CAPÍTULO 6 – RECURSOS FINANCEIROS COMPLEMENTARES
6.5. COMPENSAÇÃO FINANCEIRA PAGA PELO SETOR ELÉTRICO
6.5.2. Outros aspectos da compensação financeira
Manifestações de gestores e técnicos do setor de recursos hídricos em entrevistas desta pesquisa80 indicaram que a maioria opina em favor de que os recursos da compensação financeira
deveriam retornar integralmente para aplicação nas bacias hidrográficas. No entanto, constatou-se, não é o que ocorre na prática pelos motivos já expostos, ou seja, que os estados e os municípios são autônomos para destinarem seus recursos financeiros para os fins que mais lhes aprouver. Além disso, os estágios de desenvolvimento são diferentes entre estados e entre municípios, o que justifica a diferença entre os arranjos orçamentários e financeiros que eles constroem. Nesse cenário, apresenta-se, como desafio, o papel da Agência Nacional de Águas – ANA, que tem a missão de implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos – PNRH e de coordenar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos – SNRH. Em sua relevante missão, a ANA promove a necessária articulação com os governos estaduais e municipais para diminuir as distâncias existentes entre os diferentes tratamentos que esses entes da Federação conferem à aplicação da compensação financeira. Mesmo assim, nada assegura que os recursos da compensação financeira cumpram papel de igual ou assemelhada eficiência em todos os estados e municípios que a recebem. Resta, todavia, considerar que, por menor que seja a quota recebida por um estado ou município, são recursos de grande importância e que se acrescentam aos de outras fontes, em especial aos da cobrança pelo uso da água, objeto desta pesquisa.
Aduz-se, por fim, um comentário à compensação financeira em face da cobrança pelo uso da água às Pequenas Centrais Hidroelétricas – PCHS. Curiosamente, as PCHS não são usuárias-
80 Foram entrevistados 28 técnicos, gestores e pesquisadores no campo do gerenciamento hídrico, 25 dos quais externaram essa
123 pagadoras da água. Essa anomalia adveio do processo de estabelecimento da cobrança pelo uso da água para a geração elétrica. Sucedeu que, ao aumentar-se o percentual da compensação financeira, de 6% para 6,75%, o legislador pretendeu, e determinou, que o diferencial de 0,75% seria, como já referido neste texto, correspondente a cobrança pelo uso da água. Entretanto, não especificou com clareza que a exceção contida no dispositivo legal que estabeleceu a compensação financeira não deveria se aplicar à cobrança. É que a compensação financeira somente se aplica a usinas com potência máxima instalada igual ou superior a 30MW. Por ironia dos fatos, as PCHS são instalações que, por definição, têm potência máxima inferior a 30MW, gerando um inadvertido desencontro produzido pela legiferação apressada em sua fase final. Explica-se esse caráter de apressamento. Na fase final da redação do projeto de lei que criou a Agência Nacional de Águas – ANA, pretendeu-se dar partida incontinênti na cobrança ao setor elétrico com o fito de gerar receita para a ANA se desenvolver. Duas omissões aí foram produzidas. A primeira, involuntária e já mencionada, a exclusão das PCHS do rol dos usuários-pagadores conforme acima explicitado. E a segunda, adrede, a ser mais pausadamente explorada na Parte III desta pesquisa, a centralização no Ministério do Meio Ambiente, para aplicação pela ANA, da receita que, por direito, seria de cada bacia onde atuassem usuários-pagadores do setor elétrico. Ambas as prescrições entraram nas Disposições Transitórias quando o projeto de lei já se encontrava no Congresso Nacional81. A
justificativa para tal centralização, não documentada, ficou na verbalização de técnicos do setor, que defendiam a centralização dessa receita por meio do argumento segundo o qual o sistema elétrico nacional é interligado e que, portanto, as receitas advindas deste setor deveriam ser distribuídas por todas as bacias do País, o que seria, com maior praticidade, procedido pela ANA, entidade que aplicaria, como aplica, os recursos no aperfeiçoamento e ampliação da rede de observação da trama hídrica nacional e nos trabalhos de construção do Sistema Nacional de Recursos Hídricos. Por aí, os recursos seriam drenados para tarefas como as medições de vazões de rios bem assim para outros dados hidrológicos de interesse do setor.
Nada mais lógico que assim se o fizesse, mas desde que esse critério fosse estendido a outros usos da água, pois, apenas à guisa de exemplo, as cultivares produzidas em qualquer bacia hidrográfica são habitualmente consumidas em outras regiões fora da bacia, o que reflete a mesma condição de interligação. Do mesmo modo, produtos industrializados cujo processo produtivo implicou o uso da água, e, portanto, se submeteram à cobrança pelo uso desta, também são vendidos por toda a parte, no país e não somente na região da bacia cuja água lhes serviu de insumo produtivo. A verdade é que uma economia, em seu todo, é quase sempre interligada
124 regionalmente, quaisquer que sejam os setores observados. E, reconhecer o caráter de interligação em relação a um uso da água para fins de tarifação a preço único termina sendo um precedente que abriria espaço a que outros usos reivindicassem a mesma condição, até mesmo para fazer prevalecer o princípio dos usos múltiplos da água.
Ocorre que, a estender-se a vários usos a centralização do manejo da receita em autarquia federal, o sistema tornar-se-ia inviável. O mais razoável teria sido não centralizar receita alguma e definir-se por meio de lei outra fonte de recursos orçamentários para apoiar o funcionamento da ANA.
Conforme restou demonstrado, a compensação financeira é um entre os vários reforços para a busca do equilíbrio financeiro das bacias, ainda que os benefícios não sejam distribuídos por todas as bacias hidrográficas do País, pois há estados e municípios que não se beneficiam deste instrumento. Mas, nos estados e municípios beneficiários, não se deve perder de vista o fato de que a compensação financeira representa uma receita perene e pontual com que as bacias podem contar.