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Princípio da imparcialidade e princípio da igualdade

No documento U NI VERS I DAD FED ERALDO PARANÁ (páginas 88-92)

Ao se analisar o princípio da imparcialidade como princípio de caráter “absoluto” (item 1 .1 1 ), estabeleceu-se uma correlação entre o princípio da imparcialidade e o princípio da igualdade sem que se fizesse qualquer distinção conclusiva entre estes dois princípios.

Na realidade, a distinção entre eles se mostra de certa forma complexa, pois grande parte da doutrina vê a imparcialidade como mero instrumento ou corolário do princípio da igualdade.

Registre-se, inicialmente, que a igualdade não recebe tratamento uniforme nas correntes do pensamento humano. Os adeptos do Estado liberal valorizam muito mais a liberdade que a igualdade. Já nas concepções sociais, a igualdade é o ponto fundamental. Na verdade, não existe igualdade sem liberdade, assim como não existe liberdade sem igualdade.1QQ

A igualdade perante a lei tem seu marco inicial a partir da Revolução Francesa.190 No período anterior, a sociedade, principalmente na França, organizava-se através da noção de classes e ordens (nobreza, clero e o Terceiro Estado), sendo que o antigo regime desconhecia a noção de igualdade.

Nessa perspectiva, anota Karl Larenz que:

A exigência de justiça igualitária significa que o comportamento de todos deve ser julgado com as mesmas regras e tem que haver para todos o mesmo rasero. Por detrás disso está a idéia de que todos os homens são ' iguais perante a lei' e que ninguém pode reclamar nenhum privilégio. 1 9 1

189 COSTA, P. B. F. M., Op. Cit., p. 16.

190 A bem da verdade, conforme afirmara Hobbes, a lei não é fator de igualização, mas de discriminação, uma vez que a igualdade entre os homens é natural, enquanto que a desigualdade para ser legítima precisa ser constituída através da lei.

191 “ La exigencia de la justicia igualitaria significa que el comportamiento de todos debe ser juzgado con las mismas reglas y que tiene que haber para todos el mismo rasero. Tras ello está la idea de que todos los hombres son ‘ iguales ante la ley’ y que ninguno puede reclamar ningún privilegio” . (LARENZ, Karl. Derecho ju sto - fundamentos de etica jurídica. Trad. Luis Díez-Picazo. Madrid:

Editorial Civitas S.A., 1993. p.49).

O princípio da igualdade, em sua vertente jurídica, regula o comportamento do legislador, do intérprete e do aplicador do direito, nos mesmos moldes que atua o princípio da imparcialidade. Em face dessa particularidade de ambos os princípios, alguns não percebem qualquer distinção entre eles.

A autora portuguesa Maria Teresa de Melo Ribeiro menciona alguns autores que procuram identificar o princípio da igualdade com o princípio da imparcialidade. Umberto Allegretti e Sabino Cassese caracterizam a imparcialidade como instrumento de aplicação igualitária da lei, ou, em outras palavras, diluem no princípio da igualdade parte significativa da essência da imparcialidade. Para Paolo Barile, o princípio da imparcialidade é um mero corolário do princípio da igualdade, definindo-o como o dever de tratar de modo igual o que é igual e de modo diferente o que é diferente. Outros consideram o princípio da imparcialidade como a transposição lógica e necessária do princípio mais geral da igualdade. 1 9 2

Contudo, em que pese a conexão existente entre o princípio da igualdade e o principio da imparcialidade, não se justifica qualquer tentativa doutrinária de inserir ambos os princípios numa idêntica constituição ontológica. 1 9 3

Segundo Augusto Cerri, o motivo pelo qual o princípio da imparcialidade não se confunde com o da igualdade, está no fato de que o princípio da igualdade observa apenas à lei, e tem como destinatário único o legislador, ao contrário do que acontece com o princípio da imparcialidade. 1 9 4

Maria Teresa de Melo Ribeiro, criticando, com razão, a posição de Augusto Cerri, não concorda com a perspectiva reducionista deste autor, uma vez que tanto o princípio da igualdade como o da imparcialidade vincula todas as

192 MELO RIBEIRO, M. T., Op. Cit. Loc. Cit..

193 CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MOREIRA, Vital. Constituição da república portuguesa anotada. 3. ed. rev. Coimbra: Coimbra Editora, 1993. p. 925.

No mesmo sentido: CERRI, Augusto. Imparzialità ed indirizzo político nella publica amministrazione. Pádua: CEDAM, 1973. p.157;

194 CERRI, A.. Ibidem. Loc. Cit.

funções públicas e, nesse aspecto, apresenta como destinatários o legislador, o administrador e os órgãos jurisdicionais. 1 9 5

Conseqüentemente, a distinção formulada por Augusto Cerri não se mostra sustentável.

A demonstração da autonomia do princípio da imparcialidade em relação ao princípio da igualdade obrigatoriamente reclama, preliminarmente, uma tarefa em que se possa precisar o alcance e delimitação do campo de atuação do princípio da igualdade.

O conceito de igualdade pressupõe muito mais do que um objeto e um sujeito, na medida em que é um conceito comparativo.

Segundo João Martins Claro, a igualdade consiste numa relação entre dois objetos, situações ou pessoas relativamente a uma tertium comparationis.

O juízo de igualdade, justamente porque não corresponde a um juízo de identidade, traduz-se numa valoração comparativa de coisas diferentes, assim implicitamente convocando um imprescindível tertium comparationis. 1 9 6

O princípio da igualdade, pode apresentar três características importantes:

a) proibição de arbítrio;

b) proibições de discriminações (proibições de diferenciações injustificadas, desrazoáveis, desproporcionais;

c) obrigação de diferenciação (tratamento igual para situações iguais, e tratamento desigual para situações desiguais), sugere uma idéia de relativização, ou seja, igualdade implica uma relação em que se deve sopesar, ponderar, num quadro estabelecido por uma pluralidade de objetos. 1 9 7

195 MELO RIBEIRO, M. T., Op. Cit., p. 207.

196 Apud Idem. Ibidem., p. 214.

197 Idem. Ibidem., p. 209.

Delineado sinteticamente esse parâmetro de atuação do princípio da igualdade, há possibilidade de se tentar realizar um critério distintivo entre ambos os princípios.

Para tanto, deve-se valer do trabalho realizado por Maria Teresa de Melo Ribeiro, assistente da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Segundo ela, o princípio da imparcialidade exige a persecução objetiva do interesse público, impondo aos órgãos jurisdicionais o dever de agir segundo parâmetros objetivos, lógico-racionais e estritamente jurídicos. Com base nesses critérios, procura-se afastar qualquer subjetividade da atividade jurisdicional, impedindo que as decisões sejam arbitrárias. Evidentemente que sob esse prisma há uma intersecção do princípio da imparcialidade com o princípio da igualdade, pois o princípio da igualdade também reclama a proibição do arbítrio da atividade dos poderes públicos e a proibição das discriminações ou tratamento discriminatório

1 9 0

injustificados. 1 9 0

Contudo, mesmo havendo uma zona de intersecção entre os dois princípios, não se afigura correto identificá-los, vez que são diversos os seus fundamentos.

Na verdade, o princípio da imparcialidade seria, na sua essência, uma norma de ação, enquanto que o princípio da igualdade seria uma norma de relação199; o princípio da imparcialidade, “prima facie” , procura garantir o interesse público, enquanto que o princípio da igualdade visa garantir os direitos e interesses dos particulares. 2 0 0

O princípio da imparcialidade e o princípio da igualdade distinguem- se ainda quanto ao conteúdo e respectivo âmbito de aplicação. Enquanto o princípio da imparcialidade exige simultaneamente e para além da objetividade na persecução do interesse público, exclusividade, isenção, independência e

198 Idem. Ibidem., p. 210 e 211.

199 “ (...) a igualdade é, e sempre será, relação. Isso porque, abandonada a concepção da igualdade como relação, não haverá igualdade. Ter-se-á representação vazia, conceito do qual se terá retirado a característica essencial” .(COSTA, P. B. F. M., Op. Cit., p. 24).

200 MELO RIBEIRO, M. T., Op. Cit., p. 211 e 212.

transparência do Poder Judiciário, o princípio da igualdade contém em si, para além da mera igualdade formal, uma verdadeira exigência de igualdade material ou substancial. 2 0 1

Na mesma linha de pensamento é a posição de Jorge Miranda, ao tratar da diferenciação do princípio da igualdade e da imparcialidade no âmbito administrativo português. 2 0 2

Ao contrário da imparcialidade, a igualdade representa, conforme já se afirmou, um conceito comparativo, o qual pressupõe uma pluralidade de objetos, pessoas ou situações, exigindo-se sempre um critério de diferenciação, um tertium comparationis ou juízo comum de igualdade. Já o princípio da imparcialidade, visando a um determinado interesse público no exercício da atividade jurisdicional, considera-se essencialmente como norma de ação e não de relação. 2 0 3

No documento U NI VERS I DAD FED ERALDO PARANÁ (páginas 88-92)

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