Ao longo das entrevistas emergiram categorias substantivas ilustrativas de uma característica mutável da personalidade (Balsmeyer, 1984), que demonstrou ter influência na reconstrução da autonomia face ao autocuidado, conforme a sensação de controlo que os participantes tinham sobre o evento gerador de dependência e/ou a sua vida.
Surge assim o conceito de Locus de Controlo (explanado pela primeira vez na Teoria de Aprendizagem de Rotter), que se manifesta quando os indivíduos se vêem capazes de ter controlo sobre o que acontece, através da sua acção e eficácia – Locus de Controlo Interno; Ou quando sentem que não podem influenciar a sua vida, estando os acontecimentos dependentes da sorte/azar, destino, oportunidade entre outros – Locus de Controlo Externo (Balsmeyer, 1984; Oberle, 1991; Shaw, Mccoll, Bond, 2003; Wu, Tang, Kwok, 2004; Lindstrom, 2006; Selander et al, 2006).
3.2.2.2.1.1 – Locus de Controlo Interno
Os dados evidenciaram a existência de participantes que tinham predominantemente um Locus de Controlo Interno.
(Participante 1) – “Quero manter o meu dia-a-dia o mais normal possível... Levanto-me com a
ajuda da mulher, vou comer à mesa... Não quero tabuleiros para aqui ou para ali...".
Esta característica demonstrou ser de grande utilidade para a vivência da transição do tipo saúde/doença, uma vez que os manteve sempre muito envolvidos no processo de reabilitação, aumentando a força de vontade para desempenhar autonomamente o autocuidado, influenciando positivamente o autocontrolo e desenvolvendo uma atitude positiva face ao cuidado que proporcionou resultados concretos ao nível da aquisição da autonomia.
(Participante 1) – "Utilizo o urinol quando estou na cama, mas de resto faço questão de ir ao
wc... Não há cá urinóis... A minha esposa ajuda-me a ir até lá e eu depois seguro-me e faço...".
Constata-se, inclusive, que a informação recolhida dos dados vai de encontro a vários autores que afirmam que o Locus de Controlo Interno associa-se a uma maior probabilidade de retorno à actividade laboral, após a doença e/ou reabilitação (Shaw, Mccoll, Bond, 2003; Wu, Tang, Kwok, 2004; Selander et al, 2006) mesmo nos casos em que existem limitações recém adquiridas (Selander et al, 2006).
(Participante 1) – “Eu tenho que fazer outras coisas... Se não conseguir voltar a ser mecânico
que, acredito que não vá conseguir, porque é uma profissão pesada, ao menos, se eu conseguir andar e mexer esta mão, eu poderei fazer outra coisa e ganhar dinheiro de outra forma para poder sustentar esta família”.
Contudo, relativamente às transições que envolvem a família e a sociedade, a análise revela que o Locus de Controlo Interno pode ser prejudicial, pois, tal como refere (Balsmeyer, 1984), o apoio social pode ser interpretado como perda da independência. É isso que constatamos através da categoria emergente “alteração de papéis (sustento da casa) dentro do núcleo familiar”, em que os indivíduos demonstram a sua dificuldade em aceitar essa perda, centrando-se em emoções negativas que dificultam a transição para a autonomia no autocuidado. Martins (2002:149) refere que esta situação leva o indivíduo a “concentrar a sua
atenção no que perdeu, sobrevalorizando a situação e passando as incapacidades a dominar, surgindo frequentemente sentimentos de inutilidade, inadequação e inferioridade”.
(Participante 1) – “Eu agora sou como uma criança... Tratam-me como uma criança... Para tudo
querem ser eles a fazer, a substituir-me, não posso fazer nada sozinho.”;
(Participante 1) – “Esta semana foi muito má. Tenho pensado muito.... Só me apetece... Hum...
Não é matar-me pois não sou pessoa que acredite nisso...Tenho pensado muito em ir para um lar para não chatear a minha família... E assim ninguém se preocupa comigo e a minha esposa também não tem que fazer este trabalho todo”.
Simultaneamente, surge uma grande ambivalência em relação ao prestador de cuidados que ocupou o seu lugar que, por vezes, também é correspondida (ver os pontos 3.2.1.3.1.1 e 3.2.1.3.1.3).
(Participante 1) – “Oh enfermeira chefe traz-me um copo com água!"
(Notas de Campo) – O participante trata a esposa por enfermeira chefe, utilizando esta
estratégia para enfrentar a perda do seu papel e a dependência que agora tem da esposa.
Martins (2002) cita Alves et al (1993:148) quando afirma que:
é importante a adequação de papeis e uma nova organização de responsabilidade entre os elementos desta, a fim de se restabelecer um equilíbrio interno. Em função desta inversão, frequentemente aparecem conflitos internos relativos à dependência versus independência, que tem um correlato psíquico de submissão versus autoridade.
3.2.2.2.1.2 – Locus de Controlo Externo
À semelhança do ponto anterior, também se identificaram casos em que predominava o Locus de Controlo Externo.
Verifica-se que nestes participantes, tal como refere (Selander et al, 2006) há uma diminuição das actividades quotidianas associadas à crença de que não há possibilidade de recuperarem, o que promove uma atitude passiva face ao cuidado (ver o ponto 3.2.2.1.1.3), dificultando a tarefa dos enfermeiros que pretendem promover a reconstrução da autonomia.
(Notas de Campo) – Encheu-se o lavatório com água e pediu-se a opinião do indivíduo.
(Enf-Inv) – “Veja se a água está boa ou se quer outra temperatura...
(Participante 2) – Como o Sr. quiser...”;
(Participante 2) – “Afinal apareceu-me isto, o que é que eu hei-de fazer... Se não me
aparecesse andava bem, apareceu... Tem de se gramar... Como toda a gente, quando aparece, tem de se gramar e aguentar...”;
(Enf-Inv) – “Depois de se sentar fica nessa posição alguns minutos e só depois se vai por a pé...
Vai experimentar fazer isto?
(Participante 2) – Tem que falar com elas... Elas é que me levantam...”.
Nestas situações, constata-se que o apoio social é bem aceite (ver o ponto 3.2.1.3), tornando-se por vezes no principal alvo dos cuidados profissionais. É por isso muito importante trabalhar o prestador de cuidados, para que não se torne num entrave à autonomia (ver o ponto 3.2.1.3.1.3). A família é essencial no processo mas não deverá super-proteger os indivíduos (Balsmeyer, 1984).