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As competências de auto-controlo sofrem uma evolução considerável durante os primeiros anos de vida da criança, à qual não serão alheios factores de carácter intra e interpsicológico, que mais à frente serão abordados. Até agora o único modelo desenvolvimental do auto-controlo divulgado na literatura é o de Kopp (1982). Com este modelo a autora pretende explicar a emergência e desenvolvimento do auto-controlo/auto- regulação, bem como a ligação com outras áreas do desenvolvimento, nomeadamente o desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento cognitivo. Kopp descreve cinco etapas, que pressupõem transições graduais, sem limites rígidos e que se apresentam de seguida.

A primeira etapa, correspondente aos primeiros dois/três meses de vida do bebé, é denominada de modulação neurofisiológica. Trata-se de um período em que o bebé apresenta sinais de regulação dos seus estados de excitação e início de organização da sua actividade motora. A passagem de um estádio de consciência a outro, pode ser feita de uma forma mais ou menos organizada em função do stress ambiental (Pedro, 1982). Os bebés possuem mecanismos inatos que lhes permitem defender-se de uma estimulação excessiva. Por exemplo, conseguem reduzir o excesso dos seus movimentos corporais, chupando o dedo ou a chupeta. Através do mecanismo de habituação, conseguem deixar de reagir a um estímulo que lhes é aversivo. Nesta fase a ênfase é colocado nos mecanismos maturativos, apesar de

os adultos já começarem a introduzir rotinas no dia a dia do bebé (por exemplo, horários de mamada, banho, sono, etc).

A segunda etapa é denominada de modulação sensório-motora, acontece aproximadamente entre os três e os 9/12 meses, quando a criança se torna capaz de controlar actos motores voluntários (em desfavor dos reflexos) e de os mudar como resposta aos acontecimentos do meio exterior. O amadurecimento das estruturas corticais em desfavor das sub-corticais é um dos factores responsáveis por esta evolução. O bebé ainda não possui a consciência de, a intencionalidade, a percepção do significado da situação e por isso Kopp utiliza o termo modulação em vez do termo controlo. A acção da criança está estritamente ligada ao momento presente e centrada em si própria. A responsividade do adulto é um factor determinante na aprendizagem que a criança faz da diferenciação das suas próprias acções em relação às acções dos outros.

A terceira etapa é caracterizada pela capacidade emergente na criança para perceber a existência de exigências por parte dos adultos e para se comportar de acordo com elas. Esta etapa é denominada de controlo e corresponderá ao período entre os 9/12 meses e os 18 meses, altura em que outros importantes marcos desenvolvimentais são adquiridos, nomeadamente, a marcha autónoma e a tomada de consciência do próprio corpo. O controlo voluntário do comportamento em resposta às directrizes maternas foi observado por Stayton, Hogan e Ainsworth (1971) em crianças de nove a 12 meses de idade e por Power e Chapieski (1986) em crianças de 12 a 15 meses. As manifestações comportamentais que se assemelham aos comportamentos de auto-regulação são os comportamentos de obediência a ordens e auto-

orientação do comportamento iniciada pela própria criança. Nesta altura a criança já é capaz de

dirigir o seu comportamento para objectivos de uma forma intencional, avaliar os diferentes aspectos do meio e ter uma consciência elementar do que é ou não aceitável pelo adulto. Esta consciência e categorização elementares estarão dependentes da presença de sinais-chave no aqui e agora porque a capacidade para recordar acontecimentos é ainda muito incipiente na criança. A limitação principal desta terceira etapa é a incapacidade da criança em manter o comportamento que lhe é exigido na ausência da figura de autoridade. A capacidade para reflectir também ainda não existe, por isso a apreciação das razões, pelas quais um comportamento é ou não adequado, é limitada. É nesta fase que o adulto começa a assumir um papel mais importante no desenvolvimento dos percursores do auto-controlo, na medida em que começa a exigir e a impor normas de conduta à criança, que se estendem para além do momento imediato.

Kopp (1987) estudou os primórdios do comportamento de obediência, situando-os nesta terceira etapa. Nesta formulação a obediência a padrões sociais (protagonizados em geral pelos pais) pode assumir as seguintes formas hierarquizadas por ordem desenvolvimental: (1) inibição da actividade em decurso, a pedido do adulto; (2) obediência a ordens simples; (3) obediência auto-iniciada; (4) modulação da intensidade da actividade em decurso. Descrevem-se de seguida sucintamente estas quatro formas.

As primeiras formas de inibição da actividade (1) observam-se na criança por volta dos 8/9 meses, juntamente com o advento da acção intencional. Em geral são reacções de medo ou surpresa ao afecto negativo do adulto, mais do que uma reacção a uma mensagem. Só mais tarde a inibição de um comportamento se deverá ao facto de a criança perceber o que esperam dela. De facto, só por volta dos 12 meses a compreensão semântica de palavras específicas é suficiente para que a criança consiga entender as proibições.

A produção de uma resposta activa a uma ordem simples do adulto (2), desde que esta seja contextualizada, começa por volta dos 12 meses. A criança começa depois a generalizar a resposta dada numa situação específica a outras situações similares. O "dá-me" é compreendido e obedecido pela maior parte das crianças de 15 meses.

A criança, por sua própria iniciativa, inicia ou inibe uma resposta que é esperada pela mãe, esteja esta ou não presente (3). Este tipo de obediência emerge por volta dos 13 a 15 meses de idade (Kopp, 1982; Stayton et ai., 1971) e é cognitivamente mais avançado do que os outros dois. Significa compreensão das expectativas do adulto e alguma noção das consequências. A obediência auto-iniciada envolve o reconhecimento de que um objecto tem uma associação com uma proibição, com uma instrução relativa a essa proibição e com uma acção consonante com a instrução. Esta obediência já implica a dualidade entre a acção desejada e a negação desse desejo.

Por volta dos dois anos a criança começa a mudar a intensidade do seu comportamento em resposta a um pedido da mãe (4). Este comportamento implica que haja uma interpretação deste pedido, uma estimativa da modulação requerida pela mãe e a coordenação da sua acção com esta estimativa.

Esta conceptualização da obediência surge-nos como multidimensional e desenvolvimental. A evolução posterior dos comportamentos de obediência dependerá de vários aspectos, entre os quais a ênfase que a família coloca nas exigências de obediência e o desenvolvimento de estratégias pela criança com o objectivo de tornar a obediência mais

compatível com a satisfação dos seus desejos e necessidades (Kopp, 1987).

A quarta etapa - auto-controlo - supõe já um afastamento em relação ao aqui e agora, possível graças à emergência do pensamento representativo, ao desenvolvimento da linguagem e da memória evocativa e ao aumento da autonomia em relação ao adulto. Assim, após os 18 meses de idade, a criança torna-se capaz de se comportar em função das expectativas da sociedade e de modular o seu comportamento tendo em vista a adaptação às exigências do ambiente físico e social, mesmo na ausência de orientações externas imediatas. Para além dos comportamentos de obediência, a criança é capaz de modificar o seu comportamento em função de uma informação que é recordada. A diferenciação entre o seu próprio comportamento e os desejos e expectativas dos outros (bem como a capacidade para fazer com que eles coincidam ou não), não só permite, mas também estimula o desenvolvimento de uma identidade pessoal. Apesar destas capacidades serem observáveis, elas apresentam ainda algumas limitações que se traduzem num tempo de espera relativamente curto (situações de adiamento da gratificação e de tolerância à frustração), numa passagem ao acto regulada preferencialmente pelo prazer e não tanto pela obrigação da regra e no ignorar frequente dos pedidos de obediência por parte do adulto.

A quinta etapa definida por Kopp é a da auto-regulação que difere do auto-controlo pela maior flexibilidade na adaptação dos actos da criança a novas exigências situacionais e pela sua maior capacidade para adiar ou esperar pelas gratificações. A auto-regulação será uma forma mais madura de controlo e implica o uso da reflexão (para perceber a razão de ser das exigências que lhe são colocadas) e o uso de estratégias que envolvem a introspecção e a tomada de consciência ou meta-cognição face às suas próprias competências e estratégias. A criança torna-se capaz de planificar e aplicar estratégias que ela própria cria para resolver as situações de acordo com os requesitos específicos impostos por cada contexto em particular. Estes comportamentos demonstrativos da auto-regulação surgirão durante o período pré- escolar, mas a sua consolidação e refinamento far-se-á ao longo de bastante tempo mais.