Condições sócio-históricas de emergência da Revista Florestal
TABELA 1: EXPORTAÇÃO TOTAL DE MADEIRAS DO BRASIL DE 1913 A 1932 Ano Quantidade em quilos Valor em mil réis papel Valor em libras
2.4. A criação do Serviço Florestal do Brasil
No bojo desse boom madeireiro, do apelo nacionalista e da sensação de atraso brasileiro, o presidente Epitácio Pessoa em 1920 concedeu uma declaração que apontava uma
222 Ibidem, p.18.
223 Ibidem, p.18.
224 Ibidem, p.32.
225 MEIRA, Roberta Barros; CARELLI, Marinuci Neis. Op.cit. 2015. 226 SOUTO; LÖFGREN; PORTO, Op.cit., p.30.
67 crítica significativa ao liberalismo do Estado republicano. Afirmava que “dos países cultos dotados de matas e ricas florestas, o Brasil é talvez o único que não possui um código florestal”.227
Com intuito de discutir a elaboração de um código, Epitácio Pessoa sancionou o decreto de número 4.421 de 28 de dezembro de 1921 que criava o Serviço Florestal do Brasil a menos de três meses antes de iniciar as eleições de sua sucessão.228
Ao mencionar o surgimento da instituição, Ribeiro aponta que o Serviço inseria-se em um contexto de remodelação do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio que, juntamente à comissões e expedições científicas, ao Serviço Geológico e Mineralógico e a Diretoria de Meteorologia e Astronomia buscavam conhecer o território nacional. O Serviço Florestal, especificamente, deveria ser “o mais técnico possível”, cuja preocupação era orientada para o estudo da diferenciação das florestas no país.229
Pelas letras do decreto, a função daquela seção fundamentava-se na conservação, reconstituição, formação e aproveitamento das florestas nacionais. O conceito de floresta passou a ser problematizado com atenção já no segundo artigo. Definem este enquanto áreas cobertas de vegetação de alto ou médio porte, bem como espaços em que se pretendam desenvolver essa vegetação.
Conforme Célia Dias, as definições de floresta e matas foram modificadas na passagem do século XIX para o XX.230 Enquanto o primeiro esteve associado à ciência, ao urbano e a modernidade, o segundo foi lido sob o prisma daquilo que era primitivo, indígena ou rural. No decreto a preferência pelo conceito floresta ou florestal é nítido, tendo poucas menções a matas. Quando fazem uso deste último conceito é para denotar uma área onde a vegetação é nativa, mista e de pouca alteração humana. Dessa maneira, o decreto colocou em evidência a natureza científica e econômica das florestas.
O decreto é detalhado quanto às funções a serem executadas pelo organismo. Incumbia o Serviço de oito funções principais. A primeira delas era promover e auxiliar a conservação, criação e guarda das florestas protetoras. Nestes anos de 1920, o adjetivo “protetoras” concedido ao termo floresta referia-se àquelas que traziam benefícios à humanidade e a pátria,
227 Esta fala presencial dirigida ao Congresso Nacional é mencionada por: PEREIRA, Osny Duarte. Direito
Florestal Brasileiro (Ensaio). Rio de Janeiro: Borsoi, 1950, p. 104; MARCONDES, Sandra. Brasil, amor à primeira vista! Viagem ambiental no Brasil do século XVI ao XXI. São Paulo: Peirópolis, 2005, p.154.
228 BRASIL. Decreto 4.421 de 28 de Dezembro de 1921. Cria o Serviço Florestal do Brasil. Disponível em:< http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1920-1929/decreto-4421-28-dezembro-1921-567912- publicacaooriginal-91264-pl.html> Acesso em: 30.12.2016.
229 RIBEIRO, Rafael Winter. A invenção da diversidade: construção do Estado e diversificação territorial no Brasil (1889-1930). 259f. Tese (Doutorado em Geografia). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005, p.125.
230 DIAS, Célia Regina da Silva. Geografia histórica ambiental: uma geografia das matas brasileiras. 197f. Tese (Doutorado em Geografia). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2007, p.13.
68 quer seja pela salubridade, controle climático, proteção aos mananciais, defesa das fronteiras e contenção das erosões dos solos. Como se vê o primeiro dos verbos demarca a inclinação ao ideário conservacionista, tal como o de Dietrich Brandis na Índia ou Gifford Pinchot nos Estados Unidos.231
A segunda tarefa do Serviço era de estabelecer e propagar conhecimentos relativos à silvicultura. Nesse sentido, a instituição colocava-se com o propósito de estimular um campo científico recente no país, tomando os saberes que nele se constituem para o crescimento econômico do Estado Nacional. A preocupação com a silvicultura estava também na organização das instruções, fornecimento de mudas e planos para a organização do ensino desta área.
Para além destas duas funções, ainda se propunha a executar em florestas-modelo experiências de explorações florestais; estudar e “vulgarizar”232
os processos de conservação das madeiras; organizar uma estatística florestal; estudar e propor o estabelecimento de parques nacionais; pôr em prática e cumprir medidas de proteção da polícia florestal e, por último, “divulgar em publicações, ou por quaisquer outros meios de instrução, ideias e trabalhos de utilidade referentes às florestas, considerando-as principalmente sob o ponto de vista econômico”233
. Esta última tarefa oferece diretamente condições para que periódicos voltados à proteção das florestas possam emergir.
Organizar o Serviço de maneira técnica era um objetivo que não esteve apenas ao cargo de intelectuais brasileiros. Mediadores culturais dos Estados Unidos buscaram participar desse processo, visando ampliar a capilaridade norte-americana sobre a América
231 Embora não possuísse representantes no seu corpo editorial, o Serviço Florestal indiano era um dos parâmetros da Revista Florestal. Para o historiador australiano Gregory Allen Barton, a Índia exportou o modelo do conservacionismo para diversas nações desde meados do século XIX, inclusive aos Estados Unidos. Estudando o Indian Forester, periódico criado em 1875, Barton estima que foi o primeiro do gênero no mundo. O impresso fornecia informações das condições florestais de diversos países, incluindo o Brasil, e era um modelo implantado para o Império britânico. Tal modelo, buscava o reflorestamento, distribuição de mudas, combate a erosão dos solos e organização de serviços florestais. Partindo dele, outros foram organizados, tais como o Journal of Forestry, nos Estados Unidos e o britânico Empire Forestry. Todos estes periódicos estrangeiros foram localizados em bibliotecas brasileiras, evidenciando a circulação destas ideias. Cf. BARTON, Gregory Allen. Empire Forestry and the origins of environmentalism. Cambridge: University Press, 2002, p.138.
232 Para Vergara, o conceito de vulgarização científica era pouco recorrente antes do século XIX. Nos oitocentos esteve relacionada a ideia de se publicar a todos. O conceito de vulgarização estava correlato a existência de uma hierarquia entre cultura letrada e erudita em face uma iletrada e popular. A partir dos anos de 1870 vulgarizar, portanto, referia-se a necessidade de tradução de um público culto ao leigo, de informações que fossem “úteis” e especializadas. Em outros termos, “a ação do vulgarizador” era desde o final do século XIX “uma via necessária para transformar a ciência de um objeto estranho, distante da vida do cidadão comum, em um objeto familiar e próximo”. Cf. VERGARA, Moema. A Revista Brasileira: vulgarização científica e construção da identidade nacional na passagem da Monarquia para a República. 234f. Tese (Doutorado em História). Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, 2003, p.16.
69 Latina, bem como minimizando o nacionalismo que dificultasse a exploração estrangeira de recursos naturais. Um evento que marcou este interesse de aproximação no tocante às florestas foi a Exposição Internacional do Centenário da Independência em 1922.
Para Marly Motta, esse foi um momento-chave em que se rediscutiram os impasses da nacionalidade brasileira. A partir dele reinterpretou-se o passado, diagnosticou-se o presente e projetou-se futuros de modernidade ao Brasil.234 Para concretizá-lo, a cidade do Rio de Janeiro presenciou remodelações urbanísticas com o prefeito Carlos Sampaio que promoveu o arrasamento do morro do Castelo, ajardinamento da zona sul, saneamento da Lagoa Rodrigo de Freitas, canalização de rios da bacia hidrográfica do Maciço da Tijuca, entre outras iniciativas. Conforme Maurício Abreu, elas marcavam uma etapa de um processo de “depuração da área nobre da cidade e dos usos e populações não desejadas”.235
O funcionário do Serviço Florestal norte-americano, Herbert Augustine Smith (1866- 1944), ao participar da comemoração, apresentou um suplemento redigido em espanhol que fornecia dados sobre a sua instituição com a intenção de torná-la modelo ao caso brasileiro.236 Na obra, Smith apontava que durante a colonização inglesa os Estados Unidos tinham sido inundados pela ideia de inesgotabilidade dos seus recursos madeireiros. Com a imigração europeia, o crescimento industrial e as consequências ambientais, os Estados Unidos perceberam que aqueles recursos escasseavam-se no território.
Em nome do “espírito” do progresso, Smith considerava que sua nação pôs abaixo as suas matas. Entretanto, ao seu ver, o corte de madeiras de todo o período colonial não era aproximado a quaisquer uns dos anos do século XX, tamanha era a sua exploração. Além da “marcha madeireira” ainda acentuava os incêndios florestais como responsáveis pelo processo. O avanço do desflorestamento atravessando da costa Atlântica e atingindo o Pacífico engendrou, segundo Smith, medidas para a proteção das florestas, tais como a criação do Arbor Day em 1872, a fundação da Divisão Florestal do Departamento da Agricultura em 1881, bem como a institucionalização de florestas nacionais e reservas florestais. A divisão entre conservacionismo e preservacionismo no país faz-se perceber com a omissão da criação de parques nacionais, como o de Yellowstone em 1872.237
234 MOTTA, Marly Silva da. A nação faz cem anos: a questão nacional no centenário de independência. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1992, p.6.
235 ABREU, Maurício de Almeida. Evolução urbana do Rio de Janeiro. 4ª ed. Rio de Janeiro: Instituto Pereira Passos, 2008, p.78.
236 SMITH, Herbert Augustine. Florestas e Selvicultura en los Estados Unidos: Informe preparado para la comisión de los Estados Unidos de América en la Exposición del Centenario del Brasil. Washington: Impreta del Gobierno, 1922.
70 É compreensível o interesse norte-americano em integrar a organização do Serviço Florestal brasileiro. A exploração dos recursos naturais promovidos no Brasil pelos capitalistas norte-americanos estava sob ameaça de detratores. Os empresários do Tio Sam eram contestados por nacionalistas, dentre os quais o então nome sugerido por Epitácio Pessoa para presidir a República, o mineiro Arthur Bernardes.
Um caso emblemático que revela as disputas pelos recursos florestais e minerais em que se concorriam Bernardistas e defensores dos estrangeiros foi o Itabira Iron.238 A empresa de Percival Farquhar239 foi defendida por intelectuais da estirpe de Elysio de Carvalho como força política capaz de construir uma usina siderúrgica de grande monta no país.240 Outros sujeitos históricos, entretanto, consideravam a atuação do capital estrangeiro lesivo ao patrimônio nacional, tais como Gonzaga de Campos e Clodomiro de Oliveira, ambos professores da Escola de Minas de Ouro Preto, sendo o primeiro um dos principais atores na configuração do Serviço Florestal.241
Arthur Bernardes, que se opôs ao uso de carvão, ferro e lenha pelos norte-americanos,
sete anos mais tarde, em 1929, forneceu o seu “auxílio” na articulação do Serviço Florestal Brasileiro. Para ele, as florestas brasileiras eram lugares privilegiados para obter fontes de renda que poderiam ultrapassar a economia cafeeira. Faltavam no Brasil, todavia, “homens preparados e especializados em silvicultura” capazes de formar um corpo técnico do Serviço no país. Semelhante ao que tinha ocorrido com as Filipinas e Índía propôs que o governo federal estreitasse a cooperação com as nações experientes, como os norte- americanos. Este plano traçado em 10 anos contemplaria envio de estudantes à Yale e Michigan para aprender as técnicas da silvicultura, intercâmbio duradouro do chefe do Serviço, Francisco de Assis Iglésias, aos Estados Unidos, bem como a vinda de uma comissão de 13 silvicultores custeada pelo ministério da agricultura brasileiro. A “Missão Florestal” deveria realizar visitas técnicas a começar pelos centros urbanos e não pela Amazônia. Durante a gestão de Lyra Castro (1926-1930) na pasta da agricultura o projeto foi levado a cabo com a vinda de 6 técnicos e resultou em um fracasso financeiro. Esse insucesso acabou contribuindo como um dos fatores para a extinção do Serviço em 1933. Ver ORTON, William Allan. A riqueza florestal do
Brasil. Rio de Janeiro: Tipografia do Serviço de Informações do Ministério da Agricultura, 1929.
238 Para maiores detalhes, cf. SILVA, Lígia Osório. A crise política no quadriênio Bernardes: repercussões políticas do “caso Itabira Iron”. In: LORENZO, Helena Carvalho de; COSTA, Wilma Peres da. (Orgs.). A
década de 1920 e as origens do Brasil moderno. São Paulo: Unesp, 1997, p.15-35.
239 O empresário norte-americano atuava em uma ampla gama de atividades econômicas no país, desde a mineração e agricultura, aos transportes e comunicação. Entre seus empreendimentos estavam a Companhia de Estradas de Ferro São Paulo-Rio Grande, a Estrada Madeira-Mamoré e tornou-se proprietário do vespertino A Noite em 1931. Ainda controlava uma emissora de rádio que durante os anos de 1930 foi nacionalizada e tinha concessões de gás, luz e telefone na cidade do Rio de Janeiro. Para maiores detalhes: ver SAROLDI, Luiz Carlos; MOREIRA, Sônia Virgínia. Rádio Nacional: o Brasil em sintonia. Rio de Janeiro: FUNARTE/Instituto Nacional de Música, 1984, p.16; HARDMAN, Francisco Foot. Trem-fantasma: a ferrovia Madeira-Mamoré e a modernidade na selva. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p.165. 240 Vale lembrar que Elysio de Carvalho não era contrário a política florestal, propondo em seu inquérito sobre as atividades da Itabira Iron. Defendia a criação de um código que defendesse a “hulha verde”. Protegê-la não estava desvinculado para permissividade de indústrias estrangeiras. Ver CARVALHO, Elysio de. Brasil, potência mundial: inquérito sobre a indústria siderúrgica no Brasil. Rio de Janeiro: S.A. Monitor Mercantil, 1919, p.44.
241 CARVALHO, José Murilo de. Nacionalismo mineralógico. In: __________. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: UFMG, 1998, p.329-331; CARVALHO, José Murilo de. A
Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais,
71 foi acusado de xenófobo pela imprensa, embora o próprio tenha dado parecer favorável, quando administrava o estado de Minas, para a construção da Companhia Siderúrgica Belgo- mineira.242 Certamente, a vinda da realeza belga em 1921, os primeiros chefes de Estado a visitarem a República brasileira, colaborou para esse favorecimento. O que há de registrar é que Arthur Bernardes era atuante na identificação da questão florestal como um problema a ser apropriado pelo Estado.
Enquanto presidente de Minas, Bernardes foi um dos principais articuladores de uma política florestal. Conforme Martins, ela residia em três pilares básicos: a defesa das florestas existentes em áreas públicas, a instituição de reservas florestais e a promoção do reflorestamento e da silvicultura aos moldes dos Estados Unidos e Canadá.243 Para esta realização contou com dois instrumentos primordiais: os hortos florestais e os “fiscais das matas”, ou seja, funcionários que impediriam a invasão de terras devolutas preveniam incêndios, coibiriam a exploração clandestina de madeira e auxiliariam na legalização de posses antigas.244
Isso indicava que, mesmo após o governo de Epitácio Pessoa, Bernardes, caso fosse eleito, prosseguiria com o programa de reflorestamento e institucionalização do Serviço Florestal do Brasil. Essa sucessão presidencial, porém, foi acalorada e instável. Como as demais eleições da Primeira República, a disputa nas urnas foi pautada pelo coronelismo, fraudes eleitorais e tensões políticas de diversos grupos sociais. Episódios de falseamentos de discursos, como o das Cartas falsas, no ano de 1921, em que se sugeria Bernardes condenando a ação de Hermes da Fonseca e das Forças Armadas aqueceram as rivalidades e confrontos políticos.
O candidato situacionista, além disso, teve que enfrentar a coalização das oligarquias de segunda grandeza (Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul) que organizou a Reação Republicana.245 Em torno da campanha de Nilo Peçanha, a Reação adquiriu a adesão de grupos urbanos – dentre os quais jovens oficiais do Exército - e tinham como propostas a moralização política, a extensão da instrução pública e a diversificação da agricultura.
242 SILVA, Lígia Osório. Op. cit., p.24.
243 MARTINS, Marcos Lobato. A política florestal, os negócios de lenha e o desmatamento: Minas Gerais, 1890-1950. HALAC, Belo Horizonte, v.1, n.1, p.29-54, set.2011/fev.2012.
244 Ibidem, p.35.
245 FERREIRA, Marieta Moraes; PINTO, Surama Conde Sá. A crise dos anos de 1920 e a Revolução de 1930. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (Orgs.). O Brasil Republicano: o tempo do liberalismo excludente – da Proclamação da República à Revolução de 1930. 6ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, p.394
72 As posturas de Nilo Peçanha quanto às florestas não foram bem definidas, mas pouco diferia de Bernardes.246 Referia-se a elas enquanto “riquezas” e buscava aproveitar seu potencial econômico. Tal como o seu concorrente, Nilo deixou um legado no tocante a política florestal em gestões anteriores. Quando foi presidente da República interino, após a morte de Afonso Pena, em 1909, participou da criação do Instituto Federal de Obras contra as Secas que preconizava o reflorestamento das áreas atingidas pela escassez de água, bem como inaugurou o Horto Botânico de Niterói, no Rio Janeiro. Além disso, consolidou a restauração do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, reduto administrativo de intelectuais que apoiaram a questão florestal.247
Como se observa, tanto bernardistas quanto niilistas buscavam regulamentar os usos das florestas, criticavam o liberalismo da constituição de 1891 e calcavam-se em um forte nacionalismo. O candidato vitorioso, entretanto, foi Arthur Bernardes, acarretando oposições de oficiais do Exército materializadas na Revolta dos Dezoito do Forte de Copacabana na capital federal em 1922; no levante tenentista de 1924, em São Paulo; e na formação da Coluna Prestes que percorreu o interior do Brasil durante meados dos anos de 1920. Os integrantes deste movimento tenentista, como Juarez Távora, apoiavam o nacionalismo e a centralização do Estado, contrariavam-se ao liberalismo e eram favoráveis a aprovação de códigos que viessem a proteger a natureza brasileira da “cobiça” estrangeira.248
Uma vez empossado, o político mineiro convocou uma comissão composta por 15 intelectuais que tinham expressão científica para estabelecer o Serviço Florestal. Compunham-na: o engenheiro João Teixeira Soares, o engenheiro mineiro que; o naturalista do Museu Nacional Domingos Sérgio Carvalho, o engenheiro de minas Gonzaga de Campos, o agrônomo Navarro de Andrade, o botânico Álvaro da Silveira, além do agrônomo Adalberto de Queirós Telles.
Dessa comissão ainda faziam parte: o diretor do Jardim Botânico Antônio Pacheco
246 De acordo com Pinto, as biografias de Nilo Peçanha enalteciam sua figura política, porém, ele “não diferia em essência dos políticos de seu tempo” (p.19). Fluminense da cidade de Campos dos Goytacazes, o político republicano formou-se na Faculdade de Direito de Recife e apoiou Alberto Torres na política do estado Rio de Janeiro. As trocas de suas correspondências funcionavam como elo de ligação entre os demais atores da rede política e demonstra as relações sociais daquela sociedade, baseada em uma dinâmica de troca de favores, pedidos para terceiros de nomeações de cargos públicos, suspensão de nomeações, exonerações, transferências, promoções e criação de cargos (p.89). Cf. PINTO, Surama Conde Sá. A correspondência de
Nilo Peçanha e a decadência política da Primeira República. Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do
Rio de Janeiro, 1998.
247 DIAS, José Luciano de Mattos. Os engenheiros do Brasil. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.).
Engenheiros e economistas: novas elites burocráticas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1994, p.19.
248 FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: história e historiografia. 16ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.91.
73 Leão, o ex-deputado do Amazonas Monteiro de Souza, o jurista Alberto Sarmento, o literato e deputado Augusto de Lima, o agrônomo Lyra Castro, o consultor jurídico do Ministério da Agricultura Raul Penido, o presidente da Associação Comercial do Amazonas Hannibal Porto, o membro da Sociedade Nacional de Agricultura Plínio Costa e o autor de um projeto florestal José de Araújo Góes.249 (Ver Apêndice B)
A comissão, como se percebe através de um breve balanço prosopográfico de sua composição, tinha a predominância por intelectuais das oligarquias de Minas e São Paulo que eram vinculados a Sociedade Nacional de Agricultura. Além disso, todos eles eram brasileiros, sem a presença de quaisquer estrangeiros. Até mesmo Octávio Vecchi, imigrante português naturalizado brasileiro, que despojava de grande reconhecimento no campo da silvicultura em São Paulo, não se inseriu no grupo que estabeleceria o Serviço. Ademais, a maioria deles eram formados em carreiras das engenharias de minas e agronômica ou trabalhavam no ramo da botânica.250 Tal fato, evidenciava que o problema deveria ser tratado com a técnica profissional apurada.
Embora com apoio da “grande imprensa”251
e das autoridades públicas a comissão enfrentou diversos empecilhos para seu estabelecimento. O maior deles foi a contingência da vida humana. Dois dos principais nomes, Domingos Sérgio Carvalho e Gonzaga de Campos, faleceram durante o período de regulamentação do Serviço e Alberto Sarmento encontrava-se adoentado, vindo a óbito em 1927.
Outro entrave eram as condições econômicas oscilantes – sobretudo na exportação do