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CAPÍTULO 3 – REFORMAS BRASILEIRAS: AMBIENTE FAVORÁVEL À COBRANÇA

4.2. DEBATES QUE SUBSIDIARAM A CONCEPÇÃO DA COBRANÇA

4.3.1. Estudo do DAEE/FUNDAP para as bacias do Piracicaba e Capivari

O estudo do Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo (DAEE/SP), encomendado à Fundação do Desenvolvimento Administrativo (FUNDAP), já foi objeto de análise anterior39. Revisitar-lhe, na presente oportunidade, será útil para incluir outros aspectos

anteriormente não apontados.

Em tendo sido um dos primeiros desenvolvidos no Brasil, o objetivo principal desse estudo foi o de estabelecer alternativas para a cobrança pelo uso da água com base na Lei estadual no

7.663/91, de São Paulo. Para tanto, o mencionado trabalho arrimou-se, principalmente, na perseguição de um nível de preços que induzisse os usuários à racionalidade na utilização da água, racionalidade esta calcada, principalmente, em uso não predador em termos de qualidade, ou seja, mediante a preservação da qualidade do recurso natural. A cobrança era proposta, como afirma seu texto, com o sentido de um instrumento educativo em relação à postura do usuário, ao transformá-lo em usuário-pagador.

Conforme já se expressou, no passado, a principal virtude deste trabalho foi a de ter reconhecido explicitamente que o setor de recursos hídricos corresponde, em termos de análise microeconômica, a uma atividade de recurso renovável, finito, e que começava a ser afetada, essencialmente, pela multiplicidade de usos concorrentes de tais recursos. Ainda como faceta

38 O caráter previdente decorreu da necessidade, naquela altura, de dar-se a largada no debate sobre a cobrança, posto que esta

constituía um dos principais instrumentos da então nascente área de políticas públicas para a gestão dos recursos hídricos no Brasil. E esse mérito foi conquistado por instituições públicas do Estado de São Paulo, pelo pioneirismo na abordagem do tema.

62 afirmativa da metodologia adotada no estudo do DAEE/FUNDAP, os preços foram determinados com base nos custos marginais de longo prazo, o que significa que os investimentos necessários à recuperação da qualidade da água foram incluídos na função de oferta. Entretanto, a parcela relativa aos custos de operação e manutenção, as quais deveriam ter sido incluídas nessa mesma curva de oferta, foram descartadas do cálculo, retirando a necessária aderência dos preços à realidade da bacia que, como qualquer outro objeto de gestão, reclama a inclusão destes custos. Era compreensível que esse critério de descartar os custos operacionais e de manutenção fosse considerado, pois, à época, não se tinha ideia de como seriam compostos os custos de funcionamento do comitê e da agência de bacia, então inexistentes, pois a referida Lei estadual no

7.663/91 era de edição ainda recente. Embora compreensível, tal omissão não era justificável, pois alguma estimativa dos custos operacionais e de manutenção poderia ser feita a partir da rica experiência do Consórcio Intermunicipal de Bacias Hidrográficas do Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Consórcio do PCJ), que já era atuante desde 1989.

Na determinação do custo marginal de longo prazo decorrente dos investimentos, adotou-se um plano de aplicações no horizonte de vinte anos, o qual totalizava a cifra de US$1,3x109. Os

resultados obtidos foram expressos em U$/ton de DBO e são apresentadas no Quadro 4.1. Quadro 4.1 – Preços para diluição de carga orgânica de efluentes

nas bacias dos rios Piracicaba e Capivari

INVESTIMENTO CONSIDERADO U$/ton de DBO

Somente a ETE 1.310,00

ETE + Emissário 2.250,00

ETE + Emissário + Rede 2.780,00

Fonte: FUNDAP 1991

Em outro aspecto da análise do trabalho elaborado pela FUNDAP, observa-se a separação dos usos consoante a natureza consuntiva e não consuntiva destes. Esse critério tem o objetivo de diferenciar o preço a cobrar a um tipo de uso do preço a cobrar ao outro tipo. A continuação da discussão desse critério descambou, com o tempo, para a adoção da diferenciação do preço em razão do consumo efetivo da água bruta pelos usos consuntivos. Por consumo efetivo de água bruta compreende-se a diferença entre a vazão derivada de um curso d’água por um usuário e a vazão devolvida sob a forma de efluente por este mesmo usuário. Essa diferenciação aparece sob a forma de um dos coeficientes ki, que foram adotados nos modelos de cobrança atualmente em prática. Como se busca esclarecer na Parte III, a necessidade que implica esse critério de introduzir-se um coeficiente de correção poderia ser perfeitamente capturada pela função de demanda que resulta de um comportamento racional do usuário da água, tornando dispensável a adoção do referido coeficiente ki para dar essa indicação do consumo na composição do preço a cobrar.

63 O trabalho sob comentário sugere, como muitos até aqui o fizeram, a possibilidade de o estado subsidiar a gestão dos recursos hídricos por determinado período inicial, exemplificando, neste caso, com o prazo de dez anos a partir da implantação da cobrança. Vencido esse prazo, diz o estudo, o subsídio deve ser gradativamente reduzido até deixar de existir. A prática viria a demonstrar que o subsídio é, de fato, necessário, uma vez que as bacias onde a cobrança precisa ser implementada já acumulam um significativo estado de degradação, a qual, se tiver que ser debelada somente com os recursos arrecadados por meio da cobrança, tornará este instrumento irremediavelmente inviável. Entretanto, o referido trabalho deixa de apontar o “peso morto” do subsídio como uma parcela a ser minimizada, algo que implica trabalhar-se com procura e oferta e não apenas com esta última, refletida que é no ramo ascendente da curva de custo marginal.

Com o objetivo de aclarar mais esse conceito, apresenta-se o gráfico da Figura 4.1 que evidencia os excedentes econômicos antes e depois da aplicação de um subsídio. Os excedentes anteriores à aplicação dessa interferência governamental são representados pelas áreas dos triângulos pEEB (do produtor) e AEpE (do consumidor).

Fig. 4.1 – Peso morto do subsídio

Uma vez o subsídio concedido e aplicado, ambos os excedentes são ampliados para os montantes correspondentes às áreas dos triângulos pCEB (do produtor) e (do consumidor).

Entretanto, surge, com o subsídio, uma área que representa o montante de riqueza de que nem o produtor, nem o consumidor tampouco o governo se apropria. Trata-se do “peso morto”, que corresponde à área do triângulo ECF. É essa área que precisa ser minimizada quando do

64 planejamento de um subsídio. Para tanto é necessário que se planeje um subsídio por unidade produzida que minimize a área do referido triãngulo ECF. Em outras palavras, é necessário que a diferença entre o preço ao produtor após o subsídio e o preço ao consumidor também após o subsídio, isto é (pP-pC), seja a menor possível desde que o montante subsidiado cumpra sua

finalidade. O fato de não ter sido feito uma referência ao “peso morto” do subsídio no trabalho do DAEE/FUNDAP constitui uma lacuna, dado o fato de tratar-se de uma perda econômica.

Por fim, o trabalho elaborado pela FUNDAP faz uma interessante incursão na repercussão da cobrança pelo uso da água sobre os custos dos usuários finais dos serviços de saneamento, observando que os preços calculados impõem um aumento de 9% sobre a conta de esgotos nos municípios que contam com estação de tratamento de efluentes urbanos – ETE, e de 40% para os municípios que não contam com ETE. Essas elevadas percentagens corroboram a necessidade do subsídio.