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FRIEZA DO CÁLCULO E SOFRIMENTO: A VIDA LOKA DE ZEZINHO 105

Neste capítulo analiso as ambiguidades na experiência de um adolescente ao passar pelo sistema socioeducativo; considero a incorporação no cotidiano deste adolescente de mecanismos de gestão da sua vida e as formas de lide com tal engenharia socioeducativa; sua experiência, suas relações e suas interações com os

“outros” – os técnicos do sistema, a mãe, os amigos, os companheiros de trabalho no tráfico, o próprio pesquisador. Ao acompanhar uma trajetória de cumprimento de medidas socioeducativas, procuro recuperar a voz deste personagem e descreve de que modo os sentimentos com relação à sua passagem pelo sistema socioeducativo são incorporados em sua vida cotidiana (Das 2006). Parto do pressuposto de que as emoções são experiências e estratégias retóricas pelas quais as pessoas expressam, reclamam, promovem, proíbem ou justificam suas ações (Epele 2010). Esta abordagem permite a investigação das experiências individuais de sofrimento em um contexto delimitado, observando as ambiguidades das práticas institucionais voltadas para abrandar o sofrimento dos sujeitos tidos como excluídos e vulneráveis e que, paradoxalmente, resultam em sua intensificação (Kleinman; Das; Lock 1997).

A análise da experiência subjetiva de um adolescente durante seis meses de cumprimento de duas diferentes medidas socioeducativas revela o modo pelo qual a intervenção socioeducativa, visando o objetivo institucional de “reinserir” o jovem, pode situá-lo no limite das possibilidades de integração, intensificando as aflições de uma vida sob constante suspeição. A abordagem aqui adotada permite observar de que modo o jovem elabora significados sobre o sistema socioeducativo e como expressa por meio de palavras, gestos e movimentos suas contradições.

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105 Este caso foi apresentado no artigo: “Entre a frieza, o cálculo e a “vida loka”: violência e sofrimento no trajeto de um adolescente em cumprimento de medida socioeducativa” publicado na Revista Saúde e Soc. São Paulo, v.20, n.1, p.156-170, 2011.

Conheço Zezinho desde que ele tinha 11 anos de idade; em 2009, quando acompanhei sua trajetória de medidas socioeducativas, ele contava 16 anos.

Trabalhei com sua mãe, Dona Ivone, em um programa de geração de renda, do qual eu era “facilitador”, na cidade localizada nas franjas da região metropolitana de São Paulo . Zezinho é filho adotivo de Dona Ivone (63) e de Seu Patrício (61). Conversei com Dona Ivone em 2009, após três anos sem nos vermos. Ela me contou, então, que o filho havia “virado traficante”. Sua expressão facial demonstrava vergonha.

Chegou a cometer um “ato falho”, negando ser sua mãe. Quando perguntei a ela se Zezinho era seu neto – era o que eu pensava – ela respondeu: “meus filhos... são todos honestos”.

Zezinho foi um dos meus principais interlocutores na quebrada da cidade do entorno de São Paulo. Sua casa é de alvenaria, tem aproximadamente 40m2 e é situada em um terreno de 150m2 onde há mais duas casas, de tamanho semelhante, em que moram filhos e netos de Dona Ivone e de Seu Patrício. Famílias extensas, com laços variados além da consanguinidade e uma rede de ajuda e proteção mútua que difere muito do modelo pretensamente “estruturado” da família nuclear de classe média no Brasil (Fonseca 2005). Exatamente na frente da casa de Zezinho, existe um ponto de venda de drogas: uma lojinha. O ponto é estratégico, pois ao lado da casa há um beco e, no final deste, um rio e um matagal para onde fugir da polícia.

Entre fevereiro e julho de 2009, Zezinho ganhou dinheiro, foi preso, recebeu medida de internação, saiu e esteve em cumprimento da medida de liberdade assistida.

No dia 20 de fevereiro, véspera de carnaval, Zezinho estava vendendo cocaína e crack em frente à sua casa. Eram mais ou menos 23 horas e ele já contabilizava cinco mil reais em vendas e mil e duzentos de lucro para si. Da frente de casa, com seu pai a aproximadamente 30 metros, ele viu a polícia chegando: “eu fiquei olhando, olhando para ver se era a força (polícia)... aí quando eu vi era mesmo e já estava perto. Aí eu joguei do lado a mercadoria e fui para perto do meu pai que

estava na porta do bar”. A polícia o abordou, perguntou de quem era a droga e o dinheiro, puxou seu braço, deu uma bronca em seu pai, que não entendia o que estava acontecendo. O pai o acompanhou até a delegacia. Durante o trajeto, uma série de xingamentos e provocações foi proferida contra ele pelos policiais. Zezinho foi encaminhado para a Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fundação Casa), órgão do Estado de São Paulo responsável pela internação de adolescentes.

Tive a oportunidade de reencontrar Zezinho na Fundação Casa durante a internação. Em 2009, Thurma desenvolveu oficinas dentro da Fundação Casa, uma atividade de parceria entre a organização responsável pela gestão da unidade e a ONG em que o rapper trabalhava. Participei com Thurma em cinco oficinas, entre fevereiro e abril de 2009. O projeto tinha como “produto final” letras de rap; nas

“Oficinas da Palavra” Thurma e outros “oficineiros” realizavam audições de músicas, seções de filmes e colhiam depoimentos dos jovens para levantarem ideias e palavras que servissem como matéria prima para a composição de raps. Nos encontros Thurma lembrava que a composição de letras de rap demanda pesquisa. Os os primeiros esboços de letras dos internos enfatizavam a experiência de participar do crime, crítica virulenta ao Centro de Internação e, também, a expressão do lugar afetivo e simbólico, para o qual eles declaram fidelidade – suas quebradas. Tais conteúdos foram proibidos pela direção da unidade, que alegou que os conteúdos faziam “apologia ao crime”. Thurma insistiu na ideia de que eles deveriam se expressar livremente, mas se viu em uma “saia justa”: ou orientava para conteúdos mais “positivos” ou as oficinas teriam que parar. Houve uma censura da instituição, exigindo que as letras falassem da “mudança” que os adolescentes passavam na internação, do projeto de vida “positivo” elaborado a partir do cumprimento da medida; da importância da família, do trabalho, dos “valores sociais positivos” que deveriam guiar a vida dos jovens.

Zezinho foi um dos adolescentes mais participativos nas “oficinas da palavra”. Seu rap foi um dos mais elogiados pelos técnicos e direção da Unidade. A psicóloga responsável teve em seu rap um dos elementos para escrever um relatório positivo para sua saída, assim como uma carta escrita para a mãe que exponho mais abaixo. Quando Zezinho apresentou o rap, em uma das oficinas, sua psicóloga

chegou a chorar. Dizia gostar muito do Zezinho e de sua mãe, tida como um exemplo de comprometimento. A canção foi uma das “chaves” para a saída do garoto do centro de internação:

“Quando se tem tudo ao mesmo tempo não tem nada, ó minha mãe, me desculpe minha amada; não soube aproveitar tudo o que eu tinha, e hoje eu me encontro longe da minha família, os dias aqui dentro eles são todos iguais, é aí que eu me lembro dos conselhos dos meus pais; penso a cada dia e penso a cada ano, penso em sair, continuar te amando, quando eu sair vou fazer tudo ao contrario, vou arrumar um trampo pra ganhar o meu salário; poucas pessoas conseguem me entender, e quem não me entende não sabe o que é sofrer; aí guerreiro, nunca deixe de sonhar quando o sonho é verdadeiro faz as algemas quebrar, vou reconstruir minha vida no mundão, detenção eu to suave é só família sangue bom; vim de uma família toda trabalhadora guiada por 10 anjos e pela mãe protetora, deus tocou minha alma e mudou a minha vida, trouxe de volta toda a minha família, como ele é bom e trabalha com a verdade, obrigado meu deus por me livrar das maldades; pode ter certeza que eu vou mudar de vida, quero ficar ao lado de toda a minha família, não agüento mais ficar longe de ti, pois desde aquele dia eu nunca te esqueci, me desculpa mão se um dia eu te fiz sofrer, mesmo longe de ti eu nunca vou te esquecer, pode acreditar que isso tudo vai mudar, e muito orgulho eu ainda vou te dar, hoje eu me encontro aqui no sofrimento, mas pra ficar ao seu lado eu caminho contra o vento; minha força esta se esgotando, por isso eu desabafo e sigo cantando, vou me expressando da melhor maneira, pra que você me ouça e me compreenda, quando eu sair nos vamos bater um a bola, e não ficar aqui dentro contando as horas, ficar nesse lugar é muito difícil onde a saudade se torna um vício; mas eu sou mais um com uma história triste, mas homem que é homem nunca desiste, eu vou mudar de vida porque eu sei que sou capaz, e dizer pra minha mãe, mãe crime nunca mais; aí guerreiro nunca deixe de sonhar quando o sonho é verdadeiro faz as algemas quebrar, vou reconstruir minha vida no mundão, detenção eu to suave é só família sangue bom”.

Zezinho mostrou-se hábil nas relações institucionais e com os colegas de internação. Durante as oficinas observei seu papel de liderança. Ele era o “porta-voz”

do grupo. Segundo Thurma, que acompanhou o garoto semanalmente e já o conhecia – são vizinhos de quebrada, Zezinho era um exemplo de inteligência: “boa conversa”, “sagacidade”, “humilde”. Zezinho é um “menor mente” – reconhecido pelos demais adolescentes internados como alguém que é “humilde”, “tranquilo”, justo e que “fortalece” os companheiros e consegue prestígio através do seu “papo”

(Neri 2009, p.6). Zezinho tem o dom da palavra, me disse Thurma.

Ainda encontrei Zezinho internado em maio de 2009. Fui convidado, como diretor de uma ONG, para a cerimônia de formatura dos internos. O espaço é uma

prisão: três complexos de grades, portas e seguranças até que se chegue ao local onde os adolescentes permanecem. Quando cheguei à última grade, observei os formandos descendo para o evento: divididos em grupos de cinco, roupas iguais, cabelos raspados, cabeças baixas e mãos para trás; a cada segurança por que passavam diziam: “dá licença senhor”, “dá licença senhora”. Entrei pelo corredor, recebendo indicação da sala para onde deveria me encaminhar. Os adolescentes estavam em uma sala com seguranças, de um lado, e nós fomos para outra, onde seria o evento.

Os educadores, psicólogos e outros técnicos ficaram com os convidados. Quando estávamos acomodados, trouxeram os jovens para a sala; quarenta e cinco ao todo.

Antes da distribuição dos certificados do “Curso de Empreendedorismo e Turismo”, discursaram o representante do Fórum, a diretora da unidade, o psicólogo responsável, o presidente do Conselho dos Direitos da Infância e Adolescência e eu mesmo, como representante da “sociedade civil”. Dois educadores cantaram, acompanhados por violão, enquanto os adolescentes eram chamados para receberem seus certificados. Eu estava ao lado da diretora da unidade de internação e comentei com ela como os meninos tinham uma aparência boa, saudável, destaquei o quanto eram bonitos. Ela disse: “Também... aqui, eles têm dentista, médico, comida boa, aqui dormem bem, não usam drogas, ficam menos vulneráveis”.

Para encerrar o evento, alguns adolescentes apresentaram uma

“dramatização”. O esquete, singelo a despeito da desenvoltura de alguns internos, consistia no seguinte: um jovem sai com o diploma da Fundação Casa (curso de turismo, empreendedorismo etc.) para procurar emprego. Ao chegar aos estabelecimentos, o jovem se apresenta e mostra o diploma. Os entrevistadores demonstram apreensão; afastam-se, mudam de assunto, evidenciando preconceito pelo fato do jovem ter passado pela internação. A visão dos jovens, apresentada na dramatização, é a do estigma de quem passou por uma situação que caracteriza a pessoa como “criminosa”. Zezinho representava um dos garotos que está procurando emprego. Em sua performance, entrega seu currículo em três lugares diferentes. Sem conseguir uma oportunidade, volta, ao final do dia, para seu bairro e encontra um grupo de amigos que estão trabalhando no “movimento” (tráfico de drogas). Seus amigos o convidam para voltar a trabalhar no tráfico e ele diz que não, não quer; está

procurando emprego. Seus amigos estão fumando maconha e circulam o cigarro até a mão de Zezinho. No momento em que ele segura o cigarro, a polícia chega. Os adolescentes da Casa riram bastante após a apresentação, comungando significados.

A mensagem que transmitiram foi patente: independentemente do que façam, ou deixem de fazer, serão, sempre, considerados suspeitos; ao saírem da internação, sua marca será de ex-internos da “FEBEM” 106.

Zezinho ficou aproximadamente três meses internado. O prazo de internação não é predeterminado; depende da decisão do juiz, que costuma seguir a indicação apresentada no laudo dos técnicos da Fundação Casa. Geralmente os laudos são assinados por psicólogos. Não tive acesso ao laudo, mas Dona Ivone me mostrou uma carta de Zezinho que sensibilizou a psicóloga a ponto desta escrever um relatório recomendando a soltura de seu filho. Na carta, endereçada à mãe, Zezinho aponta uma mudança comportamental: “Aqui descobri que o crime não compensa; to no sofrimento, mãe. Me perdoa, mãe; to aprendendo uma profissão, pra lá fora enfrentar o mundão. Vou me armar com enxadas e pá; minha mão calejar. Cuidar bem da minha família, uma família firmona, mãe. Só tenha uma certeza: de que um dia seu filho vai voltar”.

No início de abril Zezinho foi solto e iniciou o cumprimento da medida de liberdade assistida (L.A). Encontrei-o na segunda semana de atividades da L.A., quando foi para uma oficina de rap com Thurma, que já desenvolvia a dois anos as oficinas em meio aberto. Também nestas atuei como facilitador, voluntariamente. Ao final da atividade, levei-o para casa e ficamos por mais ou menos uma hora conversando. Perguntei a ele o que é a L.A.. “É um documento que eu assino, para o juiz ver que eu estou indo lá, estou comparecendo, estou fazendo o que ele pede...

Tem Conselho, tem carro à paisana e tem polícia... Tudo de olho em mim; na guarda do juiz. Aí na escola... eu ando na rua, assim, ele sabe tudo. Ele sabe aonde eu vou, o que eu faço, da escola... Eles vão lá; perguntam como eu estou”. “Eles quem?”,

106Atualmente a instituição responsável pela privação de liberdade de adolescentes no Estado de São Paulo é a Fundação Casa, antiga FEBEM. Apesar de o nome ter mudado em 2006, grande parte da população chama a Fundação Casa pelo antigo nome - FEBEM - que é identificado, popularmente, como sinônimo de prisão de adolescentes “bandidos” e “perigosos”.