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Contexto e acontecimento discursivo

Capítulo 3 – Análise

3.3 Fatos singulares fornecidos pelos dados

3.3.1.3 Pessoalidade, contexto e discurso

3.3.1.3.2 Contexto e acontecimento discursivo

A noção de acontecimento discursivo, a partir de prévia exposição feita na seção anterior, coloca-se como um importante balizador da noção de contexto. Segundo Corrêa (2013) o acontecimento discursivo, que se estabelece igualmente no discurso e no texto, é delimitado como “contornos do acontecimento de linguagem”. Para melhor situar a ideia de contexto na produção escrita por meio da reflexão sobre tais contornos, na perspectiva do autor, são apresentadas quatro aproximações, das quais destacamos a primeira.

Essa primeira aproximação situa-se na questão da ampla utilização da ideia de contexto sem maior preocupação em estabelecê-la a partir de uma reflexão teórica que a legitime. Não basta pensar na relação entre as palavras e o contexto, entre a linguagem e o contexto, apenas vislumbrando o apoio de uma instância institucional, pois isso culmina em atribuir a responsabilidade pela produção dos sentidos apenas a uma noção de contexto difusa e pouco delimitada. Partindo desta problematização inicial sobre a questão do contexto, o autor propõe seis enquadramentos para reflexão sobre a relação entre contexto e linguagem:

(1) Um primeiro enquadramento da ideia de contexto permite pensá-la a partir de contornos como a situação presencial e imediata, um ponto de partida para a construção de definições mais apuradas. Esta consideração, construída na ideia de situação presencial, põe em jogo o espaço do sujeito enunciador.

(2) Outra possibilidade de enquadramento seria tomar o acontecimento discursivo como resultante de situações concretas de uso da língua. Nessa consideração, toma-se como fator determinante, além do espaço, uma certa noção de pessoa, que se estabelece a partir da cristalização de

determinados usos da linguagem. Ao caracterizar as implicações dessa cristalização para a linguagem (e, neste sentido, voltamo-nos mais atentamente para a produção escrita), Corrêa (2013) ressalta que esse processo revela, dentre outras coisas, o caráter híbrido da produção escrita que se marca pela presença, principalmente, de saberes não provenientes do processo de escolarização que, por sua vez, atravessam os saberes escolarizados57.

(3) É possível ainda enquadrar o acontecimento discursivo a partir de uma idéia de contexto que passasse pelas seis funções da linguagem, conforme formuladas por Jakobson (1975), que explicaria quais elementos estão imediatamente implicados em um ato de comunicação. Para a noção de acontecimento discursivo, tal aproximação seria ainda insuficiente, pois nenhuma das seis funções de Jakobson isoladamente seria suficiente para explicar o contexto e pelo fato de sua validação depender da atribuição de maior força à fala (supostamente contextualizada), que impõe à escrita (supostamente descontextualizada) relação de dependência.

(4) Outra possibilidade seria pensar o contexto como “ritual” (perspectiva de aproximação pragmática), entendido como a junção dos elementos que participam de um determinado ato de fala (situação, pessoas, linguagem), que se centra em tais atos de fala e reforça o caráter de convencionalização da linguagem. Nesta aproximação, o acontecimento discursivo se tornaria mais estático e resultaria na cristalização do ritual.

(5) O contexto como esfera de atividade humana: aproximação que se fundamenta na concepção de gêneros do discurso de Bakhtin (2011). Estabelece os gêneros do discurso como catalizadores da atividade humana no mundo, ou seja, os gêneros do discurso estão ligados às

57 Esta é uma consideração especialmente importante para repensar a noção de pessoalidade na linguagem a partir do modo como é elaborada nas teorias sobre letramento nos estudos etnográficos, por estabelecerem que a noção de pessoa é construída em uma prática de letramento a partir, (também, e principalmente) da interferência de outros letramento anteriores (sobretudo os não escolarizados) com os quais os sujeitos tiveram contato.

diferentes esferas de atividade humana. Dessa relação, constrói-se a noção de enunciado concreto, que se opõe à noção de enunciado como produto do processo de enunciação pela relação de acabamento que impõe: enquanto o enunciado, produto da enunciação, delimita-se na situação de uso, o enunciado concreto prevê que sua delimitação caracteriza-se por meio da réplica, dando-lhe acabamento de sentido. Essa aproximação se caracteriza pela dialogia, em que os enunciados constroem-se por meio da retomada dos já-ditos58.

(6) Contexto como condições de produção do discurso: aproximação que se estabelece a partir dos pressupostos da Análise do Discurso Francesa (ADF), em que tais condições de produção do discurso se constituem a partir de uma relação de forças de natureza social e histórica que se impõem sobre o discurso, a partir das imagens que os sujeitos constroem de si e dos referenciais59.

Em uma segunda aproximação, Corrêa (2013) propõe a ideia de acontecimento discursivo (PECHEUX, 2012) em relação aos textos falados e escritos, situando-o mais especificamente na questão bastante comum da dicotomia entre fala e escrita. Essa dicotomia é pensada a partir da oposição entre modalidades e não dos textos. Essa oposição situa-se em uma concepção de situação presencial que definiria o contexto das modalidades falada e da escrita. Nessa definição de contexto, não estariam inclusas as representações dos interlocutores e do referente na relação de produção de sentido, de modo que excluiria, inclusive, a abordagem pela concepção de enunciado concreto e gêneros discursivos.

Ao considerar a escrita como modo de enunciação, é possível pensar no continuum de práticas sociais na produção textual que caracterizariam os textos a

58 Esse contorno é particularmente interessante para pensar a noção de pessoalidade a partir da ideia de que o acontecimento discursivo ganha uma caracterização social e histórica, em que os enunciados transitam entre gêneros (ou práticas sociais de letramento), ganhando novos sentidos e atribuindo igualmente novos sentidos aos diferentes letramentos.

59 Ao relacionar essa aproximação à atividade escrita, é possível pensar o contexto em que a produção escrita se dá, não apenas a partir da situação concreta de produção, mas também a partir das representações que tal atividade envolve, algo que certamente se reflete na caracterização do gênero, pois tais representações que o sujeito faz são a matéria com que ele constrói a pessoalidade, influenciando o modo como será representada no texto.

partir da noção de gênero textual, mas ainda assim deixando de lado as modalidades. Para considerar as modalidades oral e escrita como modos de enunciação e, mais especificamente, a produção escrita, é necessário aproximar-se da noção de acontecimento discursivo a partir dos seus aspectos sociais e históricos, ou seja, como gêneros do discurso.

Conceber a produção escrita a partir dos gêneros do discurso e da noção de enunciado concreto desestabilizaria a noção de contexto para a produção escrita. Essa desestabilização seria necessária para evidenciar o que há de social e histórico na linguagem e abandonar a concepção pouco dinâmica de contexto como normalmente é vista, ora como situação presencial, ora como um espaço definido e demarcado, ou mesmo como um quadro de acontecimento fechado hermeticamente numa determinada esfera de prática social, passando “de uma visão funcional-situacional para uma visão sócio-histórica” (CORRÊA, 2013, p.88).

Assumir a escrita como um modo de enunciação, portanto, permite associar a escrita a sua heterogeneidade constitutiva, bem como as suas relações intergenéricas, em que os gêneros não apenas se estabelecem num continuum, mas se inter- relacionam e se intra-relacionam.

Por meio da perspectiva aqui revista e proposta e, principalmente, considerando a viabilidade para a noção de pessoalidade nesta pesquisa, é insuficiente uma ideia de contexto apenas como situação presencial em que se privilegia o espaço do sujeito. Também é insuficiente considerar o contexto apenas como resultado das situações de uso por estabelecer uma noção de pessoalidade cristalizada, desprovida de dinamicidade. As funções da linguagem de Jakobson (1975) são igualmente limitadoras por permitirem reforçar a idéia de fala contextualizada e escrita descontextualizada. A ideia de contexto como ritual, situada na junção dos elementos comunicativos também se mostra insuficiente pela ausência de historicização que propomos ser essencial para refletir sobre a linguagem.

Resta, então, estabelecer o que há de importante em tais noções, adequando-as à uma perspectiva que igualmente considere a relevância da sociedade e da história. Nesse sentido, evocamos a possibilidade de igualmente interpretar o que os etnógrafos denominam contexto em termos das esferas de atividade humana, que definem os gêneros do discurso e as condições de produção do discurso (ressistematizadas na

noção de interdiscurso), perspectivas afeitas à linha teórico-metodológica adotada na presente pesquisa.

É nessa perspectiva que será feita a leitura da noção de contexto que delimita, nos estudos sobre letramento anteriormente apresentados, a noção de pessoa e, mais especificamente, a noção de pessoalidade, uma vez que o interesse da presente pesquisa é apresentar essa noção em suas características fundamentais e transpô-la para o estudo da produção escrita em uma perspectiva enunciativo-discursiva.

Partindo, pois, desse novo entendimento, em que a pessoalidade é uma figura construída no texto pelo sujeito do discurso, é importante ressaltar que esse sujeito é atravessado pelos discursos com os quais teve contato e justamente nisso o interdiscurso tem a sua importância: definir os modos pelos quais o sujeito é atravessado pelos diferentes discursos e, consequentemente, o modo como estabelecerá no texto a figura de pessoa. Concebida dessa forma, a noção de pessoalidade deixa de ser apenas um recurso teórico-descritivo e passa a ser também um recurso linguístico que possibilita a explicação de determinados fatos da linguagem e, mais especificamente, determinados fatos da produção escrita.