CONTROLO PARENTAL DO COMPORTAMENTO DA CRIANÇA IMPLICAÇÕES NO AUTO-CONTROLO
4. Comportamentos Disciplinares Parentais
4.5. Modelos explicativos
4.5.2. Modelo da suficiência mínima
Lepper e colaboradores planearam dois tipos de situações experimentais para investigar o processo de interiorização (Lepper, Greene & Nisbett, 1973; Lepper, Sagotsky, Dafoe & Greene, 1982). A primeira, já descrita atrás, tem a ver com os efeitos da intensidade da ameaça de punição na situação de resistência à tentação (brinquedo proibido) e a segunda tem a ver com a utilização de reforços na realização de actividades, para as quais a criança já está motivada à partida. Os resultados da primeira situação experimental mostram que quanto menor for a saliência das pressões exteriores, maior será a probabilidade de a criança se comportar de acordo com esses requesitos, mesmo passado algum tempo. Os resultados da segunda situação experimental mostram que, quando a criança está à partida predisposta para se envolver numa tarefa, a promessa de um prémio por essa realização terá um efeito destruidor do interesse intrínsico demonstrado pela criança. Mesmo passadas algumas semanas, este efeito continua a fazer-se sentir. Lepper conclui que o uso de incentivos externos desnecessários destrói o interesse intrínseco pela actividade em si.
Para explicar estes resultados, Lepper (1985) propõe o princípio da suficiência
mínima: as técnicas de controlo social bem sucedidas na promoção dos comportamentos de
obediência, são aquelas que subtilmente aplicam apenas a pressão suficiente (punição ou reforço) para a criança adoptar um comportamento novo, de maneira a que essa pressão não seja recordada pela criança como estando na origem da sua mudança de comportamento. Existe uma relação inversa entre a saliência das pressões externas e a mudança comportamental pretendida pelo agente de socialização. Os incentivos externos fornecidos pelo adulto devem ser minimamente suficientes para promover a interiorizaçãodesses padrões de conduta. A pressão exercida deve ser de intensidade média; toda a pressão que tiver uma intensidade superior aquela que seria necessário é supérflua e mesmo contraproducente, na medida em que vai estimular na criança a produção de atribuições externas para o seu comportamento adequado. A criança atribuirá, por exemplo, o seu comportamento de obediência à pressão exercida pelo adulto nesse sentido e não à sua vontade ou predisposição para obedecer. Quando a pressão externa é saliente para a criança torna-se-lhe difícil não a tomar em consideração na produção de atribuições para o seu próprio comportamento. Quando este comportamento é adequado, a saliência excessiva da pressão externa é assim prejudicial para o processo de internalização.
O princípio da suficiência mínima, enunciado por Lepper, encontra apoio em Dix e Grusec (1983), quando referem que as crianças quando são coagidas pelos adultos a encontrar uma justificação para o seu comportamento no ambiente externo, repudiam possíveis causas internas. Por outro lado, quando são empregues meios mais subtis, as crianças não vão conseguir encontrar uma justificação suficiente para o seu comportamento nos acontecimentos externos (por exemplo, uma ameaça de punição ou uma promessa de recompensa fortes), atribuindo-o antes a traços ou valores internos. Quando há interiorização de normas e padrões, a criança produz atribuições internas para o seu comportamento, esquecendo a pressão externa que o originou.
Lepper pretende transpor o seu modelo para o domínio da investigação naturalista sobre práticas de socialização, nomeadamente para as conclusões de Baumrind e de Hoffman. Assim, os pais autoritários descritos por Baumrind fazem uso de técnicas de controlo demasiado salientes e psicologicamente desnecessárias, estimulando a obediência imediata mais do que uma mudança de atitude permanente nos seus filhos. Pelo contrário, os pais permissivos utilizam técnicas de controlo insuficientes, quer para o momento imediato, quer a médio prazo. Os pais autorizados utilizarão técnicas minimamente suficientes, estabelecendo as condições óptimas para a interiorizaçãode padrões de comportamento adequados (Lepper,
1985).
As técnicas de afirmação do poder, descritas por Hoffman, são perspectivadas por Lepper como sendo técnicas demasiado salientes, que confrontam a criança com uma pressão supérflua. Ambos os autores consideram que a razão para a criança se comportar de acordo com as pressões externas consiste no evitamento de sanções arbitrárias. As técnicas indutivas são mais subtis e menos susceptíveis de provocar na criança a percepção de um constrangimento externo; os pais utilizam estas técnicas porque atribuem o comportamento desadequado da criança ao desconhecimento que esta tem das consequências que podem advir das suas acções ou da razão de ser das regras que lhe são impostas. Em relação às técnicas de retirada do afecto, os estudos apontam efeitos variáveis na interiorização(como se viu atrás), não sendo claro nesta perspectiva quais são os processos a que estas técnicas fazem apelo na criança (Lepper, 1985).
A teoria da atribuição salienta o facto de a eficácia das diferentes técnicas de socialização depender em parte da forma como afectam a elaboração das percepções da criança sobre o porquê das suas acções. Se a criança atribuir o seu comportamento a uma pressão
externa, essa pressão será concerteza menos eficaz no atingir dos seus objectivos a médio prazo, pelo menos. Pelo contrário, se a criança atribuir o seu comportamento à sua vontade própria, quando de facto houve uma pressão externa, isto quer dizer que já houve interiorizaçãode padrões de conduta e a pressão exercida não foi percebida pela criança como ameaçadora da sua auto-estima e do sentimento de autonomia do self. Evidentemente este processo de formação de atribuições tanto se aplica a comportamentos socialmente adequados como inadequados.
Existem alguns estudos que sugerem que uma intervenção mais directa nas atribuições que a criança faz acerca do seu próprio comportamento aumentará a probabilidade de a criança se comportar de acordo com a atribuição que se lhe pretendeu induzir, mesmo na ausência do controlo do adulto. Lepper (1985) refere o estudo de Dienstbier, Hillman, Lehnhoff, Hillman e Valkenaar (1975), o qual pretende mostrar que a denominação da reacção emocional da criança a seguir a uma transgressão (experimentalmente determinada) na realização de uma tarefa, está relacionada com diferenças significativas no comportamento da criança numa situação posterior, comparável, na qual a possibilidade de detecção de uma transgressão fosse eliminada. Se o adulto denominasse a reacção emocional da criança como desagrado por ter sido apanhada em falta, haveria menor interiorização(maior frequência de comportamentos de transgressão) do que se aquela fosse denominada de desagrado por não conseguir realizar a tarefa. Grusec, Kuczynski, Rushton e Simutis (1979), da mesma maneira, demostraram que o grupo de crianças que recebia auto-atribuições para o seu comportamento altruísta apresentava uma maior interiorizaçãoe generalização deste comportamento a contextos diferentes, do que os grupos a quem não foi dada qualquer atribuição ou a quem foi dada uma atribuição externa para o seu comportamento.
Lepper (1985) conclui que a eficácia das diferentes técnicas de socialização para produzir interiorizaçãodepende em parte da maneira como afectam as percepções das crianças relativas às razões para se terem envolvido em determinadas acções ou actividades no passado. Este autor é de opinião que o comportamento da criança deve ser controlado de forma subtil sem que esta se aperceba que está a ser controlada por factores que lhe são externos. Kelley (1967), referido por Lepper (1985), aponta algumas estratégias típicas utilizadas pelos psicólogos sociais para conseguirem este efeito, nomeadamente, nomear o comportamento do sujeito como consequência de uma escolha livre, utilizar pressões sociais difusas em vez de reforços e punições mais salientes, etc. Outra estratégia é o dar à criança a impressão de que está a fazer uma opção entre duas ou mais alternativas, quando de facto todas elas são tidas como adequadas, dando-se no fundo a liberdade à criança de escolha entre
dois ou mais comportamentos adequados e eliminando-se a possibilidade de um comportamento inadequado. Por outro lado, estimula-se na criança o sentimento interno de que está a controlar o seu próprio comportamento sem ir contra os requesitos dos pais. Existe alguma evidência empírica de que uma abordagem sugestiva é mais eficaz do que uma abordagem directiva na produção da persistência comportamental e do locus de controlo interno (Maccoby, 1980). Da mesma maneira, modelar a resposta desejada em vez de ordenar à criança que a execute, terá efeitos mais positivos nos índices de interiorizaçãosubsequentes. A técnica de se oferecer para compartilhar com a criança uma tarefa minimiza a percepção que a criança tem do constrangimento externo. Apresentar uma tarefa obrigatória como atractiva permite à criança minimizar a percepção de que tem de se comportar apenas em função dos constrangimentos externos.
E provável que a eficácia destes procedimentos diminua com o seu uso repetido ou com a evolução desenvolvimental da criança. Lepper sugere que estes aspectos devem ser estudados em contextos naturalistas. Uma criança que se comporte de determinada forma apenas porque é obrigada a isso, sentirá o seu ego e a sua auto-estima ameaçados e tenderá a criar resistências em relação a essa pressão externa. Quais as estratégias que os pais usam para levar a criança a comportar-se de acordo com os seus requesitos, sem produzir a percepção de constrangimento na criança? Neste sentido, o estudo das famílias harmoniosas de Baumrind, caracterizadas por um baixo nível de controlo por parte dos pais e um alto nível de obediência por parte da criança, poderá dar o seu contributo.
Os padrões de interacção pais-filhos têm uma influência persistente nas técnicas de controlo social suficiente para obter obediência por parte da criança. O nível hipotético de pressão externa que será minimamente suficiente para induzir a obediência variará ao longo das famílias e ao longo das situações, em função das variáveis individuais e situacionais. Exemplos de variáveis são a tendência da criança para obedecer às exigências dos adultos, qual o humor da criança na altura da exigência, o nível de atracção ou aversão inerente ao comportamento exigido, as alternativas existentes ao comportamento de obediência, a relação emocional de vinculação entre a criança e os seus pais, etc (Lepper, 1985).