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1.3 Metáfora Gramatical

1.3.1 Congruente e metafórico

Grammatical categories in Modern Chinese (1956) de Halliday é a primeira

publicação em que o termo ‘congruência’ aparece. Neste artigo, três tipos de categorias gramaticais — unidades, elementos e classes são estabelecidas para descrever diferentes tipos de estruturas gramaticais na língua chinesa.

No caso em que existem formas alternativas de uma estrutura de base, por exemplo, a (determinada) ordem de orações, a possibilidade de ocorrência de cada forma é expressa segundo um valor de probabilidade. Nesta circunstância, uma

33 disposição gramatical que reflete a estrutura contextual é denominada ‘congruente’ (Halliday, 1956 apud Taverniers, 2003). As formas congruentes exprimem as que são típicas e que interpretam a experiência, em oposição à realização metafórica do significado: a congruência entre os níveis semânticos e léxico-gramaticais. A metáfora implica, então, uma discrepância entre as duas.

Posteriormente, o tema da congruência aparece em estudos da linguagem em contextos sociais. No seu artigo Language in urban society (1978), Halliday trata da utilização de diferentes variedades sociais da língua em diferentes contextos. Um uso de altas variedades da linguagem em contextos formais (metafórico) e outro de baixas variedades, em contextos informais, denominado ‘o padrão congruente’ (Halliday 1978 apud Taverniers, 2003). O falante poderá também usar a variedade de forma ‘incongruente’, i.e. num contexto onde a variedade não corresponda à ‘norma’.

Halliday salienta depois (M.A.K. Halliday & Matthiessen, 1999, p. 233) que, a metáfora lexical e a metáfora gramatical não são fenómenos diferentes. Como, de facto, são apenas dois aspetos da mesma estratégia metafórica geral porque os recursos semânticos para interpretar a experiência pode ser expandida. No entanto, existe ainda alguma diferença entre os dois. A tradicional abordagem para a metáfora é a de olhar para a mesma ‘a partir de baixo’ e perguntar o que determinada expressão significa. Por outras palavras, a metáfora lexical é a variação do significado da expressão; enquanto a metáfora gramatical olha para a mesma ‘a partir de cima’ e pergunta como é que a emoção foi expressa, isto é, a variação da expressão do significado (M.A.K. Halliday & Matthiessen, 1999, p. 232; M.A.K. Halliday, 1994/2000, p. 342).

As duas perspetivas são contrastadas na Diagrama 1:

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seen from below

literally metaphorically a moving mass of water a moving mass of feeling or rhetoric flood

seen from above

many people [protested]

a large number [of protests] a flood [of protests] congruent metaphorical

Diagrama 1 As duas perspetivas sobre a metáfora (M.A.K. Halliday, 1994/2000, p. 342)

Em The Introduction to Functional Grammar, Halliday simplesmente propõe dois termos; porém, não deixou uma explicação clara sobre o que é congruente ou metafórico. Este facto tornou-se implicitamente alvo de críticas.

Mas como na citação supracitada, sabemos que se um encunciado é considerado metafórico, tem que ser metafórico em relação a outro, ou seja, possui, inevitavelmente, uma referência. Não há, pois, expressão absoluta congruente ou metafórica. Existirá apenas, em termos relativos, um grau de metaforização. Como se pode constatar nas enunciados seguintes (M.A.K. Halliday & Matthiessen, 1999, p. 257):

a) The truest confirmation of the accuracy of our knowledge is the effectiveness of our actions.

b) The fact that our knowledge is accurate is best confirmed by the fact that our actions are effective.

c) What proves that we know things accurately is the fact that we can act effectively.

d) The best way of telling that we know what’s happening is to see that what we do is working.

e) You know you’ve got the right idea because you can do something and it works. Like watering plants: you water them and they grow.

35 enunciados seguintes. O enunciado e) será a mais congruente de expressão, sendo c) mais metafórico em comparação com d). De outro ponto de vista, c) será, ainda, em certo grau, mais congruente do que o enunciado b).

Embora a metáfora gramatical seja apenas uma das realizações de uma dada configuração semântica, as outras, menos metafóricas, são congruentes; isto, no entanto, não significa que uma realização congruente é melhor, ou mais frequente, sendo até aquela que funciona como a norma. Trata-se, de facto, de um processo natural de mudança linguística (M.A.K. Halliday, 1994/2000). Como todos os significados podem ser realizados através de mais de uma forma, haverá certamente uma forma congruente e uma forma incongruente, que é metafórica.

There is a great deal of variation among different registers in the degree and kind of metaphor that is encountered. (M.A.K. Halliday, 1994/2000, p. 343)

Cada forma é caraterística de um certo registo ou contexto; congruente e metafórico são duas formas de expressão que funcionam de maneira diferente para atender às necessidades contextuais diferentes.

As formas de expressão congruente e metafórica são expressões variantes de um mesmo significado semântico, mas não é necessário que sejam completamente sinónimas, porque a seleção própria de metáfora já é uma escolha significativa, i.e. a metáfora especificamente selecionada acrescentará outros traços semânticos ao enunciado. Os enunciados acima expressam um mesmo significado, transmitem uma informação idêntica. O enunciado a) será retirado de um texto escrito, tendo esta alto grau de nominalização e densidade lexical, pretendendo impressionar o leitor pela sua autoridade e posição inegociável.

Halliday refere que a congruência é a relação entre as categorias semânticas e as léxico-gramaticais no estágio inicial da evolução mútua. O quadro 1 que vem a seguir mostra, não só os padrões de realização congruentes entre a categoria semântica e a categoria léxico-gramatical, mas também revela o mecanismo que

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governa a geração da metáfora gramatical.

Semantics Lexicogrammatical

Ranks

sequence (of figures)

realised by

clause complex

figure clause

element (of figures) group/phrase

Types of element

process verbal group

participating entity nominal group

circumstance adverbial group or prepositional

group

relator conjunction

Quadro 1 A realização congruente de categorias gramaticais (M. A. K . Halliday, 1998, pp.189-190)

Martin (1992), neste ponto, faz considerações idênticas a Halliday. Para ele, a relação congruente é aquela em que a relação entre categorias semânticas e gramaticais é natural, i.e. pessoas, lugares e objetos são realizados nominalmente, ações são expressas por verbos ou grupos verbais, enquanto relações lógicas e consequências são, naturalmente, realizadas conjuntivamente.

Embora o quadro acima mostre a correspondência entre os dois estratos, feita por Halliday, concentra-se apenas na metafunção ideacional da linguagem, pretende mostrar que a congruência é definida, no que diz respeito ao senso comum; o modo como os falantes de uma língua observam o mundo.

Para Halliday e Matthiessen (1999), era necessário também identificar os tipos de metáforas gramaticais elementares e realizar uma caraterização dos mesmos:

…elements …could be assigned to a single category: process, thing, quality &c. We shall refer to these as ‘ordinary’ elements, and contrast them with ‘junctional’ elements which are those that embody grammatical metaphor. (M.A.K. Halliday & Matthiessen,

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1999, p. 244)

Existem 13 tipos de metáforas elementares. Como se demonstra de forma clara no Quadro 2, por exemplo, um elemento constitui um processo enquanto a sua forma congruente poderá, depois, ser expressa metaforicamente por uma qualidade, adjetivo, ou por um substantivo; uma conjunção poderá ser metaforizada em circunstância, processo, qualidade ou num substantivo participante, mas ela própria nunca será o domínio de destino nas metáforas, etc.

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congruent: metaphorical:

=»circumstance =»process =»quality =»thing

quality =» unstable 1 instability process =» absorb 3 absorptive 2 absorption circumstance =» instead of; on the surface 6 replaces 5 alternative; superfical 4 replacement surface relator=» for/because[b, for/because a] so[a, so b] 10 because of; as a result 9 causes, proves; ensues, follows from 8 causal; consequent 7 cause, proof; result ø=» 12 occurs; imposes; does, has 11 phenomenon, fact thing, circumstance =» driver [be safe] decided [today]

13 expansion of thing ‹in environment of a or 2›

driver [safety], driver’s [safety], [safety] of the driver today’s [decision], [decision] of today

Quadro 2 Domínios de metáforas elementares (M.A.K. Halliday & Matthiessen, 1999, p. 245)

Para além de variantes escolhas semânticas, necessidades contextuais e transformações metafóricas elementares, do ponto de vista da história do desenvolvimento das línguas, a linguagem vem experienciando um processo de desmetaforização. Certas expressões, inicialmente utlizadas como metáforas gramaticais, gradualmente perdem a sua caraterística metafórica e são utilizadas pelos falantes, como se fossem uma forma congruente de expressão. São construções metafóricas que Halliday designa por “metáforas domesticadas”. O autor propõe três tipos de metáforas domesticadas de transitividade (Simom- Vandenbergen, Taverniers, & J.Ravelli, 2003, p. 10):

39 comparação com o congruente verbo “banhar-se”) ou “cometer um erro” (que era para “errar”). Estas ‘metáforas’ já se tornaram parte da língua (portuguesa) e são agora a forma não-marcada de codificação para estes particulares tipos de processo. Nestas expressões, o significado principal está na parte de extensão, mas não de verbo. Isto agora são intituladas ‘metáforas mortas’ (M.A.K. Halliday & Matthiessen, 1999) ou ‘metáforas domesticadas’ (M.A.K. Halliday, 1994/2000). Para a maioria dos propósitos, será improvável que teríamos de ter em conta as suas caraterísticas metafóricas na análise dentro dum particular texto.

ii. Expressões ‘domesticados’ como em “ela tem olhos azuis”, cuja forma congruente será “os olhos dela são azuis”, ou como “ele tem a dissertação feita”, congruentemente será “a sua dissertação está feita.” iii. Ou nas expressões como “Ele escreve livros, que são muito bons”

(congruente: “ele escreve muito bons livros”) ou “Nós vendemos pechinchas” (congruente: “as coisas que vendemos são baratas”). No entanto, as formas congruentes existem ainda nas nossas línguas. Portanto, num sentido em que a utilização da sua forma metafórica representa exatamente uma escolha, mesmo que a escolha seja não marcada para expressar o processo em questão. (M.A.K. Halliday, 1994/2000, p. 349)