CAPÍTULO 6 – RECURSOS FINANCEIROS COMPLEMENTARES
6.6. CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS
Os capítulos desta Parte II trouxe comentários relativos à gênese e ao desenvolvimento do instrumento da cobrança pelo uso dos recursos hídricos no Brasil, ao mesmo tempo em que foi apresentado, panoramicamente, o conjunto formado por outras fontes de recursos que, em conjunto com a cobrança, é destinado, entre outras finalidades, a promover o equilíbrio financeiro da gestão das bacias hisrográficas.
Considerando que o alvo principal da pesquisa é o instrumento da cobrança, o fato de agregar a este texto uma apreciação a recursos oriundos de outras fontes serve apenas para mostrar o ambiente em que a cobrança está imersa, uma vez que a aplicação do instrumento é afetada pela maior ou menor presença desses outros recursos. E, quanto mais elevado for o montante desses recursos outros que não os da cobrança em uma dada bacia, tanto menor será a arrecadação a ser provida por meio do instrumento econômico da cobrança pelo uso da água. Em outras palavras, se existirem duas bacias em condições muito semelhantes de tamanho, características, e em termos de efeitos da agressão ambiental que sofreu, quantitativa e qualitativamente, além de pressão de demanda, aquela que contar com uma massa mais elevada de recursos financeiros extra-cobrança certamente apresentará preços públicos a serem cobrados mais baixos do que as demais.
125 viesse a apresentar preços públicos assemelhados, muito menos iguais, pois, apenas evidenciando exemplos extremos, há casos de bacias acentuadamente degradadas e recebendo pouco auxílio de fontes outras que não a arrecadação produzida pela cobrança, tanto quanto há bacias hidrográficas pouco degradadas e que contam com recursos abundantes além daqueles oriundos da cobrança. No primeiro caso, os preços a cobrar tenderão a um nível bem superior aos do segundo caso.
Na prática, entretanto, tem-se observado um movimento em direção a uma quase uniformização de preços, distorção que merece, pelo menos, alguma reflexão. Oferecer elementos para essa reflexão está no âmago do objetivo da presente investigação que, na Parte III, procura desvendar as diferenças entre os preços que vêm sendo praticados nas bacias e os preços que resultam de uma conduta de otimização econômica, a qual fará parte, como já referido, das recomendações da pesquisa.
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PARTE III
PREÇOS ÓTIMOS E PREÇOS PRATICADOS: UMA AVALIAÇÃO ECONÔMICA
COM BASE NA EXPERIÊNCIA DA BACIA DO PARAÍBA DO SUL
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CAPÍTULO 7
OBJETIVOS, MÉTODOS E PROCEDIMENTOS
7.1. INTRODUÇÃO
Esta Parte III da pesquisa contém uma análise comparativa da cobrança pelo uso da água nos moldes em que é praticadana bacia do rio Paraíba do Sul com uma metodologia para a formação de preços baseada em conduta otimizadora dos agentes econômicos, objetivando oferecer subsídios para as políticas públicas referentes a este tema. No contexto da referida comparação é destacada a diferença encontrada na cobrança ao setor de geração hidroelétrica, uma vez que este setor recebe um tratamento diferenciado em relação aos demais setores usuários da água no Brasil.
Antes de desenvolver o processo de precificação na bacia propriamente dito,convém assinalar alguns aspectos que refletem a complexidade do tema, algo que nem sempre é observado na prática corrente de modo adequado. Com efeito, um dos elementos essenciais na formação de preços que é o
estabelecimento da função de demanda,se apresenta com características que variam de uso para uso dos recursos hídricos. A razão dessa variabilidade reside no fato de que, embora o bem
natural objeto do uso seja único, isto é, a água bruta de fontes superficiais ou subterrâneas, este bem é utilizado de distintas formas por distintos usuários. Para os serviços de abastecimento de água e para fábricas de bebidas, por exemplo, a água constitui matéria prima. Em outros tipos de indústria, a água entra apenas como insumo necessário ao processo de fabricação sem necessariamente incorporar-se ao produto e não constituindo, portanto, matéria prima.
Para a geração hidroelétrica, a água é vista como um fluido natural que, em função de desníveis topográficos e da magnitude da vazão, é dotado de potencial hidráulico, o qual é explorado via a transformação em energia elétrica. Na irrigação, a água entra como insumo produtivo que enseja a medra das cultivares após o que é devolvida à natureza por meio da evapotranspiração e pelo escoamento dos excessos.
Em um outro uso, o da navegação, a água funciona como uma “estrada” que permite a movimentação de embarcações transportando pessoas e/ou cargas. De outro lado, o uso da água para lazer e turismo tira proveito não somente do referido papel de artéria viária (“estrada”) da qual o usuário se beneficia mediante o contato primário ou secundário, como também extrai utilidade da beleza cênica que ela empresta aos locais de estações balneárias, resorts e outras formas de exploração dessa atividade econômica, entrando na composição de seu valor econômico.
128 Adicionalmente, os usos da água para a pesca, piscicultura e aquacultura têm-na como domicílio, isto é, a residência de diversas formas de vida aquática. Há, ainda, a extração de areia dos leitos de rios, um uso presente na bacia do Paraíba do Sul, que faz com que a areia “lavada”, ao ser retirada, arraste consigo uma certa quantidade de água do rio pela umidade que envolve cada grão desse material. A extração dessa areia para construções gera um uso consuntivo da água da bacia.
A água é, também, um agente diluente e, nesta condição é utilizada para abater parâmetros de agressividade presentes em efluentes, urbanos e industriais. Em relação a esse uso da água dispensam-se muitos cuidados porquanto os excessos que ocorrem com frequência nos teores dos referidos parâmetros degradam a sua qualidade fazendo com que, em muitos casos, ela não possa ser aplicada a outros usos.
Por fim, há um uso da água que é pouco explorado no Brasil que se dá pelo aproveitamento do gradiente de águas termais para a produção de energia. O volume estocado de águas quentes no território brasileiro é da ordem de 100x103 km3. Essas águas, de baixa entalpia, estão armazenadas em
aqüíferos sedimentares e estão ao alcance de meios tecnológicos de captação, correspondendo ao abastecimento de uma cidade de 20 milhões de habitantes, ou seja, o equivalente à Região Metropolitana de São Paulo, por cerca de 46 mil anos.
As referências acima sobre as diversas modalidades de uso da água são por demais eloquentes para mostrar que a precificação do uso deste recurso não é trivial, pois, no caso da água bruta de mananciais, muitas e diferentes características de exploração econômica estão em torno de um mesmo bem que se apresenta em maior ou menor volume na natureza conforme a região e a época do ano que se considere. Portanto, onde a disponibilidade de água é limitada, há competição entre os usos, o que empurra a atenção do estudo de precificação para uma criteriosa análise da demanda, base da teoria marshalliana que precisa estar presente no problema. Dos múltiplos usos brevemente referidos, destaca-se que a navegação não é objeto da cobrança pelo uso da água vez que não depende de outorga de direito de uso dos recursos hídricos, dependendo, antes, de autorização emitida por uma capitania de portos. Também são isentos de cobrança usos da água como o lazer e turismo e a própria pesca livre. Todos os demais usos, por dependerem de outorga, são submetidos ao instrumento da cobrança.
Esta Parte III, conclusiva da pesquisa que já revisitou, nas duas partes precedentes, o cenário em que se insere o tema da cobrança pelo uso da água no Brasil, aborda diretamente o objeto da investigação. O foco desta investigação é a análise da formação de preços pelo uso da água na bacia do rio Paraíba do Sul durante o período que se estende de 2003 a 2012 para fins de comparação com
129 os preços praticados no mesmo período, buscando-se elementos que ensejem a fundamentação de uma crítica à metodologia que é utilizada, tipicamentead hoc, em especial aprofundando a análise do mecanismo de formação de preço que foi adotado para o uso da água para a geração de energia, e indicando, ao final, uma metodologia comprometida com o rigor científico que pode ser útil ao conteúdo econômico das políticas públicas voltada paraa gestão dos recursos hídricos.
Para a comparação de preços, o período de 2003 a 2012 foi dividido em duas etapas de cinco anos. A primeira, de 2003 a 2007 e,SA a segunda, entre 2008 e 2012. Essa segmentação foi necessária para acompanhar o planejamento da bacia que se deu em dois momentos: o primeiro em 2002, inicialmente previsto para aplicação a partir do mesmo ano de 2002, e o segundo, em 2006, para aplicação de novos preços a partir de 2007. Nota-se uma diferença entre o início e fim dos períodos desta pesquisa (2003-2007 e 2008-2012) em relação aos início e fim dos períodos da gestão da bacia (2002-2006 e 2007-2012). O que ocorreu foi que, na prática da gestão da bacia, o início do primeiro período foi retardado para 2003em decorrência das demarches na Política Nacional de Recursos Hídricos, então ainda nascente.
O processo burocrático que se verificou na gestão da bacia não permitiu que o início se desse em 2002 como inicialmente planejado. Apesar desse retardamento do início da implantação da cobrança, o Comitê não postergou em mais um ano a finalização do período, tendo-o encerrado em 2006, ocasião em que procedeu ao replanejamento da cobrança para vigência dos novos preços a partir de 2007, fazendo com que o primeiro período se limitasse a quatro anos, e não se estendesse aos cinco previstos, isto é, praticou os preços calculados para o primeiro quinquênio apenas entre 2003 e 2006.
Para acomodar esse desencontro temporal optou-se, na presente investigação, por adotar o início da cobrança em 2003 e encerrar-se o primeiro período em 2007, completando um quinquênio, portanto, e situando o segundo período entre 2008 e 2012. A consequência dessa acomodação foi
ter que considerar que os preços definidos pelo comitê para implementação a partir de 2007 tivessem sido aplicados a partir de 2008.
Essa acomodação não veio a causar prejuízo ao trabalho investigativo, uma vez que a precificação, tal como é feita pelo comitê da bacia, não é calculada considerando-se um período de aplicação, e sim para o primeiro ano apenas, mediante simulações que promovam a cobertura dos custos. Além disso,os níveis de preços unitários públicos (PPUs, como são referidos) que a gestão da bacia estabelece refletem frações da moeda divisionária admitidas pelo consenso dos membros do comitê. E é justamente essa prática da definição depreços públicos sem que se recorra ao cálculo
130 econômico que o presente trabalho de pesquisa vem de afrontar.