PAULATA, Milena Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) [email protected] BAVARESCO, Paulo Ricardo Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) [email protected] SILVA, Giovana Maria Di Domenico Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) [email protected]
Resumo: O presente trabalho aborda a cidadania em seu processo de construção, na perspectiva da cidade educadora,
elencando aspectos fundamentais como diálogo, socialização e participação em comunidade. Objetivou-se refletir acerca da formação cidadã nas escolas, a fim de contribuir para a construção de uma cidade educadora. Utilizou-se o método bibliográfico a fim de refletir sobre a formação cidadã nos mais diversos ambientes educativos. Lembra-se com muita dignidade os pensamentos de José Pacheco, o qual nos diz que a escola deve se entender como parte da comunidade e nunca a parte dela. Todos os espaços da comunidade podem ser uma ampliação de conhecimento no qual as crianças e adolescentes se encantem e passem a desenvolver, aprender e entender os conhecimentos.
Palavras-chave: Cidadania. Interação. Comunidade. Educação.
1 INTRODUÇÃO
O enfoque principal desse trabalho é a construção da cidadania numa perspectiva da cidade educadora, elencando como problema principal, quais os desafios que a escola e a educação enfrentam na formação da cidadania na concepção de cidade educadora. Considerando as dificuldades encontradas na participação dos educandos nas sociedades atuais e a inserção de práticas cidadãs nas escolas, buscou-se reflexões sobre o tema. O educando precisa desenvolver suas ações como cidadão e conhecer seus direitos e deveres, a partir disso pesquisou-se práticas pedagógicas voltadas a educação em espaços formais e informais.
Considerando e analisando o processo histórico da cidadania num contexto educacional, destaca-se a cidade educadora. A construção de uma cidade educadora passa, principalmente, pela participação do educando na convivência em diferentes espaços. Ao exercer seu papel como cidadão busca conhecer e exercitar seus direitos e deveres, contribuindo para a construção de uma sociedade mais participativa, igualitária e melhor para conviver. O caminho metodológico seguido teve como base um estudo bibliográfico, sobre a cidadania na perspectiva de cidade educadora.
2 AS CRIANÇAS E A CIDADANIA NA ESCOLA
A sociedade sempre lutou por uma educação de qualidade. Por muito tempo, as lutas tinham como ideia que uma escola seria melhor que sem nenhuma escola, que um professor seria melhor que nenhum professor e que um livro seria muito melhor que nenhum livro. Porém, dessa forma, a qualidade era sacrificada para o favorecimento da quantidade. Lembra-se que a educação merece importância e requer um projeto que pense no futuro e exija a participação de todos os cidadãos.
A escola pública muitas vezes é vista como um órgão governamental e que deixa de permitir a todos, oportunidades iguais. Em nosso país podemos encontrar os mais diversos moldes de escolas, aquelas aonde têm professores desmotivados, salas em mal estado de uso, porém, também, podemos encontrar escolas em melhores qualidades, onde os professores e alunos se sentem motivados e entusiasmados com o ato de ensinar e aprender. Conforme Pinsky (1998, p. 113):
Uma escola em que o aluno receba uma educação que de fato seja a síntese entre o patrimônio cultural da humanidade, no seu sentido mais amplo (que cabe a cada professor bem-formado e atualizado trazer), e a especificidade de sua própria cultura; em que o professor tenha condições de tratar os alunos como seres únicos a serem socializados, mas não descaracterizados [...]
114
Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018
O diálogo em diferentes espaços e com diferentes profissionais da educação é fundamental para o bom funcionamento das escolas. O espaço de ensinar deve promover o interesse nas pessoas da comunidade. Com a participação das famílias, comunidades, alunos e professores a escola pode ser um local de múltiplos aprendizados.
A mudança de atitude das pessoas com relação à escola, baseada num sentimento de responsabilidade mutua, poderia construir o ponto de partida para uma importante virada. Afinal de contas, cidadania é participação, é ter direitos e obrigações, e, ao contrário do que muitos pensam, se aprende na escola. (PINSKY, 1998, p. 114). A cidadania é feita com a participação de todos, buscando a igualdade em ações na sociedade. A escola tem papel de extrema importância na construção do saber cidadão, pois é na escola que o aluno passa a maior parte do seu tempo. A LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional destaca a garantia dos direitos as crianças nas escolas públicas.
O ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente veio assegurar os direitos e deveres à crianças e adolescentes. Conforme já foi citado tudo é pensado na preparação da criança ao exercício da cidadania. Na atualidade a escola também passa a ser um local democrático, mostrando as diferenças existentes nos mais diversos espaços escolares. Segundo Candau et al. (1999, p. 103):
Ter uma escola democrática significa desenvolver uma educação escolar que compreenda as diversas interferências e interesses que perpassam a sociedade e organiza o ensino de forma a levar o educando a compreendê-los e a compreender o papel de cada um, individualmente, e o de cada grupo organizado, para poder interferir nas ações dessa sociedade.
Os professores devem trabalhar de forma com que as mais diferentes crianças possam se manifestar onde, pais, funcionários e a comunidade em geral possam participar e se manifestar, apontando sugestões, críticas e observações.
3 A AMBIÇÃO DA CIDADE EDUCADORA
O debate sobre a cidade educadora ganha ênfase, por volta de 1990, organizado por um grupo de cidades que buscou princípios centrados no desenvolvimento de seus habitantes. No mesmo ano aconteceu o I Congresso das Cidades Educadoras, na cidade de Barcelona na Espanha, o resultado foi a carta das cidades educadoras, que foi aprovada somente em 1994, ano o qual aconteceu o III Congresso Internacional das Cidades Educadoras na Bolonha (Itália). Essa carta apontava para a criação de cidades mais participativas e de inclusão social. Lembra-se que nos dias atuais tem-se a Associação Internacional de Cidades Educadoras, na qual 482 cidades fazem parte, sendo 36 países do mundo. No Brasil atualmente somente 16 cidades fazem parte da associação.
A cidade educadora é um espaço que desenvolve os mais diferentes aprendizados, com crianças e adultos de todas as idades, oferecendo conhecimentos informais e formais. Todos os espaços podem ser espaços educadores, pois podem ensinar os mais diferentes tipos de ações, como amizade, respeito e solidariedade. A cidade educadora é uma perspectiva de conhecimento cidadão. “Imagine um bairro onde é possível aprender mais sobre artes numa praça, fazendo grafites em seus muros e cultivando seu jardim [...] o aprendizado não é algo subjetivo: é o próprio viver, o dia-a-dia.” (DIMENSTEIN, 2005, p. 85). Um sonho para muitos educadores e alunos. A função do educando passa a ser transformar as informações recebidas em conhecimentos que agregam valor.
Tente transformar uma cidade numa escola, dividida em salas de aula. Esse é o princípio da cidade educadora; os espaços urbanos, praças, museus, parques, empresas, cafés, teatros, cinemas, tudo é visto como uma extensão do ato de aprender. Daí o termo cidade educadora. O esforço de se criarem comunidades de aprendizagem (lugares em que se aprende em qualquer espaço, a qualquer hora e com as mais diferentes pessoas) faz parte da visão humana, como alguém que não só observa mas produz conhecimento. (DIMENSTEIN, 2005, p. 67).
Todos os espaços da cidade são possibilidades de ampliação de conhecimento. A cidade educadora passa a ser um espaço de socialização, onde pessoas de mais idade e de famílias diferentes possam interagir com crianças e adolescentes. Há espaços de aprendizagens formais e informais que buscam todos os tipos de conhecimento.
A cidade escola aprendiz pegou dessa composição bucólica a ideia de civilidade, na qual as casas se mesclam e integram harmoniosamente ao espaço público. Mas trocou os jardins pelo saber, na busca de uma integração pelo aprendizado. Não deveriam existir fronteiras entre a escola e a cidade, assim como não deveriam existir muros entre o viver e o aprender, entre o ser e o fazer. (DIMENSTEIN, 2005, p. 86).
Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018 Algo fundamental para o bom desenvolvimento da escola elencando por Dimenstein (2005) é que o viver e aprender devem ser indissociáveis, como também o ser e o fazer. Aspectos que merecem importância na construção de educandos e educadores conscientes e preparados para a vida em sociedade. Deve-se ressaltar que questões como a marginalidade e violência podem ser combatidos e enfrentados no desenvolvimento de ações voltas a inclusão social e a igualdade de direitos. Segundo Pacheco (2014, p. 127):
A escola que se entende parte da comunidade e nunca “à parte dela” será um território de trocas, saberes e festejos, que, coordenados e orientados pelos profissionais da educação, darão a todas as crianças e jovens, estudantes brasileiros, a oportunidade e a possibilidade de um percurso escolar de sucesso, sem interrupções e exclusões. Assim a escola se comunica com a sociedade realizando trocas de saberes e conhecimentos ligados ao cotidiano de cada família bem como de cada espaço de aprendizagem. A escola passa a fazer parte da comunidade e permite a inclusão de todos e gera uma autonomia para que as escolas possam criar abundantes espaços de aprendizagem. Muitas cidades são ricas em aspectos culturais, que devem ser cultivados pelos educandos e profissionais. Aspectos como democracia e inclusão social podem desenvolver novos caminhos e oportunidades na escola. Conforme Pacheco (2014, p. 11):
O espaço de aprender é todo o espaço, tanto o universo físico como o virtual, é a vizinhança fraterna. E quando se aprende? Nas quatro horas diárias de uma escola-hotel? Duzentos dias por ano? Que sentido faz uma “idade de corte”, se não existe uma idade para começar a aprender? A todo momento aprendemos, desde que a aprendizagem seja significativa, integradora, diversificada, ativa, socializadora. O tempo de aprender é o tempo de viver, as 24 horas de cada dia, nos 365 dias (ou 366) de cada ano.
Dessa forma, salienta-se que aprender em comunidade é apresentar ao educando as mais diversas oportunidades de desenvolvimento do conhecimento. Aprender em comunidade além de tudo é a interação com a sociedade. O conhecimento passa a ultrapassar os muros das escolas e fomenta a formação de crianças e adolescentes nas mais diversificadas ações, dominando a interpretação e sabendo descartar, eleger e criticar. A escola necessita dialogar com a comunidade para poder perceber quais caminhos precisam ser seguidos. Lembra-se que a cidade educadora precisa criar um novo conceito de escola, pois o mundo está demasiadamente cheio de informações e as mesmas precisam ser analisadas. As crianças necessitam compreender o mundo e suas diversidades, e ao mesmo tempo se encontrar nos mais diversos espaços. A escola precisa ser um espaço que encante crianças e adolescentes, fazendo com que passem a aprender, saber e entender os conhecimentos.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A escola nunca deve estar separada da sociedade, ambas devem caminhar de forma conjunta, pensando no desenvolvimento integral de cada criança em suas devidas faixas etária. O processo para que a escola participe e comece a seguir caminhos diferentes pode ser longo, porém a recompensa no final será muito satisfatória. O conhecimento dos educados deve ultrapassar os muros da escola e se desenvolver na comunidade, nas ruas, praças, Igrejas, clubes e grupos de amigos. Lembra-se que a perspectiva de cidade educadora tem como elemento fundamental o conhecimento a partir dos mais diferentes espaços. Nos dias de hoje aspectos como inclusão e diversidade devem ser elencados em todas as escolas e espaços, pois a educação é direito de toda criança e adolescente.
O âmbito escolar é onde o educando passa a conviver e se relacionar grande parte de sua vida, passa a construir sonhos, modos de ver o mundo e de convir com a sociedade. A escola passa a ser a base fundamental para a formação de cidadãos ativos e participativos na sociedade, que possam pensar e agir com base na transformação do mundo em que vivemos.
Uma cidade educadora só e possível se houver diálogo entre a comunidade e a escola. A participação da comunidade nas ações escolares é de extrema importância, pois a cidade educadora não busca solução imediata e sim compreende a importância da reflexão constante para a formação de um ser crítico e integral. A busca frequente pela construção de cidadania na perspectiva de cidade educadora é voltada para a educação humanizada, emancipatória, participativa e solidária. Portanto, a construção da cidadania é possível nas escolas, cidades, comunidades e nos mais diversos espaços desde que exista prática e participação do ser humano. Cidadania é além de tudo o diálogo, a solidariedade e a formação de seres pensantes e participativos na sociedade. Apresentando e conhecendo seus direitos e deveres, fazendo parte da construção de uma cidade mais igualitária, que preserva suas culturas e busca a participação de todos os cidadãos nas ações. Além do mais, se aprende com a comunidade e em comunidade.
116
Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018
REFERÊNCIAS
CANDAU, Vera Maria et al. Tecendo a cidadania: oficinas pedagógicas de direitos humanos. 2. ed. Petrópolis: Vo-
zes, 1999. 126 p.
DIMENSTEIN, Gilberto. Aprendiz do Futuro: cidadania hoje e amanhã. 10. ed. São Paulo: Ática, 2005.
PACHECO, José. Aprender em comunidade. 1. ed. São Paulo: Edições SM, 2014.
Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018
A EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS: DESCORTINANDO MITOS
CAETANO, Evelyn Diconcili Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac) [email protected] GRAUPE, Mareli Eliane Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac) [email protected]
Resumo: Este estudo reflete sobre a problematização da sexualidade na escola. No contexto escolar, este tem sido um
assunto limitado e não tratado de modo emancipador. Os principais referenciais teóricos são Foucault (1988), Furlani (2011), Sanderson (2005). Assim, trazemos uma breve reflexão de questões relacionadas à educação sexual, sexualidade e seu interdito. É uma pesquisa qualitativa, bibliográfica, com duas entrevistas semiestruturadas. Dados apontam que a sexualidade infantil faz parte do desenvolvimento humano e a escola não contempla isto.
Palavras-chave: Educação. Sexualidade. Educação Sexual. Escola.
1 INTRODUÇÃO
As dificuldades na discussão do tema sexualidade podem ser múltiplas. Escolas compartimentam o assunto na aula de educação sexual, abordando discursos da medicina como o estudo do corpo humano e suas funções. Tais aproximações tornam-se descontextualizadas de situações reais vividas pelos/as estudantes e suas dúvidas, sentimentos, medos, sensações e prazeres são desmerecidos.
O direcionamento aos corpos infantis e jovens já vem ocorrendo há quase três séculos, com outros enfoques e dispositivos e, talvez, estejamos reproduzindo uma herança cultural que, a partir da problematização de alguns discursos, permite que as informações não “terminem” nelas mesmas.
O significado de sexualidade diz respeito às experiências, interações e influências socioculturais. As aulas de educação sexual nas escolas não atingem a verdadeira problemática. Atualmente elas contribuem pouco para o rompimento de mitos atrelados a papéis sociais e relações estereotipadas nem tampouco promove a emancipação e criticidade.
2 COMPREENDENDO A SEXUALIDADE E A EDUCAÇÃO: DESAFIOS
Versar sobre sexualidade pode transpassar a forma simplista e reducionista de como a questão tem sido entendida. Há a necessidade de um distanciamento de argumentos biológicos, observando-se a abordagem histórica, social e política, na qual relações de poder são exercidas e isso envolve uma mudança de mentalidade (RIBEIRO, 2013). Inquietamo-nos a ponto de provocar curiosidade sobre o interdito e, nos termos de Foucault: “No que diz respeito ao sexo, a mais inexaurível e impaciente das sociedades talvez seja a nossa” (FOUCAULT, 1988, p. 35).
O debate é evitado principalmente nas escolas. Louro (2014) aponta que há vários questionamentos sobre as temáticas “sexo e sexualidade” em relação à responsabilidade da abordagem do tema. Além disso, há o temor que a reflexão estimule as crianças a praticar sexo. Outras dúvidas surgem em relação ao momento propício de se tocar no assunto e como deveria e poderia ser trabalhado.
A sexualidade infantil, em alguns contextos, é mal compreendida. Na interpretação adulta, a criança ao “se conectar” com a sua sexualidade possibilitará o descobrimento da erotização e sensualidade. “Desconhecemos que ela pode se comportar na forma espontânea sem intenção maliciosa.” (FURLANI, 2011, p. 128). Desse modo, a repressão está instituída em muitas instâncias da sociedade. Contudo, o assunto está nas conversas, na televisão, nas músicas, nas danças, etc. (NUNES, 1959).
Furlani (2011) afirma que a sexualidade infantil é reconhecida com discursos que traduzem a dimensão cultural de cada povo. Além disso, o estereótipo de que sexualidade se refere à reprodução deve ser desconstruído: “Se a capacidade reprodutiva é uma maturação biológica adquirida no período denominado de puberdade, então o que justifica a sexualidade antes disso – na infância?” (FURLANI, 2011, p. 67-68). Para a autora, a criança está em processo de descobrimento de seu próprio corpo e o convívio com outras pessoas depende das “descobertas sexuais-afetivas” que acontecem nas brincadeiras de faz de conta e nas interações.
Dentre as muitas descobertas do corpo, a que causa mais constrangimento e aborrecimento para adultos é quando a criança “brinca” com os próprios genitais. Como resultado, muitas vezes, são sonegadas informações
118
Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018
da sexualidade” ao invés de “educar para a positividade-consentimento das expressões sexuais.” Este enfoque nos permite pensar que o que ocorreu no século XIX, nos estudos de Foucault (1988), permanece nos dias atuais: o desejo de que a criança seja um ser assexuado. Portanto, qualquer sentimento em relação ao prazer em seu corpo deve ser expurgado. Sendo educada com silêncios e proibições, a criança crescerá com os mesmos sentimentos dos adultos, de que a sexualidade é suja e imoral e, portanto, proibida.
As crianças, assim como os adultos, vivenciam experiências sensoriais e, por intermédio deles, aprendem a interpretar tais estímulos. O prazer para as crianças não é direcionado especificamente ao órgão genital, mas sim a todo o corpo, sendo a sua sexualidade totalmente diferente do que é para os adultos (SANDERSON, 2005, p. 28). Diante do constrangimento ao tema, adultos seguem a “lógica da censura”. Pais têm dificuldade e vergonha ao falar sobre o assunto, docentes têm receio da abordagem com medo de reações negativas por parte dos responsáveis. Destarte, há a necessidade de “controlar sua livre circulação no discurso, bani-lo nas coisas ditas e extinguir as palavras que o tornam presente de maneira demasiado sensível.” (FOUCAULT, 1988, p. 21).
A seguir apresentamos o ponto de vista de dois entrevistados (com nomes fictícios) docentes dos Anos Iniciais de uma escola municipal de Lages/SC. Rochelle aponta o que ela considera um comportamento atípico relacionado à sexualidade:
[...] já tive crianças que...aflorou...a gente percebia que aflorava a sexualidade nos colegas...tentava tocar nas outras crianças...ou até falava coisas que a gente via que não era para idade [...] ou até fora a gente via a criança tendo esse comportamento que não era adequado pra idade. (informação verbal).
Observamos o constrangimento de Rochelle, durante o relato. A escola tenta garantir a não transgressão de certas regras com relação aos prazeres (FOUCAULT, 1988), mas é um tema difícil de ser “apagado” ou esquecido porque faz parte da construção e constituição humana.
No caso de Julius, quando questionado sobre como conversaria com sua turma a respeito de sexualidade, demonstrou, em sua resposta, confusão entre sexualidade infantil e sexo:
Acho que com o grupo. Ter um olhar, falar, explicar, se sexo que hora que pode, que hora que não pode. Ter as pessoas especializadas, entende, para conversar: um psicólogo, uma pessoa que talvez já tenha um entendimento melhor nessa questão psicológica. (informação verbal).
Julius demonstrou insegurança ao tratar sobre o assunto indicando a necessidade de chamar um profissional especializado para conversar com a turma.
A interpretação provinciana, adquirida no século XIX, é ainda utilizada pela escola sobre uma “educação sexual” que não considera a sexualidade como relevante. A existência da descontextualização do assunto, não aborda nem contempla mudanças e se sujeita a “[...] identidade naturalista, positivista, distante dos atuais paradigmas de compreensão do mundo, anacrônica e defasada.” (BONFIM, 2012, p. 22).
No relato de Rochelle, a sexualidade é abordada por ela em “tom de alerta”, porém não descarta a importância das questões subjetivas:
Quando há necessidade, a questão do namoro, também, gosto de trabalhar muito que a criança não namora, que são colegas. Algumas situações que você percebe, mas as vezes a criança está sendo exposta a uma televisão, a uma internet, coisas que também não são adequadas, mas a gente acaba trabalhando essas questões também dentro de sala de aula né? De autoestima, da preservação do corpo, do ato de brincar, que a criança deve brincar com coisas que são próprias para idade dela. (informação verbal).
A carência de diálogos não possibilita o desenvolvimento integral das crianças. Em virtude disso, Bonfim (2012) acredita que toda a população precise de uma reeducação sexual com projetos que visem à reflexão, a informação e a consciência crítica. “Daí nossa defesa da inserção de uma disciplina na grade curricular da graduação dos cursos de formação de professores, pedagogia e licenciatura, que supere a abordagem dos aspectos biológicos da sexualidade.” Trata-se de diálogos sobre comportamentos, emoções, sentimentos, respeito e subjetividade (BONFIM, 2012, p. 29).
A sexualidade é historicamente construída. Porém, destacamos que diante da falta de informações sobre o