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Coordenação de DPs e comitativo em pidgins e crioulos: Parkvall (2012)

Mapa 4: Línguas com valor de identidade de formas na África – dados do WALS

1.3 COORDENAÇÃO DE DPs E COMITATIVO NAS LÍNGUAS

1.3.1 Coordenação de DPs e comitativo em pidgins e crioulos: Parkvall (2012)

Parkvall (2012) afirma que o uso de um marcador nas funções de coordenador entre DPs e comitativo pode ser observado em diferentes pidgins e crioulos. Tal fenômeno pode ser observado em 19 línguas, como mostra o trabalho de Stolz (1998, apud PARKVALL, 2012). Contudo, é entre os crioulos Atlânticos que esse fenômeno se mostra mais frequente. De acordo com o autor, o rol de conjunções nesses crioulos foi incrementado “quer pela reintrodução de morfemas [da língua lexificadora], quer pela atribuição de um papel conjuncional a outros itens”.

O Quadro 1 apresenta diferentes crioulos Atlânticos em que se observam uma conjunção homófona, sincrônica ou diacronicamente, de uma preposição comitativa (PARKVALL, 2012, p. 139-140).

Variedade Conjunção Étimo Fonte

CI gullah /lʌŋ(ǝ)/ Along Warantz (1986, p. 87)

CI da Costa Miskito

/wi/ With Holm (1988,p. 206)

CI de St. Kitts <long> Along Baker e Bruyn [orgs.] (1999)

CI sranan /(n)aŋga/ Along Holm (1988, p. 206)

CI saramacano /ku/ Com McWhorter (1997b, p. 46)

CI de Camarões /weti ~ witi/ With Todd (1982, p. 70) CF da Luisiana /avεk ~ ave/ Avec Valdman e Klingler (1997, p.

137) CF do Haiti /ak ~ akε ~ avek ~

ave/

Avec Orjala (1970, p. 36)

CF de Santa Lúcia /εk ~ εvεk/ Avec Carrington (1984, p. 125-126)

CF da Guiana /kε/ Avec St-Jacques-Fauquenoy (1972)

CP de Cabo Verde /ku/ Com Almada (1961, p. 136)

CP da Guiné- Bissau

/ku/ Com Bartens (1996, p. 125)

CP de São Tomé /ku/ Com Lorenzino (1998, p. 191)

CP de Príncipe /ki/ Com Günther (1973, p. 80)

CP angolar /ki/ Com Lorenzino (1998, p. 192)

CP de Annobón /ku/ Com Stolz (1986, p. 238)

CH negerhollands /mi/ Met Stolz (1986, p. 237)

CH de Berbice /mεtε/ Met Kouwenberg (1994c, p. 163)

CE papiamento /ku/ Com Holm (1988, p. 206)

Quadro 1: Etimologia de conjunções em línguas crioulas do Atlântico

No caso do Crioulo Português de Cabo Verde, o exemplo do Quadro 1 refere-se apenas às variedades de Sotavento, já que, nos dialetos do Barlavento, utiliza-se a forma /ma/, do português mais (PARKVALL, 2012, p. 140), como ocorre no português rural afrodescendente do estado da Bahia. Segundo Baptista (2002, p. 134), no Crioulo cabo- verdiano o IV ku pode funcionar como conjunção coordenativa, adicionando DPs, como em (34a), pronome forte (PF) e nome, como em (34b), dois nomes, como em (34c), e pronome forte e genitivo, como em (35). A coordenação aditiva, nos demais contextos, é realizada pela conjunção i.

(34) a. Mi ku nha pai. PF e meu pai “Meu pai e eu.”

b. Mi ku Brankinha. PF e Brankinha “Brankinha e eu.”

c. Nha mai ku nha pai. minha mãe e meu pai “Minha mãe e meu pai.”

(35) A(y)es ku dises PF e deles “Eles e deles mesmos”

(BAPTISTA, 2002, p. 134)

Nos exemplos em (34) e em (35), observa-se que os termos coordenados possuem os traços [+definido, +específico]20, comportamento semelhante verifica-se no português rural afro-brasileiro, em que a referencialidade é um fator condicionante para a variante mais, como se vê no capítulo 3 deste trabalho. No crioulo cabo-verdiano, o IV ku funciona também como uma preposição (com), introduzindo um DP com valor de companhia, como em (36a), e de instrumento, como em (36b).

20

(36) a. E fika ku povu la. CL ficar com pessoas lá “Ele fica com as pessoas lá.”

b. E sapa ku faka. CL cortar com faca “Ele corta com uma faca.”

(BAPTISTA, 2002, p. 133)

Parkvall (2012, p. 140) afirma ainda, baseado em diversos trabalhos, que a homofonia entre com e e é mais difundida no Niger-Congo e em toda a costa ocidental africana nas mais diferentes línguas, como: wolof, fula, manjako, mandinka, ewe, fon, fânti, twi, iorubá, engenni, hauçá, teque, dentre outras, e em um grande número de línguas bantas.

O autor afirma que as conjunções das línguas da África Ocidental caracterizam-se por dois fatores:

Em primeiro lugar, na grande maioria das línguas nigero-congolesas, contrariamente ao que acontece nas línguas europeias, a conjunção que coordena sintagmas nominais não pode ser usada para unir sintagmas verbais ou sentenças (Welmers, 1976, p. 129). Em segundo lugar, a coordenação de sintagmas nominais é frequentemente derivada e/ou homófona de uma preposição comitativa, isto é, uma palavra que significa ‘com’. (PARKVALL, 2012, p. 139)

Uma palavra africana que significa com não equivale a todas as formas europeias de e, mas apenas a algumas, como mostra o Quadro 2:

Adposição comitativa

Morfema usado para ligar sintagmas

nominais

Morfema usado para ligar sintagmas

verbais ou frases

Línguas europeias COM E

Línguas nigero-congolesas COM E

Quadro 2: Comitativo e coordenadores em línguas europeias e nigero-congolesas

Fonte: PARKVALL (2012, p. 140)

Segundo Parkvall (2012, p. 141), o padrão apresentado no Quadro 2 referente ao uso de uma mesma partícula para expressar o comitativo e para conectar DPs é atestado em diversas línguas, incluindo o iorubá e o hauçá, que vieram para o Brasil durante os séculos de colonização (cf. Capítulo 2). Sobretudo nos crioulos Atlânticos, é possível perceber o uso de

um conector de DPs, derivado de uma partícula comitativa, em distribuição complementar com um conector de orações/frases, como mostrado a seguir.

Para ligar sintagmas nominais Para ligar orações/frases

Sranan /(n)aŋga/ (< E along) /(h)εn/

Saramacano /ku/ (< P com) /(h)εn/

CI de Camarões /witi/ (< I with) /an/ (< I and)

Angolar /ki/ (< P com) /i/ (< P e)

CH negerhollands /mi/ (< H met) /en/ (< H en)

CH de Berbice /mεtε/ /an/

CE papiamentu /ku/ (< S con) /i/ (< E y)

Quadro 3: Conector de sintagmas nominais, frases e orações em línguas crioulas.

Fonte: PARKVALL (2012).

No português rural afrodescendente do estado da Bahia, verifica-se o padrão apresentado no esquema acima, o mesmo das línguas nigero-congolesas, como mostrado no Quadro 2, o que corrobora para a hipótese do contato linguístico. O conector mais é utilizado para coordenar DPs, variando com o IV e, e para introduzir DP comitativo, variando com o IV com. O mais não coordena frases e orações, tal função é exercida pelo e ou por outros conectores21. De outro modo, na variedade culta do PB, verifica-se o padrão das línguas europeias apresentado no Quadro 2, pois tanto a coordenação entre DPs como a coordenação entre orações com valor semântico aditivo são feitas pelo conector e.

A subseção seguinte dá continuidade à descrição do fenômeno investigado nesta pesquisa em pidgins e crioulos, a partir dos dados apresentados por Michaelis et. al. (2013) no APiCS.