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Cooperação Multifacetada com Benefício Recíproco

CAPÍTULO II – RELAÇÕES POLÍTICO-MILITAR UNITA-SWAPO (1961-1976)

4. Relações UNITA – SWAPO: Cooperação Pré-independência

4.4. Cooperação Multifacetada com Benefício Recíproco

Além dos treinos de que a UNITA beneficiava, em nome da SWAPO, na China e em alguns países africanos como a Tanzânia e a Tunísia, também alguns guerrilheiros da UNITA beneficiaram de outras oportunidades como se fossem membros da SWAPO. Até o material logístico da UNITA vinha em nome da SWAPO612. A SWAPO, como não tinha condições territoriais para fazer a guerra contra as forças sul-africanas no Sudoeste Africano, beneficiou de uma retaguarda que lhe pôde servir de ponto de partida para atacar o exército sul-africano. As bases da UNITA tinham-se transformado num uma retaguarda e escudo da SWAPO 613.

Também havia troca de experiência entre a SWAPO e a UNITA, no domínio das línguas – o português e o inglês. Cada movimento tinha no seu companheiro seus interesses estratégicos, porque no princípio, não havia uma intervenção e interferência “visível” dos dois blocos antagónicos e da África do Sul. O interesse maior, naquela altura, segundo José Mwailepeni Monulo (2016), era o de “libertar os povos negros do colonialismo branco. Este era o objetivo de todo o africano”614. A SWAPO desde sempre prestou apoio diplomático à UNITA, visto que, nos primeiros tempos, os representantes diplomáticos da UNITA, no exterior, ainda não tinham experiência para argumentar, de modo convincente, sobre a luta angolana, nos círculos por onde se moviam 615.

A conjuntura política e geostratégica, daquela época, impunha essa cooperação entre a UNITA e a SWAPO que teria desencadeado um cruzamento de interesses. A UNITA e a SWAPO estavam unidas em torno de um projeto nacionalista que visava a independência dos seus “países”616. A UNITA beneficiava dos suportes logístico e

611 José Chiwale (2018), em “Hora das Perguntas” (pograma da Rádio Despertar – Angola), (online), na ocasião

das comemorações 52º aniversário da fundação da UNITA, 14 de março de 2018.

612 Entrevista a Evaristo Ndemupateke David, em Ondjiva, 08- 09-2016. 613 Entrevista a José Lázaro Kakunha, em Ondjiva, 11 de agosto de 2016. 614 Entrevista a José Mwailepeni Monulo, em Ondjiva, 11-08-2016.

615 Chiwale, Samuel (2008), Cruzei-me com a História, Lisboa, Sextante Editora, pp. 114-115. 616 Entrevista a José Lázaro Kakunha, em Ondjiva, 11 de agosto de 2016.

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diplomático da SWAPO. E, tal como referido anteriormente, esta relação era crucial para a SWAPO para que operasse livremente no território operacional da UNITA e, essencialmente, para que a SWAPO pudesse ter passagem para o Sudoeste Africano através da sua fronteira com Angola. Portanto, a relação entre a SWAPO e a UNITA foi certamente simbiótica e de apoio mútuo617.

A linha ideológica dos movimentos de libertação, neste caso, não foi o pressuposto principal. Os que se alistavam encaravam os movimentos como um instrumento para a libertação dos povos africanos. Mesmo em Angola, muitos aderiram à UNITA, ao MPLA ou à FNLA não pela ideologia, aderiram a estes movimentos pelo facto de estes afirmarem a intenção de libertar os seus territórios da dominação colonial. Os que ingressavam com base na opção ideológica, geralmente, eram os homens com um certo grau de instrução escolar618. Apesar de existirem vários fatores, podemos afirmar que os interesses geoestratégicos e os logísticos (economia-militar) foram os principais elementos que determinaram, nos primeiros tempos, a aproximação entre a UNITA e a SWAPO. Diante destes, outros elementos, acima referidos, incluindo o presidente Jomo Kenyatta, passaram também a facilitar essa aproximação619, ainda antes deste período, precisamente antes do Quartel-general da SWAPO ser transferido da Zâmbia para Angola.

Segundo Andreas Shipanga e Sue Armstrong (1989) embora certos guerrilheiros fossem mais simpatizantes dos rivais da UNITA em Angola – o MPLA –, a SWAPO tinha estado, durante anos, muito próxima da UNITA. Muitos dos homens da SWAPO tinham relações de sangue. A SWAPO e a UNITA tinham lutado juntas contra os Portugueses e os Sul-africanos em Angola, quando Savimbi e os seus homens foram e voltaram do treino de guerrilha, em 1965 e 1966, a SWAPO tomou conta deles em Dar-es-Salaam e protegeu- os do MPLA, que tinha campos ali montados e que teria morto Savimbi se tivesse conseguido pôr-lhe as mãos em cima. A SWAPO fez passar Savimbi através da Tanzânia e da Zâmbia para Angola. O próprio Savimbi disse que a primeira arma que teve foi uma Takarev dado por Nujoma620.

Segundo Tony da Costa Fernandes (1977), a UNITA durante a sua própria luta de libertação nacional ajudou a SWAPO na luta pela independência do Sudoeste Africano. A SWAPO teve de usar as bases da UNITA, em Angola, como ponto de passagem e unidade. A UNITA fazia isto, à partida, porque acreditava na solidariedade africana revolucionária.

617 Chiwale, Samuel (2008), Cruzei-me com a História, Lisboa, Sextante Editora, p. 217. 618 Entrevista a José Mwailepeni Monulo, em Ondjiva, 11-08-2016.

619 Entrevista a Evaristo Ndemupateke David, em Ondjiva, 08-09-2016.

620 Shipanga, Andreas e Sue Armstrong (1989), Namíbia - A Luta pela Liberdade, Lisboa, Bertrand Editora,

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Até março de 1976, a SWAPO pôde contar sempre com o apoio da UNITA621. Portanto, contrariamente às afirmações da maioria da historiografia da Namíbia em relação à cooperação entre a UNITA e a SWAPO, segundo a qual a cooperação entre estes dois movimentos só beneficiou a UNITA, esta cooperação teve um benefício recíproco.

5. Nota Conclusiva do Capítulo

Ao contrário da França, Bélgica e do Reino Unido – que empreendeu um processo de descolonização das suas colónias na África por via política –, Portugal, Rodésia e África do Sul procuravam cimentar a sua permanência e o domínio da minoria branca sobre a maioria negra na África Austral, nomeadamente na Rodésia, Angola, Moçambique, África do Sul e Sudoeste Africano. O insucesso da luta política na década de 40 e 50 do século XX levou à formação de movimentos de libertação nacional que começaram a empreender a luta armada na década de 60.

A fundação da Organização para a Unidade Africana (OUA), a 25 de maio de 1963, em Adis Abeba, e do Comité de Libertação da OUA deu outra dinâmica na luta anticolonial e antiapartheid na África Austral, e também exerceu uma certa influência para o reconhecimento de movimentos de libertação nacional, maioritariamente com ideologia socialista marxista-leninista como únicos representantes dos respetivos territórios. É o caso da SWAPO, FRELIMO, ANC, MPLA, ZANU-PF (ZAPU e ZANU) e PAIGC que passaram a ter as suas sedes políticas em Dar-es-Salaam, campo de treino militar em Kongwa, bem como apoio político, educação, diplomático, económico e militar. Com o objetivo de darem uma nova dinâmica à luta pela libertação da África Austral para atingir os seus objetivos e também para cumprir com um dos princípios do pan-africanismo e da OUA – promover a cooperação internacional, entre os movimentos de libertação nacional de África, a fim de lutar pela liberdade e acabar com o colonialismo em África –, os movimentos de libertação nacional da África Austral procuraram estabelecer alianças ou relações de cooperação entre si, com base nas afinidades político-ideológicas que defendiam, nos interesses geoestratégicos e económico-militares de cada movimento. É neste quadro que surgiu inicialmente a Frente Unida de Ação/United Front of Action (UFA), em 1966, formada pela UNITA, ZAPU, SWAPO, ANC, PAC e o ZANU, cujo objetivo era de se unirem para a luta pela independência do sul da África. Em 1967, foram incluídos a FRELIMO e o COREMO. A UFA começaria a atuar, inicialmente, em Angola até à sua independência e, mais tarde, no Sudoeste Africano e na África do Sul. No entanto, a pouca aceitação e o não reconhecimento de alguns destes movimentos por parte de alguns países africanos

621 Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra (online), entrevista de Tony da Costa

Fernandes ao “ O Jornal Crónicas de A Z”, em Lisboa, a 30-06-1977). F: Geral > SC: Monografias > TS: Piteira Santos - Crónicas de A a Z > SSC1: 1977 > SR: 06 – Junho, Dia 30, Jornal de I 3 - 6 - 7 5.

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influentes na OUA, do Ocidente e pela URSS, bem como as rivalidades sino-soviético levaram ao fracasso da Frente Unida de Ação. Portanto, a Frente Unida de Ação não teve um impacto prático expressivo na sua luta pela independência devido à retirada de alguns movimentos e, principalmente, devido à interferência da URSS. De modo a neutralizar os seus dois adversários (EUA e China), entre 8 e 12 de janeiro de 1969, a URSS obrigou seis movimentos de libertação marxista-leninista africanos (MPLA, PAIGC, FRELIMO, ANC, a SWAPO e a ZAPU) a formarem uma outra aliança estratégico-militar e política – Aliança de Cartum – cuja sede do Comité de Mobilização estaria no Cairo e seu comando na Tanzânia, e teria o apoio dos países da órbita socialista. Com esta aliança, a URSS pretendia propagar sua ideologia política em África e, ao mesmo tempo, travar o avanço da influência americano no continente africano.

No início de 1970 foi formado o Movimento de Libertação da África Austral (MLAA), cujo objetiva era, especificamente, lutar de forma conjunta e coordenada pela independência da África Austral. O MLAA era composto por movimentos socialista marxista-leninista da África Austral reconhecidos pela URSS (MPLA, FRELIMO, FROLIZI, ZANU e ZAPU, ZANU-PF, ANC e SWAPO) e funcionava como uma organização de caráter regional, subordinada ao Comité da “Aliança de Cartum”, que tinha um caráter continental. Deste modo estes movimentos de libertação nacional da África Austral passaram a cooperar e/ou intensificaram a cooperação entre si, criando redes partilha de informação, operações militares conjuntas nas suas áreas de interesse que culminou com a independência de Angola, Moçambique, Sudoeste Africano e o fim da supremacia branca na Rodésia e na África do Sul. Assim, na segunda metade da década de 70, a África Austral continuava a ser o ponto de convergência de interesses geopolíticos e geoestratégicos, entre o Bloco Socialista e o Bloco Liberal, que pretendia alterar o contexto da região (colonização/apartheid e a crise do Zaire).

As relações sociais, económicas e políticas entre os povos de Angola e da Namíbia foram estabelecidas antes da presença europeia, por meio dos reinos pré-coloniais que existiam estes territórios. Com a presença e a conquista europeia estas relações ganharam outros horizontes, envolvendo também a população de origem europeia. O descontentamento da população de origem africana em relação a política discriminatória desenvolvida pela dominação branca motivou a união e cooperação na luta pela independência entre os povos/movimentos anticoloniais (sindicatos e movimentos de libertação) de Angola e do Sudoeste Africano. Estas relações simbióticas continuaram durante todo o período pré-independência e pós-independência dos dois países. Entre 1964 e 1971, a SWANU e mais tarde a SWAPO tinham um projeto que advogada a independência da Ovambolândia, onde se incluía a região Ovambo de Angola, facto teve um impacto político e social no sul da colónia de Angola, a "iminência da revolta dos Cuanhamas do sul de Angola".

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A cooperação UNITA-SWAPO foi estabelecida a partir de 1965, constituindo a primeira relação de cooperação observada entre os movimentos de libertação nacional de Angola e do Sudoeste Africano, cujo objetivo consistia em lutar pela liberdade e pela independência dos respetivos territórios. Não existe um único fator isolado nas estreitas relações entre a UNITA e a SWAPO, pois deve ser incorporado um conjunto de fatores de ordem político-ideológico, sociodemográfico, económico-militar, regional, histórico e geoestratégico. A dinâmica das relações UNITA-SWAPO pode ser dividida em sete períodos: o primeiro período, entre 1965 e 1966, é caracterizado pelos primeiros contactos entre os líderes da UNITA e da SWAPO, pelo contributo secreto da SWAPO na formação da UNITA; o segundo período, de 1966 a 1969, é caracterizado principalmente pela cooperação aberta entre a UNITA e a SWAPO, pelas primeiras ações militares conjuntas contra alvos portugueses e pelas primeiras operações conjuntas UNITA-SWAPO; o terceiro período, entre 1969 e 1970, é caracterizado pela realização do II Congresso da UNITA, por uma nova dinâmica de cooperação ambiciosa – a formação de um frente unida UNITA- SWAPO, no sudeste de Angola para penetrar no Sudoeste Africano –; o quarto período, entre 1970 e 1976, é caracterizado por uma intensa atividade na frente Cunene. O quinto período, entre 1976 e 1990, é caracterizado pelo fim da cooperação UNITA – SWAPO, pelo realinhamento de alianças, pela hostilidade entre as duas organizações; o sexto período, 1990 e 2002, caraterizada pela independente Namíbia, pela Segunda Guerra Civil Angolana, na qual a UNITA foi considerado também “inimigo de Estado” da Namíbia, motivando ações conjuntas das FAA - NDF contra as bases das forças da UNITA; e o sétimo período, período pós-2002, caraterizado pelo ao fim da Guerra Civil de Angola e paz entre os estes atores, na qual a relação entre a UNITA e SWAPO/governo da Namíbia encontram-se ofuscas. A ligação estratégica da UNITA às forças de Pretória foi motivada pela superioridade militar angolana-cubana, pelo triunfo militar do MPLA (conquistar o poder em Angola), pela política monopartidária adotada pelo MPLA – que anulava a existência da UNITA – e pelo desejo da UNITA de resistir, bem como de manter a sua ideologia e projeto político (projeto de Mwangai) para a construção da nova Angola. Deste modo, pretendia forçar o MPLA a reconhecer o seu contribuiu para o alcance da independência de Angola. Esta opção da UNITA é associada a fatores internos que, por um lado, levaram a SWAPO a romper a ligação com a UNITA e a reconsiderar uma nova estratégia vantajosa, nomeadamente a ligação com o novo governo de Angola, formado pelo MPLA, que passou a ser uma retaguarda e escudo da SWAPO. E por outro lado, principalmente, pelo facto de o MPLA conquistar o poder, por via militar e com o apoio soviético, conferindo-o superioridade militar. Neste âmbito, a SWAPO passou a beneficiar de informação, formação, espaço geográfico, proteção, apoio logístico, militar, diplomático, social e económico, até alcançar a independência do Sudoeste Africano.

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CAPÍTULO III – RELAÇÕES POLÍTICO-MILITAR MPLA-SWAPO E SEU IMPACTO NA