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6 OBJETIVO E PROCEDIMENTOS DE PESQUISA

6.2 PROCEDIMENTOS DA PESQUISA

A reflexão sobre a trajetória deste estudo apoia-se no conceito de “campo-tema” proposto por Peter Spink (2003). Em consonância com sua visão, nosso campo de investigação não se caracterizou por um lugar específico para o qual nos deslocamos. Ele foi marcado pela processualidade de diferentes temas.

O campo-tema caracteriza-se pelas redes de causalidade intersubjetiva que se interconectam em vozes, lugares, momentos diferentes; como espaço composto por argumentos parciais e, às vezes, concorrentes entre si; e por artefatos e materialidades. Então, utilizar a perspectiva do campo-tema não significa explorar todos os elementos presentes nele, mas nos permite explicitar que somos afetados pelos diversos agenciamentos que o tema invoca: lugares de trabalho e estudo, pessoas, rostos, lembranças, conversas, programas da mídia jornalística, discussões em mídias sociais, eventos, políticas públicas, materiais

científicos, anotações, filmes, músicas, emoções, confronto de saberes, negociações de sentidos e uma busca entusiasmada por ampliar possibilidades.

Esse entendimento nos permite dizer que não fomos ao campo: “Já estamos no campo, porque já estamos no tema” (SPINK, P.,2003, p. 36). É um processo por meio do qual um assunto que um dia foi estranho passa a ser paulatinamente mais familiar. Nessa perspectiva, compreendemos que o campo-tema da pesquisa começa quando nos vinculamos à temática abordada. E, como descrito no capítulo introdutório, a pesquisadora já estava vinculada a ela antes mesmo de iniciar este estudo.

As aproximações com nossa temática podem ocorrer de formas intencionais ou casuais, de forma mais densa ou mais periférica. Ainda nas palavras desse autor:

Nada acontece num vácuo; todas as conversas, todos os eventos, mediados ou não, acontecem em lugares, em espaços e tempos, e alguns podem ser mais centrais ao campo-tema de que outros, mais acessíveis de que outros ou mais conhecidos de que outros. Algumas conversas acontecem em filas de ônibus, no balcão da padaria, nos corredores das universidades; outras são mediadas por jornais, revistas, rádio e televisão e outras por meio de achados, de documentos de arquivo e de artefatos, partes das conversas do tempo longo presentes nas histórias das idéias. Alguns até podem acontecer com hora marcada, com blocos de anotações ou gravadores (SPINK, P., 2003, p. 29).

6.2.1 As Entrevistas e o Genograma

Para nos aproximarmos de forma mais densa de noções de cuidados em saúde nos diálogos intrafamiliares entre homens, à luz dos repertórios que circulam no tempo longo e no tempo vivido, utilizamos entrevistas grupais semidirigidas e genogramas. Nossas entrevistas foram realizadas em acordo com perspectivas adotadas por Lupicinio Iñiguez e colaboradores (2002), que as consideram um espaço de conversação entre entrevistador e entrevistado envolvidos em um contexto em que a formalidade pode ser relativizada por meio do incentivo ao diálogo. Entendemos que nelas o processo de conversação é fundamental. Como afirma Peter Spink (2003, p. 37), podemos entender que uma entrevista, em geral, está repleta de “[...] fragmentos de conversas: conversas no presente, conversas no passado; conversas presentes nas materialidades; conversas que já viraram eventos, artefatos e instituições; conversas ainda em formação; e, mais importante ainda, conversas sobre conversas.”

Assim, entendemos que a entrevista é um processo de interanimação dialógica, uma situação relacional, sendo a expressão e a produção de sentidos frutos dessa interação. Esse

processo conversacional envolve escolhas, reorganização de falas, reflexão e conformidade com o contexto interacional. As pessoas podem empregar argumentos a partir dos usos habituais, pautados por sentidos hegemônicos e cristalizados, e também podem fazer novas combinações e gerar espaços para controvérsias e novos sentidos (SPINK; MENEGON, 1999).

Durante as entrevistas procuramos criar espaços de estranhamento de modo a romper com o habitual e tornar visível o processo de produção de sentidos. As perguntas, as histórias, as nossas conversas focaram temas que, eventualmente, não tinham sido alvo de reflexões anteriores, convidando os envolvidos a explorarem novas versões de realidade (SPINK; MEDRADO, 1999). Portanto, é importante deixar claro que incluímos a pesquisadora no rol de pessoas ativas no processo de produção de sentidos.

Para pensar os processos que ocorreram nas entrevistas contamos com outro elemento importante da abordagem de práticas discursivas: a noção de posicionamentos identitários de cada participante. Quando conversamos, quem fala se posiciona e posiciona também o outro. Cada posição incorpora repertórios linguísticos, em um jogo de relações inevitavelmente permeado por relações de poder (SPINK; MEDRADO, 1999). Em nossas entrevistas, por vezes, falamos entre iguais.

Quando falamos procuramos dar coerência à nossa história de vida, considerando o contexto em que a fala está inserida. Os participantes de nossas entrevistas ora se posicionavam como filhos, pais ou netos, ora como homem ou mulher, profissionais, pesquisadora, participantes de grupos específicos ou consumidores. Assim, a mesma pessoa pode se posicionar e ser posicionada como filho, pai, avô, marido, namorado, genro, trabalhador, paciente, cuidador. Dito de outro modo, em uma mesma conversa podemos assumir múltiplos posicionamentos. As posições não são irrevogáveis; elas são continuamente negociadas. Então, os posicionamentos ocorrem enquanto damos sentidos a algo que narramos, contribuindo para a compreensão de processos por meio dos quais damos coerência e ressignificamos nossas histórias (PINHEIRO, 1999).

Nessa perspectiva, foram realizadas entrevistas com quatro grupos de familiares, em um único encontro, em função de não ser fácil reunir os participantes da pesquisa. Como recomendam Iñiguez e colaboradores (2002), utilizamos entrevistas semiestruturadas baseadas nas diretrizes temáticas derivadas do objetivo de pesquisa, qual seja, compreender as noções de cuidado com a saúde que perpassam diálogos e práticas cotidianas intrafamiliares no contexto das relações trigeracionais, à luz dos repertórios que circulam nas políticas de saúde atuais.

As entrevistas grupais foram realizadas com pelo menos o avô, o pai e o filho de uma mesma família. Nelas procuramos discutir os seguintes temas: quem aborda assuntos sobre cuidados e saúde na família? Quem se preocupa com cuidados em saúde em cada geração? Seus pais tinham preocupações relacionadas ao cuidado com a saúde? Quais eram? E hoje, sobre o que falam? Quais as práticas de cuidados com a saúde presentes em seu cotidiano? Quem procura orientações? Quem busca tratamentos? Com quem cada um conta? Quem se preocupa com o quê? Em quais situações essas ações acontecem? Quais as conversas que ocorrem entre pais e filhos? Avôs e netos? E com as mulheres (mães, esposas, avós)? O que cada um pensa e faz com o que é falado?

Em cada entrevista construímos também um genograma. Trata-se de um esquema gráfico da estrutura familiar multigeracional que se tornou uma importante ferramenta no trabalho com famílias, a partir da teoria dos sistemas familiares (BOWEN, 1978). Ele foi constituído como um facilitador da percepção de elementos de organização, crenças, história, recursos materiais e subjetivos, demografia, funcionamento, tipos de relacionamentos (saudáveis, conflitantes, distantes, próximos), aspectos relacionados à saúde e suas interfaces em cada geração. O genograma também viabiliza o registro de processos migratórios, gestações, perdas, internações, adoecimentos, mudanças significativas, experiências de sucesso, complicações com elementos estressores e recursos potenciais da família, entre outros elementos (OSORIO et al., 2009; 2011).

O genograma se configurou como um recurso valioso em pesquisas qualitativas que envolvem famílias. Autores como Naiane Wendt e Maria Aparecida Crepaldi (2007) e Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Valle e colaboradores (2009; 2011) assinalam que o uso do genograma pode: 1) facilitar a introdução de temas familiares e oferecer a oportunidade de conversar sobre o cotidiano, as atitudes e as escolhas dos membros da família; 2) auxiliar na organização de conhecimentos, da dinâmica de membros e do grupo familiar e de dados como idade, sexo, ocupação, estados de saúde; 3) facilitar a apreensão de mudanças históricas e culturais; 4) evidenciar padrões de repetição através das gerações, como, por exemplo, o alcoolismo; 5) contextualizar histórias familiares; e 6) intermediar a comparação de aspectos intergeracionais.

Desse modo, foi construído um genograma com cada grupo familiar entrevistado. Incluímos quatro gerações consanguíneas e também outras pessoas significativas que conviveram ou convivem com os membros da família. A produção gráfica, em geral, começou pela geração dos bisavós; também incentivamos as pessoas a falarem sobre membros da família extensa. Para facilitar a visualização, procuramos colocar a representação

gráfica de pessoas do sexo masculino ou feminino de acordo com os relatos do grupo. Os filhos, em geral, foram incluídos por ordem de nascimento, começando com o mais velho à esquerda. Em sua confecção a composição familiar representada foi construída segundo critérios e memórias dos participantes do grupo. Utilizamos os símbolos propostos por Wendt e Crepaldi (2007)34 (Anexo A).

6.2.2 Apresentando os Entrevistados

O estudo contou com a participação de membros de quatro famílias, de três gerações diferentes de pessoas consanguíneas do sexo masculino. Avô, pai e filho de cada uma formaram quatro grupos distintos. Duas famílias residiam na mesma cidade e a terceira, em uma próxima, todas no interior de São Paulo. Foi realizado um encontro com cada grupo familiar nos municípios de residência dos participantes. Os membros da quarta família moravam em diferentes cidades do estado de São Paulo, e o encontro com eles ocorreu quando se reuniram em uma cidade, também do interior paulista, para a comemoração de um evento familiar.

De modo a localizar possíveis participantes, entramos em contato com profissionais e conhecidos da pesquisadora que atuavam em locais de lazer (parques, locais de atividades de aventura radicais e bares), de prática de esportes (quadras e campos de futebol, academias, roda de capoeira), de estudo (escolas e cursos), de assistência à saúde (unidade básica de saúde, rodas de terapia comunitária, Ônibus do Homem35) e outros (como posto de gasolina de bairro e comércio).

Colocamos como critério de inclusão: homens de pelo menos três gerações diferentes da mesma família (avô, pai e filho); idades a partir dos 18 anos; escolaridade a partir do ensino fundamental; que aceitassem participar da entrevista com os demais membros da própria família.

34 As autoras basearam-se nos trabalhos de McGoldrick e Gerson (1995/2005) e Minuchin (1982).

35 O Ônibus do Homem ou Ônibus Azul, como é chamado pela população, é uma unidade móvel de assistência à

saúde da Secretaria da Saúde de Sorocaba. Em funcionamento desde agosto de 2010, o projeto foi inspirado em serviço similar, anteriormente disponibilizado às mulheres. Para os atendimentos não é necessário agendamento prévio; basta comparecer a locais como hipermercados, unidades básicas de saúde e espaços considerados estratégicos em bairros da periferia ou central, divulgados antecipadamente, sobretudo por meio do site da prefeitura. São realizadas consultas médicas, com foco principal na saúde sexual do homem e na realização de exames de próstata e cálculos renais. Além disso, também são oferecidos testes da campanha Fique sabendo (para diagnostico de doenças sexuais, principalmente HIV e sífilis), aferição da pressão arterial e da glicemia, entre outros exames básicos de check-up e orientações diversas (sobre dietas, prática de atividades físicas, diabetes). Disponível em: <www.sorocaba.sp.gov.br.>.

Mesmo diante de uma extensa rede de contatos, demoramos a conseguir participantes para a pesquisa. As conversas nessa temática ocorriam com falas como as que seguem:36 – Conheço uma família assim... com mulheres. Não pode ser com mulheres?

– Agora eu não estou lembrando de ninguém, mas tem! Deixa eu ver... É mesmo, achar um pessoal que tem os três é difícil mesmo. Eu até lembro, mas fica faltando pelo menos um pra dar certo.

– Você não conhece o X? A família dele dá. Só que o menino dele tá com 6 anos... Não pode? – Ah! Eu conheço sim!... iiiiii... Ai que pena, eu conhecia... faz dois mês que o pai do X morreu! – Ah, eu toparia, mas meu avô morreu há quinze dias...

– Até conheço, mas o avô é de longe, está em outra cidade... O filho! Nossa... Os três... Eles não se encontram... É difícil!

– Conheço um pessoal que dá certinho, mas cada um mora em uma cidade. Vou ver se falo com eles... Quando eles forem se encontrar eu aviso e vocês se falam.

– Eu até conheço, mas juntar aqueles três, só com milagre ou... se for funeral [risos]. E olha lá!

As conversas que aconteceram enquanto buscávamos possíveis participantes enriqueceram nosso estudo. Por exemplo, o episódio ocorrido em um antigo bar e mercearia de bairro, numa região onde havia muitas chácaras. Iniciamos a aproximação com os proprietários do estabelecimento imaginando que poderiam conhecer os moradores do lugar e indicar algumas famílias para um possível contato.

Entrei e comecei uma conversa casual com a dona do estabelecimento e um garoto que a ajudava (parecia ser seu filho). Eles foram simpáticos, receptivos. Depois me apresentei e continuamos a conversar. Aproveitando que o clima já estava amistoso, perguntei se conheciam alguma família ou alguém no bairro que pudessem me indicar com as características da família de que precisava. “Eu conheço a dona Y, mas na casa é avó, mãe e a filha dela. Deve ter uns vinte. Ela já tem até um menininho!” Enquanto tentava explicar que procurava por famílias com avô, pai e filho (homens), eles começaram a se mostrar desconfiados. O garoto voltou a limpar uma prateleira. A mulher acabou perguntando se procurava por alguém em especial – senti que ela me tratava como se estivesse em busca de alguém que fez algo de “errado”... Uma investigadora que está tentando ludibriá-los para que falem algo que os comprometerá no futuro. O clima ficou tenso. Aquelas pessoas que antes me tratavam com simpatia, agora pareciam querer me expulsar a pauladas. Retomo novamente, explico a pesquisa. Eles voltam à atenção de modo mais tranquilo, eu sinto que respiro mais aliviada e a conversa caminha para a dificuldade de encontrar famílias com três gerações masculinas e filho acima de 18 anos. A dona X sugere que eu procure a escola do bairro. Agradeço e vou embora (diário de campo, 16/04/2013).

Durante as conversas em busca de contatos muitas pessoas ficaram intrigadas, relatando que nunca tinham pensado na presença masculina nas famílias a partir da dimensão geracional. Elas acabavam dando um novo sentido aos comentários vistos na mídia, que

36 Frases anotadas no diário de campo e selecionadas por serem representativas dos conteúdos que se fizeram

frequentemente abordam a morte de homens jovens e fazem circular a ideia de que, de modo geral, eles morrem mais cedo que as mulheres. Igualmente nos deparamos com dados destacados na literatura, dos quais elencamos:

1) as gerações aqui consideradas convivem com diversos modos de relações conjugais e arranjos familiares, separações, novas uniões, constituições monoparentais, distâncias geográficas, físicas, etárias e emocionais entre pais e filhos – e, muitas vezes, são as pessoas do sexo masculino que se afastam do convívio doméstico (OLIVEIRA, 1999);

2) no Brasil, de acordo com o Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a tendência histórica de predominância feminina na população continua se acentuando. A quantidade de mulheres já supera em 3.941.819 o total de homens, ao mesmo tempo em que a sobremortalidade37 masculina se mantém maior entre eles ao longo da vida. Quando o foco é a situação de domicílio, os homens são maioria. No meio rural eles totalizam um contingente de 15.696.816 de indivíduos, enquanto elas representam 14.133.191; no ambiente urbano, como na média nacional, há 83.215.618 de mulheres e 77.710.174 de homens (IBGE, 2011). Desse modo, encontramos mais arranjos familiares constituídos por mulheres, sobretudo quando são focadas três gerações consecutivas;

3) Simone Conejo (2009), em sua pesquisa de mestrado, também relata a experiência da dificuldade em encontrar pessoas do sexo masculino dispostas a participar de estudo sobre saúde (no caso, com foco na obesidade).

Assim, nossa experiência nas etapas iniciais da pesquisa confirma esse panorama. O primeiro grupo familiar entrevistado foi indicado por uma amiga da pesquisadora, também psicóloga, formado por seu avô, tio e primo. O contato inicial, por telefone, foi com o tio, que se mostrou receptivo e se comprometeu a verificar a concordância de seu pai e seu filho em participar do encontro e da pesquisa. Com o consentimento dos três agendamos um encontro.

Mas a dificuldade de encontrar outros participantes continuou, conforme indica a seguinte entrada no diário de campo:

Concretamente, minha coleção de “nãos” vem aumentando... Hoje fui a uma UBS em que conhecia alguns colaboradores. No caminho encontrei alguns conhecidos, conversei com eles, mas não consegui nem indicações. Na UBS falei com X, que achou tudo muito interessante, ficou impressionado com os aspectos que acabamos discutindo sobre cuidados e saúde de homens adultos. Ainda mais por ser ele um homem, profissional da saúde,

que não tinha se dado conta desses aspectos. Mas ele só se recordou de famílias que não dariam certo, pelos mesmos motivos que sempre aparecem... Ele até usou falas conhecidas de outras tentativas. Falei com outras pessoas e... nada! Mas com a Y foi diferente! Ela se mostrou toda disposta. Lembrou-se de um dentista, um colega de trabalho. Ficamos empolgadas. Ela já pegou o telefone, entrou em contato com ele e... nem chegou a passar o telefone pra mim... Ele não aceitou. Ela só disse: “Ele é um chato mesmo!” Além de trabalhar na UBS, ela também é uma senhora muito conhecida em sua comunidade religiosa... Ela disse: “Fica tranquila... você vai ver, eu vou achar alguém pra você!” E eu: “Ou não vai mais se livrar de mim mesmo!!!” Rimos e começamos novas ligações. Ligamos para outras mulheres, também conhecidas na comunidade. Ampliamos a rede de procura... Dois dias depois estava com duas indicações (diário de campo, 11/06/2013).

Com essas duas indicações iniciamos novos contatos. A primeira pessoa procurada se interessou pela proposta, mas dois membros da família estavam às vésperas de embarcar para diferentes lugares do exterior, e um deles ficaria cerca de um ano fora do país. Entrei em contato com o outro participante potencial. O pai consultou o avô e começou a articular o encontro. Falou com seus dois filhos e um deles tinha disponibilidade. Combinamos. Eles reagendaram. E, por fim, realizamos nosso encontro em um dia de forte tempestade.

Na mesma época consegui o contato para formar o terceiro grupo.

Fui a um bairro em que morei por alguns anos. Procurei algumas pessoas que tinham muitos contatos. Encontrei X, um amigo e antigo vizinho. Ele é muito conhecido e querido no bairro. Conversamos. Falei sobre a pesquisa, pedi indicações. Ele se lembrou de algumas pessoas que não dariam certo [risos]: “A família do fulano. Vai dar certo! Ah, não, não!!! O pai dele já morreu!”; “Na família de Y ele tá bem. Mas, vô não tem mais! E na do Z os filhos ainda são pequenos...” Ele chamou uma conhecida que passava e me apresentou. Depois de explicar os objetivos da pesquisa, ela disse: “Mulher tem... Não pode ser com mulher?!” Ainda pensou mais um pouco, mas não se recordou de nenhuma família. Insisti mais um pouco com X e acabei saindo com duas38 indicações de famílias do bairro (diário de campo, 18/06/2013).

Entramos em contato com a terceira família indicada por X. Ele conhecia o pai (dono de um bar e mercearia de bairro), seus filhos e o avô, e achou que eles poderiam colaborar com o estudo. Nesse mesmo dia fomos ao comércio do pai e ele foi muito receptivo. Durante a conversa ele ligou para o avô e para um de seus filhos, que estava de férias do trabalho. Eles concordaram. O pai ficou de verificar um horário possível em comum e retornar. Marcamos na casa do pai. No dia de nosso encontro também estavam presentes a avó e a esposa, que ficou em outros espaços da casa, enquanto a avó permaneceu conosco, a pedido do avô. Então, neste grupo contamos com outra presença feminina, além da pesquisadora.

Depois de algum tempo, conseguimos entrar em contato com um quarto grupo de participantes potenciais. Os membros da família moravam em diferentes cidades do estado de São Paulo, estavam reunidos em uma chácara pertencente a um familiar do grupo para a comemoração do primeiro aniversário do bisneto. Conversamos durante a festa, decorada