2. Perspectivas Teóricas de Abordagem do Auto-Controlo
2.6. Contributos da abordagem do desenvolvimento moral para o auto controlo
comportamentos impulsivos que tanto podem estar relacionados com a dificuldade de esperar antes de emitir uma resposta, como com um deficite mediacional (Flavell, 1985) na utilização das estratégias mais adequadas ou mais eficazes para a elaboração da resposta. A impulsividade pode-se expressar em diversos domínios do comportamento das crianças, desde a área mais cognitiva de resolução de problemas, como a nível de situações mais sociais, interpessoais ou emocionais.
O treino cognitivo-comportamental tem como objectivo a promoção dos comportamentos de auto-controlo e inclui um conjunto de técnicas de intervenção de cariz comportamental (custo de resposta) e cognitivo (treino de auto-instrução e modelagem). A avaliação da eficácia das técnicas utilizadas implicou por parte dos autores o desenvolvimento de instrumentos de avaliação. Foi neste sentido que foi elaborada uma escala de avaliação do auto-controlo (nas suas duas componentes cognitiva e comportamental) a ser preenchida pelos professores - a Self-Control Rating Scale (SCRS) - que mais à frente será abordada em pormenor, visto que é um dos instrumentos utilizados na recolha de dados do trabalho empírico desta tese (Kendall & Wilcox, 1979; Kendall, Zupan & Braswell, 1981).
2.6. Contributos da abordagem do desenvolvimento moral para o auto- controlo
O enquadramento teórico do auto-controlo não ficaria completo sem uma referência às teorias do desenvolvimento moral. O conjunto de regras socio-convencionais e morais que vão sendo interiorizadas pelo indivíduo ao longo do seu processo de socialização constitui um quadro de referência para a orientação e avaliação das suas acções sociais e interpessoais. Ao tomar em consideração esta bagagem cognitiva, o indivíduo está a fazer uso de mediadores com o objectivo de exercer controlo sobre o seu próprio comportamento, no domínio social e moral.
incluir três componentes: (1) a afectiva ou emocional, salientada pela Psicanálise (identificação com os valores e padrões morais da sociedade em geral e dos pais em particular; culpa e vergonha pelo não cumprimento destes princípios morais), (2) a comportamental, enfatizada pela teoria da aprendizagem social, mais preocupada com os determinantes do que com as fases de desenvolvimento e (3) a cognitiva, que se enquadra no estudo dojuízo e raciocínio morais (justificações para avaliação de um comortamento como moralmente correcto), mais preocupado com as fases de desenvolvimento do que com os seus determinantes. As duas primeiras componentes já foram abordadas anteriormente; relativamente à terceira há a referir os trabalhos de L. Kohlberg, numa perspectiva cognitivo- estruturalista.
Enquadrando-se no vasto domínio da cognição social, Kohlberg desenvolveu os conceitos piagetianos de moral heterónoma e de moral autónoma, utilizando como metodologia de recolha de dados, os célebres dilemas morais, baseados eles também na metodologia de observação clínica piagetiana. A avaliação de um determinado acto como bom ou mau, bem como a sua consequente execução está, na perspectiva de Kohlberg, dependente de uma progressão sequenciada de estádios (três grandes estádios que incluem cada um dois sub-estádios).
Os três principais estádios diferenciam-se fundamentalmente quanto às fontes de autoridade moral consideradas pelo indivíduo. No primeiro estádio os comportamentos são avaliados como correctos ou incorrectos em função das suas consequências positivas ou negativas para os actores desses comportamentos, respectivamente - é o período pré- convencional, em que a norma constitui uma entidade exterior à criança. A motivação para se comportar de forma adequada às normas é externa e baseia-se nos reforços ou punições que possam surgir subsequentemente. No segundo estádio - da moral convencional - a criança assume as normas sociais como entidades que lhe são intrínsecas, comportando-se de acordo com elas de uma forma inflexível e colocando mesmo os interesses do grupo acima dos interesses individuais. A motivação para se comportar de forma adequada baseia-se na vontade de agradar aos outros e os reforço ou punições a receber são fundamentalmente de carácter social e não material. No terceiro estádio o indivíduo diferencia-se em relação à norma social, estabelecendo a diferença entre esta e a norma moral, entre o convencional e o universal - é a chamada moral pós-convencional (Kohlberg, 1976). A motivação para se comportar adequadamente é agora verdadeiramente interna baseada na necessidade de se sentir bem consigo próprio e minimamente dependente da necessidade de agradar aos outros, enquanto pessoas ou enquanto grupos. Saliente-se a importância da motivação para se
comportar de forma moralmente correcta ao longo dos três níveis da moral: no primeiro nível trata-se das pressões da autoridade que tanto pune como compensa, no segundo nível trata-se de pressões de cariz convencional que foram interiorizadas e no terceiro nível as pressões também são interiorizadas mas são de cariz moral.
A perspectiva de Kohlberg, segundo a qual a diferenciação entre as normas socio- convencionais e as normas morais nunca se realiza antes do fim da adolescência, tem vindo a ser criticada por autores como Nucci e Turiel (1978), Laupa e Turiel (1986) e Smetana (1981, 1985). Estes autores argumentam que esta diferenciação existe já em crianças de idade pré- escolar, na medida em que as crianças, não só classificam estas normas em categorias distintas, como também reagem a elas de formas diversas.
Apesar do estruturalismo desenvolvimental desta abordagem, o papel dos adultos como principal veículo de transmissão de regras, valores e padrões de conduta é mantido, não existindo porém investigação sobre os determinantes parentais das diferenças observadas no nível de raciocínio moral dos indivíduos nesta perspectiva.
2.7. Conclusões
Após a revisão dos contributos das diversas abordagens teóricas para a conceptualização do auto-controlo, será importante reter alguns aspectos. O primeiro aspecto diz respeito ao facto de quase todas as teorias fazerem apelo a mecanismos externos à criança, presentes no seu meio envolvente e que contribuirão, de diversas formas, para a génese, manutenção ou modificação do auto-controlo. As teorias da aprendizagem salientam as contingências, bem como os mecanismos de modelagem, a perspectiva psicanalítica salienta a relação entre pais e filhos e os mecanismos de identificação, a perspectiva socio-genética salienta o papel do discurso externo que progressivamente é interiorizado pela criança e a perspectiva cognitivo-estrutural salienta a autoridade e as convenções sociais da comunidade. Apesar de apenas a perspectiva socio-genética explicitar e teorizar com base na passagem do externo ao interno - a interiorização - como estando presente na génese e manutenção do auto- controlo, este pressuposto é compatível com as outras abordagens teóricas. Se pensarmos que o ambiente envolvente à criança aquando desta génese é fundamentalmente o ambiente familiar, fica-se desde já alertado para o papel que os pais possam desempenhar neste
processo.
Um segundo aspecto a considerar tem a ver com o momento da vida das crianças em que o auto-controlo emerge. As diversas perspectivas abordadas situam a génese nos primeiros cinco anos de vida, antes da entrada na escolaridade obrigatória, que corresponde também ao período em que a ligação ao ambiente familiar é mais forte (com excepção da perspectiva de Kohlberg, mas não tanto da de Piaget). Tal como anteriormente o papel da família na génese e desenvolvimento do auto-controlo sai reforçado. Obviamente não se pretende aqui afirmar que todo o processo de desenvolvimento se restringe a esta faixa etária, mas sim que a integração social da criança de cinco anos que se prepara para entrar em contextos formais de realização, implica que as competências de auto-controlo estejam bem consolidadas.
Um terceiro aspecto é salientado pela perpectiva cognitivo-comportamental e diz respeito ao facto de o auto-controlo incluir mais do que uma componente. A componente cognitiva engloba as representações e as estratégias, enquanto que a componente comportamental contempla a passagem ao acto. O que esta perspectiva não considera é como as representações e as estratégias são transpostas em comportamentos, ou seja a questão motivacional. Este aspecto parece ser reconhecido pelos autores da aprendizagem social quando afirmam que na ausência de constrangimentos externos, os comportamentos de auto- controlo são os que apresentam menor probabilidade de aparecimento por contraposição com comportamentos alternativos. A motivação parece ser o aspecto menos abordado; excepções sãoa a perspectiva cognitivo-desenvolvimental, que reconhece que a motivação se pode basear em aspectos intrínsecos ou extrínsecos ao indivíduo, e a perspectiva psicanalítica que enfatiza a relação de afecto no processo de identificação às figuras parentais. Só quando a motivação é intrínseca, não havendo necessidade de contingências externas ou de supervisão é que se pode falar em auto-controlo.
Concluindo, arriscamos uma definição de auto-controlo com base nos contributos das diversas perspectivas teóricas. Assim, o auto-controlo dirá respeito a um conjunto de competências aprendidas normativamente ao longo do processo de socialização e que incluem três componentes:
. componente cognitiva, relativa às estratégias de atenção e de resolução de problemas e às representações mentais das normas e dos valores,
. componente comportamental, que diz respeito aos comportamentos observáveis e
englobáveis em diferentes domínios comportamentais, os quais serão objecto de análise na próxima secção,
. componente afectivo-motivacional, relativa ao locus motivacional externo - pressões do meio exterior - ou interno - necessidade intrínseca do indivíduo para se comportar de determinada forma.
Dois aspectos importantes ainda a salientar serão: (1) a génese do auto-controlo implica a passagem do exterior para o interior em termos cognitivos e em termos de motivação, ou seja, não basta haver interiorização das normas sociais, é necessário também que a motivação para se comportar de acordo com elas seja também interiorizada; neste sentido, o auto-controlo será uma das competências mais importantes do processo de socialização; (2) não é obrigatório que o nível de auto-controlo mais elevado seja o nível mais adaptativo em termos de funcionamento pessoal; a perspectiva do auto-controlo como traço de personalidade aborda esta questão de forma pertinente, salientando os inconvenientes do sub- controlo e do sobre-controlo.