5 REPERTÓRIOS DE CUIDADO COM A SAÚDE NO CONTEXTO FAMILIAR
5.3 O CUIDADO COM A SAÚDE NA PERSPECTIVA DE GÊNERO
No cotidiano, nas residências e nos locais de prestação de serviços, questões de gênero interferem nos modos que encontramos para organizar e entender mudanças e permanências (materiais e subjetivas) em relação ao cuidado com a saúde. Enquanto as discussões sobre gênero abordam explicitamente questões de poder e desigualdade, a noção de família tende a ocultá-las, tornando-se um eixo fundamental para nossas reflexões sobre cuidado com a saúde dos homens, nosso tema de pesquisa.
A noção de família que predomina em nossa sociedade pressupõe um princípio de união e de inclusão. São enaltecidas as alianças entre as pessoas e ressaltados os papéis de complementaridade, o que contrasta com a noção de gênero prevalente, que adverte sobre a desigualdade entre homens e mulheres e suas implicações. Nessa perspectiva, nos filiamos aos questionamentos das relações desiguais e as consequências da divisão de atividades que envolvem cuidados, trabalho e ocupações diversas (IZQUIERDO, 2003; 2003a; MONTENEGRO, 2003).
As relações de gênero no contexto dos cuidados com saúde são criadas, reafirmadas e transformadas no funcionamento da vida cotidiana: nos lares, na divisão das ocupações, nas organizações, nas políticas. No entanto, diante das relações diretas de nosso dia a dia é convidativo tomá-las sem questionamento, como algo natural (“por que é assim”), o que mascara sua dimensão social e histórica. O modo como configuramos as possibilidades de pensar o cuidado com a saúde acaba imerso em um arcabouço emocional no qual essas práticas acabam sendo intensamente imbricadas a características pessoais.
Tal constatação nos leva a outro aspecto de nossa discussão: a constituição das noções de como ser homem, que se mostra também um processo dinâmico, com muito a ser conversado e construído. Ser homem pode ter significados diferentes em vários momentos e espaços. Diversos aspectos influenciam a constituição das masculinidades, que variam também de acordo com diferenciações de geração, idade, classe, etnia ou orientação sexual. A masculinidade é um modo de configuração de práticas em torno da posição dos homens na estrutura das relações de gênero (CONNELL, 1995). Existem várias configurações desse tipo em qualquer sociedade. Em reconhecimento a esse fenômeno falamos em masculinidades, no plural.
Segundo Robert Connell (1995; 1997; 2003), as diferentes expressões das masculinidades não se distribuem ao acaso, muito menos ostentam iguais índices de aceitação e privilégios. Isso quer dizer que não se trata apenas de identificar e nomear modos de ser
homem e enfatizar a suposta diversidade que hoje existe na sociedade. Podemos reconhecer em cada organização social, em cada período histórico, em cada localidade uma diversidade dos modos de viver as masculinidades. Nessa diversidade existem relações de poder construídas social e historicamente que nos levam a hierarquias de dominação, principalmente de homens sobre mulheres e mesmo de homens sobre outros homens.
No topo dessa hierarquia temos o que Connell (1995) denomina de masculinidade hegemônica. Ela corresponde a um conjunto de atributos amplamente valorizados, que variam historicamente em uma mesma cultura e até no decorrer da vida de cada indivíduo em particular. Uma implicação importante do padrão hegemônico é que há muito tempo ele determina que os homens se diferenciem das mulheres; que marquem uma posição oposta ao feminino – o que se torna relevante especialmente quando lembramos que em muitas idealizações as mulheres aparecem ligadas ao cuidado, o que acaba promovendo um distanciamento dos homens das práticas de cuidado. A tomada de consciência sobre questões de gênero e padrões hegemônicos de masculinidade que estão presentes no cotidiano pode levar a reflexões e questionamentos importantes, como indica a seguinte entrada no diário de campo da pesquisadora:
Cuidado! Menino não pode!
Zezinho32 tem quase 3 anos; sua maior companheira é a priminha, um pouco mais nova. (...) A outra prima (com
pouco menos de 1 ano) acordou manhosa. Achei que um bichinho de pelúcia poderia “ajudar”, a ela e ao pai, que a segurava. Depois de um tempo Zezinho aparece e, mais por gestos do que por palavras, mostra que queria um bichinho também. Em seguida, ele volta. Precisa de outro para sua priminha. Ela se junta a nós, escolhe o bichinho de pelúcia que estava com o primo e ele sai feliz com um palhacinho de EVA. Quando os vejo novamente tinham embrulhado os brinquedos e os ninavam quintal afora. Ambos carregam “seus filhinhos” com muito carinho. A mãe de Zezinho olha, sorri e comenta: “Se o José [pai de Zezinho] vê isso... Vai ralhar com o menino. Ele é todo homem, machão e quando vê o filho fazendo isso... Pra ele tá errado! Se a prima brinca com os carrinhos dele tudo bem, mas quando ele vai mexer com panelinhas ou bonecas, o José quer morrer!”. Em instantes o pai aparece e com ele a fala: “Vai brincar de outra coisa, Zezinho!” É interessante que durante o dia o pai e também o tio [o pai das duas meninas] se mostraram atenciosos e cuidadosos com as crianças. Fiquei pensando o quanto Zezinho se assemelhava a eles. Mais tarde, enquanto conversávamos, o pai ouve ideias diferentes das suas com interesse e desconfiança, e comenta: “Eu entendo tudo isso, acho legal, importante! Bom mesmo! Eu até aconselho alguns amigos... Mas, ele é meu filho e hoje em dia não é fácil... Eu tento não errar com ele! Mas, quando me lembro de mim... [faz um gesto mostrando o mesmo tamanho de Zezinho]... Parece que meu pai tinha um caminho limpo e eu também. Mas, pra geração do Zezinho parece que o horizonte anda sem linha” (diário de campo, 02/02/2013).
O cuidado é, também, uma habilidade que se aprende ao longo da vida. Quando um menino resolve incluir em suas brincadeiras peças ou jogos relacionados com o lar, alguns adultos ficam incomodados, sem saber se devem ou não fazer algo. Às vezes, crenças já cristalizadas são abaladas; outras, elas ficam expostas, revelando que não têm mais validade, especialmente nos momentos em que novas crenças ainda não estão fortalecidas o suficiente
32 Todos os nomes são fictícios.
para substituir as antigas. Jorge Lyra, Benedito Medrado e Fernanda Lopes (2007) observam que, nessas situações, não é incomum que pais, mães ou cuidadores passem a agir de um modo mais agressivo ou mesmo presenteiem os meninos com armas ou jogos de guerra sob o argumento de que “[...] isso é para ele aprender a ser homem” (p. 10). Os autores defendem que esse processo de socialização masculina, além de distanciá-los das práticas e dos discursos do cuidado, pode promover estilos de vida violentos e autodestrutivos.
Na visão de Connell (1995a, p.190), as masculinidades associadas ao posicionamento sexual se tornam narrativas normativas: “[...] uma definição de conduta e dos sentimentos apropriados para os homens”. Elas interferem nos modos encontrados para ser homem nas mais diversas atividades praticadas pela população masculina, independentemente de serem individuais ou coletivas; para cada uma delas existem cobranças, formas de adequação e subserviência, declaradas e/ou veladas.
Em nosso cotidiano são atribuídos conteúdos de gênero às ocupações. Desse modo, certas atividades são consideradas mais femininas e outras, mais masculinas, a despeito de serem de fato exercidas por homens ou mulheres (CARVALHO, 1999; IZQUIERDO, 2003). Nesse contexto, o entendimento do que é ser homem ou mulher, cidadã e cidadão se configura em meio a relações sociais de desigualdade, relações de poder e relações econômicas. Nossa subjetividade é forjada em meio ao cenário capitalista, portanto, focada na produção – o que fazemos ou deixamos de fazer fica impregnado em quem somos. Uma constatação muito comum ocorre quando nos apresentarmos, em diferentes espaços, sendo identificados por nossos nomes e por pelo menos uma ocupação: “Sou Fulana, pesquisadora; ele é Ciclano, professor; ela é Beltrana, está assegurada pelo INSS, mas o Fulaninho aí... É um folgado!” Logo, as condições de divisão de cuidado e trabalhos que envolvem cuidados também se constroem nessa mesma lógica.
5.3.1 Sobre Homens e Cuidado
As questões de gênero presentes na organização cotidiana e familiar influenciam diretamente os modos pelos quais muitos homens praticam cuidados com a saúde. Antes de caminharmos para essa especificidade, porém, abordaremos a relação masculina em uma perspectiva de cuidado bem mais ampliada.
Nesse contexto, é necessário considerar que há uma divisão histórica de tarefas no âmbito familiar que situam o cuidado com a saúde como tarefa feminina. Detendo-nos um pouco mais, podemos refletir que a desigualdade que envolve ocupações e leva a diferenças
salariais e de prestígio atribuídos a algumas atividades, independentemente de serem praticadas por pessoas de sexo feminino ou masculino, por vezes também está presente na divisão de cuidados com a saúde e trabalhos domésticos. Ainda estamos imersos em uma lógica econômica sexista, na qual a maneira como a divisão do trabalho é organizada limita, sobrecarrega e explora muitas pessoas, em especial as mulheres.
Mesmo quando as práticas de cuidado e o trabalho doméstico são distribuídos com equivalência entre os adultos da família, a desigualdade ainda fica expressa. Por exemplo, quando o homem recebe agradecimentos, é enaltecido e admirado por realizar uma tarefa doméstica: “Ele ajuda na casa, que homem bom!” Desse modo, precisamos refletir sobre as condições dadas pela sociedade e pelas pessoas que facilitam ou dificultam o envolvimento dos homens na vida doméstica e nas práticas de cuidado.
María Jesús Izquierdo (2003a) questiona a lógica que movimenta os homens em direção às práticas de cuidado. A autora lembra que, na sociedade ocidental, a configuração da subjetividade masculina está ligada à provisão e proteção, o que se configura para eles na mesma medida em que a responsabilidade com os cuidados se entranham nas práticas femininas. Desse modo, Izquierdo nos convida a supor que os homens estariam, preponderantemente, ligados a tais práticas pela ética da provisão e da defesa.
O cuidado direcionado pela lógica da provisão segue uma forma diferenciada de valoração. As relações são marcadas pela capacidade de prover e defender. O cuidador deve ser capaz de realizar seus próprios objetivos e também proporcionar a seus dependentes as materialidades de que precisem de modo regular e suficiente. Nesse enquadre (moralmente), o rendimento financeiro dos homens deixa de lhes pertencer individualmente e passa a ser algo que deve ser compartilhado entre todos os membros da família. Os homens devem defendê- los e à sua comunidade das adversidades, dos riscos e das ameaças exteriores, preservando a vida e a justiça social (IZQUIERDO, 2003; 2003a; MONTENEGRO, 2003). Assim, o cuidado relacionado às masculinidades aparece configurado por outra perspectiva.
Nesse caminho, em função da desigualdade de gênero, as políticas afirmativas específicas devem buscar ir muito além da maior participação dos homens nas atividades de cuidado; elas devem promover mudanças na organização da vida social. Desse modo, concordamos com a visão de autores como Izquierdo (2003) e Medrado e colaboradores (2009), que acreditam que enquanto a sociedade for regida pelo princípio da divisão do trabalho por sexo haverá barreiras para que homens e mulheres assumam mais ou menos atividades relacionadas com o cuidado à saúde.
Vale ressaltar que as diferenças apontadas como privilégios podem ao mesmo tempo se configurar como armadilhas. Ao receber suporte das mulheres na vida privada, por mais que os homens fiquem liberados para se dedicarem ao trabalho remunerado, as circunstâncias que envolvem estes processos também podem distanciá-los da intimidade da cotidianidade do lar e promover relações familiares enfraquecidas. Estas, por sua vez, podem envolver sentimentos de fracasso pessoal, não pertencimento, exclusão, afastamento, falta de compromisso com questões práticas e/ou emocionais e, até mesmo, favorecer posturas abusivas. Em algumas situações, a presença dos homens no ambiente familiar pode ser vivida com oscilações entre temor e gratidão, desejos de proximidade e de ruptura permanente (IZQUIERDO, 2003).
Como já discutimos, frases como “Os homens não cuidam! Eles não sabem se cuidar” são repetidas em diferentes contextos. Precisamos lidar com os elementos que possibilitam essas construções; precisamos lidar com a circulação da noção de que cuidado é “coisa de mulher”. Contamos com trabalhos e organizações sociais que procuram romper com essa estigmatização; que procuram conhecer e entender os sentidos atribuídos ao cuidado pelos homens e saber mais sobre as práticas de cuidado que já realizam em seu cotidiano (LYRA; MEDRADO; LOPES, 2007).
Ideias que assinalam possibilidades e competências dos homens para o cuidado – “Homens também cuidam!”; “Homens também querem cuidar!” – aparecem defendidas em diferentes contextos e espaços e em discussões como as de Lyra, Medrado e Lopes (2007) e Conejo (2013a). No convívio diário ou mesmo em situações de separação do casal, pai e mãe podem negociar a divisão de atribuições e responsabilidades. Dentro de casa, com sua família, nas praças e mesmo em instituições como berçários, creches e escolas é possível encontrar homens compartilhando responsabilidades no cuidado.
Algumas políticas e instituições agregam condições constituídas e constituintes, as quais podem facilitar, dificultar e/ou interferir no envolvimento dos homens na vida doméstica, nas relações, em comportamentos e nas noções que circulam a respeito do cuidado. Para aprofundar esse aspecto de nossa discussão apoiamo-nos no trabalho de Margareth Arilha (1999; 2005). Em seu estudo de doutorado, a autora analisou textos produzidos em oito conferências mundiais sobre população e mulher e cerca de 50 documentos de diversos órgãos da Organização das Nações Unidas (ONU), por meio dos quais acompanhou e destacou o histórico sobre a temática da inclusão dos homens no campo da sexualidade e saúde reprodutiva.
Arilha demonstra que formulações forjadas em 1974 sobrevivem na atualidade. O documento final da Conferência Internacional de População de Bucareste, desse mesmo ano, assinala, entre outros aspectos, que para modificar a situação das mulheres é preciso promover mudanças na função masculina: realizar investigações sobre os papéis sociais dos homens e das mulheres; e promover ações e políticas destinadas a melhorar e proteger a saúde dos homens, das mulheres e das crianças, estimulando a educação para a vida familiar e para a paternidade responsável. O contexto dessa discussão levaria à busca de mudanças que envolviam os homens, mas a mobilização era em função da situação das mulheres, preponderantemente.
Nos textos da Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (CIPD, 1994), realizada no Cairo, e da IV Conferência Mundial sobre a Mulher (1995), em Beijing, a valorização do conceito de gênero aparece ampliada, mas contém uma visão reducionista, em uma perspectiva que destaca apenas a necessidade da inclusão de homens e meninos nas ações de promoção da saúde sexual e planejamento reprodutivo. Arilha (2005) destaca criticamente que, nesse momento, nos documentos da ONU, o envolvimento dos homens aparecia pautado também de modo restrito e focado na (ir)responsabilidade em relação às questões de sexualidade e reprodução. A implicação masculina era operacionalizada de maneira instrumental, enfatizando a necessidade de mudança estritamente para melhorar as condições de saúde e de exercício de direitos femininos. Para a autora, no campo da saúde o papel dos homens estava atrelado à visão de homem-ausente – aquele que não cumpre as prescrições socioculturais que definem o perfil do “bom marido”, “bom pai”; de homem- problema – aquele que, em função de diferentes problemas, deve ser corrigido; de homem- acessório– aquele que deve se adaptar para contribuir para a melhoria da qualidade de vida e da saúde das mulheres.
Transformações culturais, institucionais e simbólicas constituem verdadeiros desafios. Em diferentes momentos os recursos com os quais os homens já contam não são valorizados. As mudanças que envolvem homens e cuidados exigem muito mais do que simplesmente inseri-los em programas de saúde reprodutiva ou de planejamento familiar (ARILHA, 2005; MEDRADO et al., 2009). Nessa direção, é necessário efetivar uma agenda de pesquisa, reflexão e, sobretudo, de coordenação política vinculada a um pensamento teórico e conceitual sobre gênero, associado às grandes questões econômicas (MEDRADO et al., 2009).
Atualmente, podemos contar com trabalhos que legitimam os processos que envolvem os homens e o cuidado, como o estudo “Homens que cuidam”, realizado em cinco países
(Brasil, Chile, Índia, México e África do Sul). O trabalho buscou explorar questões sobre essa temática por meio do depoimento de homens que estão envolvidos em formas não tradicionais do trabalho de cuidado, tanto na esfera doméstica quanto na profissional. A análise dos discursos buscou compreender, a partir da visão dos próprios homens, como eles começaram a participar e como descrevem as tarefas de cuidado. Essa análise permitiu compreender que: 1) na maioria dos casos o trabalho de cuidar nos níveis familiar e profissional parecia ser imposto aos homens mais em função de circunstâncias da vida do que como uma questão de escolha individual;
2) as experiências da primeira infância desses homens resultaram em direções múltiplas e, por vezes, contrárias, influenciando os modos encontrados para exercer suas práticas de cuidado; 3) a qualidade e a natureza das relações dos homens com os parceiros (especialmente as mães dos seus filhos) foram afetadas positivamente à medida que eles passaram a participar das tarefas de cuidado no lar;
4) muitos homens que desempenhavam o trabalho de cuidado procuraram dar-lhe um significado tradicional, adaptando-o à sua autoimagem masculina, dentro de padrões hegemônico; e
5) o grau de satisfação dos homens com o trabalho de cuidado (profissionalmente ou em casa) apresentou variações: alguns descreveram grande satisfação ao desempenhar esse tipo de atividade, enquanto outros disseram se sentir incompletos, deprimidos ou subestimados (TAYLOR et al., 2012).
Dessa forma, o cuidado masculino pode se configurar de vários modos, inclusive distante de uma perspectiva idealizada de que ele é cuidador, provedor, protetor, romântico, “perfeito”. Se partirmos do ponto de que os homens também cuidam, podemos passar para novas etapas. Podemos explorar diversas situações e até mesmo questões do cuidado na perspectiva masculina. Mas ainda nos cabe fortalecer, apoiar e incentivar associações entre homens e cuidados com a saúde. A seguir retomamos nosso enfoque direcionado ao cuidado com a saúde.