Uma prima que estava em tratamento médico pala curar uma depressão clínica vem morar com você durante o período de convalescença. O médico advertiu que ela tem tendências suicidas e já ameaçara tomar uma dose excessiva de remédios. Certa noite ela lhe diz,
"Preciso de algo para dormir. Você tem algum sonífero em casa?". Na mesma hora você se lembra de um frasco quase cheio de pílulas fortes escondido no armário. Uma superdose poderia ser fatal. Com medo de
que sua prima procure as pílulas mais tarde, você responde impassível:
"Não, não guardamos remédios velhos em casa. Sempre jogamos fora".
Nem todos os conflitos envolvem uma escolha direta entre amar a Deus ou às pessoas. Algumas vezes a escolha é entre duas esferas em que o amor humano opera, como ilustra o parágrafo anterior. O amor pela sua prima exige que você revele o esconderijo das pílulas letais ou que minta deliberadamente para protegê-la da tentação de suicidar-se?
Contar uma mentirá para salvar uma vida humana é uma atitude amorosa? É certo mentir para proteger pessoas inocentes ou indefesas?
Você deixa sua filha adolescente sozinha em casa certa noite, dando-lhe a seguinte instrução: "Se alguém desconhecido telefonar, não diga que saímos. Diga apenas: 'Meus pais estão ocupados no momento. Quer que telefonem depois?"'. É errado mandar que sua filha engane os outros propositadamente na esperança de protegê-la de algum malvado que talvez esteja à procura de garotas sozinhas em casa?
A resposta depende de como definimos o termo mentira. Estamos moralmente obrigados a falar e agir com veracidade em todas as circunstâncias? O nono mandamento declara: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êxo. 20:16). Provérbios 14.25 diz:
"A testemunha verdadeira livra almas, mas o que se desboca em mentiras é enganador". Ananias e Safira foram mortos imediatamente por mentirem ao Espírito Santo (At 5). Mas Raabe mentiu aos soldados que procuravam os espiões de Israel (Jos. 2).
As parteiras hebréias mentiram ao rei, afirmando que não podiam matar as crianças israelitas porque, antes mesmo que se aproximassem dos bebês, ele já haviam sido escondidos (Êxo. 1). Se mentir é errado, por que essas pessoas não foram castigadas pelas suas transgressões?
Considere as parteiras hebréias. As Escrituras nos informam que, por terem protegido vidas inocentes, "Deus fez bem às parteiras; e o povo aumentou e se tornou muito forte. E porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes constituiu família" (Êxo. 1:20,21). É difícil acreditar que a mentira delas não fosse parte do amor que sentiam pelas crianças
recém-nascidas e por Deus. Elas também preferiram o bem maior, mesmo que a mentira em si seja sempre pecaminosa.
Vejamos agora o exemplo de Raabe. Embora mentir seja pecado, Raabe preferiu o bem maior de proteger os espiões. Há várias razões para crer que a mentira de Raabe pode ter sido a melhor coisa a fazer nessa situação de conflito. Primeiro, as Escrituras não a condenam explicitamente em lugar algum. Segundo, Josué ordenou que ela e sua casa fossem poupadas quando Jericó foi atacada "porquanto escondeu os mensageiros que enviamos" (Jos. 6:17). A mentira dela foi um elemento essencial para esconder os espiões. Ela foi, portanto, preservada do juízo de Deus sobre Jericó quando salvou a vida dos espiões. Terceiro, Raabe escondeu esses homens por causa da sua fé em Deus (Jos. 2:9-13).
Hebreus 11:31 registra: "Pela fé Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias". Desse modo, parece que a mentira dela foi na verdade uma expressão da sua fé em Deus. Tiago escreveu: "De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho?" (Tia. 2:25). Fica evidente que a mentira de Raabe a capacitou a expressar a sua fé em Deus. Ela foi elogiada, e não condenada, pelo que fez.
Immanuel Kant tinha tamanha fé na verdade que afirmou que se recusaria a enganar deliberadamente um criminoso, a fim de salvar uma provável vítima. Apesar dos exemplos bíblicos contrários, muitos cristãos seguem Kant. Ao agir assim, eles afirmam que o dever de contar a verdade ao culpado é um bem maior do que o de salvar a vida do inocente. Todavia, muitas dessas pessoas deixam à luz de casa acesa enquanto estão fora, para que os prováveis ladrões pensem que há alguém lá dentro. Será certo mentir para salvar uma televisão, um aparelho de som ou jóias, e errado mentir para salvar uma vida humana?
O que essas pessoas fariam se um louco com uma arma exigisse que lhe dissessem onde estavam os entes queridos delas? Será que diriam: "Eu não minto. Minha família está indefesa e escondida no armário?". Além
disso, os líderes militares, os cientistas e o pessoal do serviço secreto devem contar os segredos da segurança nacional quando alguém perguntar? Certamente, o direito de o inocente viver tem prioridade sobre o direito de o culpado receber a informação certa.
Mentir é sempre errado e nunca justificável ou certo por si mesmo.
Estamos isentos da obediência à lei contra a mentira só quando essa lei é superada por uma obrigação maior. Quando dizer a verdade põe em risco vidas inocentes, o bem maior é preservar essas vidas. É importante notar que mentir neste contexto não é uma exceção à lei, mas simplesmente uma isenção temporária baseada na prioridade bíblica de um bem maior.
O princípio de valor envolvido é este: As pessoas inocentes são mais dignas de respeito amoroso do que as que promovem atitudes não-amorosas. Quando não há meios de respeitar ambas, as vidas inocentes devem ter precedência sobre a informação que daria vantagem aos que iriam ferir ou matar injustamente.