1. UMA BREVE HISTÓRIA DA DANÇA CLÁSSICA
1.5 DANÇAR HOJE NO BRASIL
Quando um filho fala aos pais que quer seguir carreira profissional na dança, normalmente é recebido com o discurso de que “arte, no Brasil, não dá dinheiro” ou o “quer ser artista vai morrer de fome”.
De fato, até meados do século passado, as opções de profissionalização estavam em companhias de dança estatais, como o Balé do Teatro Guaíra, o Balé da Cidade de São Paulo, dentre outros.
Para ser aceito em algum deles é preciso (até hoje), além da disponibilidade de vagas, que o bailarino se encaixasse no perfil procurado pela companhia. Esse perfil normalmente é o pequeno e magro para as mulheres e alto e forte para os homens. Um tipo físico voltado aos padrões europeus, muito diferente do biótipo geral do brasileiro.
Na grande maioria das grandes companhias, esse padrão ainda permanece.
Porém, nossos vizinhos do Balé Nacional Dança, na Argentina, companhia onde trabalha João Barbosa, um dos entrevistados deste projeto, já estão um passo a frente nesse quesito.
“A companhia que eu entrei, ela não impõe padrões, ela trabalha de acordo com o seu trabalho, ela tem resultados de acordo com o seu trabalho, então isso me fez ter mais confiança em mim mesmo, o fato de a companhia não ter rótulos. Trabalhar com todo mundo da mesma maneira, sem prevalecer ninguém”. (BARBOSA, João. Em entrevista concedida para este trabalho.
Curitiba/Joinville, 13 de março de 2017. A entrevista encontra-se transcrita no Anexo V).
25 O poema na íntegra se encontra no Anexo XIV
Porém, o bailarino brasileiro que opta por seguir carreira profissional hoje encontra mais oportunidades do que no passado, de acordo com Eleonora Greca.
Isso ocorre principalmente devido a um aumento no número de companhias profissionais no país, principalmente das companhias particulares (também chamadas de independentes, por não serem ligadas ao governo) e um maior reconhecimento das já existentes.
Para seguir carreira profissional “é vocação mesmo, é mais forte do que você. Chega uma hora que você tem que fazer aquilo porque foi mais forte que você.” (GRECA, Eleonora. Em entrevista concedida para este trabalho. Curitiba, 2 de maio de 2016. A entrevista encontra-se transcrita no Anexo I).
Esse chamado e força de vontade serão um dos temas abordados no produto final desse trabalho, eles são o ponto em comum entre as histórias de todos os bailarinos entrevistados e o grande motivo que os levou a superar suas dificuldades.
Por causa dessas dificuldades, alguns bailarinos optam por tentar carreira no exterior. Uma rápida pesquisa na internet ou uma conversa de poucos minutos com alguma pessoa inserida em um ambiente de dança já são o suficiente para percebermos que os bailarinos brasileiros são destaque internacionalmente.
“Os bailarinos brasileiros são cotados lá fora. O brasileiro é mais dinâmico, rítmico, ele gosta de dançar. Então tem muitos bailarinos brasileiros que hoje são destaque na Ópera de Paris, em Stutgart...”, ressalta Eleonora Greca.
O amazonense Marcelo Gomes, primeiro bailarino do American Ballet Theatre em Nova Iorque, o carioca Thiago Soares, primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres e o curitibano Luciano Lazzarotto, atualmente no elenco do musical O Fantasma da Ópera também nos Estados Unidos, são alguns exemplos de brasileiros que obtiveram fama e sucesso no exterior.
Mas se nem todo o bailarino precisa sair do país para conseguir seguir uma carreira profissional, isso se deve às conquistas da dança nacional através de suas companhias e festivais, e ao crescente reconhecimento desses pelo público, tanto brasileiro, quanto estrangeiro.
Um exemplo que não pode ser ignorado é a consolidação do Festival de Dança de Joinville, em Joinville (SC), como o maior do gênero no mundo, segundo o Guinness Book of Records. Os dados oficiais até a edição de 2014 mostram um público de 4 milhões de pessoas, 6.300 grupos de dança que participaram do evento
totalizando 130 mil participantes. Em 2015, foram aproximadamente 6.500 participantes e 230 mil pessoas no público. Em termos de economia, todos os anos, são gerados cerca de mil novos empregos na cidade durante o evento, que ocorre anualmente desde 1983.
O Festival renova seu lugar no Livro dos Recordes desde 2005.
Um evento desse porte chamou a atenção, em 1995, do Balé Bolshoi da Rússia, um dos maiores do mundo e berço da maioria dos balés de repertório interpretados até hoje. Os diretores do Bolshoi escolheram Joinville para sediar a única Escola do Teatro Bolshoi fora da Rússia. O Bolshoi Brasil foi inaugurado em 2000 e, desde então, seleciona bailarinos de várias realidades sociais para uma formação completa em dança clássica e contemporânea.
Os bailarinos selecionados têm entre 9 e 17 anos de idade e cursam oito anos de dança na escola de Joinville. Quando terminam o curso alguns ficam na Companhia Jovem da escola, outros são encaminhados às companhias da Rússia e outros saem pelo país e pelo mundo em busca de um contrato.
Paul Bourcier, na conclusão de seu livro História da Dança no Ocidente, afirma que a arte ainda permanece “conservada em estado de divertimento elegante, refinado, aberto apenas aos ‘iniciados’. O grande público é mantido afastado e uma arte que nada diz à sua sensibilidade” (BOURCIER, 1987, pág. 310).
No entanto temos sinais de que isso está começando a mudar. Joinville é um retrato do papel social que a dança está tomando no Brasil. Os meninos e meninas que chegam à escola do Teatro Bolshoi no Brasil muitas vezes vêm de realidades de pobreza e precisam contar com uma série de auxílios sociais da escola para se manter nos estudos (tanto de dança quanto da escola regular). O curso na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil não tem custo algum para os alunos graças ao patrocínio de empresas e a programas como o “Adote um Aluno”, no qual pessoas físicas e jurídicas podem pagar os custos de manutenção de um aluno de outra cidade em Joinville durante seus anos de estudos na escola de dança.
A dança profissional hoje, além de abordar temas que buscam um retrato mais fiel à atualidade e menos conto de fadas, também é promotora de inclusão cultural e social.