No presente subitem será apresentado o controle concentrado de constitucionalidade das leis e atos normativos municipais, bem como o seu desenvolvimento e aplicação nas Constituições brasileiras desde o período imperial até a República de 1988.
Na Constituição Política do Império do Brazil de 1824 o município não era considerado uma entidade política, mas uma corporação meramente administrativa85. O
município era desvalorizado em face aos outros entes, sendo que essa situação se refletia em sua legislação, a qual, sem a devida importância, provocava uma omissão em relação a criação e fiscalização de suas normas. Verificava-se a inexistência de norma específica para o controle de constitucionalidade das leis municipais em face das normas estaduais e federais86. Nesse
sentido, apenas na Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891 é que o município conquista certa autonomia política e legislativa, conforme estabelecido no art. 68, no qual o Estado assegurava a autonomia aos Municípios em relação ao que fosse de seu peculiar interesse87.
Na Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934 houve a ampliação de interposição do Recurso Extraordinário para contestar a lei ou ato normativo praticado pelo governo local em face a Constituição88, da qual a decisão do tribunal local tenha considerada
válida a lei ou o ato normativo contestado, conforme art. 76, III, c, que possibilitou o reexame da questão local pelo Supremo Tribunal Federal em relação a sua validade.
Nas Constituições posteriores (1937, 1946, 1967) a previsão acima descrita continuou positivada no texto constitucional. Nesse contexto, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, afirma que o Recurso Extraordinário poderá ser interposto quando a decisão julgar valido a lei ou o ato normativo do governo local controverso em face da Constituição (art. 102, III, c).
85 NOGUEIRA, Octaciano. Constituições Brasileiras: 1824. Disponível em:
<https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/137569/Constituicoes_Brasileiras_v1_1824.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2018.
86 CASTRO, Gina Gouveia Pires de. Controle de constitucionalidade de lei & ato normativo municipal: uma análise sobre seu funcionamento na Federação Brasileira. Curitiba: Juruá, 2016. p. 115.
87 BALEEIRO, Aliomar. Constituições Brasileiras: 1891. Disponível em:
<http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/137570/Constituicoes_Brasileiras_v2_1891.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2018. p. 33.
88 DELLA GIUSTINA, Vasco. Controle de constitucionalidade das leis: ação direta de inconstitucionalidade: Tribunal de Justiça e município: doutrina e jurisprudência. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. p. 76.
Por consequência, quando a lei ou o ato normativo não estiver em consonância com a Constituição, e a defesa por via de exceção for contestada, as decisões dos demais Tribunais poderão ser reexaminadas pelo Supremo Tribunal Federal89. Se a violação da lei ou ato
normativo municipal ocorrer em face da Constituição Estadual, as decisões pronunciadas pelos órgãos judiciais inferiores serão apenas revisadas pelo Tribunal de Justiça do Estado90.
A Constituição Federal, no que diz respeito aos Tribunais Estaduais, trouxe a previsão e autorização para que o constituinte estadual criasse a representação de inconstitucionalidade de leis ou atos normativos estaduais ou municipais em face da Constituição Estadual (art. 125, § 2º), o que não estava presente no sistema anterior91. Ainda no
texto constitucional de 1988, foi positivada a ação de descumprimento de preceito fundamental, em face da Constituição Federal e Estadual por lei ou ato normativo municipal que esteja violando expressamente as leis supra ordenadas, de acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal92.
Nesse capítulo apresentou-se um breve escorço histórico do controle de constitucionalidade, que possibilita a retirada de normas inconstitucionais do ordenamento jurídico no âmbito municipal, estadual ou federal, desde a Constituição Imperial até a Constituição de 1988. A seguir passa-se a verificar o procedimento no controle de constitucionalidade das leis e atos normativos na esfera municipal.
89 CASTRO, Gina Gouveia Pires de. Controle de constitucionalidade de lei & ato normativo municipal: uma análise sobre seu funcionamento na Federação Brasileira. Curitiba: Juruá, 2016. p. 116.
90 ROCHA, Fernando Luiz Ximenes. Controle de Constitucionalidade das Leis Municipais. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2003. p. 101.
91 ROCHA, Fernando Luiz Ximenes. O CONTROLE DA CONSTITUCIONALIDADE DE LEIS E ATOS
NORMATIVOS MUNICIPAIS EM FACE DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. Disponível em:
<http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rda/article/viewFile/46693/46653>. Acesso em: 15 abr. 2018. 92 CASTRO, Gina Gouveia Pires de. Controle de constitucionalidade de lei & ato normativo municipal: uma análise sobre seu funcionamento na Federação Brasileira. Curitiba: Juruá, 2016. p. 117.
3 PROCEDIMENTO NO CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE DAS LEIS MUNICIPAIS
O sistema de controle concentrado de constitucionalidade de lei ou ato normativo municipal é um assunto que precisa ser analisado no âmbito estadual, pois seus efeitos impactam no ordenamento jurídico, que por sua vez refletem nas relações jurídicas dos indivíduos tutelados por tais normas. Nesse sentido, o presente capítulo descreve o procedimento do controle concentrado de constitucionalidade das leis e atos normativos municipais no âmbito do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
A Constituição Federal garante autonomia aos Estados em seus artigos 18, 25 e 28, evidenciando a capacidade para se organizarem, legislarem, administrarem e governarem. Essa estrutura governamental é semelhante à da União, no qual há uma divisão dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário93. Em relação ao Poder Judiciário, por força normativa
constitucional (art. 125), os Estados organizarão sua Justiça conforme os princípios constitucionais, sendo que a competência dos tribunais será definida pela Constituição Estadual. Além disso, cabe aos Estados a criação de representação de inconstitucionalidade de leis e atos normativos municipais e estaduais em face da Constituição Estadual94.
A Constituição do Estado de Santa Catarina95, promulgada em 5 de outubro de
1989, dotada de rigidez e supremacia, dedica o capítulo IV ao Poder Judiciário, sendo o Tribunal de Justiça um dos órgãos deste poder (art. 77, I). O Tribunal de Justiça é o órgão de cúpula da organização judiciária, possuindo algumas competências privativas asseguradas, dentre as quais destaca-se o controle de constitucionalidade de lei ou ato estadual e municipal em face do texto constitucional estadual. Nesse contexto, o art. 83 da Constituição do Estado de Santa Catarina prevê que compete privativamente ao Tribunal de Justiça processar e julgar, originariamente, as ações diretas de inconstitucionalidade de atos normativos e leis municipais e estaduais contestadas em face desta Constituição96.
93 DELLA GIUSTINA, Vasco. Controle de constitucionalidade das leis: ação direta de inconstitucionalidade: Tribunal de Justiça e município: doutrina e jurisprudência. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. p. 81.
94 BRASIL. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 01 abr. 2018. 95 SANTA CATARINA. Constituição do Estado de Santa Catarina. Disponível em:
<http://www.alesc.sc.gov.br/portal_alesc/sites/default/files/CESC_2018_-_72_a_75_emds.pdf>. Acesso em: 28 abr. 2018.
96 SANTA CATARINA. Constituição do Estado de Santa Catarina. Disponível em:
<http://www.alesc.sc.gov.br/portal_alesc/sites/default/files/CESC_2018_-_72_a_75_emds.pdf>. Acesso em: 28 abr. 2018.
Nesse sentido, a Sessão III da Constituição do Estado de Santa Catarina dispõe sobre a Declaração de Inconstitucionalidade e da Ação Direta de Inconstitucionalidade, e o Regimento Interno do Tribunal de Justiça de Santa Catarina prevê a inconstitucionalidade de lei ou de ato normativo do poder público no Título II, artigos 159 a 161.
O procedimento de controle constitucionalidade no âmbito estadual de leis e atos normativos está alicerçado na Constituição Federal, Constituição Estadual e no Regimento Interno do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. Este instrumento destina-se à verificação da consonância das normas perante o ordenamento jurídico brasileiro. Após essa breve introdução do assunto, em seguida será abordado o controle concentrado de constitucionalidade no âmbito estadual, ou seja, a constitucionalidade de ato normativo ou lei municipal e estadual em face a Constituição do Estado.