5 REPERTÓRIOS DE CUIDADO COM A SAÚDE NO CONTEXTO FAMILIAR
5.4 CUIDADO COM A SAÚDE NOS DIVERSOS CICLOS DE VIDA
As interligações geracionais e familiares abarcam complexos de hierarquia e poder em que sexo e idade são matérias-primas de muitas vivências cotidianas. Na perspectiva geracional, o cuidado familiar com a saúde pode ocorrer inter e intrageracionalmente – pais cuidam de filhos, filhos cuidam de pais, irmãos cuidam de irmãos – ao longo do ciclo de vida. Popularmente, é comum a prática de invocar os laços sanguíneos para reforçar compromissos de cuidados, especialmente quando se trata de saúde (ELSEN, 2002).
Cada momento do ciclo vital e cada situação requerem modos de cuidados diferenciados, que ficam mesclados às demais vivências familiares. Os recursos necessários para o pré-natal são diferentes daqueles para cuidar de uma criança com dor de garganta ou caxumba, de um adolescente que quebra uma perna ou se envolve com drogas, de um adulto com alterações do colesterol ou de um idoso com Alzheimer. As especificidades ocorrem segundo as demandas e requerem diversas adaptações esporádicas e/ou definitivas.
Encontramos elementos prototípicos da relação dos homens com os cuidados em vários momentos do ciclo vital. Eles têm efeitos sobre as diferentes gerações. Nesse enquadre, o que se destaca nos cuidados com a saúde? Além do que já discutimos, vamos abordar elementos que se referem ao início da vida dos meninos, durante a adolescência, na vida adulta e quando idosos, no âmbito familiar e de assistência à saúde, que no cotidiano por vezes aparecem imbricados. Nessa perspectiva, também iremos abordá-los conjuntamente.
Nos cuidados familiares encontramos a priorização das gerações consideradas mais desprotegidas. Nessa perspectiva, ser menino, menina, idoso ou idosa parece ser disparador de diferenciação apenas quando este é um aspecto relacionado às histórias dos cuidadores envolvidos. Desse modo, lembramos que a possibilidade de que a geração de adultos tenha de assumir os cuidados de filhos e pais simultaneamente é cada vez mais frequente; também está aumentando o período de tempo em que os adultos ficam responsáveis por esses cuidados, sendo a possibilidade de afastamento dessas prescrições frequentemente carregada de julgamentos e culpa.
Na atenção à saúde, mesmo havendo a valorização da visão das pessoas inseridas em suas redes familiares, a concepção medicalizada promove um recorte individualista das lógicas familiares; uma lógica que enxerga o crescimento e as perdas dos corpos biológicos no curso individualizado da vida (ELSEN, 2002; SCOTT, P., 2011). Em suma, as questões que abordam gênero, gerações e famílias são imbricadas, complexas e desafiadoras.
Nos serviços de atenção básica à saúde a predileção pelos cuidados materno-infantil é evidente. Privilegiar ações de modo a contribuir para a redução de óbitos neonatais e na primeira infância tornou-se imprescindível. O estímulo e a normatização de ações que contribuem para alcançar essa meta promovem também o cuidado com as mães, pelo entendimento de que as suas ações influenciam diretamente a saúde dos bebês, independente do sexo deles. Em geral, a atenção ao acompanhamento materno aumenta quando se trata de adolescentes. A gestação de uma criança, quando os pais são adolescentes, pode provocar questionamentos relacionados a modelos idealizados de idades para o exercício da sexualidade e a formação de família, o que trará reflexos nas práticas de cuidado tanto na rede pública como no ambiente familiar (MEDRADO, LYRA, 2000; SCOTT, P., 2011).
Nas unidades de saúde o atendimento às mães inclui sessões de orientação de práticas de cuidado e distribuição de anticonceptivos e preservativos; adesão a um rigoroso programa de pré-natal – muitas vezes com premiações, como cestas básicas e enxovais; estímulo à realização de partos em ambientes hospitalares; incentivo à prática de amamentação; e acompanhamento do crescimento e estado nutricional do recém-nascido intensivamente até 6 meses de vida, continuando mais espaçadamente até 2 anos de idade (SCOTT, P., 2011).
A biologização dos papéis sociais também é um fator que afasta os homens dos serviços de saúde. Depois da concepção, as atividades masculinas se dissociam do biológico e, em muitos serviços, eles acabam relegados a um segundo plano na definição de tarefas a serem cumpridas pela equipe de saúde. Desse modo, até mesmo a regulação da quantidade de filhos e do uso de contraceptivos é delegada às mulheres, ainda que esta seja uma peça constante nas negociações de relações de poder entre elas e os homens. Com isso, raramente eles são convidados ou se sentem à vontade para participar de reuniões sobre métodos anticonceptivos, restringindo esta participação dos mais jovens, geralmente não casados, na busca por preservativos. Para os homens, a pressão social frequentemente fica concentrada no registro civil da criança e na participação econômica, reforçando a idealização de pai provedor. A paternagem e o cuidado com o filho, por vezes, ainda não parecem constituir foco de interesse tanto do casal parental quanto das políticas públicas (MEDRADO, LYRA, 2000; SCOTT, P., 2011).
Ao mesmo tempo, no contexto dos direitos reprodutivos a ideia que atualmente circula pressupõe que o exercício da paternidade pode gerar satisfação e desenvolvimento socioafetivo para homens, crianças e mulheres. Há o reconhecimento de que a ampliação da participação deles no cuidado infantil aumenta também sua participação no planejamento e no
acompanhamento gestacional, contribuindo potencialmente para uma reestruturação simbólica e estrutural das relações de gênero na vida reprodutiva (MEDRADO et al., 2009).
Em certa medida, culturalmente os homens são autorizados e/ou excluídos do cuidado infantil. Mas, não raro, ainda são vistos como inábeis para o desempenho dessa atividade. Mesmo quando um homem quer assumir um papel ativo no contexto do cuidado infantil, as instituições sociais – a família, a escola, o trabalho, as unidades de saúde – constantemente precisam se adaptar a esta possibilidade. Com frequência, as unidades de saúde deixam pouco espaço para os pais, sejam eles adolescentes ou adultos (LYRA; MEDRADO; LOPES, 2007).
Na perspectiva atual, as crianças, os meninos e as meninas, nascerão e terão mais chances de conviver com suas mães ou outra mulher cuidadora, o que tende a se perpetuar ao longo de seu ciclo de vida. No Brasil, na maioria das vezes, são elas as receptoras e gestoras dos cuidados no âmbito familiar, assumindo o acompanhamento do calendário de vacinação e a execução das orientações nutricionais que buscam a manutenção da saúde das crianças, por exemplo.
Na atualidade, as influências das questões de gênero ficam visíveis a partir da adolescência. A preocupação das famílias com a saúde dos adolescentes aparece relacionada, sobretudo, com questões que envolvem violência e substâncias químicas. Para os garotos, em geral, o foco está no desenvolvimento físico, em especial dos órgãos genitais. As principais queixas deles se referem à baixa estatura, desenvolvimento físico dos músculos, aumento das mamas, estrutura e doenças do pênis (GOLDENBERG, 2005; CONEJO, 2009).
No atendimento, as questões ligadas às doenças sexualmente transmissíveis (DST) e à gravidez na adolescência são abordadas sempre que possível, como forma de prevenção. É comum o relato desses usuários sobre a inadequação de abordagens e da escuta sobre suas demandas, bem como a tentativa de realizar procedimentos de investigação de seu corpo, em geral saudável. A frequência dos jovens aos serviços de saúde frequentemente aparece relacionada a acidentes e causas agudas. Por outro lado, ainda que se discuta a importância da mortalidade nesse momento do ciclo vital, as equipes de saúde geralmente percebem as ações de prevenção e de repressão de violência como responsabilidade prioritária de outros setores: educação, ação social, esportes, segurança e defesa pública (SCOTT, P., 2011).
Em relação aos adultos, é preciso dar mais visibilidade aos homens que estão presentes na rotina cotidiana dos espaços de atenção à saúde, que raramente aparecem referenciados pelas equipes profissionais, mas que podem ser representantes de mudanças ao favor do envolvimento masculino na construção mais igualitária das atividades em família. Até mesmo o ambiente físico e humano costuma apresentar um enfoque direcionado ao
segmento materno-infantil e pouco receptivo aos homens. “Aguardar a sua vez do lado de fora” poderia até ser uma metáfora para esta situação, mas na verdade é a descrição do comportamento de vários homens que comparecem às unidades de atenção à saúde, que acham os espaços externos menos constrangedores e mais convidativos e, por isso, escolhem ficar do lado de fora (MEDRADO et al., 2009; SCOTT, P., 2011).
Então, em espaços que privilegiam a atenção às famílias os homens ainda estão procurando seu lugar (ou estão esperando do lado de fora). Mesmo na condição de marido e pai muitos homens ainda são vistos como acompanhantes das mulheres, ainda que ambos cuidem igualmente dos recém-nascidos e filhos pequenos. Os homens participantes dos cuidados com a saúde, não raro, são associados a situações emergenciais. Já as mulheres (mães, avós e usuárias) têm sua presença esperada na unidade de saúde (SCOTT, P., 2011).
Na vida adulta há um agravante que beneficia os homens e deixa mais complexa a condição feminina. Entre muitos casais, é comum haver diferença de idade, sendo o homem o mais velho. Conforme já discutimos, de modo geral as mulheres têm maior expectativa de vida. Decorre disso que há uma quantidade maior de viúvas. Analisando a situação, Izquierdo (2003) aponta também que nessa estrutura os homens acabam tendo uma espécie de “seguro cuidado”, que se estende até o fim de suas vidas. Em contraste, as mulheres, que assumem grande parte da responsabilidade dos cuidados, têm maior incerteza em relação aos próprios cuidados que receberão, quando necessários.
Outra situação muito complexa refere-se aos vários aspectos que se conjugam para situar os homens num plano que os leve a serem percebidos como “ameaça”, tanto nos serviços de saúde como nos lares (GRANJA, 2008; SCOTT, P., 2011). O desemprego, o consumo abusivo de substâncias psicoativas, o envolvimento em situações de violência e também em atividades ilícitas são elementos que merecem espaço para discussões na área da saúde. Para além das reflexões a respeito de quais são os sujeitos das políticas públicas, esses elementos podem trazer à tona situações de conflitos, de falta de recursos e carregadas de emoções que merecem atenção tanto na perspectiva de quem recebe cuidados como de quem os proporciona. Trata-se, portanto, de construir e implementar políticas públicas que envolvam diversos setores: saúde, educação, trabalho, justiça, segurança, assistência social e outros.
Já para os idosos o cenário costuma apresentar outras configurações. O modo de olhar para homens idosos pode se diferenciar muito em relação ao de jovens e adultos. No papel de “vovô” eles podem ser (re)inseridos em outros espaços. Frequentemente, a crescente necessidade de cuidados com a saúde afeta seu posicionamento nas famílias e nos serviços de
saúde de diferentes formas. Situações de fragilidade, respeito e desrespeito podem ser intensificadas: ora os idosos ganham visibilidade e passam a ser convidados às unidades de saúde para, por exemplo, acompanhamento de doenças crônicas e da saúde bucal, campanhas de vacinação, exames de próstata; ora precisam de acompanhantes que possam se responsabilizar pela “luta” por procedimentos dignos. Por outro lado, esse novo posicionamento dos homens também pode exigir uma grande adaptação pessoal; pode ser muito difícil agregar o papel de quem precisa receber cuidados e perceber a redução ou perda da posição de cuidador. E, conforme nos lembra Izquierdo (2003), para o homem não ser mais um cuidador pode implicar a impossibilidade de ser provedor ou protetor de outros e de si mesmo.
Nessa fase da vida, as condições econômicas tornam-se muito relevantes para os cuidados com a saúde. Mesmo que a expectativa de vida venha aumentando com o uso de novas tecnologias, os seus custos são excessivamente elevados, aspecto que deveria ser muito problematizado. Assim, viver na pobreza pode ser determinante para a precariedade das condições físicas das pessoas, diminuindo sua expectativa de vida, se comparada a das camadas mais favorecidas economicamente, propiciando um discurso em que a compreensão do idoso remete à noção da pobreza e de exclusão (SCOTT, P., 2011).
Nas unidades de saúde há atividades de diagnóstico, manutenção e controle, distribuição de medicamentos, participação em palestras e outras atividades desenhadas para orientar os idosos quanto ao uso adequado dos medicamentos e promover comportamentos condizentes com distintas patologias. Existe uma tendência de agrupá-los de acordo com as suas doenças, especialmente hipertensão e diabetes. E também há investimentos para manter a adesão aos tratamentos indicados. A proximidade de unidades de saúde pode facilitar o transporte e o acesso aos serviços, enquanto os acamados podem ser incluídos em programas de visitas domiciliares (sobretudo em locais que dispõem de equipes de saúde da família).
Cabe ressaltar que as diferentes gerações encontram muitos modos de lidar, receber e prover cuidados com a saúde. De modo geral, os homens têm encontrado uma diversidade de modos para realizar esses cuidados, acentuando mudanças, ambiguidades e multiplicidades; mostrando também possibilidades de distanciamento de prescrições orientadas pela masculinidade hegemônica (CARVALHO, 1999).
Brullet (2010) defende que, mesmo sem a necessidade de dedicar cuidados específicos à saúde de um membro, as famílias deveriam contar com espaços, serviços e programas diversificados de apoio em seus ciclos. O debate social e as políticas de apoio aos cuidados
com a saúde e à equidade entre homens e mulheres deveriam contemplar várias linhas de atuação, entre as quais destacamos:
1) apoio a uma nova cultura de práticas familiares que promovam a participação dos homens nos cuidados familiares;
2) licenças de trabalho e a possibilidade de jornadas reduzidas e flexíveis, com compensação financeira razoável, de acordo com as necessidades do ciclo de vida dos membros das famílias;
3) pontos de informação, direitos e benefícios pessoais e familiares, serviços de mediação familiar, banco de tempo33 e apoio financeiro e/ou de acesso preferencial aos serviços e benefícios sociais e econômicos diretos para as situações individuais e familiares que necessitam deles;
4) incremento dos serviços de cuidados da comunidade (creches, espaços familiares, centros de convivência, residências adaptadas para pessoas incapacitadas, serviços domiciliares e outros);
5) desenvolvimento de políticas urbanas para a organização do tempo e oferta de serviços e mobilidade que facilitem a gestão da vida diária das pessoas que trabalham; e
6) locais de ajuda mútua e apoio psicológico em momentos de insegurança e mudanças intensas.
De modo geral, nas famílias ou em espaços institucionais o cuidado com a saúde aparece nas relações em meio a habilidades, insatisfações, novas possibilidades, desgaste e gratidão, afetos amorosos e hostis, sentimentos de desqualificação ou culpa de cuidadores e de quem recebem os cuidados (sejam eles homens ou mulheres). Consideramos importante
33 O Banco de Tempo, desenvolvido em Portugal desde 2002, tem seu modelo inspirado em movimentos
surgidos na Itália, no início da década de 1990, e, posteriormente, na Espanha. É um sistema de organização de trocas solidárias de nível local que promove o encontro entre a oferta e a procura de serviços disponibilizados pelos seus membros – pequenas reparações domésticas, aulas, companhia para ir ao médico e ajuda em assuntos burocráticos, entre muitos outros. Funciona como um banco, mas tem o tempo como moeda de troca e não o dinheiro. Promove a valorização do tempo e de cuidados com os outros; o apoio às famílias; a conciliação entre vida profissional e familiar, através da oferta de soluções práticas de organização da vida cotidiana; o reforço às redes sociais de apoio, visando diminuir a solidão e promover o sentido de comunidade e vizinhança; a colaboração entre pessoas de diferentes gerações e origens; a construção de uma cultura de solidariedade e de relações sociais mais humanas e igualitárias; o estimulo ao reconhecimento de talentos e capacidades. Disponível em: <http://www.graal.org.pt/projecto.php?id=2> e <www.bancodetempo.net>. No Brasil, o Banco de Horas, um trabalho semelhante na área de saúde mental, foi implementado em dois momentos: após a anistia, em 1979, que possibilitou a volta de exilados políticos; e no início da década de 1990, diante do impacto da epidemia de aids. O trabalho realizado possibilitou a organização e disponibilidade de atendimento voluntário de profissionais da área, voltado a pessoas infectadas, familiares e profissionais que atendiam aos portadores do HIV, visando à assistência e prevenção de consequências relacionadas a aspectos emocionais. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/073_1Brasil_Franca.pdf>.
estabelecer estratégias de cuidado com a saúde, somadas aos saberes de pessoas, famílias, profissionais e rede de assistência à saúde, especialmente como contribuição para a superação de crenças cristalizadas que compõem situações cotidianas e envolvem questões de gênero.