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Os participantes quando desenvolvem estratégias de coping centrado no problema, agem no sentido de mudar a realidade que causa perturbação, pois sentem que podem fazer algo de construtivo para promover a mudança (Ribeiro & Rodrigues, 2004).

Seguindo este paradigma, identificam-se nos dados duas categorias distintas que revelam cada uma, estratégias diferentes para lidar com os problemas (Coping confrontativo; Resolução planeada de problemas), possíveis de consultar no quadro 25.

Quadro 25 - Estratégias de Coping Centrado no Problema

RELAÇÃO ENTRE OS VÁRIOS TIPOS DE RESPOSTA DO INDIVÍDUO Categorias Respostas Unidades de registo (Exemplos)

Coping Confrontativo:

Esforços para alterar o problema com algum grau de hostilidade e de risco (Folkman & Lazarus, 1991).

Aumenta a esperança

(P1) - “Esta semana, pela primeira vez, levantei-me para ir ao WC, sozinho e ela não me ouviu...”;

(P5) - “A fisioterapia faz-me muito bem mas também me cansa, não é? Mas acho que me faz mesmo muito bem… Do que me competia eu faço sem parar…”.

Diminui os Sentimentos de

Impotência

(NC1) - Por insistência dele a entrevista é realizada na varanda. Ao passar para lá, perdeu por momentos o equilíbrio. O investigador ao tentar ampará-lo foi reprimido.

(P1) - “Deixe estar Sr. Enfermeiro... Não me ajude... Eu tenho de fazer isto sozinho...”.

Aumenta o stress emocional

(NC1) - Ontem, tentou levantar-se sozinho, passar para uma cadeira e não conseguiu, acabando por cair e bater com a cabeça no vidro;

(P1) - “Várias vezes eu acordei e desfiz a fralda toda durante a noite. Caí varias vezes abaixo da cama (caía bem que eu segurava-me) porque queria sair dali, queria fazer as coisas... não sou pessoa para usar fralda”.

Resolução Planeada de Problemas: Esforços

para mudar o evento stressor, associados a um processo analítico de resolução de problemas (Folkman & Lazarus, 1991).

Mantém ao máximo a autonomia

(P1) - “Quero manter o meu dia-a-dia o mais normal possível... Levanto-me com a ajuda da mulher, vou comer à mesa... não quero tabuleiros para aqui ou para ali...";

(P3) - “E se quero ir ao frigorifico consigo, quer dizer, venho trazer as coisas aos bocados, pois com as canadianas e com as coisas na mão não é muito fácil… Mas pouso aqui… Depois pouso ali… Até que chego ao fim…”;

(P5) - “Lavar os dentes é que faço, depois das refeições, trazem - me aqui a bacia e eu sentada lavo-os aí sobre a bacia…”.

Aumenta a esperança

(P1) - “O meu trabalho... Eu queria voltar a trabalhar... Esse é o meu objectivo... Eu vejo que com a fisioterapia eu vou conseguindo ficar melhor... Por cada tratamento que faço eu sinto que fico melhor [...] Eu tenho de continuar com a fisioterapia”;

(E-I) - “E a confiança em si... Tem-se sentido mais confiante? (P2) - Eu acho que sim... Tenho-me atirado a andar... Já é alguma coisa não é? Até aqui não andava nada...”;

(P5) - “É o que eu hoje interiorizei… Vou tentar fazer mais… Sair do cadeirão… Andar…”.

Aumenta o controlo sobre a

sua doença

(P1) - “A comida é que é muito má… Já estou cansado de comer sempre a mesma coisa… E a mulher quer que todos comam daquilo sem sal… Assim não pode ser… Não me pode arranjar uma lista de coisas que posso ou não comer!?”;

(P2) - “Ás vezes até bebo água para ver se urino melhor,”;

(P4) - “Eu vou trocar o colchão que tenho lá dentro para aqui, porque este está visto que eu não posso dormir nele… Porque este é de molas e aquele é mesmo ortopédico…”.

Diminui a dependência dos

outros

(P1) - “Se ele fizer o polivan, já tomo banho sozinho... posso fazer as coisas sozinho... já não dependo da minha mulher...”;

(P4) - “Eu, por exemplo, quando for tomar banho posso lavar a cabeça, os ouvidos, os dentes… Isso posso ser eu que faço…”; (P5) - “Vou então esta semana começar a tentar levantar-me e peço para que me ponham uma cadeira ao lado da cama para me sentar”.

A análise do quadro permite-nos inferir que ambas as estratégias influenciam as transições, quer actuando directamente sobre o evento gerador de dependência (mantendo ou aumentando a autonomia face ao autocuidado e diminuindo a dependência dos cuidadores), como agindo indirectamente sobre as emoções, que se vão modificando à medida que ocorre a reestruturação cognitiva do elemento stressor.

No entanto, é de realçar que enquanto a Resolução Planeada de Problemas é uma estratégia adoptada por todos, o Coping Confrontativo é predominantemente utilizado pelo participante 1. Segundo Carver, Scheier & Weintraub (1989:270) “pode-se traçar um

paralelismo entre as dimensões da personalidade e determinados estilos de coping”.

Estabelece-se assim uma relação entre o locus de controlo interno (característico neste indivíduo) e esta estratégia de coping, factor que deve ser levado em conta, uma vez que quando lidamos com situações de dependência, nem sempre a avaliação que os indivíduos fazem sobre o problema real é a mais correcta (ver o ponto 3.1.3 - categoria Consciencialização), principalmente quando têm presente uma percepção de controlo sobre o mesmo. Assim, algumas tentativas para resolver a situação podem acarretar riscos para os participantes e culminarem em experiências frustrantes, implicando maior stress psicológico.

3.2.4.1.2 – Coping Centrado nas Emoções

As estratégias de coping centrado nas emoções, são utilizadas pelos participantes quando estes se sentem num estado de tensão emocional, gerado pela ausência de respostas direccionadas ao evento gerador de dependência e cuja única solução passa pela modulação da resposta emocional, reduzindo o stress e restabelecendo a homeostasia.

Santos (2006) cita Folkman & Lazarus (1984), quando refere que:

(…) muitas das fontes de stress não podem ser dominadas e o coping eficaz, nessas condições, é aquele que permite à pessoa tolerar ou aceitar situações stressantes, bem como as tentativas para dominar o ambiente”.

Emergem assim seis categorias dos dados, que segundo os autores Folkman & Lazarus (1991) representam as estratégias de coping centrado nas emoções (ver o quadro 26).

Dada a grande variedade de categorias substantivas identificadas, escolhemos representar exemplos das estratégias que os participantes utilizaram para lidar com as duas emoções que mais emergiram como obstáculos ao autocuidado (Sentimentos de Impotência e Falta de Esperança).

Constata-se que nem sempre essas estratégias conduzem a uma evolução no processo de reconstrução da autonomia, contudo, “deve haver prudência na avaliação se um

processo de coping é bom ou mau, dado estar dependente da pessoa, dos seus objectivos, dos resultados procurados e das suas preocupações” (Ribeiro & Rodrigues, 2004:4) ou seja, o processo de coping inclui o esforço para lidar com as exigências stressantes, independentemente do resultado final (Folkman & Lazarus, 1991).

É o que demonstra o quadro 26 onde é possível constatar que os participantes utilizam estratégias de coping centrado nas emoções como resposta para lidar com o stress, durante o período de transição.

Quadro 26 - Estratégias de Coping Centrado nas Emoções para as Categorias: Sentimentos de Impotência e Falta de Esperança

RELAÇÃO ENTRE OS VÁRIOS TIPOS DE RESPOSTA DO INDIVÍDUO

Emoções Categoria Unidades de registo (Exemplos)

Lidar com os sentimentos de impotência e de falta de esperança Aceitação da responsabilidade: Reconhecimento do papel do próprio relativamente ao problema, tentando melhorar ou corrigir a situação (Folkman & Lazarus, 1991).

(P1) - “Destruí tudo o que sabia em termos de andar de um momento para o outro, não posso esperar em duas semanas estar já a andar” – Tentativa de compensar as suas perdas centrando-se nas emoções;

(E-I) - “Mergulhado em pensamentos de que já não vale a pena lutar…

(P4) - É aquilo que tem estado metido dentro da minha cabeça… Era isso… Vamos a ver agora daqui para a frente… Não posso garantir… Só posso prometer que vou tentar fazer…”.

Autocontrolo: Esforço para

modelar as emoções e as acções em relação ao problema (Folkman & Lazarus, 1991).

(P1) - “Eu não posso pensar que sou um inválido... se algum dia pensar que sou um inválido eu dou um tiro na cabeça...”;

(P2) - “Vou indo... Graças a Deus... (disse olhando para o entrevistador como que a dizer - Agora é isto... Não posso esperar mais...)”.

Reavaliação Positiva: Esforço

para criar um significado positivo, valorizando o crescimento pessoal e a religião (Folkman & Lazarus, 1991).

(P1) - “ele disse que eu era fundamental e que se eu saísse não haveria condomínio... Isso fez-me ver o quanto era preciso. Agora já posso resolver alguns problemas o que é bom para mim...”;

(P2) - “Tenho-me atirado a andar... Já é alguma coisa não é? Até aqui não andava nada... Por isso... Vai-se indo...”;

(P5) - “Eu hoje de manhã consegui andar uns largos espaços já, sem ser encostada à grade, com equilíbrio não é… Foi uma coisa assim…”.

Distanciamento: Esforço para

se afastar do evento gerador de stress ou criar uma visão mais positiva (Folkman & Lazarus, 1991).

(P1) - “Fui à consulta com o médico e ele disse-me... Dessa mão você não vai mexer mais e eu perguntei ao fisioterapeuta.... Porque é que o médico foi assim tão cruel comigo...”;

(E-I) - “E abotoar a roupa... Porque não o faz? (P2) - Se calhar não consigo... Isso a minha filha faz...”; (E-I) - “Porque acha que não vai poder?

(P5) - Não sei, se calhar nem quero estar a pensar… Parece-me tão difícil…”.

Fuga-Evitamento: Esforço comportamental para escapar ou evitar o problema, ou sonhar com melhores opções (Folkman & Lazarus, 1991).

(NC1) - Ele faz questão de manter ao máximo as coisas tal como eram dantes. Tudo o que representa modificação de comportamentos anteriores ele tem dificuldade em aceitar; (P2) - “O que eu queria era andar... Ser livre outra vez para poder ir para onde quero...”;

(P4) - “Neste momento o que me podia fazer livre era andar… Se eu andasse, fazia muita coisa…”.

Procura de Apoio Social:

Esforço para procurar apoio informativo, instrumental ou emocional (Folkman & Lazarus, 1991).

(P4) - “Eu quando vou à casa de banho não posso ir sozinho… Não posso sozinho… Para a mesa não posso sozinho… Para nada eu posso sozinho… É isto que eu lhe estava a dizer… É vida… É a vida (diz isto a chorar com um ar de derrotado)…”;

(P5) - “estou sempre a chamar, não é […] as que estão de apoio passam a noite praticamente nisto”.

Essas respostas são importantes, pois fornecem indicadores de processo que permitem monitorizar se os indivíduos caminham em direcção à reconstrução da autonomia face ao autocuidado.