4. RESULTADOS
4.3 Apresentando a Categoria Central
4.3.1 Modelo teórico
4.3.1.1 Contexto
Enquanto „contexto‟, a categoria Incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional se organiza pelo agrupamento das subcategorias: Vivendo o diagnóstico e a gestação na prisão; Valorizando a família como porto seguro, a saudade produz sofrimento, mas estimula a sua reconquista e O nascimento do filho como marco de novas decisões relativas à identidade materna. Ela explicita o cenário onde acontece o diagnóstico, a gestação, o parto e a maternagem nos limites do sistema prisional, descrevendo como se dá esta esfera na vida da mulher MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL.
No sistema prisional, a criminalidade de mulheres e seu aprisionamento têm aumentado assustadoramente nos últimos quinze anos; são mulheres jovens, em idade reprodutiva, podendo adentrar o sistema prisional grávidas – diagnosticadas ou não. Outras, ao serem presas, deixam os filhos aos cuidados de outrem. Todas elas acabam incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional, pois efetivam o cuidado ao filho MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL.
Para abrigar as mulheres presas, o poder público não dispõe de penitenciárias construídas para mulheres e, sim, para homens, que são adaptadas para mulheres MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL. O que não garante que sejam adequadas ou atendam as especificidades da mulher, incluindo a presa grávida ou com filho. Nos últimos anos, algumas unidades femininas foram construídas e, algumas destas, possuem um setor de amamentação que abriga as mães com os filhos recém- nascidos, propiciando a ambos seguirem incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional. Contudo, as gestantes, na maioria das vezes, não conseguem usufruir desse espaço e acabam por cumprir a pena nos pavilhões comuns, compartilhados com as demais sentenciadas.
Esse contexto, para as mães MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL, pode desfavorecer o desenvolvimento sadio da gravidez, visto que são gestantes que, no cumprimento de sua pena, vivem a privação do alimento, do sono e do
repouso, além da separação dos familiares e do companheiro, o que afeta tanto o filho em gestação quanto após o nascimento.
MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL onde há local próprio para o abrigo da díade, mãe e filho se acomodam melhor. Assim, a mãe que materna na prisão permite-se estar incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional. Habitualmente, trata-se de um setor separado dos demais, composto por celas individuais, onde a díade habita e que, mesmo sendo uma cela pequena, contém cama, berço, carrinho para o bebê e vaso sanitário.
Estar incorporando a identidade materna e maternagem no sistema prisional na rotina deste setor significa, ao longo do dia, permanecer com outras mães em um espaço livre, onde há uma sala para preparar as mamadeiras e lavar a louça das refeições; outra sala para atendimentos; um espaço com tanque para lavagem das roupas, varais com o colorido de pequenas peças de roupa de bebê. Ou seja, poder estar em uma condição melhor, por estar maternando o filho, ainda que MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL.
A categoria central MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL significa o dia se iniciar ao “abrir a tranca”, por volta das 7:30 horas, e se encerrar no momento em que ocorre a “tranca”, às 17:30 horas. Assim, o dia de 10 horas transcorre em um espaço compartilhado com outras mães e seus filhos, no qual conversam, riem, choram, cuidam das crianças e uma da outra... No processo de estar incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional, elas percebem que o dia é curto e passa muito rápido, mas estão com outras mães, fazem as refeições juntas, socializam-se. As atividades de limpeza e cuidado local são compartilhadas, fazem escalas. A mãe recém-parida é resguardada, auxiliada e cuidada, por 15 dias ou mais quando o parto é cesáreo ou houve alguma complicação. Somente após este tempo é que a mulher entra na rotina do setor, aos poucos incorporando a identidade materna e maternagem no sistema prisional.
Estar MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL significa ter a noite como inimiga por ser longa. São 14 horas que se iniciam com a “tranca”: cada díade se recolhe às celas individuais e aí permanece trancada até o dia seguinte. Nesse momento, por estarem MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL, as mães ficam em uma linha tênue entre a privacidade e a solidão. Este é um período no qual experimentam o silêncio, a intimidade com o bebê, com quem conversam, cantam, oram, planejam sonhos bons. Por outro lado, por maternar na prisão e estarem incorporando a identidade materna e maternagem no sistema prisional, lamentam a
solidão que sentem. É neste momento que “cai a ficha”: estão presas e, pior que isto, seus filhos também! Na longa noite, vivenciam vários sentimentos: o medo, a tristeza, o arrependimento, a insegurança, a saudade... Temem o momento da entrega do bebê e todos esses sentimentos afloram noite após noite, porque vão separar-se do filho na prisão. O sofrimento é tamanho, por estarem MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL, que pensam e repensam o delito cometido, a permanência do filho na prisão e o que isso poderá acarretar para suas vidas no futuro. Choram, lamentam sua privação de liberdade e colocam em dúvida se foi a melhor decisão maternar na prisão e manter o filho consigo no ambiente prisional, já que, por estarem MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL, vão separar-se do filho na prisão.
O fato de estarem MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL as coloca em contato com a realidade, com os seus feitos, suas escolhas. A saudade as machuca e elas choram até o momento em que o bebê acorda. Então, neste momento, elas despertam da dor e aleitam, trocam a fralda e colocam para arrotar. Quando os „anjos‟ voltam a dormir, a mãe, de olhos fechados ou olhando para a porta de ferro que lhe cerceia a vida, aos poucos vai incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional – que significa mesclar a alegria de maternar com o sofrimento de separar-se do filho na prisão e, desta forma, voltam a sentir, sofrer, chorar. Este processo cíclico só terminará quando for vencido pelo sono ou com o “abrir a tranca”...!
As mulheres que se encontram incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional relatam que as crianças e o seu choro dão „vida‟ ao setor. Contudo, também lamentam não poder trabalhar e não ter a possibilidade de, com esta atividade, diminuir o tempo de reclusão. Essas mães vivem a dúvida entre a opção (e oportunidade) de estarem MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL e a de trabalhar, serem libertas em menor tempo e, desta forma, poderem retornar ao convívio familiar.
A Política de Saúde da Criança e do Adolescente normatiza o acompanhamento e o desenvolvimento da criança realizados através da puericultura, assim como a vacinação e o aleitamento materno. Em uma das penitenciárias onde o estudo ocorreu, as crianças eram levadas pelos servidores locais para as consultas de puericultura e vacinação ou para a consulta médica em caso de doença. Nesse cenário, a mãe que se encontrava MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL não acompanhava a criança e, portanto, não recebia orientações nem tinha oportunidade de esclarecer suas dúvidas com o médico ou outro profissional de saúde – uma vez que materna
na prisão. Já, na outra unidade prisional, ocasionalmente o profissional médico visitava as crianças na penitenciária para puericultura e, neste caso, a própria mãe acompanhava o filho, ficando, então, mais segura quanto ao crescimento e ao desenvolvimento do bebê, enquanto permanecia MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL.
Assim, compreendemos que estar MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL envolve uma diversidade de enfrentamentos e de vivências que permitem à mulher ir incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional à medida que se fortalece pela presença do filho. Ao mesmo tempo em que desconstrói o ideal de identidade materna e maternagem, por se dar conta da privação de liberdade imposta a si e ao filho, por maternar na prisão, aos poucos se reconstrói dentro dos limites e possibilidades no sistema prisional, ao valorar o tempo permitido de vivência com o filho quando está MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL.
A categoria central MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL é uma experiência que ocorre em um contexto específico, que impõe à díade a prática da renúncia, dos limites, da superação, do enfrentamento e, ao mesmo tempo, do exercício do cuidado, da proteção, da afetividade, do papel de guardiã do filho por estar incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional. E, numa constante interação com o meio e com o próprio processo de estarem incorporando a identidade materna e a maternagem no sistema prisional, essas mães parecem significar e ressignificar a maternagem no cotidiano prisional, imbuídas de disposição interna para maternar na prisão, ser mãe, se reconstruir enquanto mulher e ser social, recuperar a autoestima e permanecer MATERNANDO NOS LIMITES DO TEMPO E DO SISTEMA PRISIONAL, experimentando interações significadas pelo cuidado e pelo afeto para com o filho e para com o outro.