CAPÍTULO 4 A LÓGICA DA PERCEPÇÃO E AS LINGUAGENS HÍBRIDAS
5.2 Linguagem Publicitária de Referencialidade do Produto
5.2.7 Contraste: o enfoque das qualidades do produto no anúncio RISQUÉ
Figura7 - Anúncio RISQUÉ
Fonte: RISQUÉ. Sou+Eu, São Paulo, n. 33, jul./nov. 2007. (Contracapa).
O efeito produzido pelo contraste de tom e cor, neste anúncio da RISQUÉ, pode ser visto sem muito esforço. O olhar do leitor é rapidamente atraído para o ponto de tonalidade de maior claridade dessa imagem fotográfica em que também se destaca o vermelho das unhas de uma mulher. Um esboço se molda nessa variação de tom, formando uma figura na parte mais clara em que mãos femininas parecem apará-la. O título do texto é formado por um vocábulo do idioma francês, L’amour, termo também conhecido em português. Essa palavra recebe um sublinhado em forma de arabescos cujas extremidades delineiam uma figura.
A mesma figura, que surge a partir do seguimento da linha do arabesco, também pode ser esboçada na parte mais clara da parte superior do anúncio. Essas formas têm a aparência de um coração e pressupõe-se estar estampadas nas costas de um homem. Mãos femininas ali se apóiam e dali emerge tatuado o título do anúncio. Dessa articulação desses elementos visuais, pode-se evidenciar o tema dessa mensagem. Tanto os signos lingüísticos - “L’amour” e “love” - como os icônicos – as formas de coração – conferem sentido ao anúncio. Tanto as palavras como a imagem aí comparecem complementando-se para expor o tema amor.
Outra evidência de contraste está na cor. Sobre os tons de cinza colocou-se uma cor. É a cor vermelha das unhas e dos vidros de esmalte. Note-se que, se fixado o olhar no colorido das unhas ou dos vidros de esmalte, o fundo cinza, sobre o qual se coloca esse matiz vermelho e quente, passa a ter a aparência de frio. Isto é, o realce estará no vermelho.
As mãos da modelo, nesse gesto de abraço, evoca, por via de contigüidade, em complementaridade ao texto verbal Isso vai pegar, a idéia de algo que tem o poder de agarrar, trazer para junto de si. A idéia de ter para si um homem com o cunho da paixão, apaixonado, reforçada pela marca cravada em suas costas L’amour. O vermelho, de um modo geral, é a cor representativa da paixão. Levando adiante a rede semiótica que esses elementos visuais estão aptos a tecer, pode-se dizer que, nesse contexto, os esmaltes RISQUÉ da nova coleção L’amour, em especial, vão realizar essa promessa: a de tornar um poderoso efeito para agarrar o amor, ou seja, o homem amado. Isso vai pegar é também um jargão que conota que algo será aceito, será aprovado, e, também, algo que se fixa. O pronome demonstrativo “isso” no texto é um signo indicial apontando para o produto, ou seja, o esmalte. Contudo, dessa direção parte um leque para outras interpretações: o “esmalte RISQUÉ” vai pegar..
Usar o esmalte conota poder de sedução, atração e, conseqüentemente, alcançar o alvo final: a apropriação. Nessa ordem de realização. A mulher usa o produto, que se fixa na unha, seduz e garante para si, o amor, ora encarnado em um homem.
O slogan “Mais cor para sua vida” manifesta a vida diferente depois de usar o esmalte. Há, na parte inferior esquerda, uma frase linear em sentido ascendente com a informação sobre a cor do esmalte usado pela modelo. Cabe enfatizar que foi dado destaque para o tipo gráfico da palavra “love”, especificação da cor. Com esse destaque, fica aí evidenciado o reforço dado ao tema trabalhado, vendo que, numa percepção imediata, essas qualidades se amalgamam dificultando a identificação do objeto do signo. A apreensão que se
dá está ligada às qualidades de sentimento reveladas nas formas, cor e tons. Qualidades estão expressas nos quali-signos cuja natureza só pode evocar outra qualidade.
Daí que neste anúncio, os elementos visuais exibem qualidades que podem ser encontradas nos objetos com os quais tais qualidades estão aptas a se identificar. A figura, seja ela traçada por uma linha ou moldada por tons que se sobrepõem, está apta a gerar associações. Por similaridade, pode-se dizer que, no anúncio, temos coração, costas, mãos, unhas, vidros de esmaltes enfileirados com a aparência dos cinco dedos da mão. Todos esses elementos visuais carregam as mesmas qualidades contidas nas coisas com as quais se assemelham. Já, nas associações por contigüidade, estabelece-se uma proximidade entre o quali-signo e o possível objeto do qual intenta professar.
Como se pode concluir, os signos presentes neste anúncio, como também nos outros anteriores, estão aptos a produzir tais efeitos interpretativos visto que cada qual carrega, em alguma medida, a identidade do objeto que o signo evoca, indica ou representa.
Uma forma, um esboço, uma cor, uma palavra, um conceito, são marcas do objeto que se mostram no signo, ora mais ora menos visíveis. Contudo, a interpretação tão somente se realizará se o intérprete impuser sentido sobre o potencial comunicativo que o signo pode gerar. Do contrário, o que é percebido manter-se-á nas camadas de subsentidos, amalgamado no plano subliminar. Este plano resulta daquelas apreensões em que os signos do produto se
revelam, no processo perceptivo, em sua sutil natureza quali-sígnica. Se assim o é nessas mensagens que visam impor ênfase no produto, no capítulo que se segue, poder-se-á verificar