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2 DA RESPONSABILIDADE CIVIL

4.1 DA RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL

Por intermédio do primeiro capítulo do presente trabalho, conceituou-se a responsabilidade civil, trazendo também seus pressupostos, porém, torna-se necessário, para a solução da problemática apresentada neste trabalho, verificar tais pressupostos à luz do conceito de meio ambiente que integra o segundo capítulo.

Ao falar de responsabilidade ambiental é forçoso citar o que preceitua o parágrafo 3º do art. 225 da Constituição Federal:

Art. 225 Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

(...)

§ 3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados (grifou-se) 97.

Assim, necessário demonstrar o que seriam condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. De acordo com Martins da Silva, entende-se como dano ambiental os prejuízos diretos ou indiretos causados pelas diversas formas de agressões ao meio ambiente cometidos pelo homem ou pela própria natureza98. Como exemplos dessas agressões, tem-se a degradação e a poluição que os próprios incisos II e III do art. 3º da lei 6.938 de 1981 conceituam como:

97 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em 24 out. 2018.

98 SILVA, Américo Luís Martins da. Direito do meio ambiente e dos recursos naturais. São Paulo:

Art 3º - Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:(...) II - degradação da qualidade ambiental, a alteração adversa das características do meio ambiente;

III - poluição, a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente:

a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afetem desfavoravelmente a biota;

d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente;

e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos99;

De acordo com o que leciona o professor Adão, a Lei Federal n. 6.938/1981 determina em seu artigo 14 a consequência do não cumprimento das medidas necessárias à preservação do meio ambiente, ou seja, o dever de indenizar ou reparar o dano causado, independentemente de culpa ou dolo:

Art. 14 - Sem prejuízo das penalidades definidas pela legislação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores:(...)

§ 1º - Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal, por danos causados ao meio ambiente100.

Dessa forma, sendo a poluição um exemplo de dano ambiental e sendo o homem aquele que polui, exsurge a figura do poluidor. Para Fiorillo, o art. 225 da Constituição delimita que tanto o Poder Público, quanto à Coletividade podem ser sujeitos passivo em uma Ação de Responsabilidade Civil por dano ambiental. Para o autor, o próprio constituinte optou por esta abrangência ampla, de forma que todos (pessoas físicas ou jurídicas de direito público ou privado) que, de algum modo, forem causadores do dano ambiental possam ser responsabilizados por ele101.

Assim, dos ensinamentos de Fiorillo e do texto constitucional, pode-se extrair, além do agente do dano, que a relação entre o dano e o agente não precisa ser direta, se o agente, de algum modo, puder ser ligado ao dano causado, ainda que indiretamente, nasce o dever de reparar ou indenizar.

99 BRASIL. Lei nº 6938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio

Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6938.htm>. Acesso em: 03 nov. 2018.

100 SILVA, Adão Daniel da. Direito Ambiental: livro didático. Palhoça: Unisulvirtual, 2016. p. 124. 101 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 13. ed. rev. atual. e

Segundo Farias e Bim poluidor indireto “é aquele que, embora não tenha efetuado de forma direta a degradação ambiental, contribuiu para que ela ocorra”. E a partir desse conceito, Farias traz como exemplos da poluidores indiretos: empresas que compram matéria-prima com documentação ambiental fraudada, o próprio Estado quando se omite quando Áreas de Preservação Permanente são ocupadas e, ainda, tem-se as instituições financeiras:

Entram também nessa categoria as instituições financeiras, pelos empréstimos financeiros que viabilizem atividades ou empreendimentos causadores de danos ambientais. Tal perspectiva foi potencializada pela edição da Resolução Bacen (Banco Central do Brasil) n. 4.327/2014, que definiu diretrizes para implementação de Política de Responsabilidade Socioambiental por instituições financeiras 102.

Para Luiz Jungestedt, o poluidor indireto é tratado como um corresponsável ambiental, o que só é possível na responsabilidade civil, pois, nas responsabilidades penais e administrativas as sanções não podem passar da pessoa do infrator. Sendo assim, via de regra, a responsabilidade do corresponsável também é objetiva, podendo arguir as excludentes de responsabilidade, se comprovar que agiu dentro das exigências legais. O Autor também traz como exemplo as instituições financeiras: Um clássico exemplo de corresponsabilidade ambiental é o das instituições financeiras que dão crédito às empresas ou instituições para que estas realizem atividades potencialmente causadoras de degradação ambiental. Nestas situações, a instituição financeira exige adequação ambiental de seu financiado como forma de resguardar eventual corresponsabilidade diante de um possível dano ambiental. 103

Desse modo, verifica-se a presença dos pressupostos da responsabilidade civil em relação à matéria ambiental, sendo eles, conduta que a exemplo do art. 14 da lei 6.938/81 é a não observância das medidas necessárias a preservação do meio ambiente; o dano ambiental determinado, entre outros, pelo art. 3º da mesma lei; bem como, o nexo que pode advir tanto uma relação direta entre o agente e o dano, quanto de uma relação indireta. Tratando-se por expressa previsão legal de responsabilidade objetiva conforme previsto no §1º do art. 14 da lei 6.938/81, portanto, não há que se falar em dolo ou culpa, conforme já narrado.

102 FARIAS, Talden Queiroz; BIM, Eduardo Fortunato. O Poluidor Indireto e a Responsabilidade Civil

Ambiental por Dano Precedente. Revista Veredas do Direito, Belo Horizonte, v. 14, n. 28, jan./abr. 2017. Disponível em: <http://www.domhelder.edu.br/revista/index.php/veredas/article/view/915>. Acesso em: 24 de outubro de 2018.

103 JUNGSTEDT, Luiz. Corresponsabilidade Ambiental: Poluidor Direto e Poluidor Indireto.

Disponível em <https://masterjuris.com.br/blog/corresponsabilidade-ambiental-poluidor-direto-e- poluidor-indireto/>. Acesso em: 25/10/2018.

Da análise dos pressupostos da responsabilidade civil ligados à questão ambiental, verifica-se a influência dos princípios demonstrados no segundo capítulo do presente trabalho. Pois as proteções concedidas ao meio ambiente estão ligadas ao fato de este ser um direito humano fundamental, pode-se trazer, como exemplo, a conduta causadora do dano, que está na não observância das medidas de preservação, preceito este fortemente ligado ao princípio da prevenção104.

Quando se diz que qualquer um, integrante do Poder Público ou da coletividade, pode ser responsável pelos danos causados, sendo, portanto, responsabilidade de todos, tem-se princípio da responsabilidade; ainda, quanto à responsabilidade de reparar o dano ou indenizá-lo, verifica-se a influência do princípio do poluidor pagador, estes são só alguns dos exemplos da influência dos princípios na aferição da responsabilidade civil105.

Isso posto, destaca-se, novamente, a importância dos princípios na análise da questão, pois sua influência é determinante para que se verifique a existência ou não da responsabilidade civil no caso em concreto.