• Nenhum resultado encontrado

Fases e discursos da Revista Florestal

TABELA 3: CLASSIFICAÇÃO TEMÁTICA DA REVISTA FLORESTAL (1929-1949)

4.2 Cortes e periodizações da revista

4.2.3 Terceira fase da Revista Florestal (1945-1949)

A última fase do periódico contemplou oito edições, sendo uma delas com dois números. Sua periodicidade era trimestral e as dimensões do formato gráfico novamente se alteraram. Seu espelho editorial era diagramado em 31x 19,5 cm e com uma quantidade de páginas variável superior a 42 páginas, mas nunca maiores que 80 páginas. Tal como a fase anterior, não havia anunciantes e a revista era distribuída de modo gratuito aos fazendeiros e proprietários de terras associados ao Ministério da Agricultura.

A diagramação gráfica era padronizada em duas colunas, tal como outras publicações do Ministério da Agricultura. Tinha ampla predominância das fotografias em preto e branco, embora possamos observar a capa, a contracapa e no interior da revista alguns desses paratextos coloridos. O volume de fotografias variou de 22 na edição 1948 a 70 na edição do ano anterior. A primazia, contudo, eram pelas fotografias da flora nacional, tais como babaçus, carnaúbas, ipês e pinheiro do Paraná.

Entretanto, a documentação iconográfica contemplava estradas de ferro e a poluição derivada das fumaças da combustão; paisagens de cartões-postais; experiências do Serviço Florestal e do Conselho Florestal; fotografias de parques nacionais instalados até então (Itatiaia, Serra dos Órgãos, Iguaçu e Paulo Afonso), registros de reflorestamentos em morros, hortos e fazendas, bem como imagens de flagrantes de abate indiscriminado de madeiras. Assim, verificamos que havia uma preferência por incluir textos escritos, mas, principalmente, exibi-las através de imagens. Não há um artigo sequer nesta fase que não acople as imagens para elaboração do discurso. Até mesmo o único editorial presente nesta fase, na edição de setembro de 1945, constata o uso das imagens. A disposição gráfica chama a atenção do leitor, visto que subscrevem o texto em um esboço da capa da primeira edição da Revista Florestal, como se pode notar na fotografia abaixo:

Maria de Toledo. A invenção do Itatiaia. 181f. Dissertação (Mestrado em Sociologia). Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1993.

142 Da mesma maneira que perduravam a presença de fotografias, as seções tornaram-se definitivamente, permanentes, fixas. Quatro delas merecem destaque: “Nossa capa”; “Notas e comentários”; “Notas bibliográficas” e “Legislação”. Na primeira eram informadas as origens e explicações da capa do periódico. A segunda, por sua vez, referia-se aos eventos que eram promovidos pelos agentes que produziam a revista e as atividades do Conselho Florestal Federal. Em “Notas bibliográficas” o periódico indicava ao leitor algumas sugestões de publicações recentes, através de uma pequena resenha das obras. A “Legislação”, por fim, anunciava decretos que tinham sido regulamentados no tocante à proteção à natureza, tais como o decreto 1.419 de 1º de outubro de 1932. Este previa a proibição do corte de carnaúbas no estado do Piauí.

Esta árvore foi a que adquiriu maior expressão nesta fase da revista. O amplo conhecimento desta pelo agrônomo Antônio da Cunha Bayma que era o organizador do periódico nesta fase, talvez, explique esta predominância. Além disso, os benefícios que delas poderiam ser extraídos, desde óleos vegetais (uma necessidade industrial para o pós-Segunda Guerra)408, cosméticos à ceras. Carnaubais ocupavam diversas páginas, inclusive, nas capas

408 De acordo com o historiador econômico Francisco Iglésias, homônimo do diretor do Serviço Florestal, desde a Segunda Guerra cresceu intensamente o uso industrial de óleos vegetais, visando substituir o

Ilustração 6: Fotografia do editorial da edição de Setembro de 1946. (Fonte: Revista Florestal, Rio de

143 do periódico.

Neste paratexto, mudou-se novamente a estética do logotipo da revista para adoção de padrões mais próximos a de outras revistas do período. O que chama atenção é que tornaram- se coloridas e escolhiam-se ilustrações que representassem as paisagens que traduziam uma imagem de beleza natural (dentre os quais, os igarapés amazônicos, as Matas dos cocais, Cachoeiras de Paulo Afonso e do Iguaçu). Cada uma das imagens apontavam para determinadas estações do ano (junho por exemplo recebia a imagem de ipê branco com tons azulados; dezembro com praias).

Os textos eram originais para produção do periódico e alguns textos eram assinalados com “copyright” e republicados em outros periódicos, tais como Brasil Madeireiro, mensário de publicação do Instituto Nacional do Pinho.409 Embora apresente artigos que foram compartilhados por outros organismos da estrutura estatal a revista focaliza sua atenção no Conselho Florestal Federal. Esta instituição criada em 1934 pelo artigo 101 do código florestal tomou a projeção de principal organismo do Estado para solucionar o problema das matas. Nas páginas da revista são expostas como forma de divulgação: pareceres técnicos, atas das sessões, correspondências recebidas pelo conselho, críticas à imprensa e considerações gerais discutidas dentre dele.410

consumo de combustíveis fósseis. Ver IGLÉSIAS, Francisco. Aspectos políticos e econômicos do Estado Novo. In: SZMCRECSÁNYI, Tamás; GRANZIERA, Rui. Getúlio Vargas e a economia contemporânea. São Paulo: Hucitec, 2004, p.78.

409 Cabe aqui uma ressalva em verificar que o Instituto Nacional do Pinho teve uma política editorial bem densa como o Noticiário quinzenal, o mensário Brasil madeireiro e o Anuário de Economia Florestal. Dos três, apenas o último insere-se nas narrativas dos historiadores. Infelizmente, não nos cabe analisá-los nesse momento, mas reitera-se aqui o volume significativo de publicações sobre as madeiras e florestas que cresceram durante o pós- Segunda Guerra Mundial. Conforme assinala Carvalho, o INP era a instituição que agregava interesses de produtores, industriais e exportadores do pinho, a principal madeira de exportação do Brasil no período. Uma das suas propostas era disciplinar o corte das matas no Sul do país. Diferentemente do Serviço Florestal, era uma autarquia vinculada ao Ministério do Trabalho e não à Agricultura. Em sua trajetória se deparou com dificuldades como corrupção e escassez de pessoal. Uma das principais atividades realizadas pela instituição foi a organização do Primeiro Congresso Florestal do Brasil em 1953. Carvalho e Laverdi indicam que o debate aberto a diversos sujeitos, provocou a existência de vozes contrárias à atuação do organismo, uma vez que evidenciavam as suas fragilidades ambientais, econômicas e políticas. Ver CARVALHO, Ely Bergo de Carvalho. A modernização do sertão: Terras, Florestas, Estado e Lavradores na colonização de Campo Mourão, Paraná, 1939-1964. 344f. Tese (Doutorado em História) Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008, p.290; CARVALHO, Alessandra Izabel de; LAVERDI, Robson. Uma produção de sentidos para a araucária (sem floresta) no Paraná. In: FRANCO, José Luiz de Andrade; SILVA, Sandro Dutra e; DRUMMOND, José Augusto; TAVARES, Giovana Galvão (Orgs.).

História ambiental: territórios, fronteiras e biodiversidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2016, p.287-313,

(v.2); DIAS, Célia Regina da Silva. Op..cit, p.161-167.

410 Vale destacar que a própria revista era, por vezes, lida e discutida dentro das sessões do conselho. Consistia, pois, em um espaço de leitura e produção do periódico durante esta terceira fase. Cf. CONSELHO Florestal Federal. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 15 de Setembro de 1948, p.13.422; Cf. também: CONSELHO Florestal Federal. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 23 de maio de 1947, p.7.011; e, por último, analise: CONSELHO Florestal Federal. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 1945, p.16.772.

144 Em que pese a existência de conselhos estaduais e municipais, a atividade desta instituição era concentrada na cidade do Rio de Janeiro. O espaço urbano, em contraste com as demais, assumiu o predomínio no periódico, mesmo que distribuído pelo Ministério da agricultura. Comentam-se sobre o reflorestamento de morros cariocas e, por consequência, seus moradores foram reforçados como “inimigos número um” das florestas. Em uma das correspondências publicadas do Conselho, o morador da zona norte carioca afirmava ao “caro amigo”, o conselheiro Cunha Bayma:

Urge não só evitar o completo desaparecimento de que nos resta de reserva florestal da cidade, como reflorestar os terrenos desnudos, principalmente dos morros, pois além das consequências da erosão, das enxurradas, são horrivelmente afeiados pela invasão constante dos barracos, cuja população é incontestavelmente o inimigo número um das nossas matas, pelas vantagens imediatas que os incêndios lhes proporcionam. E são, na maioria dos casos, certos habitantes das favelas que põem fogo no capinzal, seja por divertimento, por ignorância ou maldade calculada para a obtenção fácil da lenha resultante das matas.(grifos nossos)411

Esse breve trecho da extensa carta, já nos é satisfatório para compreender que as favelas que se avolumavam na cidade carioca eram responsabilizadas pela devastação das matas. Dissecando o discurso, percebemos a diversificação de terminologias empregadas durante a carta para se tratar destes aglomerados urbanos, dentre as quais “cogumelos de esterco”, “áreas perdidas”, o espaço onde residiam “os malandros, ladrões e desordeiros”, e habitantes miseráveis que são “um pesadelo da população da cidade”. Para Valpassos, em sua visão de natureza, esses ambientes deveriam urgentemente ser eliminados em nome da estética e do bem-estar social. Para tal tarefa, impunha a necessidade de articulação de uma polícia florestal. E conclui da seguinte forma:

Aproxima-se, entretanto, o dia da árvore. Teremos discurso, exaltação, quando justamente a árvore está sem defesa, imolada à fúria criminosa do homem, seja ele, o roceiro, o carvoeiro, o lenhador, o fazendeiro e, aqui na cidade, o habitante do morro, todos eles sem o menor vislumbre de mentalidade florestal, cavando em sua inconsciência uma ruína que não se pode avaliar , dado o cortejo de males que tal prática determina.412

A carta escrita por Valpassos publicada na revista demonstra que no ambiente urbano um fenômeno social se tornava latente nos discursos: a favelização. De acordo com Maurício Abreu este processo na cidade do Rio de Janeiro acompanhou a intensificação da industrialização e urbanização. Em seus dados, os anos de 1940 vivenciaram a maior

411 NOTAS e comentários. Revista Florestal, Rio de Janeiro, ano V, n.3-4, p.66, set-dez.1946. 412 Ibidem, p.4

145 proliferação das favelas, levando a criação do primeiro censo para a gestão pública destes espaços em 1948413.

Materializam-se conflitos sociais entre o poder estatal e as comunidades locais pela incorporação de novos comportamentos e sensibilidades diante do uso de recursos naturais. São estabelecidas, assim, uma “moral ecológica”. Como nos ensina Karl Jacoby, que toma por base o conceito de economia moral de Thompson sobre os costumes locais, fornece uma abordagem que é um contraponto ao discurso da elite sobre a conservação414. Os membros da Revista Florestal fornecem um discurso no qual os subalternos são entendidos como transgressores a uma ordem e dialogam de múltiplas formas com a imposição dos novos valores diante da conservação.

Da mesma forma que os agentes humanos eram inimigos das florestas, os patógenos permanecem neste rol. Se na primeira fase o enfoque era pela ferrugem da goiabeira e outros fungos das árvores frutíferas, nesta terceira fase as pragas agrícolas sobre os eucaliptos são as mais investigadas. Djalma Guilherme de Almeida415 era um dos mais especializados no

413 Buscando contextualizar a geopolítica das favelas na primeira metade do século XX, a geógrafa Maria Laís Pereira da Silva assinala que no início do século XX eram compostos por casebres insalubres. Com Agache foram contabilizados 200 mil habitantes desses espaços. O Morro dos Telégrafos é indicado pela autora como um caso de surgimento em função do processo de industrialização em áreas periféricas. Pelos dados cadastrais em final dos anos de 1920, no morro havia 1502 casebres. Nos anos de 1930 e 1940, todavia, Silva constatou dois processos: a expansão e densificação dos aglomerados, bem como uma mudança nas características de localização. Estes conjuntos espaciais concentraram-se em maior grau nos subúrbios e na zona sul da cidade. Esses dois vetores de expansão são os mesmos que a Revista Florestal aponta onde a fiscalização florestal deveria ser mais intensa, o que sugere que a remoção das favelas era um objetivo daquele projeto de reflorestamento. Ver SILVA, Maria Laís Pereira da. Favelas do Rio de Janeiro: localização e expansão através do espaço urbano (1928-1964). In: ABREU, Maurício de Almeida. Rio de

Janeiro: formas, movimentos, representações: estudos de geografia histórica carioca. Rio de Janeiro: Da

Fonseca Comunicação, 2005, p.176-201; ABREU, Maurício. Evolução urbana do Rio de Janeiro. 4ª ed. Riod e Janeiro: Instituto Pereira Passos, 2011, p.106.

414 JACOBY, Karl. Crimes against nature: squatters, poachers, thieves, and the hidden history American of Conservation. Berkeley, Los Angeles, Londres: University of Califonia Press, 2001, p.3. Segundo o autor, o movimento conservacionista norte-americano é percebido por cima, através dos grandes intelectuais e políticos, descartando as pessoas do comum no debate de proteção à natureza. Para ele, a criação de parques nacionais e as demais ações do movimento não podem ser percebidas sem se ater as ilegalidades que caçadores, invasores, pescadores e madeireiros empreenderam, pois a lei e sua antítese são “eixos gêmeos”, isto é, novas leis geram novos crimes. As leis de proteção à natureza, assim, engendravam novos crimes. Essas pessoas do comum reagem, na maioria das circunstâncias, através de um “banditismo ambiental”. Os intelectuais, por sua vez, alegam que estes grupos eram “depredadores” e que tinham visões defeituosas do mundo natural. É, pois, fundamental, reconstituir o universo moral que movimenta as transgressões locais às leis florestais. Nesse sentido, as populações periféricas de tradição oral deveriam inserir-se nas discussões florestais, embora suas ações que ocorrem em alguns momentos na clandestinidade sejam difíceis de captar, mas importante de assinalar e problematizar.

415 Entre os seus artigos sob esta temática, constam: ALMEIDA, Djalma Guilherme de. Combate ao cupim.

Revista Florestal, Rio de Janeiro, ano IV, n.2, p. 24-42, dez.1945; ALMEIDA, Djalma Guilherme de.

Madeiras imunes ou muito resistentes ao cupim. Revista Florestal, Rio de Janeiro, ano V, n.2, s/p, jun.1946; ALMEIDA, Djalma Guilherme de. Cortiças. Revista Florestal, Rio de Janeiro, ano V, n.3-4, p.10-24, set- dez.1946; ALMEIDA, Djalma Guilherme de. Madeiras para lápis. Revista Florestal, Rio de Janeiro, ano VI, n.único, p.7-17, 1947; ALMEIDA, Djalma Guilherme de. Sugestões para o reflorestamento. Revista

146 assunto, em especial sobre o cupim que “atacava” as madeiras. Para a revista, fazia-se necessário, portanto, estabelecer pesquisas experimentais que pudessem mitigar os transtornos provocados por estes atores.

Com isso, a revista intensificou seu apelo técnico-científico. Esse vocabulário preponderou durante esta fase, substituindo os termos sacralizantes que permeavam a narrativa. Isso não significava a ausência de expressões como “espíritos” ou “cruzada”, porém predominavam metodologia, introdução, referências416, experiência, amostra, ecossistemas (dunas, principalmente) e outros correlatos. A própria titulação dos articulistas passa a ser referida como membros de universidades, instituições que buscaram se consolidar durante os anos de 1940 os lugares privilegiados de produção do saber científico.

Na esteira dessa valorização dessa linguagem, os homenageados durante esta fase eram exatamente homens de ciência que contemporâneos aos redatores. Os falecimentos do botânico Alberto José de Sampaio417 (que teve seus textos publicados mesmo após sua morte na primeira página do periódico) e do médico José Mariano Filho418 são nomes elevados na narrativa pelo apoio que concederam ao movimento florestal e pela sua “defesa” das árvores.

A releitura do tempo histórico permanecia a focalizar André Rebouças e José Bonifácio, porém também havia espaço para a canonização dos intelectuais contemporâneos pelo seu “empenho” na cruzada pelo reflorestamento. Reliam-se determinados eventos que representaram inflexões marcantes na história brasileira, tais como a Lei Áurea. Segundo Sampaio, esta Lei era um divisor de águas para o plantio de árvores.419 O tempo pré-abolição é colocado como um momento apoteótico aos agrários, pois não lhes preocupavam a obtenção da mão-de-obra para o corte das matas. O tempo pós-abolição, entretanto, aparece na narrativa como encargos financeiros para custear o trabalho de corte das matas. A problemática, assim, é reduzida sob a lógica econômica da relação entre mão-de-obra e recursos naturais.

***

Florestal, Rio de Janeiro, ano VII, n.único, p.25-33, 1948.

416 Entre as principais referências dos artigos da Revista, constavam o geógrafo Alberto Ribeiro Lamego (1896-1985). Apesar de citado, não encontramos vestígios de leitura de Lamego à Revista Florestal. Sobre os estudos das paisagens do estado do Rio de Janeiro representadas por Lamego, cf. FREITAS, Inês Aguiar de; PINTO, Fernando Lemos Firmino; MOURA, Rachel de Almeida. A história ambiental na geografia de Alberto Ribeiro Lamego. Interagir: pensando a extensão, Rio de Janeiro, n.9, p.71-78, jan-jun.2006; PERES, Waldir Rugero. Paisagens fluminenses, a contribuição de Alberto Lamego. 97f. Dissertação (Mestrado em Geografia). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

417 NOTAS e comentários. Revista Florestal, Rio de Janeiro, ano VI, n.único, p.73, 1947. 418 JOSÉ Mariano Filho. Revista Florestal, Rio de Janeiro, ano V, n.2, s/p, jun.1946.

419 SAMPAIO, Alberto José de. Normas viáveis de reflorestamento. Revista Florestal, Rio de Janeiro, ano VIII, n.único, p.1-6, 1949.

147 Com este capítulo constatamos, portanto, a seiva que é extraída das raízes e circula na narrativa da revista. Estas ideias enrijecem o tronco narrativo deste periódico. É possível realizar três cortes na periodização da trajetória editorial da Revista Florestal. São elas: a primeira fase, mais volumosa em número de edições (totalizando 14 ao total), estende-se de julho de 1929 até outubro de 1932. Nesse período a única edição bimestral é a de julho-agosto de 1930, publicação que anuncia a extinção da revista. O retorno, porém, ocorre em fevereiro de 1932 sob moldes editoriais similares aquela fase. Depois dessa publicação, a Revista tem outra edição em outubro de 1932 que encerra esta primeira fase do periódico.

Neste momento, a característica central é a projeção de medidas de regulamentação das florestas e recursos naturais. Os intelectuais, portanto, propõem as autoridades públicas legislações nacionalistas quanto ao uso dos recursos naturais, participação em eventos internacionais que envolviam a questão e, além disso, os dados econômicos são voltados a ampliar a exportação de madeiras. O centro da narrativa são as ações do Serviço Florestal que tinha naquele momento o papel centralizador no assunto do reflorestamento.

O segundo corte é um divisor de águas na trajetória editorial da revista. Refere-se à edição única equivalente ao primeiro trimestre de 1943. Aglutiná-la à primeira fase seria errôneo, visto que não se caracterizavam mais pelo que se projetava no plano das ideias, mas o que se implementava materialmente pelo governo. Entretanto, agregá-las ao período de 1945 em diante seria padecer da dissolução de suas características únicas. A edição é orientada a descrever a “ação” do governo Vargas sobre a questão florestal.

O foco principal, portanto, não é nas propostas possíveis do futuro, mas as medidas realizadas no presente. Suas notícias referem-se às construções que se edificavam para a proteção, bem como os investimentos que se faziam com o reflorestamento. Sendo profundamente marcada pelo aspecto de oficialidade, o periódico passa a construir uma narrativa de monumentalidade a esfera governamental. Não podemos, porém, nos esquecer que se materializava em um contexto de uma imprensa que propagandeava a nação brasileira e controlada pelos mecanismos do Departamento de Imprensa e Propaganda420.

A publicação de 1943 foi sucedida por uma terceira fase que corresponde aos anos que vão de setembro de 1945 até o ano de 1949. Durante essa fase, a publicação foi, inicialmente,

420 Sobre o controle da imprensa no Estado Novo, em um clássico trabalho, Maria Helena Capelato adverte que o governo varguista fechou redações de opositores ao regime, reduziu subsídios para fornecimento de papel, perseguiu e prendeu jornalistas, mas também contribuiu para a construção de prédios como o da Associação Brasileira de Imprensa. Para maiores detalhes, cf. CAPELATO, Maria Helena Rolim. Imprensa e

história do Brasil. São Paulo: Contexto, Edusp, 1988, p.50; BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Rio de Janeiro: Mauad, 2007.

148 trimestral, posteriormente, semestral, retornando a ser anual. A periodicidade, portanto, era muito variável, mas o que caracteriza esta fase é que seu enfoque não é mais na projeção ou realização de um programa florestal, mas de sua gestão. Seus artigos publicam as dificuldades para fiscalização dos parques nacionais, as atribuições de regulamentação do Conselho Federal Florestal, as publicações científicas executadas por diversas instituições sobre dendrometria e botânica, optando prioritariamente pelas madeiras a ser destinadas para a industrialização no Brasil.

149

CAPÍTULO 5.