3.2.2.1 – O Status Psicológico
EMOÇÃO (Factor
Intrínseco ao Sujeito) Emoções que dificultam Sentimentos de Impotência Falta de Esperança Cansaço Solidão Desamparo Medo Culpa Angústia Desespero Ansiedade Sofrimento Angústia Espiritual Emoções que facilitam Esperança Emoções ambivalentes TRANSIÇÕES Condiciona EMOÇÃO (Factor Intrínseco ao Sujeito) Emoções que dificultam Sentimentos de Impotência Falta de Esperança Cansaço Solidão Desamparo Medo Culpa Angústia Desespero Ansiedade Sofrimento Angústia Espiritual Emoções que facilitam Esperança Emoções ambivalentes TRANSIÇÕES Condiciona EMOÇÃO (Factor Intrínseco ao Sujeito) Emoções que dificultam Sentimentos de Impotência Falta de Esperança Cansaço Solidão Desamparo Medo Culpa Angústia Desespero Ansiedade Sofrimento Angústia Espiritual Emoções que facilitam Esperança Emoções ambivalentes TRANSIÇÕES Condiciona
3.2.2.1.2.1 – Emoções que Facilitam as Transições
No quadro 16, poderemos consultar a matriz síntese de toda a codificação realizada, ao longo do estudo, relacionada com as emoções que facilitam as transições.
Quadro 16 - Emoções que facilitam as Transições
CODIFICAÇÃO ABERTA CODIFICAÇÃO AXIAL
Unidades de registo (Exemplos) Categorias Substantivas Categoria Conceptual (NC1) – O que o faz caminhar para a autonomia – A
esperança de que vai melhorar continuamente. Acredito que vou melhorar
ESPERANÇA: Emoção com as características específicas: Sentimento de ter possibilidades, confiança nos outros e no futuro, entusiasmo pela vida, expressão de razões para viver e de desejo de viver, paz interior, optimismo; associada ao traçar de objectivos e mobilização de energia (ICN, 2005:87) (I-E) - “Está disposto a colaborar comigo no sentido
de tentarmos fazer com que fique gradualmente mais independente?
(P2) - Vamos lá ver... Eu gostava... (Olha fixamente para o entrevistador com um sorriso e os olhos carregados de esperança)”.
Eu gostava
(P3) - “Para a semana já devo mexer-me melhor e
não precisar tanto do meu marido…”. Poderei recuperar (P3) - “Agora começo a melhorar e as coisas estão a ir”. Estou melhor
(P4) - “Vamos a ver se eles me resolvem isto…”. Vamos ver se me resolvem isto (P4) - “E eu depois começando a dormir em
condições tenho outra disposição durante o dia…”. Vamos ver (I-E) - “temos assistido a um regresso da Dona R…
(P5) - Sim tenho recuperado”. Sinto que estou a melhorar (P5) - “O Sr. (fisioterapeuta contratado) diz que até
com um “apoiozinho” eu já conseguiria sozinha”. Talvez consiga
3.2.2.1.2.1.1 – Esperança
Quando analisamos os dados, a esperança é a emoção (vista como promotora de mudança) que emerge de forma mais expressiva.
Frequentemente, no estudo, vemos que está associada à auto-eficácia, o que leva a supor que, em conjunto, potenciam o envolvimento do indivíduo no processo de reconstrução da autonomia face ao autocuidado.
fazer coisas... Hoje já fiz a barba e lavei os dentes sentado na casa de banho... Acredito que vou melhorar!”.
Conclui-se assim, com base nos dados, que a esperança surge, da sensação de evolução e domínio progressivo da situação (factor intrínseco ao sujeito), tendo como principal resposta uma projecção futura de objectivos e metas a atingir direccionadas para a autonomia e o bem-estar.
(Participante 1) – “Mas o que eu quero mesmo é ir visitar a oficina... E acredito que vou poder
guiar outra vez... A pé, não consigo...”;
(Participante 3) – “Agora começo a melhorar e as coisas estão a ir… Ainda não estão no
normal, mas estão a ir ao sítio… Não estou aleijada… Não estou… Está tudo a correr bem...”;
(Participante 5) – “No entanto, pedi ao meu marido que me compre um livro… Afinal eu li bem!
Li assim, na mesma, rápido…”.
Outro factor relacionado com o aparecimento desta emoção é a confiança que os indivíduos têm de ver os seus problemas resolvidos a curto ou médio prazo, sendo que por vezes ela surge de uma simples frase que ao gerar o sentimento, a transforma numa meta a atingir ou numa estratégia de coping para controlar outras emoções (ver o ponto 3.2.4.1.2).
(Participante 4) – “Agora o médico disse, aquele que anda sempre de barbas, diz que eu saio
de lá a andar… Saio de lá a andar (frisa). Agora eu tenho que dar aqui um jeito (está a aguardar uma neurotomia dos nervos recorrentes posteriores)”;
(Participante 4) – “Eu estou à espera a ver se me operam para regressar à minha vida…”.
Isso permite concluir que a esperança pode ser induzida, principalmente naqueles que apresentam um Locus de Controlo Externo, favorecendo a participação dos indivíduos nas actividades de promoção da autonomia.
(Enf-Inv) – “A partir de hoje passa a vir comer à mesa e deixa de comer com a seringa, pode ser?
(Participante 2) – “Era bom… Eu queria…”.
3.2.2.1.2.2 – Emoções que Dificultam as Transições
Emoções são “sentimentos e disposições para manter ou abandonar acções tendo em
conta sentimentos de consciência de prazer ou dor” que “aumentam habitualmente em
períodos de grande stress, perturbação mental ou doença, e durante várias fases de transição da vida” (ICN, 2005:85). Neste ponto abordam-se aquelas que emergiram do estudo como
perturbadoras do processo de transição. 3.2.2.1.2.2.1 – Sentimentos de Impotência
É uma emoção que constatamos estar muito interligada com a dependência para o autocuidado, situação que habitualmente promove o seu aparecimento e com a diminuição da auto-estima que, habitualmente, é potenciada pela existência desses sentimentos, promovendo
uma atitude negativa perante as transições, o que simultaneamente vai retroalimentar os sentimentos de impotência.
(Participante 1) – “Eu preciso dela para tudo... A minha mulher tem de ajudar-me a vestir, a passar para a cadeira, a arranjar a comida para eu poder comer, a usar o urinol na cama ou a ajudar-me no WC... Agora não sou Sr. de nada... Preciso dela para tudo”;
(Enf-Inv) – “E porque é que não vai sempre?
(Participante 2) – Às vezes estou sozinho e não posso... É preciso que me levantem e me
ponham na cadeira...”;
(Enf-Inv) – “Se o Sr. tentasse vestir-se sozinho acha que não ía conseguir?
(Participante 2) – Eu acho que não… Ainda não dobro assim os dedos e tal… (aponta para o
lado parético com um olhar de algum desanimo)”.
Existem, no entanto, outras situações identificadas como promotoras, tais como a existência de défices motores que limitam o movimento, a comparação com o estado funcional anterior e a sensação de perda de capacidades perante os outros.
(Participante 1) – “Eu não consigo ir para a varanda por causa do degrau. Tenho uma varanda
tão boa e não posso lá chegar.";
(Notas de Campo 1) – Manteve-se muito choroso, recorrendo por vezes a frases como – "Porra!
Olha como eu estou! Sempre tive tanta força e agora nem um lenço consigo tirar sozinho!";
(Participante 1) – “Esta semana explodiu uma lâmpada e eu não pude fazer nada... A minha
mulher ficou em pânico e eu só pude lhe dizer aonde estavam e como se faziam as coisas... Teve que ser ela a fazer tudo... Eu não lhe pude fazer nada... Sou um inútil... Até para coisas simples...".
Todas estas situações, fazem com que, os indivíduos, quando experimentam este tipo de emoção, tenham comportamentos que dificultam a progressão para a autonomia, nomeadamente a inibição da acção, deixando de realizar actividades que já estavam ao seu alcance ou isolando-se socialmente pelo medo de não serem aceites pela sociedade da mesma forma que o eram anteriormente.
(Participante 1) – “Eu e o meu compadre assumimos a direcção do condomínio... Agora neste
estado já coloquei o meu lugar à disposição... Assim não tenho utilidade nem cabeça para tratar do que é necessário tratar...”;
(Enf-Inv) – “Está na hora de começar a comer com esta mão? O que acha?
(Participante 2) – Acho que ainda não consigo. O terapeuta também quer que eu coma com
este lado mas ainda não consigo.”;
(Participante 5) – “Fui ler isto hoje e li bem (consentimento informado) … – disse – Pode ser que
eu consiga, mas estou convencida que não sou capaz de ler.”;
(Enf-Inv) – “Disse estudar com eles… E agora não consegue?
(Participante 5) – Ainda nem tentei… Agora nunca mais aguentei…”.
Quadro 17 - Matriz síntese da categoria Sentimentos de impotência
P C CODIFICAÇÃO ABERTA CODIFICAÇÃO AXIAL
Categorias Substantivas Categoria Conceptual 1 76 Nem um lenço consigo tirar SENTIMENTOS DE IMPOTÊNCIA
Sentimento de falta de controlo numa situação presente ou acontecimento imediato, reduzida capacidade de escolha, incapacidade de agir pela convicção de que as suas acções não vão afectar significativamente os resultados (ICN, 2005:87). 1 77 Estou sempre a pensar nisso
2 51 Não consigo. 2 52 Vamos lá ver 2 112 Ainda não sou capaz 5 97 Nunca mais aguentei 3.2.2.1.2.2.2 – Falta de Esperança
A falta de esperança demonstrou ser uma das emoções que mais frequentemente pode ser conotada como prejudicial à recuperação da autonomia face ao autocuidado.
A perda da liberdade devida aos défices resultantes do evento gerador de dependência e a incapacidade para realizar alguns desejos, que parecem difíceis de alcançar, fazem com que os participantes experimentem este tipo de sentimentos:
(Participante 2) – “Perdi tudo porque não me deixa andar na minha rotina... Antes andava por
aqui e por ali... Fazia o que era preciso e andava bem... Agora, não faço nada... Perdi a liberdade de andar para onde queria... Andava de carro também... Agora não... Tinha o carro e podia ir a qualquer lado... Graças a Deus ia andando... Agora acabou...”;
(Participante 4) – “Quero voltar aquilo que era… Voltar a andar, sem dor… (diz a chorar
convicto de que é um objectivo que não está ao seu alcance)”.
Os sentimentos de perda de controlo sobre a vida e sobre o próprio corpo, levam a ponderar negativamente sobre o futuro, questionando se faz sentido lutar ou desistir.
(Participante 1) – “ás vezes estou na cama a sonhar que consigo andar, consigo fazer tudo e
depois acordo e... Vejo que nada do que sonhei é realidade e tenho que pegar na perna para começar a andar. Será que vale a pena?” - Diz isto demonstrando grande frustração”;
(Participante 1) – “Tenho pensado muito em ir para um lar para não chatear a minha família... E
assim ninguém se preocupa comigo e a minha esposa também não tem que fazer este trabalho todo”;
(Notas de Campo 2) – Manteve-se durante toda a entrevista com um olhar fixo no entrevistador,
esperando encontrar uma esperança que lhe faltava nesse momento... Sempre que lhe era proposto algum desafio dizia um pouco incrédulo...
(Participante 2) – “Vamos lá ver... Eu queria... Era bom, não era...”;
(Participante 5) – “Porque estou a lutar… Se calhar às vezes sem sentido, se calhar para
nada… Os pulmões têm cá muito trabalho…”.
Esta dúvida e a falta de confiança no futuro, habitualmente têm como resposta o desinteresse pelas actividades de promoção de autonomia, relacionado com a ausência de objectivos pessoais a cumprir.
(Participante 1) – “Custa imenso levantar todos os dias de manhã... Estar na cama e não
apetecer levantar… Eu hoje só me levantei porque sabia que o Sr. vinha cá...”;
(Enf-Inv) – Quais são os seus objectivos daqui para a frente?
(Participante 2) – São só pensamentos... Agora o fazer concerteza não será fácil...”;
(Participante 5) – “Eu creio que o maior problema é ir por aqui fora… Retomar as coisas boas…
Essas coisas…”.
Para concluir, verifica-se que, por vezes, durante os processos de transição, a ocorrência de complicações com retrocesso no estado de saúde aumenta o risco potencial de se desenvolverem, ou de se agravarem, os sentimentos de falta de esperança.
(Participante 5) – “Foi horrível, três dias que pareceram um mês… Depois, melhorei um
bocadinho, embora mantenha os problemas dos edemas, que comecei agora a tomar medicamentos fortes e hoje de manhã já se notava aqui o joelho (refere-se à diminuição do edema), mas tenho aqui este problema grande, não é… Fiquei pior…”.
A codificação da categoria Falta de Esperança pode ser consultada no quadro 18.
Quadro 18 - Matriz síntese da categoria Falta de Esperança
3.2.2.1.2.2.3 – Ansiedade
A ansiedade emerge, normalmente, nas situações em que os participantes têm dúvidas respeitantes ao evento gerador de dependência, estando expectantes relativamente ao futuro pessoal e familiar.
(Participante 1) – “Nós somos os dois sozinhos e eu não sei como vão ser as coisas...”;
(Participante 5) – “Estou na expectativa do que é que me irá acontecer”.
Esta emoção, sendo potenciada pela falta de esperança, aumenta a concentração dos indivíduos face aos problemas o que implica, habitualmente, distúrbios do sono que diminuem a energia física e psicológica dos indivíduos dando origem ao cansaço (outra emoção) que influencia negativamente a reconstrução da autonomia.
(Participante 1) – “Sem eles eu não consigo dormir… Estou sempre a pensar como vai ser
daqui para a frente…”.
3.2.2.1.2.2.4 – Cansaço
Os dados revelam que o cansaço surge normalmente associado a alterações nos processos corporais (dispneia, dor) ou a outras emoções (falta de esperança; sentimentos de
P C CODIFICAÇÃO ABERTA CODIFICAÇÃO AXIAL
Categorias Substantivas Categoria Conceptual 1 81 Será que vale a pena