A “questão das drogas” emergir como um problema de saúde pública remonta a meados do século XIX, mas torna-se uma questão efetiva no século XX44. A difusão do uso de determinadas substâncias em escalas cada vez maiores está relacionada ao desenvolvimento da civilização ocidental e suas revoluções tecnológicas e comportamentais, ocorridas nos últimos séculos. Como propõe Eduardo Vargas (2008), foi apenas no século XIX que se iniciou um processo de diferenciação das substâncias, entre àquelas que se difundiam pelas práticas médicas,
44Embora o uso de substâncias psicoativas seja comum em todas as épocas e culturas, é bastante questionável a leitura presente em certas vertentes do conhecimento médico de que o “problema das drogas” (com destaque à dependência química e ao tráfico de drogas) seja tão velho quanto a história do homem. Afirmar que o uso e comercialização de substâncias psicoativas, extraídas de plantas e folhas, em rituais diversos é parte constitutiva da própria humanidade não implica afirmar que havia o “problema social das drogas” nos diferentes contextos de uso de psicoativos.
produtos da química de síntese que permitiram uma ampliação drástica da intervenção terapêutica, e outras presentes em práticas populares de cuidado, consideradas suspeitas ou inúteis – e cada vez mais objetos de um projeto de eliminação levada a cabo pelo saber médico.
A “invasão farmacêutica” (Vargas 2008) – o incremento espetacular de novos fármacos a serem utilizados nas terapias médicas no século XX – é um processo que acontece no mundo ocidental simultaneamente à proibição e à repressão de algumas substâncias. Tais políticas são caracterizadas pela criminalização da produção, do tráfico e do uso de substâncias com propósitos não farmacêuticos e a fundamentação científica para a repressão foi realizada por meio de saberes médico-farmacológicos (Vargas 2008).
O crescente controle da medicina sobre as populações (e não sobre os indivíduos) é uma marca da sociedade capitalista que se orientou para o controle dos corpos humanos como elementos básicos da força produtiva (Foucault 1995). Desde o advento do capitalismo, na passagem do século XVIII para o XIX, a medicalização da vida vem acompanhada de crescentes normatizações daquilo que o saber médico permite e o que ele proíbe para os seres humanos. Neste sentido, a distinção entre drogas lícitas e ilícitas merece atenção como produção mediada por conflitos de mercado, em que o saber médico vigora. Quando a substância passa pelo controle laboratorial e por testes de comprovação de sua eficiência/estabilização dos efeitos desejados, ela é “legalizada”. A intencionalidade destes testes é mostrar o que a droga tem em si, como uma entidade autônoma para além de suas interações com o sujeito e deste com o mundo. Há uma idéia de controle científico que garante o efeito e o limite do uso, referenciado pela prescrição médica (Marras 2008). As drogas ilícitas passam ao largo deste controle e, assim, independentemente da existência de conhecimentos sobre os efeitos destas substâncias, elas são consideradas em sua própria natureza como nocivas. Como consequência, observa-se no debate público que a “questão das drogas” circunscreve-se às ilícitas.
No cenário de encurralamento das drogas ilícitas, nas últimas décadas fortaleceram-se os discursos que deslegitimam qualquer visão do consumo destas substâncias como prática humana legítima, colocando na berlinda uma diversidade de manifestações humanas. A criminalização, a medicalização e a moralização
tornaram-se os únicos discursos aceitos sobre a “questão das drogas” (Fiore 2008).
Entretanto, como salienta Vargas (2008), “longe de serem unívocas as relações que a maioria das sociedades contemporâneas mantêm com as drogas são ambivalentemente marcadas pela repressão e pela incitação ao consumo” (Vargas 2008, p.55). Ao elaborar notas para uma “genealogia das drogas”, Vargas (2008) chama a atenção sobre o fato de que as drogas não dizem respeito apenas àquelas substâncias que produzem algum tipo de alteração psíquica ou corporal, e cujo uso é objeto de controle ou repressão por parte do Estado; antes, pensar na “questão das drogas” envolve ponderar sobre um complexo de relações entre substâncias, agenciamentos e pessoas que inclui os fármacos e medicamentos produzidos pela indústria e também os “alimentos-drogas” – açúcar, café e chocolate (Vargas 2008, p.42).
Os tranquilizantes e sedativos desde o início da década de 1960 passaram a formar a categoria das drogas mais receitadas a cada ano no mundo ocidental, e só diminuíram na medida em que as receitas de antidepressivos, como o Prozac, aumentaram grandemente (Helman 2003). Existem poderosas indústrias – legais e ilegais – que produzem, publicizam e circulam substâncias psicoativas. O narcotráfico tornou-se o carro chefe de uma nova economia do ilícito que habita as cidades mundiais e faz parte da sustentação do sistema econômico vigente. O expansivo mercado representado pelo tráfico de drogas e pelas redes do crime organizado, globalizados e conectados aos circuitos desterritorializados do capital financeiro, faz propagar ofertas de substâncias. Neste sentido, poderíamos pensar em uma “pendência química”, uma disputa de mercado em que a conquista de consumidores de estados alterados de consciência tornou-se uma estratégia de coorporações – legais e do crime negócio – ilegal.
A guerra ao “narcotráfico”, entretanto, não se volta aos grandes cartéis transnacionais, mas focaliza a horda de pobres, migrantes, minorias que habitam certos territórios das cidades ao redor do mundo. A repressão às drogas (consumo e tráfico) articulada a uma visão higienista ocorre desde as primeiras décadas do século XX nos EUA, quando se associou as minorias negras, hispânicas e asiáticas ao consumo de substâncias como cocaína, maconha e ópio. A “questão das drogas”
deixou de ser um problema sanitário menor, entretanto, quando intoxicar-se deixou
de ser uma exceção em meio aos filhos da “boa sociedade” (Rodrigues 2008).
Naquele momento, década de 1920, a saúde pública nos Estados Unidos da América e nos países europeus passou a considerar as “drogas” uma “epidemia” e, como um desdobramento quase imediato, um “caso de polícia” (Rodrigues 2008). A política proibicionista nasce nesse contexto inicialmente nos EUA e durante o século XX espalha-se, salvo raríssimas exceções, por todo o mundo. Tal política baseia-se em um tripé: o moralismo de setores médios associando drogas aos “perigosos”, invariavelmente pobres, imigrantes etc; a visão sanitarista e médica do consumo de drogas como um grave problema de saúde pública e, terceiro, a estratégia de segurança para reprimir a proliferação de criminosos em torno do comércio de drogas, sobretudo contra setores populares da população (Rodrigues 2008).
No Brasil, o proibicionismo ganha força na década de 1960, estimulado pela Convenção Única da ONU sobre Drogas (1961), que consagrou mundialmente a proibição e a repressão como formas de se tratar o “tema das drogas psicoativas”. A década de 1960 também foi marcada por movimentos juvenis e de contracultura que tiveram o consumo de drogas como uma de suas principais características.
Movimentos de rápida e ampla difusão (via meios de comunicação de massa e produtos culturais de alta visibilidade como o rock), as “culturas juvenis” da década de 1960 contribuíram para o aumento do consumo de psicoativos ilícitos por todo o mundo ocidental, inclusive no Brasil.
Em Nascimento da biopolítica (2008a), Foucault afirma que a política de combate ao tráfico de drogas, a partir dos anos 1960, passou a se orientar pela caracterização do tráfico como um fenômeno de mercado; uma política de guerra às drogas enquadrada em uma governamentalidade neoliberal45. Isto implica um cálculo que considera o tráfico de drogas como um gerador de externalidades negativas no âmbito da coletividade, embora possibilite ao indivíduo maximizar sua utilidade própria; isto significa que o tráfico gera prejuízos para “terceiros”, custos monetários
45 No conjunto de aulas proferidas em 1979 no College de France, publicada sob o título Nascimento da Biopolítica (Foucault 2008a), Foucault discutiu destacadamente o que chamou de governamentalidade neoliberal.
Este livro é a principal referência de Foucault nodiálogo que estabeleço entre a sua obra e a minha tese. A noção de governamentalidade é um veículo usado por Foucault para tratar da conexão entre prática de governo e regime de verdade. A governamentalidade neoliberal se caracteriza pela eleição do mercado como regime de verdade: o mercado passa a ser o lugar de veridição das práticas de governo – da análise das políticas estatais até a análise da racionalidade interna dos comportamentos humanos (Foucault 2008a).
ou não-monetários resultantes da interdependência social entre diferentes sujeitos – consumidores, familiares, vizinhanças, comerciantes etc – que de alguma forma sofrem o impacto de suas ações. Tal impacto deve ser calculado e, a partir de uma racionalidade de mercado, o cálculo deve orientar as políticas. Assim sintetiza Foucault a política penal em uma governamentalidade neoliberal:
“… a política penal deve renunciar absolutamente, a título de objetivo, a supressão, a essa anulação exaustiva do crime. A política penal tem por sentido regulador uma simples intervenção no mercado do crime em relação à oferta do crime. É uma ação que limitará a oferta do crime, e a limitará tão somente por uma demanda negativa cujo custo, evidentemente, não deverá superar nunca o custo dessa criminalidade cuja oferta se quer limitar” (Foucault 2008a, p.349-350).
Nesta política não se deve extinguir o tráfico, mas a punição deve antes buscar um equilíbrio entre a oferta do crime e sua demanda negativa, seu impacto em termos de custos para a coletividade. Foucault demonstra que a partir da década de 1970 (momento de grande ampliação do consumo e da circulação de drogas pelo mundo), a repressão volta-se aos “pequenos traficantes da esquina” e não ao refino e distribuição por uma questão de cálculo econômico46. Esta política estatal coexiste com uma complexa rede entrelaçada de práticas e significados em torno das “drogas ilícitas” e delineia um cenário de crescente conflito da polícia com pequenos traficantes varejistas, engendrando situações dramáticas de violência, como no caso dos bairros de cidades paulistas em que desenvolvi minha pesquisa.
46 Foucault argumenta que a política de desmantelamento das redes de refino e distribuição, realizada até os anos 60, levou a um aumento do preço unitário da droga, fortaleceu o oligopólio de grandes traficantes e aumentou a criminalidade, pois o adicto paga o preço que for necessário – a demanda nesse caso é inelástica (Foucault 2008a, p.351). Tal situação aumentou os custos da criminalidade e uma reação da política anti-drogas, que voltou-se para um cálculo: aumentar o custo para os novos consumidores, cujo consumo é elástico (não estão dispostos a pagar qualquer preço), e baixar o custo para o adicto. “E a partir daí toda uma política de enforço da lei voltada para os novos consumidores, para os consumidores potenciais, para os pequenos traficantes, para esse pequeno comércio que se faz nas esquinas; política de enforço da lei que obedecesse a uma racionalidade econômica quer era a racionalidade de um mercado” (Foucault 2008a, p.353).
A década de 1970 indicava a retroalimentação entre o aumento do consumo (sobretudo de jovens das camadas médias), o crescimento do mercado ilícito e renovadas práticas de repressão. Para o antropólogo Gilberto Velho, o uso de drogas ilícitas entre classes médias no Brasil das décadas de 1960 e 1970 relacionava-se a ideais de prazer, autodescoberta, realização. A partir da associação “drogas e armas”, e o crescente controle do tráfico sobre as substâncias ilícitas, o uso de drogas foi associado à violência urbana (Velho 2008). Nesse contexto, o tráfico de drogas tornou-se a própria encarnação do mal: as mortes, os potenciais malefícios causados pelo consumo de substâncias psicoativas, a violência que se espalha para as famílias, comunidade e para a sociedade como um todo são argumentos usados para caracterizar o tráfico como um dos maiores vetores de violência e o responsável por traumas e mortes por causas externas, entre jovens. Sem desconsiderar a concretude das consquências nefastas do narcotráfico em cidades brasileiras, no tráfico de drogas encontram-se variedades de modos de vida. Tanto o uso quanto o tráfico de drogas, na atualidade, se constituem em fenômenos complexos que revelam diversidades humanas que ultrapassam os discursos médicos, jurídicos e policiais.
A proliferação de fármacos difundida hoje, tendo como lógica principal a especialização do campo médico, e sua prescrição compartimentada nas especialidades, não controlam muitas vezes efeitos cruzados e colaterais. Por outro lado, o medicamento torna-se um produto esperado do acesso à saúde, e de certa forma como um produto creditado a restaurar um “bem-estar social”. Ou seja, associa-se “bem estar” à propriedade de fármacos, questão presente no uso também de drogas ilícitas nas quais se espera a obtenção de um prazer que possibilite um
“bem-estar físico, social e mental”.
Segundo Vargas (2008), as políticas de repressão hegemônicas em torno das drogas consideradas ilícitas têm um duplo fundamento: médico e jurídico.
“É por conta desse duplo fundamento que, hoje, quando as medidas de repressão pura e simples começam a ser mais intensamente criticadas, seja pela ineficácia em fazer reduzir a demanda por drogas, seja pelos efeitos perversos oriundos de sua implementação – como o crescimento inaudito do
crime organizado em torno da produção e do tráfico de drogas (máfias, cartéis etc) –, as alternativas oficiais atualmente em discussão tendem a tratar o problema nem tanto como sendo apenas da alçada jurídica, mas também da alçada da saúde pública: cadeia para os produtores e traficantes, clínicas de tratamento para os usuários” 5 (Vargas 2008, p.54-55).
Em recente artigo publicado por um epidemiologista, lemos: “A violência no Brasil atingiu níveis tão alarmantes que a comunidade da saúde pública deveria juntar esforços com criminologistas e economistas e direcionar mais atenção às evidências importantes sobre fatores associados à redução da violência e do homicídio em outros países” (Nadanovsky 2009, p.1863). Nesta visão, a saúde pública deve compor o combate à “anomia social” que é o “crime”. Haveria assim uma complementação: a segurança com políticas de repressão aos “bandidos” e a saúde com a proteção das “vítimas”, desde pessoas que sofrem traumas físicos e psicológicos, “drogaditos” e vizinhos que vivem sob a violência do “crime”. Nesta perspectiva, os traficantes se situariam fora da alçada da defesa da vida e dos direitos referentes ao bem-estar, definidores da finalidade da área de saúde.
Na pesquisa de campo, entretanto, os traficantes não estão apartados de seus pares geracionais; eles estão “juntos e misturados”, e as drogas compõem a experiência comum. O poder classificatório do dispositivo das drogas forma uma rede de inteligibilidade para elementos disparatados e heterogêneos de acontecimentos, fluxos e interações. A política proibicionista médico-jurídico-policial (com seus bordões “o trabalho no tráfico leva à morte” ou “a droga mata”) convive com inúmeras teorias, práticas, técnicas difundidas entre jovens moradores de periferias paulistas. Adotar o dispositivo das drogas como ponto de partida para se pensar o tráfico de drogas, e sobre a violência atribuída a ele, implica uma inversão do problema. Não se trata de reafirmar como resolvermos o problema do tráfico, mas buscar compreender de que forma o dispositivo das drogas atua na difusão de redes de relações que se formam e operam em diversas quebradas das periferias de São Paulo.
****
No próximo capítulo, o estudo mergulhará no cotidiano de relações econômicas e políticas presentes em um contexto específico de tráfico de drogas;
observar-se-á o trabalho, os ganhos, os riscos, a violência, as tramas de relações estabelecidas em torno do comércio; discutir-se-á concepções nativas sobre as características definidoras de um “bandido” e a difusão da sigla PCC como o poder orientador do crime.