de Federal de Santa Catarina Florianópolis:
2.1 MULHERES EM CURSOS MAJORITARIAMENTE MASCULINOS
Entre os 52 membros de equipes Pronatec FIC entrevistados, priorizou-se, neste texto, o relato de um coordenador de cursos - que também exerceu a função de professor e atuou em parceria com os CRAS - por ser mais significativo e sintetizar a essência do depoimento dos demais entrevistados. As informações apresentadas por esse profissional foram balizadas pelos dados constantes das fichas de encaminhamento dos CRAS. Embora os relatos dos demais membros entrevistados não tenham sido citados neste texto, eles corroboram as afirmações desse profissional e apontam convergências no perfil dessas mulheres. Mesmo que essas alunas tenham realizado cursos em municípios situados em diferentes regiões do estado de São Paulo, elas possuem características em comum, as quais são apresentadas a seguir.
As fichas de encaminhamento dos CRAS não eram padronizadas e os modelos variavam bastante de um município para outro. As mais completas apresentaram as seguintes informações sobre a composição familiar dessas mulheres: número de pessoas que moram na mesma casa, grau de parentesco, sexo e idade; quem é responsável pelo sustento da família e como cada um contribui para compor a renda familiar; se é beneficiário de programa estadual ou federal de transferência de renda; que cursos elas gostariam de realizar e por que motivo. Como nem todas as alunas foram encaminhadas pelo CRAS, recorreu-se ao depoimento de professores que lecionaram nesses cursos e ao de coordenadores de curso Pronatec FIC entrevistados em cinco diferentes campi do IFSP para delinear o perfil dessas mulheres.
Essas alunas, em geral, tiveram o primeiro filho na faixa etária dos 16 aos 21 anos, muitas delas ainda não havia concluído o Ensino Médio, outras nem mesmo o Ensino Fundamental. Entre os homens, ocorre fenômeno semelhante excetuando-se que eles tiveram o primeiro filho entre 19 e 24 anos. Nos casos em que o marido trabalha e o casal tem filhos com menos de dois anos de idade, geralmente, o pai é o responsável pelo sustento da família. Quando a mulher também trabalha fora, ela recebe salário inferior ao do marido, mesmo exercendo funções semelhantes.
A renda familiar dessas alunas é de no máximo R$1.500,00 e nos municípios com IDH mais baixo o número de famílias que participam de programas estaduais ou federais de transferência de renda (como Renda Cidadã, no estado de São Paulo, e Bolsa Família, em âmbito federal) é mais elevado. Os grupos familiares são compostos por, em média, cinco pessoas incluindo pais, filhos e parentes idosos. Nem todos esses idosos são aposentados e aqueles que recebem aposentadoria ajudam a compor a renda familiar, principalmente, nas famílias em que os adultos estão desempregados. O tipo de moradia predominante foi alugada ou cedida.
Entre as mulheres que sustentam seus filhos sozinhas há aquelas que também cuidam da mãe ou da avó enfermas. Essas mulheres exercem trabalhos sem vínculo formal e almejam sair dessa situação. Esse perfil foi muito comum entre os alunos vinculados ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) por meio dos CRAS. A respeito desse assunto o Coordenador 4 assim se expressa:
O público do MDS tem uma dificuldade grande de entrar no mercado formal, porque eles não têm uma formação, não têm uma habilitação técnica mínima. E aí, vão fazer os trabalhos mais desgastantes, os trabalhos que causam maior impacto à
própria saúde [...] Eles sobrevivem. (Coordenador 4, grifo nosso, informação verbal).
Essas mulheres lançavam mão de várias estratégias para assegurar a sobrevivência delas e de suas famílias. Elas faziam doces, salgados, artesanatos para vender. Porém, elas estavam em busca de uma formação que as possibilitasse
Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018 ter um salário fixo. Esse coordenador ressalta que “era bem marcante isso, principalmente, a dificuldade da mulher que estava fazendo o curso para tentar se especializar, para tentar ajudar no sustento da família.”
Apresentam-se na Tabela 1, a seguir, as matrículas nos 15 cursos selecionados. Expõe-se também a quantidade de turmas ofertadas, o número de homens e de mulheres em cada turma bem como seus respectivos percentuais.
Entre os 752 alunos matriculados, 224 (30%) são mulheres e 528 (70%) homens. Essa proporção se manteve na distribuição de matrículas por eixo tecnológico: Infraestrutura (35% M, 65% H); Controle e processos industriais (27% M, 73% H).
Tabela 1 – Distribuição de matrículas por eixo tecnológico, curso e sexo (2012-2014)
Eixo TurmasQtd. Cursos Mulheres Homens Total
Infraestrutura
3 Auxiliar de eletricista 45 41% 31 59% 76
1 Desenhista da construção civil 23 96% 1 4% 24
2 Eletricista instalador predial de baixa tensão 3 4% 69 96% 72
1 Instalador de sistemas eletrônicos de segurança 2 13% 13 87% 15
1 Instalador hidráulico residencial 16 55% 13 45% 29
1 Pedreiro de alvenaria 4 13% 26 87% 30 1 Pintor de obras 0 0% 21 11% 21 TOTAL 10 93 35% 174 65% 267 Controle e processos industriais 1 Desenhista mecânico 19 61% 12 39% 31 1 Eletricista industrial 5 17% 25 83% 30
1 Mecânico de automóveis leves 2 6% 29 94% 31
1 Operador de ensaios não destrutivos 10 45% 12 55% 22
1 Operador de processos químicos industriais 11 27% 30 73% 41
6 Soldador no processo eletrodo revestido aço carbono e aço baixa liga 52 30% 122 70% 174
2 Torneiro mecânico 10 22% 35 78% 45
5 Traçador de caldeiraria 22 20% 89 80% 111
TOTAL 18 131 27% 354 73% 485
Fonte: os autores.
Em nove (60%) dos 15 cursos analisados, a quantidade de homens matriculados foi majoritária. Nota- se que esses cursos estão voltados para áreas da indústria, construção civil, elétrica, nas quais a oferta de trabalho é prioritariamente para ao público masculino. Os dados sinalizam, entretanto, uma demanda de inserção profissional por parte das mulheres nessas áreas.
Os cursos nos quais houve equilíbrio entre homens e mulheres - Instalador hidráulico residencial (55% M, 45% H) e Operador de ensaios não destrutivos (45% M, 55% H) - e naqueles em que o público feminino predominou - Desenhista da construção civil (96%) e Desenhista mecânico (61%) - preparam para profissões que não despertaram o interesse dos homens, provavelmente, devido aos salários pouco atrativos e à menor oferta de vagas.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise da participação de mulheres em cursos de qualificação profissional historicamente realizados por homens e os motivos pelos quais elas optaram por esses cursos possibilitou verificar que a procura é maior por parte daquelas que são chefas de família, separadas e não recebem auxílio dos ex-companheiros.
Cursos tradicionalmente femininos como cabeleireira, manicure, etc. não as prepara para disputar as vagas de emprego que elas almejam e requerem investimento inicial para compra de materiais, o qual nem sempre elas possuem. Exigem ainda conhecimento de gestão financeira, técnicas de venda e relacionamento com o cliente. Por isso, esses cursos podem ser interessantes para pessoas que exercem funções com salário fixo e veem neles uma oportunidade de complementar a renda. Eles também são requisitados por mulheres que cuidam de filhos pequenos e querem ajudar o companheiro a manter a família trabalhando em casa.
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No entanto, essa formação desvinculada de políticas de geração de emprego não proporcionará a elas o êxito esperado. Ressalta-se ainda a importância de se articular políticas sociais de saúde e educação para mulheres com esse perfil.
REFERÊNCIAS
HIRATA, Helena. Globalização e divisão sexual do trabalho. Cadernos Pagu, v. 17-18, p. 139-156, 2001. Disponível
em: <http://www.scielo.br/pdf/cpa/n17-18/n17a06.pdf>. Acesso em: 27 jun. 2018.
HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa,
v. 37, n. 132, p. 595-609, set./dez. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/v37n132/a0537132.pdf>. Aces- so em: 17 out. 2017.
HIRATA, Helena. Socialisation familiale, éducation scolaire et formation en entreprise. Revue internationale d’éducation de Sèvres, v. 1, 1994. Disponível em: <http://ries.revues.org/4302>. Acesso em: 17 out. 2017
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