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3.2.2.1 – O Status Psicológico

CRENÇA CULTURAL:

Atitude Face ao Cuidado TRANSIÇÕES Influencia Crença Cultural Auto-Imagem Atitude Face à Gestão dos Medicamentos ATITUDE (Factor Intrínseco ao Sujeito) VOLIÇÃO Força de Vontade Autocontrolo CRENÇAS Atitude Face ao Cuidado TRANSIÇÕES Influencia Crença Cultural Auto-Imagem Atitude Face à Gestão dos Medicamentos ATITUDE (Factor Intrínseco ao Sujeito) VOLIÇÃO Força de Vontade Autocontrolo CRENÇAS Atitude Face ao Cuidado TRANSIÇÕES Influencia Crença Cultural Auto-Imagem Atitude Face à Gestão dos Medicamentos 3.2.2.1.1.1 – Crenças

Esta categoria abarca todo um conjunto de “opiniões, convicções e fé” (ICN, 2005:78), dos participantes, que influenciam o processo de transição. As crenças, segundo o ICN (2005) podem ser subdivididas em variadíssimas categorias com diferentes propriedades mas, no presente estudo, emergiram apenas duas: Crença cultural e Auto-Imagem.

3.2.2.1.1.1.1 – Crença Cultural

Com base nos dados recolhidos, e após um processo de codificação (ver o quadro 13) emergiu a categoria Crença Cultural.

Quadro 13 - Matriz síntese da categoria Crença Cultural

P C CODIFICAÇÃO ABERTA CODIFICAÇÃO AXIAL

Categorias Substantivas Categoria Conceptual e suas subcategorias P1 30 A dívida ao banco

Sustento da Casa

CRENÇA CULTURAL:

convicção e disposição da pessoa para manter ou abandonar acções

tendo em conta os valores da sua própria cultura” (ICN, 2005:78). P1 31 O que ganho não chega

P3 13 Não carece de enfermeiros

Descrença nos Cuidados de Saúde Comunitários

P3 14 Contacto com o Centro de Saúde P5 63 Não me lembrei do centro de saúde P5 43 Na aldeia faziam isso

Medicina Popular

P5 44 Está convencida que os chás

P3 16 Tenho de estar quieta Autonomia Adiada

Sustento da casa

Esta categoria emergiu no único participante que ainda mantinha um papel activo no sustento financeiro da família e que se assumia, no sistema familiar, como o “sustento da casa”, que liderava e trabalhava para assegurar o equilíbrio do grupo.

(Participante 1) – “Tenho esta casa para pagar... Tenho esta dívida e a minha reforma não chega...”.

A perda de todos estes papéis e o rompimento com a crença cultural de que é o homem que tem de sustentar a família, e nunca ser ele a estar dependente dos outros, originaram respostas emocionais negativas que dificultaram o processo adaptativo.

(Notas de Campo 1) – “Agora está tudo nas mãos da minha filha... Eles é que sabem o que

querem fazer com o apartamento... Eu assino tudo o que for necessário. Eu não posso manter o apartamento... Se eles quiserem vender são eles que decidem”.

Por outro lado, a existência desta forte convicção aliada a um locus de controlo interno (ver o ponto 3.2.2.2.1.1) assumiram-se como impulsionadores do processo de recuperação da autonomia face ao autocuidado.

Descrença nos Cuidados de Saúde Comunitários

A análise dos dados revela a crença de que as Unidades de Saúde Comunitárias pouco ou nada têm para oferecer a indivíduos com défices no autocuidado, uma vez que estas estão culturalmente conotadas à prevenção e tratamento de doenças e não à promoção da autonomia.

(Participante 3) – “Neste momento se não tivesse marido, ou se ele tivesse fora, teria de ter

alguém, mas um enfermeiro não... Ou talvez para me dar a injecção...”;

(Enf-Inv) – “E tem mantido o contacto com o médico de família!?

(Participante 3) – Não… Não… Mais ninguém viu nada…

(Enf-Inv) – O enfermeiro do Centro de Saúde alguma vez falou consigo sobre o seu problema?

(Participante 3) – Não... Eu só lá vou para tomar a injecção...”.

Esta crença cultural dificulta o acesso a um meio de saúde que poderia ser útil ao processo de transição, sendo que, por opção, um dos participantes nem sequer se encontrava vinculado a uma Unidade de Saúde Comunitária.

(Enf-Inv) – “Ao longo deste tempo, para além do apoio dos seus filhos, alguma vez recorreu ao

apoio do Centro de Saúde da sua área?

(Participante 5) – Não… Tivemos aí médico de família mas depois acabamos por não precisar.

Não, nem lembrei mais do Centro de Saúde…”

Medicina Popular

Outra categoria conceptual que emergiu da análise dos dados foi a vinculação à medicina popular e aos velhos costumes tradicionais para a cura de doenças.

(Participante 5) – “Ela receitou três… E depois disse - “E então está convencida que os chás…

(Participante 5) – “Agora estava a pensar… Eu vou pôr, fazer uma infusão de malvas… Na

aldeia faziam isso…”.

Este factor torna-se particularmente prejudicial ao processo adaptativo, pois fornece ao indivíduo alternativas ao regime terapêutico prescrito que, como abordaremos mais adiante, é frequentemente posto em causa.

(Participante 5) – “e comprei o chá de valeriana e vou hoje fazê-lo à noite que eu não estou para me sobrecarregar…”.

Autonomia adiada

Esta categoria emergente, advém de uma crença generalizada da população de que, após um evento gerador de dependência, um indivíduo não deve retomar as suas actividades de vida diárias, ainda que isso não implique esforço acrescido, necessitando por isso de um período de quase repouso absoluto, o que vai atrasar o processo de reconstrução da autonomia.

(Participante 3) – “Neste momento não estou autónoma e não consigo nem posso fazer força...”.

Nesta situação a família assume as tarefas do indivíduo, salvaguardando-o de qualquer actividade motora, enquanto este aguarda tranquilamente pela sua recuperação, favorecendo as relações de superprotecção e de dependência (ver o ponto 3.2.1.3.1.3).

(Participante 3) – “Agora o problema é esse... Eles não querem que eu faça... E eu não quero

facilitar... É um problema mas estou ainda com pontos e essa coisa toda... Tenho de estar quieta...”.

3.2.2.1.1.1.2– Auto-Imagem

Esta subcategoria conceptual emerge do conjunto de crenças que interferem com a vivência das transições e congrega em si a auto-estima e a imagem corporal, dois conceitos que se revelam importantes para trabalhar o restabelecimento das redes sociais e a reconstrução da autonomia face ao autocuidado (ver a figura 15). O ICN (2005:79) define-a como uma “crença com as características específicas: modelo, percepções ou convicções

Figura 15 - Representação esquemática das relações existentes entre a Auto-Imagem e o processo de transição Transições Facilita Confiança Auto-Imagem Positiva Coping Ineficaz Auto-Imagem Auto- Estima Imagem Corporal Auto-Imagem Negativa EMOÇÃO Esperança EMOÇÃO Culpa, Falta de Esperança Sentimentos de Impotência Défice de Confiança Coping Actividade executada pelo próprio Isolamento Social Dificulta Transições Facilita Confiança Auto-Imagem Positiva Coping Ineficaz Auto-Imagem Auto- Estima Imagem Corporal Auto-Imagem Negativa EMOÇÃO Esperança EMOÇÃO Culpa, Falta de Esperança Sentimentos de Impotência Défice de Confiança Coping Actividade executada pelo próprio Isolamento Social Dificulta Transições Facilita Confiança Auto-Imagem Positiva Coping Ineficaz Auto-Imagem Auto- Estima Imagem Corporal Auto-Imagem Auto- Estima Imagem Corporal Auto-Imagem Negativa EMOÇÃO Esperança EMOÇÃO Culpa, Falta de Esperança Sentimentos de Impotência Défice de Confiança Coping Actividade executada pelo próprio Isolamento Social Dificulta Auto-estima

A auto-estima é definida pelo ICN (2005:80) como:

Opinião que cada um tem de si próprio e visão do seu mérito e capacidades, verbalização das crenças sobre si próprio, confiança em si, verbalização de auto-aceitação e de auto-limitação, desafiando as imagens negativas sobre si, aceitação do elogio e do encorajamento, bem como da crítica construtiva.

Nos dados, é perceptível a sua importância como facilitadora da reconstrução da autonomia face ao autocuidado, uma vez que os participantes se sentem mais confiantes nas suas capacidades (ver o ponto 3.2.2.2.2) para enfrentar os problemas (desenvolvendo estratégias para os resolver), e mais confiantes no futuro (ver o ponto 3.2.2.1.2.1 – categoria conceptual Esperança), ultrapassando sentimentos negativos que dificultam as transições. São talvez estes os motivos que levam a que por vezes desenvolvam estratégia para manter esta atitude (ver o ponto 3.2.4.1.2). Segundo Balsmeyer (1984:175), “o enfermeiro deverá contribuir

para o aumento da auto-estima do cliente, pois tal associa-se directamente com o desempenho”.

(Participante 1) – “Quando fiquei assim disse ao meu compadre que queria sair da direcção do

condomínio, mas ele disse que eu era fundamental e que se eu saísse não haveria condomínio... Isso fez-me ver o quanto era preciso. Agora já posso resolver alguns problemas, o que é bom para mim...”;

(Notas de Campo 2) – O Sr. S encontrava-se já arranjado, sentado no cadeirão, a observar o

que se passava no átrio da entrada da casa. Estava aparentemente bem disposto ostentando um sorriso que demonstrava orgulho por já se encontrar melhor e por poder demonstrar os

progressos que teve desde a última entrevista.

(Enf-Inv) – “Como se sente Sr. S?

(Participante 2) – Cá vou indo... Nunca pior...”.

Simultaneamente, os dados revelam que, ao longo de uma transição, os participantes experimentam, igualmente, situações de auto-estima diminuída, principalmente associadas à dependência funcional e à perda do papel desempenhado no interior da família.

(Participante 1) – “Eu agora sou como uma criança... Tratam-me como uma criança... Para tudo

querem ser eles a fazer, a substituir-me, não posso fazer nada sozinho. Eu sei que eles se preocupam mas, só quando eles saem de casa, quando a minha mulher vai às compras, é que eu sinto que posso fazer as coisas sozinho”;

(Notas de Campo 1) – Refere que se sentiu muito mal quando esteve com o neto pela primeira

vez. Sentiu que aos olhos do neto se tinha tornado num inútil;

(Participante 4) – “Nunca pensei que fosse chegar a um ponto em que fosse preciso virar-me…”.

Verifica-se também que essa diminuição influencia e é influenciada por várias emoções negativas, como é o caso da culpa (quando os indivíduos se sentem um fardo para o seus cuidadores – ver o ponto 3.2.2.1.2.3 – categoria conceptual culpa) ou dos sentimentos de impotência (quando comparam a sua actividade actual com o estado funcional anterior ou sentem a perda de capacidades perante os outros – ver o ponto 3.2.2.1.2.2.1).

(Participante 1) – “Até para receber visitas cá em casa eu não sirvo... Ficam todos

condicionados ao meu problema... A fala, a dieta...".

Nestas situações, percepcionaram-se dois tipos de respostas classificadas como prejudiciais à vivência das transições: a fuga ao contacto social e o desinteresse por actividades de promoção de autonomia e valorização pessoal (secundários à falta de confiança em si e no futuro).

(Participante 1) – “Não quero ir de cadeira de rodas lá para baixo porque vêm todos ter comigo

– "Coitadinho... Coitadinho... Coitadinho do Sr. F..." – Eu digo, "coitadinho não... Eu sou uma pessoa como as outras... Que tem um problema...”;

(Participante 2) – “É... Eu hoje fiz na cama...

(Enf-Inv) – Porquê?

(Participante 2) – Não estava ninguém... Estava sozinho, não me podia levantar...

(Enf-Inv) – E não conseguia aguentar até chegar alguém que o levasse à casa de banho?”;

(Enf-Inv) – “É esse então o principal motivo por ainda não querer ver ninguém para além dos

seus filhos, só quando voltar ao que era antes?

(Participante 5) – Não será assim porque nunca mais fui o que era, não é, mas pronto, custa-me

dar esse passo… Sinto-me que consigo dar mas ao mesmo tempo, não sei…”;

(Enf-Inv) – “Vamos agora para o arranjo pessoal… Pentear o cabelo?

(Participante 5) – Pentear o cabelo… Deixei de ter… Agora é lavar a cabeça, [...] De resto, isso

É de realçar o factor tempo, pois identifica-se uma relação directamente proporcional entre a diminuição da auto-estima e a presunção individual de dependência prolongada e definitiva por parte dos indivíduos o que leva a inferir que quanto maior for o período de tempo da transição, maior terá que ser o investimento da enfermagem a este nível (ver o ponto 3.2.3.3.2).

(Participante 2) – “Olhe, perdi tudo... Perdi tudo porque não me deixa andar na minha rotina...

Antes andava por aqui e por ali... Fazia o que era preciso e andava bem... Agora, não faço nada... Perdi a liberdade de andar para onde queria... Andava de carro também... Agora não... Tinha o carro e podia ir a qualquer lado... Graças a Deus ia andando... Agora acabou...”;

(Participante 4) – “Uma pessoa tanto é (chora), uma pessoa tanto é um homem como é um lixo”.

Alteração na Imagem Corporal

Esta subcategoria emergiu associada à dependência para executar as actividades de vida diária. A análise revelou que essas limitações por vezes implicavam alterações na imagem corporal que no presente estudo é definida como: “imagem mental que cada um tem do seu

próprio corpo, de partes do seu corpo e da sua aparência física.” (ICN, 2005:79).

(Participante 1) – “Eu acho que nunca que vou conseguir adaptar-me a este corpo”.

Constata-se que este tipo de perturbações é prejudicial à auto-estima dos indivíduos, contribuindo para aumentar o compromisso ao nível da auto-imagem e desenvolvendo emoções negativas que dificultam as transições (sentimentos de impotência, falta de esperança).

(Notas de Campo 1) – A relação com o neto afecta-o bastante. A possível alteração na imagem

que o neto tem dele perturba-o bastante. Tem medo de deixar de ser o grande avô e passar a ser o avô aleijado;

(Participante 1) – “A adaptação psicológica está a ser muito má pois eu era uma pessoa muito

activa e agora vejo-me neste corpo...”;

(Participante 1) – “Eu estou neste corpo... Eu tenho que chorar...”;

(Participante 5) – “Não ser o que era porque eu era uma pessoa cheia de vida… Não parecia ter

a idade que tinha, era uma pessoa mesmo, não sei, tinha uma energia fantástica pronto...”.

3.2.2.1.1.2 – Atitude Face à Gestão dos Medicamentos

O ICN (2005:78) define atitude face à gestão dos medicamentos como: “opinião acerca do regime e tratamento medicamentoso.”

Ao longo do estudo, os participantes demonstraram, por diversas razões, ter comportamentos ambivalentes face à gestão farmacológica. Verificou-se que algumas atitudes facilitavam a vivência das transições enquanto outras eram prejudiciais, dando origem a várias categorias que através do método de comparação constante culminaram na categoria conceptual Atitude Face à Gestão dos Medicamentos.

3.2.2.1.1.2.1 – Atitude positiva face à gestão dos medicamentos

Verifica-se que os participantes que têm esta atitude, acreditam nos profissionais de saúde que os acompanham e estão habitualmente concentrados e envolvidos no seu tratamento (ver o ponto 3.2.3), desenvolvendo esforços para lidar com as transições.

(Participante 1) – “Tomo muitos medicamentos, mas tenho que os tomar... São importantes para

a minha recuperação" (Confia plenamente na equipa de saúde do hospital e acredita que é com a ajuda dela que vai recuperar);

(Participante 5) – “O Lasix® tomo de manhã e ao lanche… Ela disse que quer que as tensões

baixem e eu tenho tido as tensões baixas…”.

3.2.2.1.1.2.1 – Atitude negativa face à gestão dos medicamentos

A análise revelou que uma atitude negativa face à gestão dos medicamentos promove o afastamento entre participantes e profissionais da saúde e diminui o envolvimento destes na procura de soluções para os problemas.

Desejos de carácter individual

Um dos factores identificados como prejudiciais à gestão do regime terapêutico foi a incompatibilidade deste, com alguns dos desejos de natureza individual por parte dos participantes, o que leva, por vezes a afastarem-se do tratamento planeado

(Participante 1) – “Posso parar e não tomar a medicação na noite de Natal!? Gostava de poder

beber um copo de vinho à refeição...”.

Os medicamentos fazem mal à saúde

A crença de que os fármacos (e os seus efeitos secundários) são prejudiciais à saúde impede a adesão ao regime terapêutico, aumentando o compromisso ao nível dos processos corporais que, como vimos (ver o ponto 3.1.1.2), dificulta a reconstrução da autonomia face ao autocuidado.

(Participante 3) – “Não… Não acho isso importante porque eu sou contra (ri-se)… Sou contra a

medicação…”;

(Participante 5) – “Depois ao almoço estava a tomar uma Aspirina®… Há 2 dias que não tomei a

ver se descansava um bocadinho que a Aspirina® também é muito forte”;

(Participante 5) – “Mas também há o outro… O Ramipril®… E então esse, é que só ainda tomei

um… E lá diz de manhã… Mas para não estar a misturar e porque tive a sensação de que ele fazia o mesmo efeito do Lasix®”.

Constata-se que, algumas das tentativas para aumentar a adesão, quando não dirigidas ao cerne do problema (crença), podem aumentar o sentimento de desconfiança, contribuindo decididamente para a recusa farmacológica.

(Participante 5) – “E receitaram-me o Ramipril®… E estava renitente em tomar, porque tiraram-

me os papeis… Irrita-me… Fico desorientada… Deve ter sido… Pronto não interessa…”.

A polimedicação é também um factor que contribui para esta atitude negativa, conduzindo muitas das vezes a escolhas pessoais baseadas em crenças, sem qualquer evidência científica.

(Participante 5) – “E então ela receitou-me 3 qualidades de comprimidos, à base de… [...] Mas

eu como ando a tomar tanta coisa tenho feito gazeta…”;

(Participante 5) – “Andava a tomar os complementos vitamínicos, deixei de tomá-los por estar a

tomar tanta medicação”.

Por último, a existência, no passado, de complicações de saúde relacionadas com a ingestão de medicamentos influencia, de igual modo e negativamente, a adesão ao regime medicamentoso.

(Participante 5) – “E portanto, todas as porcarias que eu tomei, eu já não gostava de antibióticos

porque sabia que me faziam muito mal, portanto evitava tudo o que era antibióticos e medicamentos complicados, eu não os tomava”.

Auto-medicação

Observaram-se ainda comportamentos de auto-medicação, em que se verifica um paralelismo com esquemas terapêuticos prescritos para experiências de transição anteriores, ou a adopção de fármacos por aconselhamento de terceiros, quando supostamente aos olhos de um leigo, para problemas semelhantes, o tratamento deve ser igual.

(Enf-Inv) – “E o que tem feito para essa dor?

(Participante 3) – Tenho uma pomada que aplico no joelhos… Já aplicava anteriormente e

continuo a aplicar...

(Enf-Inv) – E quem lhe receitou essa pomada?

(Participante 3) – Foi o médico de família e já faço há alguns anos…

(Enf-Inv) – Não acha que agora a situação mudou e que devia ser reavaliada?

(Participante 3) – Isto já é antigo... Já estou habituada...”;

(Participante 5) – “Eu sei que é um medicamento que acabou por ninguém me receitar. Mas como

eu tirei a vesícula e perguntei a um colega do meu sogro que também tirou a vesícula, o que é que ele tomava, e ele tomava o Kreon® de vez em quando… Eu depois comprei, tomava aquilo só de vez em quando se estava mais cheia e de vez em quando, se me sinto mais mal disposta... “.

Atitude passiva (desinteresse)

A análise revelou também a existência de um caso que (embora admitindo ser o prestador de cuidados quem geria a sua terapêutica), não atribuía qualquer importância ao controlo farmacológico (ausência de envolvimento – Ver o ponto 3.1.3), desconhecendo para que serviam os fármacos que tomava.

(Enf-Inv) – “E a medicação que faz, quando toma?

(Participante 2) – Tomo à noite e de manhã... Mas ela (filha) é que sabe...”

Neste caso, a atitude perante a gestão dos medicamentos é condicionada quer pelo Locus de controlo Externo (ver o ponto 3.2.2.2.1.2), como pela dificuldade em gerir o stress emocional.

3.2.2.1.1.3 – Atitude Face ao Cuidado

Esta subcategoria reúne um conjunto de opiniões reveladas pelos participantes, acerca do tratamento e do prestador de cuidados de saúde (ICN, 2005) que, no seu conjunto, promovem comportamentos que influenciam a vivência das transições.

3.2.2.1.1.3.1– Atitude positiva face ao cuidado

Esta subcategoria emerge dos dados de vários participantes que consideravam o tratamento proposto eficaz e útil ao processo de reconstrução da autonomia. Esta atitude positiva fortalece a confiança dos participantes face à possibilidade de recuperarem a autonomia aumentando a sua força de vontade para se envolverem no desenvolvimento de esforços, para lidarem com as transições.

(Participante 1) – “Eu vejo que com a fisioterapia eu vou conseguindo ficar melhor... Por cada

tratamento que faço eu sinto que fico melhor... Por vezes não é objectivo mas, eu sinto que estou melhor...”;

(Enf-Inv) – “O que o tem ajudado mais a atingir esse objectivo?

(Participante 2) – O Sr. Enfermeiro e o terapeuta têm-me ajudado... Eu gosto quando bulem

comigo... E quando dizem coisas para me animar... “;

(Participante 5) – “Portanto eu estou a fazer um sacrifício enorme… Porque ela (médica) pediu –

Olhe, acrescente isto ao café e o máximo que pode beber é meio litro”.

3.2.2.1.1.3.2– Atitude negativa face ao cuidado

Esta atitude surge do descontentamento das pessoas face ao cuidado que lhe está a ser prestado e emerge quase sempre associada a situações de falta de comunicação entre os profissionais de saúde e os participantes/famílias.

(Participante 4) – “Mas é que pelo menos podiam-me dar uma explicação mais cuidada às

pessoas que vêm embora”;

(Participante 5) – “Realmente só deve vir para esta profissão quem quiser… Porque há pessoas

que estão lá sem perfil algum… Eu não quero falar mais no assunto porque eu não quero acusar ninguém, não é”.

Constata-se assim que, o conceito de satisfação - avaliação subjectiva das reacções cognitivas e emocionais das pessoas, resultante da interacção entre as expectativas que estas têm relativas ao cuidado ideal e a sua percepção sobre o cuidado prestado (Johansson, Oléni & Fridlund, 2002) - interfere com o processo de reconstrução da autonomia.

(Participante 1) – “Várias vezes eu acordei e desfiz a fralda toda durante a noite. Caí varias vezes

abaixo da cama (caía bem que eu segurava-me) porque queria sair dali, queria fazer as coisas... Não sou pessoa para usar fralda”;

(Participante 5) – “E depois temos, conforme nos aturam a nós, de aturar temperamentos que não

nos entendem… Esta Sra. de hoje não, mas às vezes tem cada uma… O que vale é que estão cá pouco tempo”.

3.2.2.1.1.3.3– Atitude passiva face ao cuidado

Este tipo de atitude, influenciada por emoções negativas (ver o ponto 3.2.2.1.2.2), afasta os participantes do problema e diminui a sua confiança no futuro, dificultando a acção auto-iniciada e prejudicando assim a vivência das transições.

(Enf-Inv) – “E as refeições... Come na cama?

(Participante 2) – É ela (filha) que me dá com a seringa... Eu como sopa... Gosto muito de sopa...

(Enf-Inv) – Porque é que continua a comer com a seringa... Antes comia com a seringa?

(Participante 2) – Eu não consigo comer na cama... Assim é mais fácil (disse isto como se agora

isso fosse uma tarefa que já não lhe cabia a ele fazer)...”;

(Enf-Inv) – “Faça, por favor, força nas pernas…

(Participante 4) – Não… Sr. A, não é isso… O meu filho puxa-me para cima de uma vez…”.

3.2.2.1.1.4 – Volição

Ao longo das entrevistas, verificamos que os participantes faziam escolhas conscientes, direccionadas para o bem-estar pessoal. Algumas surgiam de uma força interior