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Cursos preparatórios para o Enem e a consolidação da função de processo de

5.3 Os indicadores da avaliação externa do Enem sob a influência da lógica mercantil

5.3.2 Cursos preparatórios para o Enem e a consolidação da função de processo de

Como forma de preparação para o Enem, enquanto forma de ingresso ao ES, os estudantes, caso tenham interesse e ou tempo disponível e ou condições financeiras para investir, podem fazer uma preparação complementar com o foco exclusivo no exame. Piunti (2015) explicita que o Enem fez elevar o sistema de regulação pelos resultados, o que valoriza a preparação dos alunos, que, por sua vez, justifica a frequência em um preparatório. Segundo Casali (2010) esses preparatórios contribuem para a inserção do Enem na rota do mercado educacional, o qual é agressivo por natureza e tenta, a todo custo, suprir as lacunas de formação que a escola básica não contemplou.

Esse modelo de preparatórios é divulgado, por questões de persuasão, como “Pré-Enem”, um equivalente a um preparatório para o vestibular, o Pré-Vestibular. O

curso é ministrado em um turno distinto ao que o concluinte do Ensino Médio frequenta na escola estadual, por exemplo, caso ele estude pela manhã na rede pública, o curso é ministrado à tarde ou à noite.

O estilo de aula, o material focado no Enem, a ajuda pedagógica, o envolvimento dos alunos [...] faz do “cursinho” um ensino melhor. A comparação é desigual [curso preparatório e Ensino Médio público], pois é bem melhor, mais prático, focado, tem que ter ritmo de estudo. Eu gosto e vou continuar a fazer até ser aprovada.

(Questionário – Escola 5, aluna, 17 anos).

Eu estudo pela manhã na escola [...] e curso um Pré-Enem no turno da tarde em uma escola particular. Faço uma preparação forte e aumento as minhas chances de passar. Além das aulas, recebo da escola o uniforme, material, simulados e informações diárias sobre o Enem.

(Questionário – Escola 6, aluna, 19 anos).

Por meio do Gráfico 15, nota-se que 83,1% dos concluintes do EM não participaram de um preparatório em paralelo à conclusão do Ensino Médio. Desse grupo, a grande maioria, 90%, não frequentou o “cursinho” por questões orçamentárias, ou seja, caso tivesse recursos financeiros, pagaria por esse completo dos estudos. Ressalta-se que, como é visto no Gráfico 12, a renda de grande parte dos alunos que trabalham é baixa e que, como exibido pelo Gráfico 13, a renda familiar desses estudantes também é diminuta. O restante, 10%, expôs que o compromisso com o trabalho e a falta de estímulo são impedimentos para não complementarem a preparação para o Enem. Ressalta-se que, como visto no perfil dos estudantes participantes dessa pesquisa, a maioria deles tem ou teve envolvimento com o trabalho, vê-se também que muitos não foram e não são estimulados a estudarem, devido, especialmente, a necessidade de trabalharem e da ausência de uma formação cultural.

O fato da maioria dos discentes da rede pública querer frequentar um preparatório para o Enem na rede particular e não o faz por questões orçamentarias e ou por ter que dedicar ao trabalho consiste em uma exclusão direta. Portanto, o fato desses estudantes não terem condições de pagar por uma preparação exclusiva para o Enem, condiciona-os a um patamar de inferioridade em relação aqueles que pagam.

Eu tenho vontade, mas, não tenho dinheiro. Eu não reclamo das aulas que

tenho, só quero preparar melhor, aí aumentar as chances de aprovação. É claro que quem prepara mais nas escolas específicas tem mais chance de ser dar bem. Isso é bastante, bastante evidente.

Eu trabalho o dia inteiro e venho para a escola à noite, então, não tenho tempo e até condição de pagar por um “cursinho”. Tenho amigos que

fazem, mas o pai paga, é bom pra eles. Se eles têm condições de pagar [...] devem investir [voz baixa, demonstrando certo conformismo]. Acho que aumenta a chance de ir bem, mas, tem que dedicar, não é só ir pra escola. (Entrevista – Escola 23, aluno, 19 anos).

Mais de 3% já fizeram ou fazem um preparatório em um preparatório social, ou seja, eles não pagam pelo curso porque participaram de um projeto sem fins lucrativos, com o foco na promoção social. O único preparatório social citado pelos alunos foi o curso do Programa Ações Formativas Integradas de Apoio ao Ingresso no Ensino Superior (Afin)62 da UFU.

Gráfico 15 – A proporção de alunos do Ensino Médio da rede estadual que já fizeram um curso complementar (“cursinho” – “Pré-Enem”) com vistas ao Enem.

Fonte: Dados da pesquisa (2017). Org. O autor (2017).

Torna-se oportuno salientar que, como já analisado, as escolas privadas aproveitam da estratégia de sucateamento e desmerecimento do serviço escolar governamental, edificado com destaque pelo ranking do Enem, e recrutam alunos para complementarem o ensino em seus ambientes. Assim, elas visam demonstrar, conforme Oliveira (2013), muita preocupação em preparar o aluno para o Enem, mais que as

62 Trata-se de um projeto de extensão com aulas gratuitas para estudantes que estejam cursando ou já concluíram o terceiro ano do Ensino Médio em uma escola pública onde há um campus da UFU: Uberlândia, Ituiutaba, Patos de Minas e Monte Carmelo. Ele é desenvolvido pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proexc), por meio de sua Escola de Extensão (Esexc), em conjunto com a Escola de Educação Básica (Eseba) da universidade (UFU, 2018).

escolas públicas. Para Carneiro (2013), o Enem promove uma nova demanda de informação e conhecimento, a qual transforma, de certa forma, o Ensino Médio em um “grande cursinho.”

A lucratividade provém não apenas do recebimento de mensalidades, como também na venda de materiais, uniformes, aulas de reforço, acompanhamentos psicopedagógicos, transporte para a escola ou para o local onde há aplicação do Enem. Para Dias (2013), Freitas (2012) e Frigoto (2011) esta percepção da escola coaduna com o ideário neoliberal, o que para Dias (2013, p. 126) “defende, implicitamente, ser necessário formar os excluídos do sistema [...] uma formação mínima básica, suficiente, que apenas qualifique a mão de obra [...]”.

Em Uberlândia, como aferido pelo pesquisador, em torno de dez escolas particulares oferecem um Pré-Enem direcionado com exclusividade ao aluno da rede pública. Vale ressaltar que esse curso não está subordinado as leis de ensino, assim, é alcunhado de “curso livre”, o que denota que as instituições têm total gerência acerca de elementos estruturais, tais como: carga horária, conteúdo programático (não há exigência de se alinhar as DCNEM e aos PCNEM, e sim aquilo que o corpo pedagógico acredita ser importante na preparação para o Enem, mesmo o Enem seguindo as diretrizes nacionais), itinerários ministrados (ignorasse, por exemplo, aulas de Educação Física e Artes e eleva-se as de Redação), planejamento de curso ou plano de aula, e formação dos professores (eles não precisam ser habilitados), o que facilita a constituição e a expansão dos “cursinhos”. Entretanto, isso é uma contradição institucionalizada, pois beneficia as escolas do mercado enquanto que as instituições públicas de Ensino Médio precisam seguir as normas dos dispositivos legais. Arakawa (2012, p. 83) afirma que “a rede particular de ensino se diferencia por sua maior autonomia e agilidade na implementação de políticas educativas, e por deterem incentivo maior para atingir taxas de aprovação”.

Na maioria das escolas privadas, o fato do aluno estudar na rede pública e frequentar concomitantemente o Pré-Enem faz com que ele pague um valor menor, o que não se caracteriza como um projeto social, e sim uma estratégia de mercado, pois, o lucro tende a ser grande, já que, habitualmente, as salas abarcam muitos alunos. Destaca-se ainda que esses estudantes, quando ingressam ao Ensino Superior, endossam o marketing de sucesso dessas instituições. Para ilustrar o quanto o Pré-Enem

movimenta o mercado privado, dos 6.179 alunos matriculados na última série do Ensino Médio em Uberlândia, como visto no Gráfico 15, mais de 13% declararam que participaram ou participam de uma preparação na rede privada, o que equivale a mais de 830 estudantes inseridos nesse mercado, realça-se que há alunos que frequentam o Pré- Enem durante os três anos do EM, além de pagarem a mensalidade e até uma taxa de matrícula, consomem ainda os produtos oferecidos no dia a dia.

O estudante da rede pública que frequenta um “cursinho” de preparação para o vestibular e ou para o Enem na iniciativa particular continua com o direito a cota (Lei 12.711 de 2012) porque tais cursos não estabelecem um vínculo institucional formal do aluno, sendo que a escola pública onde ele está matriculado é considerada a ramificação documental dele.

Reconhece-se os benefícios da Lei 12.711, especialmente, da inclusão educacional e a diminuição da desigualdade socioeconômica, contudo, frisa-se que o fato desses estudantes pagarem uma mensalidade coloca em discussão à validade do recorte quatro da cota, o qual contempla os discentes com renda familiar per capita acima de 1,5 salário mínimo, sem teto de renda, e que não se autodeclaram negros, pardos, indígenas e com deficiência. Segundo dados da ANDIFES (2016) 31,4% dos ingressantes por cota optam por essa modalidade, sendo a mais procurada das quatro existentes na lei. Nesse caso, entende-se que essa modalidade de cota social é inadequada, pois, “ofende o a igualdade material, uma vez que dá tratamento diferente a grupo que não apresenta situação de desigualdade” (CROSARA, 2018, p. 275), além disso, esse tratamento diferenciado “traz prejuízos para os demais recortes, que têm menos vagas distribuídas para si” (CROSARA, 2018, p. 275). Ao “criar um recorte de beneficiários que não se enquadram abstrata ou concretamente no de pessoas que sofrem com os obstáculos geradores de desigualdades” (CROSARA, 2018, p. 275) fere- se os preceitos da CF de 1988, pois, viola-se a promoção da igualdade já que os beneficiários da medida não possuem complicadores sociais, históricos e, em especial, financeiros para o ingresso no Ensino Superior.

Constata-se, então, que o curso de Pré-Enem demonstra, ao mesmo tempo, o enraizamento e o poder do Enem como um modelo de vestibular e a secundarização da finalidade do Enem enquanto uma avaliação externa.

Após a reflexão acerca da ânsia lucrativa do empresariado acerca do Ensino Médio e do Enem, do ranqueamento das notas do Enem, da sua publicização e da responsabilização dos professores pelos resultados ínfimos atingidos pelos alunos em tal Exame, torna-se importante analisar a relação dos estudantes e dos professores com o Enem, ou seja, eles o observam como avaliação externa? Qual a função mais representativa para eles? As respostas para essas duas perguntas contribuem para a elucidação da problemática dessa pesquisa, então, são respondidas na subseção subsequente.