Condições sócio-históricas de emergência da Revista Florestal
2.1 Da República das Letras aos laboratórios científicos
Como vimos no primeiro capítulo diferentes representações de natureza foram vinculadas a formação da nacionalidade brasileira. Reinterpretadas durante a Primeira
dos censos florestais, entre outras instituições que estimulavam a pedagogia da nacionalidade. Sobre o Museu Florestal, ver PRIEDOLS, Elisabete. O Museu Florestal “Octávio Vecchi”: trajetória e contribuição para a história ambiental brasileira. 188f. Dissertação (Mestrado em Educação, arte e história da cultura). Universidade Mackenzi, São Paulo, 2011.
169 FABRE, Daniel. Revue d'ethnologie et ehnologie dans le revues. Hésiode. Cahiers d'ethnologie
méditerraéenne, Paris, n.1, p.11-29, 1991.
49 República, essas concepções ganharam a visibilidade pelos escritos de intelectuais. Um número significativo deste grupo de “geometria variável” comportou em trabalhos o seu apoio a “causa florestal”. Tanto os adeptos da República das Letras quanto os sujeitos de instituições científicas compartilharam deste interesse. Esse relativo apelo uníssono entre representantes da literatura e da ciência, campos que se configuravam durante o período, revelava-se enquanto um ponto favorável para a construção deste ideário de proteção à natureza.
Considerá-los com relativa coesão não é abster-se das rivalidades, disputas e conflitos dentro deste grupo de protetores. É importante perceber que, além dos agentes que não almejava protegê-la171, no interior do próprio grupo existiam dissonâncias. Cinco delas são significativas, a saber: a posição de brasileiro ou estrangeiro; a dicotomia entre a contemplação e a utilidade; a competição pelos postos ou cargos de poder; as querelas pessoais; e, finalmente, as críticas quanto ao emprego do reflorestamento com plantas nacionais ou estrangeiras.
A primeira das dissonâncias do grupo é reconhecida. O historiador norte-americano Warren Dean apontava a nacionalidade brasileira como o fator para que Navarro de Andrade fosse o “único conservacionista bem sucedido de sua geração”172
. No mesmo compasso, Franco e Drummond postularam enquanto o “único brasileiro” do grupo de conservacionistas “pioneiros” que observou em sua análise.173
Certamente, não foi apenas Navarro o brasileiro nessa geração que antecedeu a guerra na busca da proteção. No entanto, foi o que se tornou mais conhecido da historiografia. Isso porque elaborou um discurso palatável aos silvicultores pósteros que lhe atribuíram medalhas em seu nome e conferências e prêmios em sua homenagem. Além deles, teve crédito de pesquisadores que lhe renderam a alcunha de pai da silvicultura ou pioneiro do reflorestamento.174 O suicídio de Orville Derby e o, até bem pouco
171 Entre os agentes contrários à proteção e que negavam a necessidade do reflorestamento, constava a empresa de linhas férreas São Paulo Railroad Company de capital britânico. Essa é uma das inferências do madeireiro LIMA, J.C. Alves de. Devastação das matas. Boletim das Serrarias, São Paulo, ano II, n.8, p.27- 29, abril de 1928. Vale lembrar que rotular uma empresa estrangeira como não adepta do movimento florestal pode ser uma tentativa de associá-las a um lucro descompromissado com o ambiente natural de onde instalou sua corporação. Em todo caso, foi um dos poucos vestígios nominais de grupos contrários à política florestal. Afinal de contas, nestes discursos a proteção é enaltecida e evita-se nomeiar os contrários a ela.
172 DEAN, Warren. Op.cit, 1996, p.252.
173 FRANCO, José Luiz de Andrade; DRUMMOND, José Augusto. Op.cit. 2009, p.32.
174 Entre os que contribuem para a consagração da memória de Navarro enquanto pioneiro ou pai do reflorestamento, tem-se: LEÃO, Regina Machado. A floresta e o homem: São Paulo: Edusp, 2000, p.210; MARTINI, Augusto. O plantador de eucaliptos: a questão da preservação florestal no Brasil e o resgate documental do legado de Edmundo Navarro de Andrade. 304f. Dissertação (Mestrado em História Social). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004, p.6. Menos laudatório, uma vez que afirma que o mérito intelectual das ideias de Navarro era coletivo e não simplesmente individual, Mário Ferraro ainda manteve na sua narrativa o pressuposto de que o agrônomo era “o grande realizador” do processo de modernização da agricultura de São Paulo. Cf. FERRARO, Mário Roberto. A modernização da agricultura e da silvicultura
50 tempo, esquecido Alberto Löfgren, por exemplo, são casos de sujeitos que preconizaram a proteção, mas se tornaram acantonados.175
Buscando legitimar suas propostas de crítica ao liberalismo e contra as práticas destrutivas dos animais, os estrangeiros que ocupavam postos consagrados na ciência nacional, desenvolveram estratégias discursivas para ter seus argumentos aderidos pelos políticos da Primeira República. A historiadora Regina Horta Duarte elucida que o suíço Emílio Goeldi, por exemplo, em defesa das aves, abrasileirou seu nome e o alemão Herman Von Ihering escrevia seus textos com a primeira pessoa do plural – nós - para legitimar o amor “a nossa pátria” e se incluir enquanto pertencente à nação.176
Em outras palavras, ser ou não brasileiro era um fator que intervinha na adesão de suas reivindicações.
Uma segunda disputa inerente a este grupo florestal refere-se ao objetivo da proteção. A natureza devia ser protegida pelo seu interesse econômico e científico ou em virtude do apelo estético que emanava? Esta dúvida pairou sobre os diferentes mediadores. Percebemos que enquanto poetas e literatos defendiam o olhar contemplativo dela, tais como Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Coelho Netto, os “homens de ciência” buscavam ser pragmáticos. O botânico e engenheiro de minas Álvaro da Silveira177 e o engenheiro Lourenço Baeta Neves, depreciavam os anteriores pela sua exaltação da natureza intangível. Essa disputa entre literários e cientistas, no entanto, não foi impedimento para a uma cisão nesta composição do grupo de proteção à natureza.
Isso porque o café que consumia a Mata Atlântica era o mesmo servido e consumido como sobremesa nos encontros de literários e homens de ciência do período posterior à Belle époque. Havia afeições e contatos pessoais entre esses sujeitos históricos. Não estiveram
paulista (início do século XX). Anápolis: Universidade Estadual de Goiás, 2010, p.100.
175 Nos últimos anos, a historiografia das ciências tem visitado estas biografias particulares e investigado suas trajetórias e percepções de natureza. Lofgren, por exemplo, foi objeto de estudo de Adriana Persiani. A geógrafa, atribuindo um “pioneirismo” ao naturalista sueco, analisa o discurso presente em suas obras. Para a autora, o autor investiu-se de um discurso cientificistas a partir dos lugares que produziu ciência, tais como a Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, a Inspetoria de Obras contra das Secas e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Em ambos espaços científicos, Löfgren contribuiu para ampliar as questões sobre a flora brasileira, disseminar o saber científico e colaborar no ensino do pensamento florestal brasileiro. Segundo a autora, era um dos cientistas que denunciavam a prática da queimada e suas reverberações sobre a proliferação de pragas agrícolas. Ver PERSIANI, Adriana. Albert Löfgren: resgate, sistematização e atualidade do pensamento de um pioneiro nos campos da climatologia, fitogeografia e conservação da natureza no Brasil. 194f. Dissertação (Mestrado em Geografia). Universidade do Estado de São Paulo, 2012. 176 DUARTE, Regina Horta. Pássaros e cientistas no Brasil: em busca de proteção, 1894-1938. Latin
American Research Review, v.41, n.1, p.12, fev.2006.
177 Em uma das passagens de sua obra Fontes, chuvas e florestas, Silveira acusava, sobretudo Coelho Netto de “fantasias literárias”. Para ele, as representações de florestas como geradora das fontes tinham nos literatos, sujeitos de linguagem “mais floreada que a dos cientistas, tem maior número de admiradores; por ser mais rica de imagens desenhada pela fantasia, agrada mais”. Mas era um equívoco esse “dogma florestal” propagado pelos literatos. Cf. SILVEIRA, Álvaro Astolfo da. Fontes, chuvas e florestas. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do estado de Minas Gerais, 1923, p.6.
51 longe das conversas desses intelectuais as críticas à degradação que o mundo natural enfrentava. De modo recorrente, a República das Letras apontava em seus escritos a necessidade de conservação das matas pelo seu viés científico ou pela simples contemplação estética das árvores. Independentemente de suas vinculações com o poder político, diferentes mediadores compartilharam, em maior ou menor grau, do interesse público pela natureza, identificando-a como a raiz da nacionalidade. Houve assim, uma dupla acepção na manutenção das “fontes da vida”: protege-se porque é contemplativo e porque trazia benefícios à salubridade, ao clima, aos solos e a economia nacional. Ambos não eram inconciliáveis.
Um dos intelectuais representativos nessa aliança entre homens de ciência e literatos foi o teatrólogo e jornalista João do Rio (1881-1921), pseudônimo de João Paulo Alberto Coelho Barreto. Dotado de grande capital econômico e interessado pelos afazeres populares da cidade maravilhosa, João do Rio foi atuante na defesa das árvores brasileiras. De acordo com o ornitólogo Wenilton Daltro, o seu nome esteve na listagem dos presentes na primeira Festa das Árvores do Brasil, sediado em Araras em 1902.178
Nove anos depois, Barreto visitou o Horto Florestal de São Paulo a quem saudou com pompas e elogiosas críticas, sobretudo a postura de Edmundo Navarro de Andrade à frente da instituição. Conforme o cronista, aquele empreendimento florestal somente reafirmava “o quase país” que era São Paulo frente ao “delírio do papel” que era o Rio de Janeiro. O Serviço Florestal daquele estado, em sua ótica, remetia a “impressão de forte trabalho” e de interesse pela causa pública, fato que não se verificava na federação como um todo.179 A ciência, portanto, era entendida como aquela que possibilitava a perenidade da contemplação da Natureza aos literatos.
A terceira clivagem existente dentro deste grupo – a disputa pelos cargos e postos públicos na questão florestal - será mencionada, posteriormente, quando investigarmos a criação do Serviço Florestal Brasil. De imediato, acentuamos que o agrônomo Francisco de Assis Iglésias e médico, jornalista e botânico José Mariano Filho eram nomes cotados para obter a insígnia de diretor da principal instituição florestal do país à época. Eram dois projetos
178 DALTRO, Wenilton Luís. Araras – 1902: História da 1ª Festa das Árvores do Brasil. Araras: Topázio, 2002, p.67.
179 RIO, João do. Serviço Florestal de São Paulo. In: SCHAPOCHNIK, Nelson (Org.). João do Rio: um dândi na Cafelândia. São Paulo: Boitempo editorial, 2004, p.64-72. A sensação de atraso fluminense diante dos paulistas por essa obra de Navarro de Andrade também é presente no político do Rio de Janeiro Ary Fontenelle que, apesar de ainda não ter conhecido pessoalmente Navarro, dizia que sua obra causava “grande impressão”. Á revelia do agrônomo, entretanto, Fontenelle afirmava em 1912 ser necessário a construção de um código florestal. FONTENELLE, Ary. A devastação das matas. Rio de Janeiro: Tipografia do Jornal do Comércio, de Rodrigues & Cia, 1912.
52 próximos quanto ao seu fundamento: protegiam a natureza sob a verniz nacionalista e cientificista.180 Mas eram distintos no que se referia a prioridade de solução do problema florestal. Iglésias tomou como eixo prioritário voltar-se às mudanças nas práticas agrícolas e Mariano Filho, por seu turno, propôs arborizar as cidades sob perspectiva da árvore como uma tradição colonial que deveria se manter na crescente urbanização. De um lado, o ambiente rural prevalece, por outro, o problema urbano é o que se sobrepõe.
A escolha pelo primeiro, talvez, tenha se dado pela forte proximidade de Iglésias com o então ministro da agricultura em 1925, Miguel Calmon. Além disso, a formação em agronomia obedecia aos pressupostos de qual seria o técnico capacitado para solucionar o problema florestal na perspectiva de Alberto Torres. Certo é que ambos intelectuais tinham desenvolvido trabalhos técnico-científicos. Mariano Filho, descontente com a escolha, julgou Iglésias e sua equipe de “líricos” e pouco práticos.181
De projetos destinados à coletividade, as disputas intelectuais acarretaram também querelas pessoais.
Interessante é perceber que enquanto Calmon e Iglésias tiveram seus nomes inclusos no corpo editorial da Revista Florestal, Mariano Filho não ocupou qualquer lugar no periódico nesta primeira fase. Representou, durante a Primeira República, um projeto marginalizado. Fato é que a conjuntura de 1930 voltada à urbanização e industrialização do país, os interesses para sua proposta de solucionar com prioridade o problema florestal no espaço urbano ganhou visibilidade, especialmente, com a extinção do Serviço em 1933 e a criação do Conselho Florestal Federal em 1934. Tal conselho seria presidido por Mariano Filho. A exceção feita a participação dele na revista é durante a sua morte em 1946, quando, já nesta outra conjuntura, atribui-se uma página de pesar na Revista em seu nome.
Por último, reiteramos aqui um dos pontos que tinham sido evidenciados por Lobato em “A Onda Verde”. Há uma disputa entre os que exigem o eucalipto (como Navarro de Andrade) e os defensores do “nacionalismo florestal”, ou seja, apenas o plantio de árvores nacionais, como a Bracatinga defendida pelo político paranaense Romário Martins. Independentemente disso, seja pelo reflorestamento do eucalipto ou da bracatinga, ambos os sujeitos estavam empenhados para plantas de crescimento rápido e que viesse a suprir a
180 Concordamos, assim, com os dois fatores que são enunciados como de coesão do grupo de proteção à natureza por Franco e Drummond (2009) e Duarte (2010): ciência e nacionalidade mesclam-se na tentativa de proteger a natureza.
181 Relembrando a criação do Serviço Florestal, do qual integrou, Mariano Filho considerava que não tinha se procedido com “bom senso”, Nem mesmo a articulação de um corpo burocrático deveria se louvar, pois o quadro de funcionários que foram convocados eram de “pseudo-técnicos”. Cf. MARIANO FILHO, José.
Aspectos do problema florestal brasileiro. Oficinas Gráficas Alba, 1934, p.21. Mariano Filho chega a acusar
Iglésias de ter transformado em carvão sua própria chácara. Ver MARIANO FILHO, José. O problema
53 demanda de madeiras que se avolumava.
Como se vê, o movimento florestal ganhava corpo coerente e dotado de coesão em diferentes espaços sociais, desde República das Letras até os laboratórios científicos durante as primeiras décadas do século XX. Embora tivesse suas clivagens internas e com os agentes contrários à conservação, este grupo acabava, em diferentes graus, reunindo políticos, literatos e cientistas na busca de proteção à natureza. Faltava-lhes, no entanto, um organismo que permitisse amalgamar os diferentes sujeitos históricos. A Revista Florestal em julho de 1929 parece que vinha unificar estas vozes dispersas e acalentar o sonho dessa geração.