte e a Salvação da Alma…p. 165.

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Apesar de não terem pedido de forma expressa a presença de confrarias nos seus cortejos fúnebres, 178 outorgantes (46,7%) deixaram esmolas a várias confrarias das paróquias, e nos livros de receitas e despesas de algumas delas encontraram-se também registos de várias esmolas de defuntos.245 Estas esmolas não tinham em vista a contrapartida do acompanhamento, um pagamento de um serviço, mas os testadores estavam certamente cientes do seu efeito: quem a recebia comparecia no funeral e rezava, era dada aos membros das confrarias a oportunidade de também eles fazerem uma esmola, rezar por outrem. Na freguesia de Arões quatro confrarias registaram rendimentos provenientes de esmolas dos defuntos ou dos que morreram. A confraria de Nossa Senhora do Rosário recebeu, entre 1819 e 1829, esmolas desde 400 a 2400 reis.246 A confraria do Santo Nome de Jesus teve lucros, entre 1803 e 1822, de 200 a 2000 reis em esmolas.247 A confraria do Senhor (Santíssimo Sacramento) arrecadou, entre 1819 e 1827, várias esmolas entre 900 e 2000 reis. 248 Entre 1802 e 1835 a irmandade das Almas recebeu também estas esmolas, cujo valor oscilou entre 250 e 2880 reis.249 A fábrica da Igreja de São João Batista de Cepelos recebeu também entre 1806 a 1833 esmolas de defuntos que iam desde 400 a 2400 reis.250

Das confrarias expressamente solicitadas nas escrituras em análise e acima enumeradas, apenas existem livros de registo de receitas e despesas para a Confraria do Santíssimo Sacramento de São Pedro de Castelões e para a confraria de Nossa Senhora das Neves de Cepelos. Somente neste último livro, entre os anos de 1802 e 1841, se encontraram referências a esmolas de defuntos, desde 200 a 1420 reis.251 No entanto,

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Não parece que estejamos perante um momento de declínio, pois elas eram várias, e como diz Michel Vovelle, se em França e noutros países onde a sua revolução se fez sentir as confrarias acabaram por se ruralizar e desaparecer nas cidades, mas nas penínsulas mediterrânicas, as confrarias conservavam ainda a sua vitalidade durante o século XIX: VOVELLE, Michel – La mort et L'Occident…p. 459-561.

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AMVLC - Livro de Receitas e Despesas da Confraria de Nossa Senhora do Rosário da Igreja e Freguesia de São

Simão de Arões (1803-1866), fls. 19v, 20v, 21v, 22v, 23v, 24v, 25v, 26v, 27v, 28v, 29v.

247

AMVLC - Livro de Receitas e Despesas da Confraria do Santo Nome de Jesus da Igreja e Freguesia de São

Simão de Arões (1803-1853), fls.1v, 2v, 3v, 4v, 6, 7, 11, 12, 13, 14, 17, 18, 19, 20, 21.

248

AMVLC - Livro de Receitas e Despesas da Confraria do Senhor (Santíssimo Sacramento) da Freguesia de Arões

(1803-1866), fls. 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29.

249

AMVLC - Livro de Receitas e Despesas da Irmandade das Almas da Igreja e Freguesia de São Simão de Arões

(1789-1866), fls. 3, 5, 6v, 7, 8v, 9, 9v, 10, 10v, 12, 12v, 13, 15, 15v, 16, 16v, 17, 18, 18v, 19, 19v, 20, 10v, 21, 22v.

250

AMVLC - Livro de Receitas e Despesas da Fábrica da Igreja da Freguesia de São João Batista de Cepelos

(1803-1851), fls. 6v, 8, 11, 12v, 14, 15v, 16v, 18, 19v, 21, 22, 23, 26, 27, 31v, 33, 39, 40, 43.

251

AMVLC - Livro de Receitas e Despesas da Confraria de Nossa Senhora das Neves da Freguesia de São João

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não foi possível localizar a data de óbito dos outorgantes que pediram o acompanhamento desta confraria e confirmar se a esmola tinha ou não sido entregue.

Considerando todos estes registos a preferência parece ter recaído sobretudo sobre as Confrarias das Almas, Santíssimo Sacramento ou Santo Nome de Jesus e Nossa Senhora do Carmo. A primeira confraria era também das mais pedidas noutros locais252, o que não é de estranhar, pois como diz Jacques Le Goff, a sua finalidade era precisamente interceder junto de Deus de forma a abreviar a passagem das almas pelo Purgatório.253 No caso das confrarias de Nossa Senhora do Carmo não terá pesado a explicação que Ana Cristina Araújo apresentou em relação ao uso de mortalhas daquela ordem? Se o seu uso era uma forma privilegiada de atingir a salvação ao conceder indulgências, certamente que seria também vantajoso usufruir da oração dos confrades.