5 ABORDAGEM HISTÓRICO-CONTEXTUAL DA

5.4 Considerações finais

Com o desenvolvimento deste capítulo, foi realizada uma abordagem histórico- contextual da carreira e da aprendizagem dos gestores públicos. Com isso, foi possível caracterizar a carreira ocupada por esses sujeitos, destacando os elementos contextuais e a dimensão objetiva. Igualmente, permitiu identificar expectativas para a aprendizagem esperadas para esse grupo de servidores públicos que passou por um período de preparação obrigatório em escola de governo.

Os dados foram reveladores de que a ENAP possui uma articulação histórica com a dimensão objetiva da carreira dos gestores públicos. Esteve vinculada a todos os

processos seletivos, e foi a única instituição a ofertar o curso preparatório inicial exigido para que esses sujeitos ingressassem na carreira.

Ao longo do tempo, a ENAP foi consolidada como uma instituição auxiliar para as políticas de gestão de pessoas no âmbito da administração pública federal. A referida escola de governo foi criada em um contexto no qual esteve presente uma narrativa de modernização com o movimento de reforma administrativa na Nova República. Foi um projeto influenciado por experiências de congêneres internacionais que se responsabilizavam pela preparação de funcionários para a ocupação depostos elevados na administração pública, como a ENA, uma das referências principais para a concepção da ENAP.

Verificou-se que a ENAP foi originada, divulgada e percebida como um ambiente para a aprendizagem dos gestores públicos, com a existência de compromissos formais de auxílio no desenvolvimento de suas capacidades para resolução de problemas e de reflexão sobre os contextos que os envolvem. Estas expectativas sobre os gestores públicos e para a aprendizagem que devem alcançar foram destacadas no contexto da carreira, assinaladas em documentos constitutivos do corpus. Tais expectativas foram indicadas em referenciais educacionais orientadores da aprendizagem na ENAP, assinaladas na estrutura da carreira (no papel do gestor público como agente estratégico de mudanças) e mencionadas no contexto histórico, como coerentes com a preparação na escola de governo.

Por meio da abordagem histórico-contextual foi possível identificar momentos marcantes relacionados à estrutura da carreira (dimensão objetiva): a) a sua extinção e posterior recriação na década de 1990; b) a regulamentação ocorrida em 2004; c) a vigência da PNDP a partir de 2006; d) as diretrizes para supervisão da carreira desde 2009; e) e a criação do processo integrado de mobilidade em 2013. A carreira se trata de uma estrutura construída ao longo do tempo e que, em alguma medida, contou com a participação dos próprios gestores públicos, seja para sua criação legal ou para mudanças na sua estrutura.

Componentes constitutivos-chave na estrutura foram revelados: a) a inserção e o desenvolvimento na carreira associados ao mérito; b) avanço por promoção e

progressão; c) múltiplos locais permitidos para o desempenho das atividades laborais na carreira; d) mobilidade interna e geográfica; e) e um papel formal, com conteúdo abrangente, de natureza decisória, informacional e interpessoal no qual o gestor público é indicado como um agente de transformação da realidade.

Com base na interação entre indivíduos (gestores públicos e outros agentes públicos), foi construída uma concepção de papel, formalizada no ano de 2009, em um contexto de elaboração de diretrizes para supervisão na carreira. Apesar da existência dessa descrição formalizada, outros profissionais entrevistados (grupo EC), indicaram a existência de ambiguidade de papel na carreira, com a ausência de consenso entre os gestores públicos: um componente da dimensão objetiva entendido como assunto controverso.

A mobilidade interna foi revelada como um componente-chave que caracteriza a estrutura e que contribui para a configuração da carreira do gestor público como híbrida. Ela permite uma aproximação com o modelo de carreira sem fronteiras, pela flexibilidade para a transposição de fronteiras físicas: a mudança de locais para o trabalho do gestor público na administração pública direta, autárquica e fundacional. O processo para a mobilidade interna permite escolhas individuais que devem ser compatibilizadas com as demandas institucionais. Confere possibilidade para a construção de trajetórias heterogêneas entre os gestores públicos, não predeterminadas e fixas, mas emergentes no decorrer do tempo. A estrutura da carreira aglutina o padrão e o variável, o formato tradicional e o sem fronteiras. Assim, as trajetórias de carreira derivam tanto do contexto quanto dos planejamentos e escolhas individuais dos gestores públicos.

Outro componente da dimensão objetiva da carreira e que está interconectado com a aprendizagem é o curso oferecido pela ENAP, revelado como um projeto em construção no decorrer dos anos. Mesmo constituindo uma etapa de seleção de concurso público – um ambiente concorrencial – essa característica não impediu que a aprendizagem fosse considerada nos referenciais educacionais da ENAP, além de percebida por entrevistados do grupo EC, como um processo que também deve ocorrer em ambiente de interação social.

O ambiente para a aprendizagem na ENAP também foi marcado pela reunião de distintas orientações destinadas à preparação inicial para a carreira. Os gestores públicos foram considerados seres humanos inacabados, em desenvolvimento e também sujeitos no processo de aprendizagem, com a crença humanista na potencialidade que os indivíduos têm para aprender ao longo do tempo. Soma-se a isso a busca por mudança comportamental na direção desejada, com expectativas de papel para o gestor público consideradas nos objetivos para a aprendizagem. Isso indica uma aproximação com o propósito da aprendizagem na abordagem behaviorista. Em adição, foram apontados princípios andragógicos no curso ao ser indicada a valorização da experiência para se aprender, a aprendizagem como processo que pode ser estimulado pela exposição a problemas a serem resolvidos e a utilidade da aprendizagem para o desempenho de papéis profissionais.

A preparação para a carreira na ENAP muda com o contexto político-institucional e com os planos de cada governo, o que repercute em distintas demandas sobre o que os gestores públicos devem aprender para o ingresso na carreira e para o exercício de suas atividades laborais.

Enfim, abordar o contexto favoreceu a compreensão sobre a carreira e a aprendizagem dos gestores públicos. Permitiu examinar a origem da carreira e sua dimensão objetiva, a ENAP como ambiente de aprendizagem, o que inclui o curso inicial preparatório para a carreira. Porém, o que os próprios gestores públicos têm a dizer sobre a carreira e a aprendizagem, com o seu ingresso na ENAP e com a posterior inserção na carreira? Quais são as suas concepções? Tais interrogações que demandam o exame das experiências vividas por eles e a dimensão subjetiva da carreira, são alvos de análise no Capítulo 6.

6 CARREIRA E APRENDIZAGEM SOB A ÓTICA DOS GESTORES

No documento Carreira e aprendizagem: um estudo com gestores públicos federais egressos da Escola Nacional de Administração Pública (páginas 112-116)