Busca-se com o instituto da imparcialidade evitar que o juiz tenha qualquer tipo de inclinação injustificada por uma das partes, devendo permanecer eqüidistante como terceiro super partes, garantia que se estabelece em comum para todas as formas de composição judicial.49
As causas de abstenção ou de recusa indicadas na legislação infraconstitucional processual civil ou penal evitam a ruptura desse equilíbrio, impedindo a aparição de subjetivismos ou simplesmente prejulgamentos, que, por sua vez, impediriam que o julgador pudesse alcançar a justiça devida em seu pronunciamento.
49 “Che il giudice debba essere super partes non è dunque un’affermazione meramente protocollare o di topografia delle aule giudiziarie, ma una profonda e sostanziale exigenza che vuole, a garanzia della indipendenza e della imparcialità dell’organo, il giudice disancorato dagli interessi propri delle parti” . (PAOLOZZI, Giovanni. Giudice político e iudex suspectus. In. Rivista Italiana di Diritto e Procedura Penal, Milano, Dott. A. Giuffrè, 1973, Anno XVI, (635-650), p.635).
Mas esse temor de indevida inclinação, segundo determinada corrente doutrinária e jurisprudencial, não se restringe apenas a eventuais vinculações de caráter subjetivo do órgão jurisdicional. Sustenta-se, também, que a imparcialidade igualmente aborda os aspectos objetivos, ou seja, aqueles que se referem ao processo como mecanismo que oferece as garantias suficientes para excluir qualquer dúvida razoável em relação à imparcialidade do juiz.
O Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH), através da decisão proferida no caso Piersack, em 1° de outubro de 1982, passou a reconhecer a diferenciação entre o aspecto subjetivo e objetivo da imparcialidade. Segundo o Tribunal, pode-se distinguir, por um lado, um aspecto subjetivo da imparcialidade que trata de averiguar a convicção pessoal de um determinado juiz em um caso concreto e, por outro, um aspecto objetivo que propugna pela existência de um Juiz concreto que possa oferecer garantias suficientes para excluir qualquer dúvida razoável a esse respeito.50 Nessa decisão, o Tribunal europeu no que concerne à imparcialidade objetiva ressaltou:
a) que las apariencias son importantes en esta materia porque lo que está en juego es la propia legitimación de los Tribunales en su actuación, b) que por eso bastan las dudas de imparcialidad para excluir al Juez sospechoso, c) que son trascendentales los criterios de carácter organizativo de la actuación judicial, de forma que no es preciso comprobar sus resultados sobre la convicción personal del Juez, por ello se puede afirmar que el ejerciio previo en el proceso de determinadas funciones procesales puede provocar dudas de parcialidad.51
É evidente que essa distinção entre imparcialidade subjetiva e objetiva formulada pelo Tribunal Europeu de Direito Humanos (TEDH) não ficou imune a críticas.
Com efeito, a distinção tem sido objeto de acentuadas ressalvas, uma vez que a referência à parcialidade, por mais que se objetive, conduz sempre a situar o problema nas circunstâncias subjetivas do julgador.
50 CABIALE, J. A. D., Op. Cit., p. 407.
51 ORTIZ, M. I. V., Op. Cit., p. 148.
Para Joan Picó i Junoy, não obstante a indiscutível autoridade do TEDH, do qual emanou dita distinção, a mesma resulta incorreta, na medida em que: “ (...)la imparcialidad judicial hace referencia a la consideración del juez como sujeto ajeno a lo discutido en un proceso y a las partes litigantes, por lo que su imparcialidad o parcialidad es simpre subjetiva” .52
José Antonio Díaz Cabiale, amparado em Gonzalez Montes, da mesma forma inclina-se pela corrente subjetivista, afirmando:
De esta manera nos parece que la parcialidad o imparcialidad siempre vienen haciendo referencia a uno elemento subjetivo, la parte y la posición que ocupa respecto de ella el Juez. Por ello la imparcialidad siempre es subjetiva y no objetiva como entendía el TS.53
Por outro lado, o Tribunal Supremo da Espanha, através da decisão de 8 de fevereiro de 1993, adotou posicionamento diverso daquele formulado pelo TEDH, afirmando que a única classe de imparcialidade que se percebe e se pode comprovar é a objetiva, já que somente dados objetivos, sejam no que concerne à relação pessoal do juiz com as partes ou com o objeto do processo, são os que podem servir de base para estimar a neutralidade ou não do magistrado.54
Não obstante a existência de correntes unilaterais (subjetivista ou objetivista) sobre o tema, não se pode deixar de reconhecer que a distinção entre imparcialidade objetiva e subjetiva formulada pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) tem sua razão de ser.
Existem causas que determinam uma análise acerca da imparcialidade, vinculadas unicamente a aspectos objetivos, ou seja, sufragadas em dados constatáveis sem qualquer influência específica no âmbito subjetivo do órgão jurisdicional.
52 “ Neste sentido: MONTERO AROCA, J. Princípios del proceso penal - una explicación basada en la razón. Valencia: Tirant lo Blanck, 1997. p.107; GONZÁLEZ MONTES, J. L. Instituiciones de derecho procesal. 3. ed. Tomo I. Madrid: Tecnos, 1993. p.134” (PICÓ I JUNOY, J., Op. Cit., p.
51).
53 CABIALE, J. A. D., Op. Cit., p. 408.
54 Idem Ibidem. Loc. Cit..
A imparcialidade não pode e não deve ser avaliada somente como um mero e interior “stato spirituale” do magistrado; reclama, igualmente, que seja entendida como um “stato” que a coletividade possa objetivamente observar. Esse
“stato” não pode restar isolado no íntimo do sujeito, mas é necessário conquistar relevância externa, “ (...)apparendo anche alla comunità che deve essere in grado di constatare l’assenza di ogni circostanza che potrebbe escluderne la reale esistenza interiore” .55
O direito ao juiz imparcial está intimamente ligado ao direito à aparência de imparcialidade que é analisada por meio de dados objetivos.
É possível afirmar que sempre existiu um interesse público, como forma de garantir a própria conservação da sociedade, em assegurar a imparcialidade do juiz e o prestígio da função jurisdicional procurando “ (... ) no sólo la exclusión del juez por ser parcial, sino porque pueda temerse fundadamente que lo sea, evitando toda duda sobre sus pronunciamientos” .56
Giuseppe Chiovenda já dizia que a imparcialidade objetiva não é aquela que deriva de eventual quebra de relação do juiz com as partes, mas, sim, de sua relação com o objeto do processo, critério que fora referendado pela Sentença do Tribunal Constitucional espanhol n. 32/94.
Concluindo, poder-se-ia afirmar que a finalidade da exigência de imparcialidade objetiva seria a de evitar que questões objetivas possam colocar em dúvida a aparência de imparcialidade que deve revestir a atividade jurisdicional; o juiz que atuou como perito ou mesmo que tenha recusado o pedido de arquivamento do inquérito policial feito pelo Ministério Público pode por em risco a imparcialidade objetiva que lhe é exigível, já que nestes casos não existe uma especial vinculação entre o juiz e a parte, que é o núcleo da denominada parcialidade subjetiva.
55 PAOLOZZI, G., Op. Cit., p. 635.
56 VIAGAS BARTOLOMÉ. P. F., Op. Cit., p.3.