3.1 PRINCIPAIS TRATADOS E DOCUMENTOS INTERNACIONAIS
3.3.3 Conhecimento Tradicional Associado à Biodiversidade
No mesmo contexto, outra parte integrante da Biodiversidade são os conhecimentos tradicionais associados.
O entendimento que os povos e as comunidades tradicionais são elemento essencial para a rica biodiversidade é relativamente recente. Biodiversidade começa a ser considerada como intrinsecamente ligada à sociodiversidade. Conforme destaca Juliana Santilli (2015, p. 86), vários estudos apontam que são “[...] os povos indígenas e as populações tradicionais responsáveis, em grande parte, pela diversidade biológica de nossos ecossistemas, produto da interação e do manejo da natureza em moldes tradicionais”. Dessa forma, sociobiodiversidade expressa a inter- relação entre a diversidade biológica e a diversidade de sistemas socioculturais.
A biodiversidade não é, portanto, simples produto da natureza, mas sim uma construção cultural e social, produto da ação das sociedades humanas. A diversidade de espécies e a existência de grupos humanos distintos estão fortemente interligadas, cujas relações são estreitas e há uma dependência recíproca.
Espécies vegetais e animais são objetos de conhecimento, de domesticação, uso, fonte de inspiração para mitos e rituais das sociedades tradicionais e mercadoria nas sociedades modernas (SANTILLI, 2015, p. 86). Mas, tradicionalmente, diversidade da vida não é vista como “recurso natural”, e sim como um conjunto de seres vivos que tem um valor em si, que os conhecimentos tradicionais manejam.
Santilli (2015, p. 84) ainda explica que, quando se fala em comunidades tradicionais, inclui-se neste conceito não apenas as comunidades indígenas, mas também “outras populações que vivem em estreita relação com o ambiente natural, dependendo de seus recursos naturais para a sua reprodução sociocultural, por meio de atividades de baixo impacto ambiental”, como as comunidades extrativistas, de pescadores, remanescentes de quilombos, etc.
Assim, por povos tradicionais, populações tradicionais ou comunidades tradicionais entende-se como “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição” (SANTILLI, 2011, p. 2).
Em suma, a importância dos povos e comunidades tradicionais, para a biodiversidade, se baseia nos Conhecimentos Tradicionais
Associados, que se distingue pela informação ou prática de uma coletividade associada a um recurso natural. Mesmo se um indivíduo só exercer aquele conhecimento, é um conhecimento coletivo, de tradição que será passado a terceiro quando houver necessidade de sucessão, pois faz parte do modo de vida da comunidade e da cultura.
A interação da sociobiodiversidade gera os conhecimentos tradicionais associados à diversidade biológica, com técnicas de ação sobre o meio para satisfação das necessidades e vontades humanas, conhecimentos não científicos e essenciais para a utilização sustentável do meio ambiente.
Enfim, conhecimentos tradicionais são sabedorias, construídas e transmitidas, através de gerações, por comunidades indígenas, ou comunidades locais que praticam um modo de vida tradicional, para utilização e manutenção dos recursos naturais que possuem (SCBD, 2012).
Esse é o conhecimento próprio de comunidades indígenas, ou comunidades locais que praticam um modo de vida tradicional, baseado na cultura para utilização e manutenção dos recursos naturais que possuem. Para Santilli (2011, p. 2), o conhecimento derivado dos processos, práticas e atividades tradicionais dos povos indígenas, quilombolas e populações tradicionais relacionados ao uso de espécies e outros recursos do ecossistema dependem do modo de vida dessas comunidades, o qual está ligado mais profundamente à natureza.
Conforme salienta Violeta Refkalefsky Loureiro (2009, p. 152), “[...] as populações locais da Amazônica sempre se valeram dos conhecimentos acumulados secularmente sobre a biodiversidade do meio em que vivem”, desenvolvendo com o passar do tempo um amplo conhecimento, em vista de sua integração com a natureza, tais como produtos medicinais, produtos que sempre foram produzidos e utilizados por populações tradicionais como parte da vida cotidiana.
Nesse sentido, a manutenção da diversidade biológica, por exemplo a encontrada no Brasil, se deve em grande parte aos povos indígenas, os quais cultivam inúmeras variedades de espécies, domesticam plantas e animais após gerações de manipulações para servirem como fonte de alimentação e conhecem o uso medicinal de plantas e substâncias, sendo, portanto, capazes de manejar tais recursos de suas terras de modo sustentável (SANTILLI, 2004, p. 344). Ou seja, o conhecimento tradicional associado aos povos e comunidades locais tem um caráter essencial de conservação da natureza.
As comunidades tradicionais detêm sabedorias úteis a diversas áreas, mas a que se trata aqui, são essencialmente aqueles conhecimentos
ligados à biodiversidade, como explica Santilli (2004, p. 342): os métodos de pesca e de caça, conhecimentos e técnicas de manejo de recursos naturais, dos ecossistemas, incluindo conhecimentos de propriedades farmacêuticas, alimentícias e agrícolas de flora e fauna. Conhecimentos desenvolvidos a partir de observação, interação, práticas religiosas e necessidade de adaptação dessas comunidades em nichos ecológicos específicos.
Após a conscientização do mundo ocidental do reconhecimento e valorização dos conhecimentos das populações tradicionais, se começou a pesquisar princípios, valores e saberes esquecidos ou menosprezados desses povos pelo progresso e modernidade, tais como a agricultura biológica, antes considerada arcaica, que voltou a ser valorizada como um meio para uma vida mais saudável. Tal conscientização serviu ainda como argumento para defender o território e a diversidade das populações tradicionais, bem como o respeito à diferença (LOULEIRO, 2009, p. 152).
No mesmo sentido, Sands (2003, p. 1053) ensina que as práticas das comunidades indígenas e locais, envolvendo estilos de vida tradicional, são fundamentais para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade. E, apesar de ser amplamente reconhecido que o conhecimento tradicional pode contribuir para o meio ambiente e biodiversidade, a comunidade internacional só agora começou a considerar a necessidade de se proteger esse conhecimento também.
Hoje, o conhecimento tradicional associado reveste-se da proteção da biodiversidade, pelas ameaças inerentes de comercialização dos conhecimentos e também questões de perdas culturais pela urbanização e natureza oral do conhecimento, assim como pela gerência sustentável dos recursos naturais.
Diante do exposto, as comunidades tradicionais possuem dupla importância: primeira, dos conhecimentos tradicionais associados, que permitem a preservação ambiental e manejo da biodiversidade por um modo de vida sociocultural que restringe a ampliação desmesurada do uso dos recursos naturais, assim como a acumulação privada. Em segundo, a importância da própria comunidade tradicional, a diversidade de identidade, cultura e organização dessas populações que produzem os conhecimentos tradicionais.
A importância e necessidade de se proteger a sociodiversidade para a conservação da diversidade biológica, e a necessidade de participação das comunidades tradicionais já são consagradas em diversos documentos no plano internacional, em especial a Convenção da Diversidade
Biológica e Convenção 169 sobre reconhecimento das comunidades indígenas.
O reconhecimento dos povos indígenas em si já se perpetua em vários documentos internacionais, em especial na Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre Povos Indígenas e Tribais, convocada em Genebra pelo Conselho Administrativo da Repartição Internacional do Trabalho, em 7 de junho de 1989, posteriormente aprovada como Decreto n 5.051 de 19 de abril de 2004, no Brasil (BRASIL, 2004).
Villares (2009, p. 91) esclarece que “[...] a convenção 169 é permeada de preceitos que cuidam da participação e do respeito aos povos indígenas, e parece ser esse seu principal mote”, pois “todas as suas normas destinadas aos Estados signatários trazem uma obrigação de participação dos povos indígenas na elaboração de medidas legislativas e administrativas, seja na formulação ou execução das políticas públicas”.
No preâmbulo, a Convenção já ressalta que os povos indígenas e tribais têm particular contribuição à diversidade cultural, à harmonia social e ecológica da humanidade e à cooperação e compreensão internacionais. A parte um aborda as previsões da política geral da convenção e delimita, do artigo 1 até o artigo 12, os fundamentos para os povos indígenas.
Dentre as especificações, se ressalta obrigação dos Estados de “[...] desenvolver, com a participação dos povos interessados, uma ação coordenada e sistemática com vistas a proteger os direitos desses povos e a garantir o respeito pela sua integridade” (BRASIL, 2004), conforme artigo 2, inciso I, de forma a promover a igualdade de direitos e oportunidades, ao mesmo tempo em que respeita a identidade social e cultural, os “costumes e tradições, e as suas instituições”, de acordo com o artigo 2, inciso II.
Ainda aborda a Convenção, em seu artigo 4 (BRASIL, 2004), a necessidade de medidas de proteção, observando “[...] os desejos expressos livremente pelos povos interessados”. Como partes das medidas de proteção, são importantíssimos os mecanismos de consulta e instituições representativas para os povos indígenas, para participar em decisões que possam afetá-los ou que lhes interesse. Essa é a ideia geral do artigo 6, que coloca os povos indígenas como sujeitos de direito, e não incapazes que precisam de representação, pois são os atores principais dos processos que sucedam sobre as suas formas de vida (MAGALHÃES, 2002, p. 92).
Já o artigo 7 ressalta o direito dos povos de “escolher suas próprias prioridades no que diz respeito ao processo de desenvolvimento”,
essencialmente no que afeta a totalidade do modo de vida, bem como ter decisão sobre as terras que ocupam e utilizam, inclusive para “proteger e preservar o meio ambiente dos territórios que eles habitam”. Para tanto, a maior ferramenta é a participação “[...] da formulação, aplicação e avaliação dos planos e programas de desenvolvimento nacional e regional”.
A segunda parte, sobre terras, reconhece aos povos indígenas, no artigo 14, os direitos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente ocupam,incluindo os recursos naturais nelas existentes por seus direitos de participarem da utilização, administração e conservação dos recursos, conforme artigo 15. Igualmente, qualquer prospecção ou exploração dos recursos existentes nessas terras, necessita da consulta prévia aos povos interessados para não serem prejudicados, os quais devem participar dos benefícios que as atividades produzirem, assim como receber indenização por danos das atividades.
Dessa forma, “[...] a participação e o consentimento dos povos indígenas implica uma decisão com maior consenso, e, portanto, com mais legitimidade, o que serve ao respaldo das decisões e a fiscalização da administração pública e das ações da sociedade” (VILLARES, 2009, p. 91): esse é o norteador de toda a Convenção.
Posteriormente, essas definições repercutiram em todo o Direito Internacional, não só para povos indígenas, mas também para comunidades tradicionais.