CAPÍTULO 8 A OTIMIZAÇÃO DE PREÇOS: TRATAMENTO TEÓRICO E MENSURAÇÃO
8.2. FONTES DE DADOS
8.2.3. Custos e demandas do conjunto formado pela bacia do Paraíba do Sul e vazões exportadas
Preliminarmente, comenta-se que o fato de tomar-se o conjunto formado pela bacia do Paraíba do Sul com as vazões cedidas ao Guandu tem o objetivo de calcular a elasticidade-preço de um uso peculiar da água que é a da transposição. Sucede que, ao acrescentarem-se vazões de modalidades específicas de usos da água em substituição à transposição, artifício adotado, deve-se acrescentar, como contrapartida, uma parcela de custo de gestão.
O custo de gestão a acrescentar foi calculado, na falta de um orçamento para a bacia do Guandu, como uma proporção da extensão do território do Guandu em relação ao da bacia do Paraíba do Sul, calculada sobre o custo de gestão desta última. O resultado desse cálculo é umaproxy do custo dessa gestão conjunta e, mesmo, bastante verossímil na medida em que já havia, à época, estimativas feitas para a gestão conjunta das duas bacias, em razão da expectativa de a gestão da bacia do Guandu vir a ser assumida, por delegação, pela própria AGEVAP106.
172 A área da bacia do rio Guandu é de 1.921 km2, mas ela drena uma área total de 3.600 km2 em
decorrência das relações intermunicipais existentes, as quais têm implicações sobre os custos de gestão. Daí, a proporção entre as áreas das duas bacias é de (3.600 km2/55.400 km2), ou seja, é igual
a 6,50%, percentual que, aplicado ao orçamento conhecido da gestão da bacia do Paraíba do Sul produz, para o conjunto das duas bacias, os custos apresentados no Quadro 8.11.
Quadro 8.11 – Estimativas de orçamento de custode gestão (Paraíba do Sul e Guandu)
ANO CUSTO (R$) ANO CUSTO (R$)
2003 9.311.295,00 2008 12.460.500,00 2004 9.883.732,50 2009 13.232.625,00 2005 10.506.651,00 2010 14.100.600,00 2006 11.093.040,00 2011 14.848.869,00 2007 11.757.813,00 2012 15.786.495,00 TOTAL 55.552.531,50 TOTAL 70.429.089,00
Fonte: Cálculos do texto.
Para manter o critério de cálculo baseado em cinco incrementos de custo utilizado no cálculo do custo marginal da bacia do Paraíba do Sul isoladamente, utilizam-se os custos do ano de 2008 para o primeiro quinquênio, e o custo do ano de 2013 para o segundo quinquênio, igual a R$16.614.000,00, e que não consta do já apresentado Quadro 8.11. Com esses elementos, os incrementos a valor- corrente e a valor-presente de cada ano são os do Quadro 8.12.
Os totais constantes das colunas de valores-presente do ano inicial de cada quinquênio dos incrementos de custos serão levados ao cálculo do custo marginal para o conjunto das duas bacias em cada período de análise, figurando no numerador da fração.
8.12 – Incrementos de custo do conjunto de bacias do Paraíba do Sul e do Guandu
ANO VALOR-CORRENTE VALOR-PRESENTE CUSTO (R$) ANO VALOR-CORRENTE VALOR-PRESENTE CUSTO (R$)
2003 --- --- 2008 --- --- 2004 572.437,50 520.397,73 2009 772.125,00 701.931,82 2005 622.918,50 514.808,68 2010 867.975,00 717.334,71 2006 586.389,00 440.562,73 2011 748.269,00 562.185,57 2007 664.773,00 454.048,90 2012 937.626,00 640.411,17 2008 702.687,00 436.313,34 2013 827.505,00 513.815,50 TOTAL 3.149.205,00 2.366.131,39 TOTAL 4.153.500,00 3.135.678,78
Fonte: Cálculos do texto.
Aborda-se, em seguida, o cálculo do incremento de vazão a valor-presente em cada quinquênio, que será o denominador da fração representativa do custo marginal de longo prazo.
Preliminarmente reforça-se o critério da homogeneização das unidades de medida adotado nesta investigação, o qual unificou, para todos os usos, o referencial em m3/s.Isso significa afirmar que
o uso da água para diluição de efluentes, tanto os urbanos quanto os industriais, foram transformados
173 da unidade de carga orgânica despejada, em t de DBO por dia, para unidade de vazãoem m3/s.
Adicionalmente, conforme já referido, o critério de trabalho desta pesquisa fez incluir, entre os usos da água da bacia, a geração hidroelétrica, em frontal, e adrede, desacordo com os critérios que são presentemente praticados na GRH no Brasil. Isso porque, na prática corrente, o uso da água para a geração hidroelétrica recebe tratamento à parte na fixação de seu preço, que não leva em conta a demanda e oferta de água, baseando-se, antes, em um critério de precificação que desposa apenas uma avaliação orçamentária do setor elétrico com base em uma proporção da compensação financeira que é paga pelas empresas geradoras.
Uma outra consideração importante foi o artifício já mencionado de substituir a vazão de transposição para o Guandu pelas vazões de diferentes usos da água importada por esta bacia. Tal artifício, que implicou agregar os dados de vazões das duas bacias (a exportadora e a vazão importada pelo Guandu), permitiu a precificação de cada uso de per si.Ao final, remontou-se o uso único composto que correponde à soma das duas tomadas d’água de transposição, chegando-se ao preço do uso do metro cúbico dessa derivação de águas, o qual é comparado com o que é praticado na bacia.
Neste contexto, algumas simplificações adotadas no presente trabalho precisam ser evidenciadas. A primeira dessas simplificações reside no fato de as vazões de retorno de alguns usos consuntivos não serem consideradas como contribuição ao conjunto de vazões da bacia (vazões recuperadas).Nomeadamente é o caso das vazões dos usos da água de abastecimento urbano, abastecimento industrial e abastecimento rural, as quais retornam, respectivamente, em 80,24%, 54,65% e 39,80% (DUARTE CAMPOS, 2001).
Essa simplificação não prejudicou o resultado da pesquisa, uma vez que na precificação elaborada pelo comitê da bacia também não se considera a recuperação de vazões para a finalidade de cálculo dos preços.
Reconhece-se, entretanto, que se tais vazões fossem acrescentadas à oferta de água, o custo marginal reduzir-se-ia, produzindo alterações para menos nos preços unitários definidos pela conduta otimizadora dos agentes.
A segunda simplificação está relacionada com as vazões necessárias à diluição de efluentes, urbanos e industriais. No cálculo, considerou-se, como já indicado neste texto, que cada metro cúbico de efluente urbano descartado requer 40 m3 de água corrente para promover o abatimento da carga
orgânica até os níveis aceitáveis pela norma.No caso dos efluentes industriais, essa relação foi de um metro cúbico do efluente lançado para 11 m3 de água corrente no leito do rio. Essas proporções são
174 correntemente utilizadas em cálculos expeditos de demanda de vazão de diluição de efluentes.
Por fim,vale repetir que as vazões computadas resultam de uma avaliação feita à escala da bacia que é a unidade de planejamento e, como tal, o universo dentro do qual os preços pelo uso da água são praticados. É possível que em situações localizadas na bacia seja observada, por exemplo, escassez de água em relação à demanda, enquanto que em outras haja excesso e, em terceiras outras, observe-se o equilíbrio entre disponibilidade e demanda.
Para enfrentar situações dessa natureza, é perfeitamente possível aplicar-se o método da otimização de preços operando por sub-bacias, por exemplo, ou por trechos da bacia (alto, médio e baixo). Para tanto, necessário se faz o estabelecimento da função de oferta (custo marginal de longo prazo) e demanda ordinária em cada sub-bacia ou trecho da bacia que se pretenda estudar isoladamente.
Não se deve perder de vista, entretanto, o fato de que a análise isolada de uma sub-bacia ou trecho da bacia não pode se descolar da análise da bacia como um todo, dado o fato de as águas, e as economias locais, estarem sempre interligadas, em maior ou menor grau.A análise da formação de preços por sub-bacia ou por trecho da bacia é afastada deste estudo por não contribuir necessariamente para o objetivo da pesquisa que é o de comparar metodologias e níveis de preços que foram aprovados para a totalidade da bacia.
Com base nesses comentários, o panorama das vazões na bacia do Paraíba do Sul pode ser reescrito na forma do Quadro 8.13, e o mesmo panorama considerando o conjunto formado pela bacia do Paraíba do Sul com as vazões dos usos beneficiados no Guandu pelas águas transpostas pode ser reescrito na forma do Quadro 8.14 para os anos de início e fim de cada período estudado.
Quadro 8.13 – Estimativas de demandas de água na bacia do Paraíba do Sul nos dois quinquênios de planejamento para otimização de preços
TIPO DE USO UNID 2003 2007 2008 2012
Abastecimento urbano m3/s 18,62 19,68 19,96 21,10
Abastecimento industrial m3/s 13,65 16,11 16,79 20,40
Geração hidroelétrica m3/s 902,57 1.174,12 1.256,19 1.652,09
Abastecimento rural* m3/s 53,18 84,50 94,87 169,24
Diluição de efluentes urbanos m3/s 597,63 631,78 640,62 677,22
Diluição de efluentes industriais m3/s 82,04 96,85 100,95 122,63
Transposição para o Guandu m3/s 180,00 180,00 180,00 180,00
TOTAL m3/s 1.847,69 2.203,04 2.309,38 2.842,68
Fonte: CEIVAP. Resende. 2002. *Usos agrícola e pecuário em conjunto.
Convém observar que a totalização das vazões em ambos os Quadros, 8.13e8.14, transmite uma falsa impressão da vazão de que dispõe a bacia, pois estão sendo somadas demandas de usos consuntivos com demandas de usos não consuntivos da água.
175 Quadro 8.14 – Estimativas de demandas de água dabacias do Paraíba do Sul em conjunto com os usos das vazões transpostas parao Guandu nos dois quinquênios de planejamento para otimização de preços
TIPO DE USO UNID 2003 2007 2008 2012
Abastecimento urbano m3/s 65,62 69,37 70,34 74,36
Abastecimento industrial m3/s 51,85 61,21 63,80 77,49
Geração hidroelétrica m3/s 1.082,57 1.408,28 1.506,71 1.981,57
Abastecimento rural* m3/s 53,18 84,50 94,87 169,24
Diluição de efluentes urbanos m3/s 2.100,00 2.220,00 2.250,80 2.379,60
Diluição de efluentes industriais m3/s 311,65 367,94 383,52 465,85
TOTAL m3/s 3.664,87 4.211,30 4.370,04 5.148,11
Fonte: CEIVAP. Resende. 2002. *Usos agrícola e pecuário em conjunto.
Mas convém observar que os usos não consuntivos, principalmente a geração hidroelétrica que é o mais expressivo em termos de vazão, exigirão, para ser satisfeitos, que os usos consuntivos não retirem água do leito em quantidades tais que não lhes deixem a vazão de que precisam.
A única situação em que essa exigência poderia desaparecer seria a de a geração hidroelétrica, por exemplo, estar localizada integralmente nas cabeceiras dos cursos d’água formadores da bacia, circunstância absurda em qualquer sistema hidrográfico uma vez que nas cabeceiras as vazões observadas ainda são limitadas para justificar economicamente a instalação de plantas geradoras, a menos que da modalidade de PCHs.
Para o cálculo do custo marginal será necessário conhecer os incrementos anuais das vazões, do mesmo modo como se procedeu em relação aos custos. Admitindo-se um percentual de variação anual uniforme entre os extremos (início e fim de cada período) mostrados no referido Quadro 8.14, pode-se elaborar um cenário detalhando das vazões ano-a-ano para cada um dos dois períodos.
O resultado deste detalhamento no tempo é mostrado no Quadro 8.15, com dados já anualizados. No processo de anualização, todas vazões foram consideradas ininterruptas, isto é, à base de 24 horas por dia, à exceção das vazões de irrigação, as quais foram calculadas com base em 20 horas por dia, em razão dos turnos de rega que oscilam em torno dessa carga horária diária.
Quadro 8.15 – Vazões e incrementos anuais de vazões a valores-corrente dos anos de cada período de análise no conjunto das bacias do Paraíba do Sul e do Guandu
ANO VAZÃO (m3/ano) INCREMENTO (m3/ano) ANO VAZÃO (m3/ano) INCREMENTO (m3/ano))
2003 115.291.797.579,07 --- 2008 137.530.735.977,69 --- 2004 119.224.631.005,89 3.932.833.426,82 2009 143.017.058.128,42 5.486.322.150,73 2005 123.370.157.946,31 4.145.526.940,41 2010 148.851.973.346,36 5.834.915.217,95 2006 127.742.739.378,19 4.372.581.431,88 2011 155.063.763.330,05 6.211.789.983,69 2007 132.357.821.454,55 4.615.082.076,36 2012 161.683.464.474,97 6.619.701.144,91 2008 137.317.784.014,27 4.959.962.559,72 2013 168.745.185.409,26 7.061.720.934,29 TOTAL 617.987.147.364,01* 22.025.986.435,20 TOTAL 746.146.995.257,48** 31.214.449.431,57 Fonte: Cálculos do texto.
* Exceto a vazão de 2008. ** Exceto a vazão de 2013.
Relembra-se, ainda, que o uso da água para a geração termoelétrica foi incorporado ao uso industrial, uma prática que já é seguida nos estudos de precificação da bacia. Observa-se, por fim e
176 mais uma vez que, para fins de cálculo dos incrementos, e somente para esta finalidade, foi acrescentado um ano ao final de cada período. Essa medida é adotada em paralelo com a que foi tomada em relação aos custos, apresentada na subseção 8.2.1 – (i.1), apenas para fins de contar-se com cinco incrementos de vazões, e não com quatro, atenuando, como já mencionado, o efeito de assimetrias que podem se apresentar em séries acentuadamente curtas.
As demandas de água constantes do mencionado Quadro 8.15 constituem elementos importantes na composição da curva de preços (função de demanda), a qual é levada ao confronto com a oferta, esta última baseada na curva de custo marginal de longo prazo.
Como último degrau que precede ao cálculo do custo marginal de cada período de análise, apresentam-se, no Quadro 8.16, os incrementos de vazões das duas séries de anos a valores- presente.
Quadro 8.16– Incrementos das vazões anuais a valores-presente* no conjunto das bacias do Paraíba do Sul e Guandu
2003-2007 2008-2012
ANO INCREMENTO A VLR-PRES DE 2003 (R$) ANO INCREMENTO A VLR-PRES DE 2008 (R$) 2003 3.575.303.115,29 2008 4.987.565.591,57 2004 3.426.055.322,66 2009 4.822.243.981,77 2005 3.285.185.147,92 2010 4.667.009.754,84 2006 3.152.163.155,77 2011 4.521.344.952,47 2007 3.079.746.514,90 2012 4.384.773.105,59 TOTAL 16.518.453.256,54 TOTAL 23.382.937.386,25
Fonte: Cálculos do texto.
* Data-base: anos iniciais de cada período de análise
O cálculo dos valores-presente em 2003 e 2007 respectivamente foi feito aplicando-se a taxa social de desconto de 10,00% a.a., adotada nesta pesquisa, sobre os incrementos anuais constantes do já referido Quadro 8.16. Os totais dos valores-presente dos incrementos das duas séries serão levados ao denominador da fórmula de cálculo do custo marginal de longo prazo em cada período de análise.