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ESCOLA PÚBLICA

No documento Anais Completos (páginas 121-125)

RACOSKI, Márcia Maria Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS)

[email protected] Financiamento: Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS)

Resumo: O estudo tem por objetivo trazer considerações acerca da gestão democrática da escola pública, bem como

sobre a importância da participação da comunidade escolar. Também aponta para as dificuldades desse processo. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica. Conclui-se com o estudo que a participação na gestão escolar é uma tarefa bastante complexa, porém de suma importância para os interesses da comunidade escolar, garantindo um espaço que além do desenvolvimento cognitivo, contribua para a formação da cidadania participativa.

Palavras-chave: Cidadania. Escola pública. Gestão democrática. Participação.

1 INTRODUÇÃO

Abordar o tema da gestão escolar democrática e participativa, para a realização desse trabalho, emergiu das reflexões promovidas no componente curricular Gestão Educacional: Planejamento do Desenvolvimento Institucional, do Programa de Pós-Graduação Profissional em Educação da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). A escolha do tema considerou a importância de promover discussões acerca da gestão escolar na escola pública, que permanecem sempre atuais e relevantes no contexto educacional brasileiro.

O principal objetivo foi trazer considerações relevantes sobre a constituição de uma escola democrática, e sobre a importância da participação da comunidade escolar na gestão da escola pública, com vistas a contribuir com a construção de uma educação pública de qualidade, que atenda as reais necessidades de seus usuários. O trabalho também aponta para algumas das dificuldades existentes para que ocorra uma efetiva participação na gestão desse espaço, além do papel da direção na condução desse processo. Também traz alguns princípios básicos, baseados na gestão democrático-participativa, que podem orientar o trabalho da gestão escolar.

O método utilizado para a elaboração desse breve estudo foi a pesquisa bibliográfica, pela qual foi possível trazer importantes considerações sobre o tema abordado, de autores como Gutierrez e Catani (2013), Libâneo (2015), Lück (2009) e Paro (2017).

2 REFERENCIAIS TEÓRICOS

Iniciamos as reflexões acerca da temática sob o questionamento do que realmente é uma escola democrática? Encontramos uma resposta nas palavras de Lück (2009): “Escola democrática é aquela em que os seus participantes

estão coletivamente organizados e compromissados com a promoção de educação de qualidade para todos.” E com esse entendimento, firmamos que o principal objetivo da gestão democrática na escola pública, é torná-la um ambiente com objetivos e fins comuns, em direção ao atendimento das questões mais relevantes da educação, para que dessa forma seja possível atingir coletivamente, de forma positiva, a todos que dela fazem parte.

Paro (2017) afirma que ao falarmos de gestão democrática na escola, estaria implícita a participação da população em tal processo, porém na prática da administração das escolas, essa lógica nem sempre ocorre. Muitas vezes a questão da democratização das relações limita-se às pessoas que atuam no âmbito do Estado. O que ocorre, quando a participação da comunidade não é incluída, é um ajuste entre os servidores, que provavelmente não atenderão os interesses da população que utiliza a escola.

Segundo o autor, a proposta de uma gestão democrática em escolas públicas, com a participação efetiva de toda comunidade escolar, soa como uma coisa utópica. No sentido da palavra, significa lugar que não existe, porém o mesmo afirma que isso não quer dizer que não possa existir. Para tanto, é necessário que isso seja colocado como algo desejável, importante, partindo da tomada de consciência da real situação da escola, para depois indicar a possibilidade de implantação de um projeto verdadeiramente democrático.

Quanto à gestão participativa na escola pública, Gutierrez e Catani (2013, p. 86), destacam que ela é dotada de especificidades, como a forte relação com a comunidade, tanto na habitual prática administrativa quanto da grande

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diversidade cultural característica dos brasileiros, na qual “a escola pública acaba lidando com o Brasil real, o Brasil da miséria, da pobreza em todos os seus sentidos.”

Para os autores falar em participação na esfera da escola pública significa falar numa relação de desiguais, num cenário de escolas com estruturas precárias e muitas vezes desequipadas para atender os desafios que surgem, além de uma comunidade muitas vezes despreparada para lidar com uma gestão participativa deste espaço, bem como da própria prática da cidadania.

Segundo Libâneo (2015), é necessário superar as formas tradicionais conservadoras de organização e gestão da escola, para que esta realmente consiga desenvolver as suas funções sociais e pedagógicas, que além de assegurar o desenvolvimento das capacidades cognitivas, contribua para a formação da cidadania participativa e na formação ética dos estudantes.

Para que a escola tenha objetivos transformadores, com vista a atender os interesses dos trabalhadores, Paro (2017) afirma que é necessário que a escola esteja organizada democraticamente. Mesmo nem sempre sendo consciente, a participação de toda comunidade escolar é fundamental para que a escola desempenhe esse papel transformador, que atenda aos interesses das camadas às quais essa transformação favoreça, que é a classe trabalhadora.

Segundo Libâneo (2015), as modalidades mais conhecidas de participação na estrutura escolar são os Conselhos de escola, Conselhos ou Comissões, através dos quais ocorre a participação através da atuação dos profissionais da educação e dos usuários, na gestão da escola, que segundo Gutierrez e Catani (2013), foi resultado de uma difícil e intensa luta política, ocorrida em meados da década de 1980.

Nesses espaços citados pelos autores, há uma articulação entre a participação na escola em termos de autonomia dos membros, estabelecendo como prática formativa, participando de órgãos deliberativos, os agentes aprendem a responsabilizar-se pelas decisões que os atinge num contexto mais abrangente da sociedade, com o processo organizacional, na tomada de decisões que é compartilhada pelos profissionais e usuários deste espaço.

Quanto ao pleno funcionamento do Conselho de Escola, ainda segundo os autores, um dos grandes problemas é o desconhecimento das atribuições legais desse conselho, pela comunidade escolar, principalmente entre os alunos e professores, mesmo achando importantes os assuntos tratados, e tendo a clareza que podem contribuir com a escola participando deste espaço. Os principais entraves estariam na manipulação por parte dos gestores, na burocracia ou até mesmo na falta de interesse em participar.

Cabe destacar que não é somente a participação nestes espaços que constituem uma gestão democrática, Lück (2009) afirma que a participação da comunidade escolar na realização de uma gestão democrática vai além da participação nos órgãos colegiados, pois a mesma pode acorrer numa grande variedade de atividades pedagógicas da escola. Porém, tal participação não se efetiva simplesmente se os educadores somente participam da organização de festas juninas ou de campanhas para arrecadar dinheiro, ou então na ocasião de reuniões para tomadas de decisões sobre as quais já há uma orientação a ser seguida.

Na mesma perspectiva, Gutierrez e Catani (2013) citam dois comentários surgidos durante uma palestra ministrada no Estado de Rondônia, sobre administração escolar, na qual foi dada ênfase às práticas participativas. Num deles uma diretora de escola, que se mostrou favorável à participação, colocou que não seria possível pais analfabetos opinarem sobe a alfabetização dos filhos, enquanto outra sugeriu que cada um pudesse contribuir com sua experiência, como por exemplo, uma mãe faxineira poderia contribuir com a faxina da escola.

Fica claro que os exemplos e circunstâncias não caracterizam a participação efetiva e também não constituem formas políticas de participação, apenas uso de mão de obra e trabalho não remunerado, manipulações para atender a decisões previamente determinadas, além da repressão da alienação, no caso dos pais analfabetos. Isso demonstra o quão é difícil a implantação de uma proposta realmente participativa numa cultura autoritária, diversa, com poucos recursos e com membros tão desiguais.

No entanto Gutierrez e Catani (2013), afirmam que apesar de não constituírem uma efetiva participação, o auxílio na execução de atividades teria um certo lado positivo, pois ela pode contribuir para a obtenção de um certo poder de decisão, pois a partir do momento que o indivíduo passa a contribuir com a escola, seja financeiramente ou com seu trabalho, fortalece o seu vínculo, propiciando um estímulo a cobrar mais os seus direitos em relação a participação na tomada de decisões.

Quanto ao papel da direção escolar, Libâneo (2015), reitera que além da questão organizacional, de mobilização dos envolvidos para a realização eficaz de tarefas, ela tem uma função social e pedagógica, pelas quais são necessários considerar também os objetivos políticos. Isso decorre do caráter de intencionalidade da escola, que significa orientar o comportamento para algo que tenha significado. No caso da gestão e da direção participativa, a elaboração e a execução

Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018 do projeto pedagógico-curricular, além do assentimento de responsabilidades, são realizadas “de forma cooperativa e solidária.” (LIBÂNEO, 2015, p. 118).

Quanto a atuação do diretor, em especial no Conselho de Escola, Gutierrez e Catani (2013, p. 88), afirmam que “é essencialmente contraditória e difícil.” Sendo que o diretor tem o poder de encaminhar ao Conselho, conforme o seu entendimento de ser a melhor forma, naquele momento, fica claro o seu poder diante deste. Paro considera que os conselhos hoje são um sistema hierárquico, no qual o diretor detém o poder, porém o fato deste ser o responsável legal pela escola, o torna um mero representante legal do Estado, pois é o responsável pelo cumprimento das Leis e do bom funcionamento da escola, o que não lhe permite uma real autonomia, essa falta de autonomia também aliada a precariedade do sistema escolar, o impede de executar as habilidades que um bom administrador escolar, exatamente pela falta de recursos que é a realidade posta no sistema público de ensino. (PARO, 1997, apud GUTIERREZ; CATANI, 2013).

Para superar os imensos desafios postos nesta complexa realidade que se apresenta a escola pública, e orientar o complexo trabalho da gestão e da organização escolar, Libâneo propõe alguns princípios básicos, baseados na gestão democrático-participativa, como os quais destacamos a seguir: “Autonomia das escolas e da comunidade educativa”; “Relação orgânica entre a direção e a participação dos membros da equipe escolar.”; “O envolvimento da comunidade no processo escolar”; “O planejamento das tarefas”; “Formação continuada para o desenvolvimento pessoal e profissional dos integrantes da comunidade escolar”; “A utilização de informações concretas e análise de cada problema em seus múltiplos aspectos, com ampla democratização das informações”; “Avaliação compartilhada” e por fim as “Relações humanas produtivas e criativas assentadas na busca de objetivos comuns”. (LIBANÊO, 2015, p. 118-122).

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após análise das reflexões trazidas para o texto, sobre a constituição de uma escola democrática e principalmente sobre a participação da comunidade escolar na gestão da escola, podemos concluir que é uma tarefa bastante difícil, contraditória e complexa, principalmente por ainda estarmos inseridos numa cultura autoritária. Porém a efetivação da participação no âmbito da escola pública é de fundamental importância para que esse espaço seja capaz de atender às reais necessidades da sua comunidade.

Concluímos também que um dos principais problemas enfrentados para a efetivação da participação da comunidade escolar na gestão da escola pública, é a conscientização da sua importância, além da abertura dos gestores para que isto ocorra. Esta superação é imprescindível para que a complexidade dos problemas da escola pública possa ser assumida por todos, e que se sintam responsáveis em resolvê-los, de forma coletiva, para o bem comum da comunidade escolar, problemas estes que vão muito além da precariedade de recursos financeiros.

Buscar caminhos, superando os mais diversos obstáculos, para que seja possível a efetivação de uma educação de qualidade para todos, é o grande desafio da gestão democrática da escola pública.

REFERÊNCIAS

GUTIERREZ, Gustavo Luís; CATANI, Afrânio Mendes. Participação e Gestão Escolar: Conceitos e Potencialidades. In: FERREIRA, Naura Syria Carapeto (Org.). Gestão Democrática da Educação: Atuais Tendências, Novos De-

safios. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2013.

LIBÂNEO, José Carlos. Princípios e Características da Gestão Escolar Participativa. In: LIBÂNEO, José Carlos. Or- ganização e Gestão da Escola: Teoria e Prática. 6. ed. São Paulo: Heccus, 2015.

LÜCK, Heloísa. Gestão democrática e participativa. In: LÜCK, Heloísa. Dimensões de gestão escolar e suas competências. 2 ed. Curitiba: Positivo, 2009.

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A REPRODUÇÃO DA DESIGUALDADE SOCIAL NA EDUCAÇÃO:

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