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Consequências do neoliberalismo para o mundo do trabalho

NEOLIBERALISMO E REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA

3.2 Consequências do neoliberalismo para o mundo do trabalho

Alguns estudos têm demonstrado as grandes consequências do neoliberalismo para o mundo do trabalho. Longe de querer esgotar a temática, o intuito desta seção é pontuar alguns aspectos importantes e que encontram ressonância com os dados da presente pesquisa.

A lacuna aberta, derivada do sistema econômico na sua inter-relação com a organização política, permite assinalar, segundo Castel (2010, p. 31) o lugar do “social” no centro das questões, principalmente, por se desdobrar neste “entre-dois, restaurar ou estabelecer laços que não obedecem nem a uma lógica estritamente econômica nem a uma jurisdição estritamente política”.

Rizek (2010, p. 12) ressalta o trato da questão das “metamorfoses da questão social” provocada pelo modelo neoliberal, as quais não dizem respeito apenas a quem de “um modo ou de outro, (o sujeito) foi atingido pelas novas formas do desemprego ou de precarização, aos novos inúteis do mundo, aos inimpregáveis, aos que se localizam nas margens da sociedade salarial”. O aspecto central da discussão está nas relações salariais e sociais, isto é, “a própria natureza dos laços e vínculos que constituem o seu núcleo”.

Não se trata, portanto, de dar conta somente dos “processos de „exclusão‟, nem tampouco, de examinar a tragédia dos excluídos”, mas também o que acontece com os que “permanecem no interior das „zonas‟ de coesão social ou nas „zonas de integração‟ em seu frágil equilíbrio, constituídas, a partir do vínculo entre as relações de trabalho e as formas de sociabilidade” (Ibid., p. 12).

3.2.1 Produtividade e intensificação do trabalho

Um dos impactos evidenciados na atualidade sobre o trabalho humano refere- se à produtividade e intensificação do trabalho. Para a compreensão dos efeitos da produtividade e intensificação do trabalho, o enfoque concentra-se na definição do termo e suas peculiaridades, para depois evidenciar as consequências para o

mundo do trabalho. O trato dessa temática apoia-se no autor Dal Rosso (2008), por sua inegável contribuição no estudo da intensificação do trabalho.

As noções de produtividade e intensidade são diferentes, possuem conteúdos distintos, sendo que a intensidade “desvela o engajamento dos trabalhadores significando que eles produzem mais trabalho, ou trabalho de qualidade superior, em um mesmo período de tempo considerado” e a “noção de produtividade restringem- se ao efeito das transformações tecnológicas” (Ibid. p. 29).

Desta forma, quando os “resultados que decorrem de avanços efetuados tão somente nos meios materiais com os quais o trabalho é realizado”, é chamado de aumento da produtividade. Quando os “avanços tecnológicos – ou mesmo em sua ausência – exigem maior envolvimento e desgaste do trabalhador, denominamos esse componente social de elevação da intensidade” (Ibid., p. 25-26).

Ao debater a questão da intensificação do trabalho, exclusivamente, leva-se em consideração a pessoa do trabalhador ou coletivo de trabalhadores. Não se trata de analisar outros componentes do processo de trabalho que têm capacidade de alterar os resultados, tais como as condições tecnológicas e desempenhos de máquinas (DAL ROSSO, 2008).

Sempre que falamos em intensidade do trabalho partimos da análise de quem trabalha, isto é, do trabalhador. Dele é exigido algo a mais, um empenho maior, seja física, seja intelectual, seja psiquicamente, ou alguma combinação desses três elementos (Ibid., p. 20).

A intensidade tem a ver com a maneira como é realizado o ato de trabalhar, refere-se ao “grau de dispêndio de energias realizado pelos trabalhadores na atividade concreta” (Ibid., p. 20), “quanto maior é a intensidade, mais trabalho é produzido no mesmo período de tempo determinado” (Ibid., p. 21, grifos nossos).

Uma atividade concreta demanda em medida variável o concurso de todas as capacidades do trabalhador, ainda que a atividade faça uso mais focalizado, esta do esforço físico, aquela do cognitivo e uma terceira do afetivo. É o trabalhador em sua totalidade de pessoa humana que desenvolve a atividade, não apenas o trabalhador enquanto parte da força física, capacidade intelectual ou emocional. A intensidade é, portanto, mais que esforço físico, pois envolve todas as capacidades do trabalhador, sejam as de seu corpo, a acuidade de sua mente, a afetividade despendida ou os saberes adquiridos através do tempo ou transmitidos pelo processo de socialização. Além do envolvimento pessoal, o trabalhador faz uso de relações estabelecidas com outros sujeitos trabalhadores sem os quais o trabalho se tornaria inviável (Ibid., p. 21).

Outra questão refere-se aos resultados deste trabalho, a distinção entre materialidade e imaterialidade,

Falamos de intensificação quando os resultados são quantitativa ou qualitativamente superiores, razão pela qual se exige um consumo maior de energias do trabalhador. Há intensificação do trabalho quando se verifica maior gasto de energias do trabalhador no exercício de suas atividades cotidianas. Quando se trata de trabalho físico, os resultados aparecem em medidas tais como maior número de veículos montados por dia, por pessoa etc. Quando o trabalho não é físico, mas de tipo intelectual como no caso do pesquisador, ou emocional como o que ocorre com o educador e a enfermeira, os resultados podem ser encontrados na melhoria da qualidade mais do que na quantidade de pessoas atendidas (Ibid., p. 21).

Para o capitalismo contemporâneo, o que importa são os resultados desse trabalho. A elevação da intensidade do trabalho cotidiano constitui uma força fundamental e promotora de crescimento econômico. Neste particular, o interesse reside em apontar que a intensidade não se limita aos setores industriais, estende- se aos serviços, quer sejam públicos ou privados, e seus efeitos são devastadores para a saúde, tanto no aspecto físico, emocional ou mental.

O que há de novo é que a intensificação do trabalho no momento atual varre e transforma o trabalho contemporâneo “com mil exigências de velocidade, agilidade, ritmo, polivalência, versatilidade, flexibilidade, acúmulo de tarefas e busca incessante de mais resultados” (Ibid., p. 43), sendo considerado por Dal Rosso (2008) como um processo gradual e irreversível de difusão da intensidade do trabalho.

Neste patamar, as fronteiras do tempo passam a ser mais difusas e o tempo de trabalho invade o tempo livre afetando sobremaneira a vida individual e coletiva. Conforme esse autor (2008, p. 71), “O tempo livre, o tempo de não trabalho, passa a ser engolido pelo trabalho”.

3.2.2 Processo de desmantelamento do sistema de proteção

A questão da proteção social é muito evidenciada por Castel (2010), e seu desmantelamento uma das consequências do neoliberalismo. Ao mesmo tempo em que o autor considera o Estado como o principal suporte da proteção social e provedor da mesma, o que estabelece uma relação de dependência estrita entre os

indivíduos e o Estado, também conserva os perigos contidos nessa inter-relação, pois se o Estado se retira dessa responsabilidade, “é o próprio vínculo social que corre o risco de se decompor”.

Desta forma, o indivíduo encontra-se “em contato imediato com a lógica da sociedade salarial entregue a si mesma que dissolveu, juntamente com as solidariedades concretas, os grandes atores coletivos, cujo antagonismo cimentava a unidade da sociedade” (Ibid., p. 509).

A seguridade social é a garantia dada a cada homem de que, em qualquer circunstância, poderá assegurar, em condições satisfatórias, sua subsistência e a das pessoas sob sua responsabilidade. O desemprego para Castel (2010) é o “calcanhar de Aquiles” do Estado Social nos anos de crescimento.

Para esse autor (Ibid., p. 92), estar protegido do ponto de vista social, ou seja, dispor de direitos e condições mínimas para ter independência, é condição para construir uma “sociedade de semelhantes: um tipo de formação social no meio da qual ninguém é excluído”.

Percebe-se na realidade brasileira, a crise do sistema de Previdência Social que vem impondo reestruturações, com perda de garantias e direitos já constituídos, para dar conta dos déficits financeiros.

Segundo Castel (2010, p. 35),

Estamos, sem dúvida, diante de uma bifurcação: aceitar uma sociedade inteiramente submetida às exigências da economia ou construir uma figura do Estado social a altura dos novos desafios. A aceitação da primeira parte da alternativa não pode ser excluída. Mas, poderia custar o desmoronamento da sociedade salarial, isto é, desta montagem inédita de trabalho e de proteções que teve tanta dificuldade para se impor.

Assim, o Poder Público passa a constituir-se na única instância capaz de impor um mínimo de coesão à sociedade,

O que a incerteza dos tempos parece exigir não é menos Estado – salvo se entregar completamente às „leis‟ do mercado. Também não é, sem dúvida, mais Estado – salvo para querer reconstruir a força o edifício do início da década de 70, definitivamente minado pela decomposição dos antigos coletivos e pelo crescimento do individualismo de massa. O recurso é um Estado estrategista que estenda amplamente suas intervenções para acompanhar esse processo de individualização, desarmar seus pontos de tensão, evitar suas rupturas e reconciliar os que aquém da linha de flutuação. Um Estado até mesmo protetor porque, numa sociedade hiperdiversificada e corroída pelo individualismo negativo, não há coesão

A realidade desse desmantelamento pode ser evidenciada na vida dos servidores do Município de Santa Maria/RS, um exemplo disso é a questão do Plano de Assistência à Saúde, vinculado a uma prestadora de serviço privada de saúde, em que o percentual para o pagamento do plano é tão alto que os funcionários que recebem salários menores não estão conseguindo pagá-lo e, consequentemente, encontram-se sem cobertura médica e hospitalar.

3.2.3 A instalação da precariedade

No âmbito da investigação sociológica, Sá (2013, p. 91) esclarece que a origem do termo remonta o final dos anos 70, associado à sociologia da família e da pobreza. “A precariedade econômica e social vai fazer parte do quotidiano de certas famílias, nas quais pelo menos um elemento (o pai ou a mãe) tem um trabalho regular”. Desta forma, estas famílias não fazem parte do “grupo dos „excluídos‟ que constitui a maior clientela da assistência social”.

A autora destaca que esse alargamento de fronteiras da noção de “precariedade”, provoca o afastamento do entendimento do termo, conforme suas origens,

[...] – famílias pobres com trabalho à mercê de riscos sociais –, e se aproxima da ideia dos “empregos sem estatuto” (emprego incerto, com menos regalias sociais), surge um conjunto de autores que analisa o fenômeno da precariedade laboral na sociedade atual e, numa postura pessimista, alerta para os seus aspectos negativos: tal é o caso, por exemplo, de Castel (1995), que refere à desestabilização geral da sociedade. Trata-se aqui de uma precarização mais larga que tem a ver com “o esboroamento da condição salarial”, afetando também os trabalhadores com estatuto estável [...] (Ibid., p. 2).

Um dos aspectos que mais chama atenção na precarização social e do trabalho é a abrangência dessa situação para os trabalhadores estáveis, não se constituindo apenas dos excluídos. Isto representa a fragilização e a vulnerabilidade dos trabalhadores empregados, atingindo o setor público, setor reconhecido socialmente como “protegido” (HIRATA, 2011, p. 20).

Para Hirata (2011) no quadro brasileiro, mesmo para o trabalhador estável, com emprego regular e com contrato por tempo indeterminado, pode encontrar-se

em situação de precariedade, sendo que os critérios para esta análise abrangem além da falta de proteção social e de direitos associados ao emprego, os baixos salários ou o número excessivo de horas de trabalho.

Sá (2013, p. 91) adverte para a dificuldade em encontrar uma definição comum e rigorosa de “trabalho precário”, mas tende-se a associá-lo a quatro características: “i) Insegurança no emprego; ii) Perda de regalias sociais; iii) Salários baixos; iv) Descontinuidade nos tempos de trabalho”.

De acordo com Evans (2011), o “atual „precariado‟ não resulta simplesmente das aberrações políticas do neoliberalismo, mas é parte fundamental da própria dinâmica econômica e política da modernidade capitalista”. Assim, para Castel (2010, p. 526), a precarização do trabalho percorre os empregos estáveis há muito tempo, mas no atual contexto caracteriza-se como "um processo central, comandado pelas novas exigências tecnológico-econômicas da evolução do capitalismo moderno".