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Meleis et al. (2000:18), referem que as transições não são discretas ou mutuamente exclusivas, podendo coexistir múltiplas sequenciais ou em simultâneo. Assim, para efeitos de estudo devem ser abordados todos os tipos de transição relevantes para os participantes, de forma a atender às mudanças e exigências que estas trazem às suas vidas.

O ambiente familiar (onde os participantes foram reinseridos após o regresso a casa) demonstrou-se rico em factores geradores de mudança, expondo-os as condições de vulnerabilidade.

Considera-se a família como “um sistema, em que há interdependência entre os seus

membros, onde cada indivíduo é um subsistema bem diferenciado, que interage com todos os outros, ocupando um papel e desempenhando funções próprias, reconhecidas pelo grupo

(Wright & Leahey, 2002:41).

A transição para uma situação de dependência, de um dos elementos, gera stress na família e obriga a reorganizações adaptativas de todos os seus membros, para que o possam apoiar e substituir no papel anteriormente desempenhado.

A análise dos dados revela que, tal como nos diz Martins (2002), a escolha do prestador de cuidados no interior da família, recaiu (a maioria das vezes) sobre a pessoa mais próxima e não sobre a mais competente para desempenho originando, frequentemente, situações de stress secundárias às exigências do novo papel.

(Prestador de cuidados 1) – “Eu não posso ir ao Centro de Saúde para as vagas... Não posso ir

para lá uma manhã para a sala de espera e deixar o meu marido sozinho em casa... Tenho que lá ir a correr quando ele vai para a fisioterapia e rezar para chegar antes dele... Fico sempre com o coração nas mãos”.

Os participantes, por conseguinte, interpretaram todas as alterações e tensões que se desenvolveram à sua volta, procurando compreender e adaptar-se à nova realidade.

Emerge assim dos dados um novo conceito que se constata ter influência na forma como os indivíduos lidam com a dependência no autocuidado, após o regresso a casa, a que chamamos de Stress do Prestador de Cuidados (ver o quadro 5)

Martins (2002:51), diz-nos ainda que “no início da doença há, pois, uma

desestruturação da família sendo esta obrigada, posteriormente, a redistribuir as suas tarefas”.

(Prestador de Cuidados 2) – “Eu agora até já ajudo menos o meu marido que, coitado, até anda

mal das costas... Mas eu por vezes tenho de sair... Não posso estar aqui sempre... O pai já sabe...”.

Acrescenta ainda que essa “tarefa […] não se circunscreve ao subsistema a que

pertence o elemento atingido mas reflecte-se nos restantes. Muitas das vezes terão mesmo de ser os filhos a realizar tarefas que até aí eram da exclusividade dos pais”, o que, por si só, gera stress nos indivíduos que são obrigados a enfrentar a nova realidade familiar.

Há ainda a realçar o papel dos elementos mais jovens da família que nem sempre compreendem a nova situação, gerando stress e obrigando os participantes a enfrentar uma nova transição.

(Participante1) - "O meu neto esteve aqui e disse "Oh Bu... Vamos dar uma volta que eu

empurro a cadeira! E eu disse: Não pode ser, o Bu não pode andar"

Todos estes dados originaram categorias substantivas que foram reunidas na categoria conceptual – Stress dos Elementos da Família (ver o quadro 5)

Quadro 5 - Exemplos da categoria Crise Familiar

CODIFICAÇÃO ABERTA CODIFICAÇÃO AXIAL

Unidades de registo (Exemplos) Subcategorias Conceptuais (P1) - “A minha mulher tem sofrido muito com isto... quando estive internado ela

esteve dias sem conseguir dormir... Emagreceu imenso... Ela preocupa-se muito comigo, coitada! Agora está exausta...Anda a dormir pelos cantos...” (P4) - “Não… Ele não vai… Ele não sai daqui… Ai (suspirou)…”

(P5) - “O meu marido também, mas coitado, sabe Deus, com Parkinson está a viver estas coisas todas… É por isso que ele também se exalta muito…”

Stress do Prestador de Cuidados

Sentimento de estar sob pressão e ansiedade ao ponto do prestador

de cuidados ser incapaz de funcionar de forma adequada física

e mentalmente. (P1) - “Ainda há bem pouco tempo era eu que a ajudava e levava o miúdo ao

infantário e agora... Está tudo ao contrário... São eles que me têm que transportar a mim”

(P4) - “Ela (nora) coitada… Passou a semana passada no hospital para preparar a alta dele e agora anda a trabalhar nas noites para compensar…” (P5) - “Agora cansam-me um bocadinho… Lá conversam… E depois ficam cá menos tempo… Acho que se sentem pressionados…”

Stress dos elementos da família

Sentimento de estar sob pressão e ansiedade ao ponto de os elementos familiares serem incapazes de funcionar de forma

adequada física e mentalmente.

Sintetizando, Schumacher (1996) diz-nos que a transição para o papel de prestador de cuidados não pode ser compreendida isoladamente da transição de saúde-doença vivida pelo indivíduo, uma vez que é este o factor gerador de toda a mudança.

Martins (2002:146) acrescenta que “com a existência de um problema acidental no seio da

família espera-se que esta use a sua capacidade auto-organizativa e as suas fontes de suporte para se reorganizar” promovendo assim a mudança.

No entanto, as duas categorias anteriores demonstraram que nem sempre isso é possível, gerando stress nos participantes e obrigando-os a mudar. Chegamos assim ao conceito de Crise Familiar, definido como:

Facto repentino que desequilibra a estabilidade mental, social e económica do grupo familiar, causando uma inadaptação e alteração temporária do desempenho normal da família. Dificuldade da família para resolver problemas, para reconhecer situações de mudança, para reconhecer recursos internos, para reconhecer redes externas de apoio, ambiente tenso, comunicação familiar ineficaz (ICN, 2005:77).

Em oposição, constata-se que há famílias que se adaptam e se reestruturam para a receber em casa os participantes, mantendo a estabilidade do sistema familiar (participante 3). Ressalva-se no entanto que, mesmo numa situação de Adaptação Familiar (categoria emergente), facilitada pelo carácter temporário da transição, também aqui foi exigido à participante que se organizasse para que rapidamente pudesse assumir o papel que exercia anteriormente, como se constata no exemplo seguinte:

(Participante 3) – “Para a semana já devo mexer-me melhor e não precisar tanto do meu

marido… Ele vai ter que retomar o trabalho…”.

Temos assim duas condições antagónicas que geram situações de stress, com influência no processo de recuperação da autonomia no autocuidado. É essencial, por isso, conhecer a “importância dos contributos da família para o desenvolvimento da integração do

próprio indivíduo. Nesse sentido é importante compreender como é que o indivíduo interpreta os acontecimentos e as interacções em que se envolve.” Martins (2002:148). Emerge assim o conceito unificador de Processo Familiar Alterado (ver a figura 9).

Figura 9 - Representação esquemática das relações entre as categorias Processo

Familiar Alterado e Actividade Executada pelo Próprio

Processo Familiar Alterado Stress do Prestador de Cuidados Stress dos Elementos da Família Actividade Executada pelo Próprio Crise Familiar Adaptação Familiar Influencia Processo Familiar Alterado Stress do Prestador de Cuidados Stress dos Elementos da Família Actividade Executada pelo Próprio Crise Familiar Adaptação Familiar Influencia Processo Familiar Alterado Stress do Prestador de Cuidados Stress dos Elementos da Família Actividade Executada pelo Próprio Crise Familiar Adaptação Familiar Influencia

Em analogia com a Teoria das Transições, esta subcategoria (Processo Familiar Alterado) pretende representar as “transições do tipo organizacional” (Meleis et al, 2000:17) com que os indivíduos foram confrontados no regresso a casa, à medida que tomaram consciência das alterações necessárias que tinham de ocorrer no interior da família.

S

obreposta às transições do tipo saúde/doença e organizacional, reconhecidas

anteriormente, identificou-se um terceiro tipo de transição relacionada com as alterações sociais com que os indivíduos se depararam após o regresso a casa, o que segundo Meleis et al. (2000:19) pode ser classificada como “situacional”. Segundo esta visão paradigmática, identificaram-se duas situações contíguas: uma por, os participantes, se sentirem isolados em casa, afastados de todo o contacto social e outra provocada pelo afastamento das pessoas que habitualmente lidavam com eles, deixando-os isolados dentro do contexto familiar.

Esta categorização dicotómica dos dados pode então ser agrupada numa categoria conceptual mais abstracta, com o nome de Isolamento Social (ver o quadro 6).

Quadro 6 – Matriz síntese da categoria Isolamento Social

CODIFICAÇÃO ABERTA CODIFICAÇÃO AXIAL

Unidades de registo (Exemplos) Categorias Substantivas Categoria Conceptual (NC1) - O indivíduo encontra-se isolado de todo o

contacto social, restringindo-se apenas aos familiares próximos.

(P5) - “mas para uma pessoa cheia de actividade, apesar dos 72 anos, estava aqui, que ia a Bragança, que falava com os meus netos, essas coisas todas que deixei…”

(P5) - “faz-me falta a minha actividade, os meus netos, poder estudar com eles, poder fazer as refeições que eles adoravam quando vinham aqui comer, não é… Eles vinha cá muitas vezes, sobretudo o mais velho, e era uma relação fantástica que tinham e que agora é limitada não é…”

(P5) - “Desde que saí do hospital que tenho saudades de ver a natureza…”

(P5) - “Continuo com aquela sensação de que… Então agora que a Primavera ainda está aí, continua tudo no lugar, sobretudo aqui no Porto, uma maravilha… E isso traduz-se nessa perda de não poder aproveitar…”

Afastamento da sociedade

Os participantes sentem-se isolados em casa, e afastam- se de todo o contacto social

Isolamento Social: Status

social que revela afastamento ou ausência de contacto

social

(P1) - “Uns ligam a perguntar como estou, outros nem querem saber...”

(E-I) - “E tem recebido muitas visitas... (P2) - Não... Agora estou para aqui...”

(P2) - “Falava com os meus amigos... Agora estou na cama...

(E-I) - E os seus amigos... Ainda não o vieram visitar? (P2) - Eu gostava mas agora estou para aqui...”

Agora estou para aqui

Observa-se um afastamento das pessoas que habitualmente lidavam com os

participantes

Analisando atentamente as duas últimas categorias conceptuais mais abstractas (Processo Familiar Alterado; Isolamento Social), verificamos que representam mudanças do tipo organizacional e situacional que resultam da interacção que os participantes mantêm com a família e com o meio ambiente que os rodeia, após o regresso a casa, sendo que todas elas influenciam o processo de recuperação da autonomia face ao autocuidado. Estas similaridades permitiram a sua agregação na categoria O que mudou à minha volta, representada na figura 10.

Figura 10 - Representação esquemática entre as categorias O que mudou à minha volta e a Actividade Executada pelo Próprio

Processo Familiar Alterado Inicia Isolamento Social

O que mudou à minha volta

Transições organizacional e situacional Actividade Executada pelo Próprio Influencia Processo Familiar Alterado Inicia Isolamento Social

O que mudou à minha volta

Transições organizacional e situacional Actividade Executada pelo Próprio Influencia