• Nenhum resultado encontrado

Em setembro de 2008, no primeiro ano de doutoramento, restabeleci contato com os jovens que haviam participado do debate ocorrido em maio de 2006 – tendo por intuito planejar uma estratégia de aproximação. Procurei Thurma e, além dele, pedi para encontrar também com Amendoim e com Miguel, e com outros parceiros de sua quebrada. Ele então me convidou para um “churrasco com pagode” na casa de um músico local – o Jão. Cerveja, maconha, cigarros, água e refrigerantes, carne, frango, linguiça, pão, paçoca; instrumentos de percussão para todos, ainda que improvisados com utensílios de cozinha, ali na hora. Músicas profanas e religiosas43, muita conversa, risada, análise política, sacanagens e amores – os assuntos mais recorrentes; alimentos e drogas eram consumidos, enquanto se ouvia um repertório musical eclético – do samba raiz carioca (Candeia, Cartola, Noel Rosa) aos raps e funks contemporâneos, incluindo canções dos presentes na confraternização: Miguel, Amendoim e Thurma (ver capítulo 3). O churrasco invadiu a noite e a “balada”

continuou, mais tarde em “Baile Funk”.

Ao chegar ao “baile”, deparei-me com um universo de festa, erotismo, prazer, transgressão, reciprocidades em que o consumo e o comércio de drogas eram um componente central. Na pista de dança, “lança-perfume” sendo aspirado em rodas de jovens enturmados, cantando, rindo e dançando. No banheiro masculino, um frenético entre e sai, com todos os espaços ocupados por jovens que cheiravam cocaína. Alguns de meus interlocutores confidenciaram sobre terem tomado “bala”

43 Uma das canções que foram cantadas com mais entusiasmo foi um samba evangélico chamado “Como Zaqueu”, de Regis Danese: “Como Zaqueu, eu quero subir; o mais alto que eu puder, só pra te ver, olhar para ti, e chamar sua atenção para mim; eu preciso de ti, senhor; eu preciso de ti, oh, pai; sou pequeno demais, me dá tua paz, largo tudo pra te seguir; entra na minha casa, entra na minha vida; mexe com minha estrutura, sara todas as feridas, me ensina a ter santidade; quero amar somente a ti, porque meu senhor é meu bem maior, faz um milagre em mim”.

(ecstasy) naquela noite; houve momentos em que eu não distinguia quem traficava ou era usuário – tão intenso o uso e a troca de substâncias.

Em parte das sociedades contemporâneas, as festas noturnas – chamadas de

“baladas” em São Paulo – compõem um campo privilegiado para a produção simbólica. Nestas manifestações experimentais, o consumo de substâncias psicoativas é um elemento recorrente. Diferentemente da obrigatoriedade típica dos rituais das sociedades tradicionais, estes “rituais contemporâneos” caracterizam-se como atividades de adesão voluntária, optativa e individual. O sujeito que usa determinada substância psicoativa ilícita o faz por meio de estímulos informais, seja de amigos, colegas ou de comerciantes. No caso das substâncias farmacológicas lícitas, há uma entrada por meio de prescrições repetidas e suplementares que se dão de maneira formal (médicos e especialistas da área). De uma forma ou de outra, as drogas chegam ao indivíduo como símbolos, cujo poder é dado tanto pelo efeito físico determinado quanto por um conjunto de significados para os que as ingerem – interação com o meio, pertencimento, alívio da dor, busca de intensidade e prazer, melhoria de relações, transcendência.

Dentro da diversidade de experiências de indivíduos em suas interações com substâncias, Eduardo Vargas (2008) sugere que o uso dos fármacos medicamentosos seguiria um princípio de extensão, isto é, de que a vida deve ser vivida tanto quanto possível; o uso de drogas sem finalidades terapêuticas, por sua vez, atualizaria outros modos de engajamento com o mundo que se pautariam por considerar a vida em intensidade (Vargas 2008, p.56). Se a busca de intensidades é característica de modos particulares de agenciamento dos sujeitos com o mundo por meio do uso de substâncias, o trabalho no tráfico também possui relações com tal busca por intensidades.

No “baile” que descrevi, em que compareci naquela noite, as performances apresentadas pelos jovens em turmas ocorreram por intermédio da exposição de seus corpos, pelas gestualidades, movimentos, roupas, adereços, danças, posturas que registram posições no mundo social. Esperteza, agressividade, atenção, dispersão, movimento, agilidade, força, sensualidade formam características performáticas que se inserem em um circuito das drogas ilícitas. Interessa reforçar que naquele momento eu não conseguia distinguir traficantes dos não traficantes, pois todos que

de alguma forma estavam envolvidos com substâncias, ali performavam de forma parecida: balanços corporais, olhares atentos, comunicação por sinais, interação com diversas pessoas em trocas de pacotes e cochichos. Nos circuitos das drogas ilícitas, diversas juventudes se cruzam em redes altamente complexas de relações sociais, pois muitos são os que de alguma forma participam do mercado das drogas (sendo vendedor, transportador, distribuidor ou consumidor). No baile, uma multiplicidade de encontros; “espaço-tempo reservado a micropolítica de alianças, reservado à composição do campo de afecções de cada indivíduo” (Barbosa 2006, p.131-132).

As drogas fazem parte de um universo de sociabilidade marcado por prazer, transgressão, reciprocidades que não se restringem àqueles que trabalham no tráfico.

A grande maioria dos jovens das quebradas não participa das atividades do tráfico, mas apenas performa em ocasiões de encontros – que marcam a micropolítica de alianças – com sinais linguísticos e corporais que embaralham as distinções entre

“bandido” e “mano”.

A participação no comércio de drogas se configura em uma possibilidade concreta de trabalho e de geração de renda para muitos jovens, de todas as classes. O tráfico de drogas faz parte da economia global e, como aponta Vera Telles, ele opera

“como outros tantos circuitos por onde a riqueza social globalizada circula e produz valor, tornando indiscerníveis as diferenças entre emprego e desemprego, entre trabalho e não-trabalho” (Telles 2006, p.174). O tráfico é uma atividade que compõe tendências atuais de consumo, estilo de vida e valores recorrentes entre jovens de todo o mundo. O risco como estilo de vida, o poder e o prestígio local, os estilos musicais como o rap e o funk – que em certas vertentes criam imagens de valorização de jovens associados ao crime –, a posição de força que os que comercializam drogas assumem frente a jovens de quaisquer classes e grupos sociais, assim como a posição de vulnerabilidade e risco com relação aos aparatos de repressão do Estado são fatores que se manifestam no desempenho corporal destes jovens. Tais performances revelam experiências acumuladas, seja no âmbito das relações interpessoais e institucionalizadas, seja através de informações concentradas num amplo espectro de falas e de imagens públicas veiculado pela TV ou cinema, pela imprensa ou pela literatura, e acabam por criar um conjunto de signos de identificação coletiva. Os aspectos comportamentais ocorridos nas últimas décadas,

assim como suas interconexões com mudanças culturais de fundo são, todavia, pouco considerados se comparados com a visão dominante – a proibicionista.

****

O “problema das drogas” no transcorrer do século XX não pode ser pensado fora do escopo da modernidade ocidental – mais especificamente da difusão do poder médico sobre os fármacos e de sua associação a uma política proibicionista. A demonização das drogas desconsidera o fato de que o uso de fármacos é amplamente estimulado pela medicina e pela indústria de medicamentos. Ocorreu no imaginário contemporâneo uma distinção entre certas drogas que fazem bem – aquelas prescritas pela terapêutica médica – e as drogas que fazem mal, aquelas proibidas em lei, com base sobretudo em argumentos da área da saúde que justificam tal proibição.

Transcorrida no século XX, tal distinção somada à criminalização de algumas substâncias engendram o fenômeno da “guerra às drogas”.

O cotidiano das gerações contemporâneas é mediado pelo consumo, e no cenário globalizado em que se dá o desenvolvimento das substâncias químicas por meio dos processos industriais, assistimos à difusão de novas drogas – lícitas ou ilícitas – através de estratégias da publicidade formal ou informal. O uso de drogas (lícitas e ilícitas) tornou-se uma prática social amplamente difundida: na busca de gozo, adrenalina ou mesmo alívio da tensão individual em uma sociedade

“hiperativa”, o uso de drogas tem sido estimulado mais do que reprimido. O proibicionismo se constitui também e, principalmente, em um difusionismo das drogas. Sobre esta ambivalência, Vargas (2008) propõe que as relações com as drogas, nas sociedades contemporâneas como a nossa, parecem configurar um dispositivo das drogas, no sentido que Foucault dá a dispositivo, como no caso da sexualidade – um problema de repressão e incitação ao consumo, uma criação moderna (Vargas 2008).

Adotar a hipótese de que a “questão das drogas” compõe um dispositivo das drogas implica considerarmos que a política de coibição se constitui em um poder de classificar, antes de ser um poder meramente repressivo (Foucault 2001); sugere que tal poder se espalha de maneira móvel e capilar, qualificando o legal e o ilegal, o saudável e o maléfico; indica uma rede de inteligibilidade para elementos

disparatados e heterogêneos de acontecimentos, fluxos e interações. O dispositivo, portanto, não é um objeto, mas antes um conjunto heterogêneo que estabelece as relações entre discursos, instituições, leis, linguagens, sujeitos. O dispositivo é um conjunto multilinear que segue direções diferentes, formando processos sempre em desequilíbrio (Deleuze 1999). Seguindo esta hipótese, as drogas, ao serem colocadas em um discurso, são submetidas a um mecanismo crescente de estímulo, a um processo de difusão de usos e tráficos diversificados; o “dispositivo das drogas”

constitui-se em uma economia política das drogas – uma teia de advertências, recomendações, explicações sobre substâncias, comportamentos e perfis humanos.

Neste sentido, o dispositivo das drogas produz o próprio fortalecimento da “droga”

como modelo classificatório da vida social.

A “questão das drogas” tornou-se objeto de disputa entre as escolhas individuais e uma posição política articulada em âmbito internacional que, antes de minimizar o uso de drogas, disseminou-o em larga escala – e para amplos setores da população. Na sequência proponho um exercício analítico, visando a ampliar minha contribuição ao debate: desconstruir discursos e práticas institucionais sobre

“drogas” e saúde, abordando suas interconexões com questões econômicas e políticas que permeiam o fenômeno das drogas.